segunda-feira, 11 de junho de 2012

Balduíno IV: o santo rei leproso que espantou a Saladino

Balduíno IV na batalha de Montgisard
Balduíno IV na batalha de Montgisard
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




continuação do post anterior: Balduíno IV: o rei cruzado que atingido pela lepra venceu Saladino e o Islã


Um novo cruzado — Filipe de Alsácia, conde de Flandres e parente próximo de Balduíno IV — acabava de desembarcar. O pequeno rei Balduíno esperava muito desse apoio.

Estava claro que era necessário ferir Saladino no coração de seu poderio — isto é, no Egito — se se quisesse abalar a unidade muçulmana. Era isso, precisamente, o que propunha o basileus, imperador de Bizâncio.

O Egito, uma vez conquistado em parte, Damasco não poderia deixar de subtrair-se ao poder cambaleante de Saladino.

Mas Filipe de Alsácia opinava de outra forma. Ninguém poderia impedi-lo de ir guerrear na Síria do Norte, e, o que era mais grave, de levar consigo parte do exército franco.

Saladino respondeu invadindo a Síria do Sul. Balduíno reuniu o que lhe restava da tropa, desguarneceu audaciosamente Jerusalém e partiu para Ascalon, onde Saladino investia. Este, logo que foi informado, subestimou seu adversário. Ele acreditava que a queda de Ascalon era uma questão de dias, e marchou sobre Jerusalém com o grosso de seu exército.

Balduíno compreendeu suas intenções. Saiu de Ascalon, fez um longo périplo e caiu repentinamente sobre as colunas de Saladino, em Montgisard.

Vale de Montgisard
O efeito da surpresa não compensava a desproporção dos efetivos em luta, e Balduíno sentiu a hesitação dos seus.

Desceu do cavalo, prosternou-se com o rosto na areia, diante do madeiro da verdadeira Cruz, que era levada pelo Bispo de Belém, e orou com a voz banhada de lágrimas.

Com o coração convertido, seus soldados juraram não recuar, e considerariam traidor quem voltasse atrás. Rodeando o Santo Lenho, o esquadrão de trezentos cavaleiros se lançou impetuosamente.

“O vale entulhava-se com a bagagem do exército de Saladino — diz Le Livre des Deux Jardins — os cavaleiros francos surgiam ágeis como lobos, latindo como cães. Atacavam em massa, ardentes como uma chama”. E puseram em fuga o invencível Saladino.

Se este salvou a pele, foi graças à rapidez de seu cavalo e ao devotamento de sua guarda. Retornou ao Egito, abandonando milhares de prisioneiros. Balduíno logrou, enfim, uma vitória sem precedentes.

No ano seguinte Balduíno edificou o Gué-de-Jacob, fortaleza destinada a defender a Galiléia dos ataques de Damasco. Guilherme de Tyr pretende que isso tenha sido feito pelas prementes solicitações de Odon de Saint-Amand, grão-mestre do Templo. Em todo caso, qualquer que tenha sido o inspirador da idéia, não há dúvida quanto à importância estratégica de Gué-de-Jacob.

Balduíno IV em Montgisard, Charles Philippe Larivière (1798-1876)
Em 1179 Saladino invadiu a Galiléia. Balduíno foi ao seu encontro, tentando surpreendê-lo como tinha feito em Montgisard. Mas como os muçulmanos se contivessem, ele foi cercado e caiu prisioneiro. Muitos foram mortos e presos nesse dia. Pouco depois Saladino tomou Gué-de-Jacob e fez executar todos os templários que a defendiam.

Sybila, irmã do rei, acabava de casar — contrariamente aos interesses de Estado — com Guy de Lusignan, homem de beleza discutível, sem fortuna e sem talento. Balduíno, pressionado pelos seus, minado pela doença, tinha consentido nessa união e dado a Lusignan os condados de Jaffa e Ascalon.

Tão logo a insignificância do marido de Sybila se manifestou, atiçaram-se as esperanças dos senhores feudais. Contava-se que o irmão de Lusignan, comentando o casamento, disse: “Se Guy for Rei, eu deveria ser Deus!” Tal a mediocridade que lhe era atribuída.

Nessa mesma ocasião, Isabel de Jerusalém desposava Anfroi de Toron, filho indigno de seu pai, o falecido condestável de Jerusalém, morto em defesa do rei.

O estado de Balduíno IV piorava dia a dia. Foi uma provação para sua mãe — que não tinha boa fama — e para a roda de seus cortesãos ambiciosos e amorais, ver a aproximação de Balduíno com Raimundo de Trípoli, único homem capaz de o aconselhar sabiamente.

continúa no próximo post: Balduíno IV: o rei-herói em meio a decadência do reino de Jerusalém

(Fonte: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)




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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Balduíno IV: o rei cruzado que atingido pela lepra venceu Saladino e o Islã

Vitral do rei Balduino na Basílica de Saint-Denis, França
Vitral do rei Balduino na Basílica de Saint-Denis, França
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Balduíno IV foi o último rei de Jerusalém com espírito de Cruzada. Guy de Lusignan, seu sucessor, foi um interesseiro, sob cujo reinado a Civilização Cristã perdeu a posse da Cidade Santa.

Na história das Cruzadas, nada é mais emocionante que o reinado doloroso de Balduíno IV.

Nada, entre os vários exemplos famosos, pode atestar melhor o império de um espírito de ferro sobre uma carne débil.

Foi um rei sublime, que os historiadores tratam só de passagem, o que faz perguntar por que até aqui nenhum escritor se inspirou nele, exceto talvez o velho poeta alemão Wolfram von Eschenbach.

Nem o romance nem o teatro o evocam, entretanto sua breve existência cheia de acontecimentos coloridos forma uma apaixonante e dilacerante tragédia.

O destino sorria à sua infância. Robusto e belo, ele era dotado da inteligência aguçada de sua raça angevina (de Anjou).

Tinha sido dado a ele por preceptor Guilherme de Tiro, que se tomou de “uma grande preocupação e dedicação, como é conveniente a um filho de rei”. O pequeno Balduíno tinha muito boa memória, conhecia suficientemente as letras, retinha muitas histórias e as contava com prazer.

Um dia em que brincava de batalha com os filhos dos barões de Jerusalém, descobriu-se que tinha os membros insensíveis:

“Os outros meninos gritavam quando eram feridos, porém Balduíno não se queixava. Este fato se repetiu em muitas ocasiões, a tal ponto que o arquidiácono Guilherme alarmou-se.

Guilherrme de Tiro descobre lepra no futuro rei Balduino IV
Guilherrme de Tiro descobre lepra no futuro rei Balduino IV
“Primeiro pensou que o menino fazia uma proeza para não se queixar. Então perguntou-lhe por que sofria aquelas machucaduras sem queixar-se.

“O pequeno respondeu que as crianças não o feriam, e ele não sentia em nada os arranhões. Então o mestre examinou seu braço e sua mão, e certificou-se de que estavam adormecidos” (L’Eraclès). 

Era o sinal evidente da lepra, doença terrível e incurável naquele tempo.

Os médicos aos quais foi confiado não podiam sustar a infecção, nem mesmo retardar a lenta decomposição que afetaria suas carnes.

Toda sua vida não foi senão uma luta contra o mal irremissível.

Mais ainda, muito mais: foi testemunho dos poderes de um homem sobre si mesmo e da encarnação assombrosa dos mais altos deveres.

Balduíno IV foi um rei digno de São Luís, um santo, um homem enfim — e é isso, sobretudo, que importa à nossa admiração sem reticências — a quem nenhuma desgraça chegou a destruir o vigor de alma, as convicções, a altivez, as qualidades de coração, o senso das responsabilidades, dos quais ele hauria o revigoramento da coragem.

No fim de 1174, Saladino, senhor do Egito e de Damasco, veio sitiar Alepo. Os descendentes de Noradin pediram socorro aos francos.

Raimundo de Trípoli atacou a praça forte de Homs e Balduíno IV empreendeu uma avançada vitoriosa sobre Damasco. Estas iniciativas fizeram com que Saladino abandonasse seu desejo inicial.

Saladino incendeia cidade, Chroniques de Guilhaum de Tyr, BNF, Mss fr 68
Em 1176 o sultão voltou à carga, e a mesma manobra frustrou seus planos. Balduíno venceu seu exército de Damasco, em Andjar, e trouxe um belo lucro da expedição. Nesta ocasião ele tinha quinze anos.

Apesar de sua doença, cavalgava como um homem de armas, empunhando eximiamente a lança.

Nenhum de seus predecessores teve tão cedo semelhante noção da dignidade real de que estava investido, e de sua própria utilidade.

Percebendo as rivalidades existentes entre os que o cercavam, compreendeu quão necessária era sua presença à cabeça dos exércitos católicos.

Mas que calvário deveria ser o seu! Aos sofrimentos físicos juntava-se a angústia moral: seu estado impedia-o de se casar, de ter um descendente.

Ele não era senão um morto-vivo, um morto coroado, cujas pústulas e purulências se disfarçavam sob o ferro e a seda, mas que se mantinha de pé e se lançava à ação, movido não se sabe por que sopro milagroso, por que alta e devoradora chama de sacrifício.




(Fonte: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)



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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Santa Joana d'Arc ameaça com uma Cruzada aos hereges Hussitas da Bohemia

Jesus Maria, assinatura de Santa Joana d'Arc
Jesus Maria, assinatura de Santa Joana d'Arc
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Jesus, Maria

Há muito o rumor e a voz do povo têm informado a mim, Joana A Virgem, que de verdadeiros cristãos vocês se transformaram em hereges, e semelhante aos Sarracenos vocês destruíram a verdadeira Fé e culto, e abraçaram uma superstição deplorável e ilegítima; e o desejo de sustentá-la e difundi-la aí não seriam um ato desgraçado nem uma crença tola a que vocês se atreveriam.

Santa Joana de Arco, estátua na Califórnia
Santa Joana de Arco, estátua na Califórnia
Vocês estão corrompendo os sacramentos da Igreja, extirpando as bases da Fé, destruindo as igrejas, quebrando e queimando as estátuas que foram levantadas como memoriais, vocês estão massacrando os cristãos porque eles preservam a verdadeira Fé.

Que fúria é essa? Ou que raiva ou loucura consomem vocês?

Essa Fé que o Deus Todo-Poderoso, o Filho e o Espírito Santo revelaram, estabeleceram, elevaram ao poder e glorificaram de mil maneiras através de milagres – vocês perseguem essa Fé, vocês desejam derrubá-la e destruí-la.

Vocês estão cegos, mas não porque lhes faltam olhos ou compreensão. Vocês acreditam que ficarão sem punição por isto?

Ou vocês não estão conscientes de que Deus se opõe aos seus esforços ilegais e não permitirá que permaneçam na escuridão e no erro?

De forma que, quanto mais vocês se afundarem em crimes e sacrilégios, tanto mais Ele preparará grandes punições e angustias para vocês.

Até onde me toca, para ser franca, se eu não estivesse ocupada com as guerras inglesas, eu já teria vindo vê-los há muito tempo atrás; mas, se eu souber que vocês não se consertaram, eu posso deixar de lado [a luta com] os ingleses e ir contra vocês, de forma que pela espada, se eu não puder fazê-lo de nenhuma outra forma, eu vou eliminar a sua louca e obscena superstição e remover a sua heresia ou a sua vida.

Jean Huss, chefe dos hereges hussitas
Jean Huss, chefe dos hereges hussitas
Mas, se vocês preferirem retornar à Fé católica e à Luz original, então enviem os seus embaixadores a mim e eu os direi o que vocês precisam fazer.

Se vocês não quiserem e resistirem obstinadamente ao estímulo, lembrem-se dos danos e das ofensas que vocês têm cometido e me aguardem, aquela que irá infligir similarmente sobre vocês com forças humanas e divinas.

Dado em Sully, em 23 de março, aos hereges da Bohemia.






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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Montgisard: Balduíno IV leproso e 500 templários
desfazem o exército de Saladino

Saladino viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército
Saladino viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército
Luis Dufaur
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Em 1177, o rei de Jerusalém Balduíno IV, cedendo às instâncias do Conde de Flandres, emprestou-lhe grande parte de suas tropas para que este tentasse uma expedição contra Hamas.

Sabendo que Jerusalém estava assim desguarnecida, Saladino reuniu todas suas tropas para invadir o reino cristão. A situação neste era trágica. Balduíno não dispunha senão de 500 cavaleiros.

À aproximação do inimigo, reunindo tudo que podia encontrar de combatentes, saiu com a relíquia da Santa Cruz e chegou a Ascalon.

Julgando-se já dono da situação, o sultão ismaelita permitiu que suas tropas se dispersassem, pilhando, matando, fazendo prisioneiros por toda parte.

Ébrio pelo sucesso, Saladino mostrou-se de uma crueldade inaudita. Mandou reunir os prisioneiros e lhes esmagou a cabeça.

O sultão viu aparecer subitamente o rei leproso e seu pequeno exército, em Montgisard, no dia 25 de novembro de 1177.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Coragem e obediência dos cruzados

Os inimigos dos cristãos, durante as Cruzadas, muitas vezes admiravam sua coragem invencível e sua resignação, que chegava a tocar as raias do sublime.

Uma carta escrita pelo Patriarca da Armênia a Saladino relata como os soldados e os companheiros de Frederico Barbarroxa tiveram bastante força para resistir às terríveis provações:

"Os alemães são homens extraordinários. Têm uma vontade inquebrantável, e nada os pode desviar de seus desígnios. O exército está sujeito à disciplina mais severa, jamais uma falta fica sem castigo.

"Coisa singular: eles evitam todo prazer! Ai daquele que se permita alguma voluptuosidade! Tudo isso é causado pela tristeza de ter perdido Jerusalém.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Jocelin de Courtenay


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Jocelin I de Courtenay foi senhor do Condado de Edessa, limite norte do Reino Latino de Jerusalém. Era neto dos cruzados que conquistaram a Cidade Santa.

O Condado de Edessa, que havia sido invadido por um lugar-tenente de Zengi, principal guerreiro maometano da época, perdeu ao norte seu velho senhor, Jocelin I de Courtenay.

Esmagado pelo desabamento de uma torre que fora minada, ele foi retirado dos escombros todo desfeito.

Em seguida os infiéis se precipitaram para cercar Kaisun, residência do Patriarca de Edessa. Quase morrendo, Jocelin se fez levar para socorrer a fortaleza.

Tal era seu prestígio, que mesmo carregado numa liteira ele amedrontou os turcos, a tal ponto que fugiram diante de sua presença.

Vencedor sem batalha, Jocelin rendeu graças a Deus nesses termos, dignos de uma canção de gesta:

segunda-feira, 5 de março de 2012

Restauração de Nossa Senhora da vitória de Lepanto

Nossa Senhora do Rosário, estava na nau capitânia em Lepanto
e foi atingida pelo fogo mouro
Luis Dufaur
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Na manhã de 7 de outubro de 1571, as naves de guerra da Santa Liga, embora minoritárias e em posição desfavorável, lançaram-se ao ataque contra a poderosa frota turca do almirante otomano Ali-Pachá que vinha a invadir Europa.

A batalha aconteceu nas proximidades de Lepanto, porto no estreito de igual nome que liga o Golfo de Patras ao de Corinto, na Grécia. Veja a localização da batalha.




À testa da frota católica estava a “Galera Real”, a nave de guerra mais formidável do Ocidente, propriedade de Sua Majestade Católica Felipe II, da Espanha.

Plano da batalha. Museu Vaticano.
A “Galera Real” estava ornada luxuosamente com cores vermelhas e douradas.

Tinha numerosas esculturas e baixo-relevos, muitos deles religiosos, e era comandada por Dom Juan d’Áustria, Almirante-em-chefe da frota católica.

A “Real” enfrentou-se diretamente contra “A Sultana”.

Essa foi a nau insígnia dos otomanos no qual estava Ali Pachá, que acabou sendo morto por um marinheiro espanhol.

No coração da “Real” havia uma imagem de Nossa Senhora, a verdadeira Rainha da frota em Cruzada contra o Islã invasor.

Essa imagem, que se acreditava perdida, foi recuperada e está sendo restaurada no Museu Naval da Espanha, noticiou o jornal “ABC” de Madri.

Ela representa Nossa Senhora do Rosário.

Mas é mais conhecida como Virgem da Vitória, pois conduziu os estandartes católicos para o grande e improvável triunfo de Lepanto.

Aparição de Nossa Senhora apavorando os muçulmanos decidiu a batalha
A imagem – que sofreu estragos na batalha e hoje está sendo restaurada – foi um presente dos venezianos a Dom Juan de Áustria,

O príncipe quis que a mesma ficasse com a Confraria das Galeras, na Igreja de San Juan de Lebrón, em Puerto de Santa Maria.

É todo um símbolo que está sendo restaurado, no momento histórico em que o Islã não oculta sua intenção de invadir novamente a Europa.





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