terça-feira, 21 de julho de 2020

O mistério do 'cavaleiro verde'

Batalha de Tiro, 1187. 'Les Passages d'Outremer'. Foto Wikipedia
O 'Cavaleiro Verde' na batalha de Tiro, 1187. 'Les Passages d'Outremer'. Foto Wikipedia
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Mais de 900 anos atrás, lutou na Terra Santa um cavaleiro espanhol de nome Sancho Martín.

Pelos seus atos corajosos e suas roupas de cor marcante, os turcos o apelidaram de O Cavaleiro Verde.

A não confundir com o personagem fictício “Green Knight” do poema do Rei Arturo.

Agora, o livro “El Caballero Verde” com sua curta história, ganhou o Prêmio Narrativo da Cidade de Logroño, segundo noticiou o jornal espanhol “El Mundo”.

E aí começa o mistério. As fontes históricas de época alguma não sabem dizer quem foi Sancho Martín.

Tal vez foi aragonês, navarro ou castelhano, pelo nome Sancho. As fontes árabes lhe atribuem origem em Castela, mas não se pode ter certeza.

Apareceu em Terra Santa, no início da Terceira Cruzada, após a perda de Jerusalém (1187) e quando só ficavam poucos enclaves cristãos na costa da Síria.

Tudo parecia perdido para os seguidores de Cristo, quando desceu de um navio um cavaleiro de bravura e liderança inigualada. Ele vestia todo de verde e ostentava uma cornadura de cervo em seu capacete.

Não só as crônicas turcas falam dele, mas foi reproduzido numa miniatura do iluminador francês Jean Colombe para “Passages de Outremer” no século XV.

Santo Eustáquio, Antonio Pisanello (1395 — 1455), National Gallery, Londres
Santo Eustáquio,
Antonio Pisanello (1395 — 1455),
National Gallery, Londres
O veado, ou cervo, simboliza a força de virtudes e sua imensa galhada representa uma coroa que faz a ligação com o céu.

A cornadura do veado era símbolo da mediação entre os mundos terreno e espiritual. E também símbolo da ressurreição, porque ela cai e se regenera a cada ano.

O general romano Plácido, perseguidor de cristãos, fitando os olhos de um veado, teria visto a luz de Cristo e se converteu sendo canonizado como Santo Eustáquio.

A cena aparece em muitas pinturas medievais.

Em estreita colaboração com o piemontês Conrado de Monferrato, Sancho Martín enfrentou o vitorioso sultão Saladino nas portas de Tiro.

Aliados e inimigos ficaram pasmos. Sébastien Mamerot (1418 – 1478) autor da crônica “Passages de Outremer” narra:

“Nem um dia se passou sem que os cristãos fizessem duas ou três saídas. Eles eram comandados por um cavaleiro da Espanha (...) chamado Sancho Martín.

“Ele usava armas verdes. Quando esse cavaleiro apareceu, os sarracenos correram para vê-lo (...).

“Os turcos o chamavam de Cavaleiro Verde. Ele levava chifres de veado no capacete”.

A cidade de Tiro foi salva. Esse cavaleiro exibia experiência na luta com os mouros, conhecia suas táticas e truques e os derrotou.

Conta-se que antes de partir para a Cruzada foi a Santiago de Compostela para fazer uma oferta ao apóstolo.

Mas, porque adotou roupas tão únicas e até extravagantes?

Saladino abandonou Tiro e voltou ao ataque no ano seguinte visando Trípoli (hoje Trablos, no Líbano). Mas no início do cerco, soube que aquela figura verde saía a campo contra seus homens.

O sultão que tomou de assalto Jerusalém, que capturou reis, que aniquilou exércitos inteiros e executou centenas de templários, quis se encontrar com aquele guerreiro de tanta fama no campo de batalha.

'Passages faiz oultre_mer', Sébastien Mamerot, Gallica, bnf, Département des Manuscrits, Français 5594
'Passages faiz oultre_mer', Sébastien Mamerot, Gallica, bnf,
Département des Manuscrits, Français 5594
É assim que o mencionado “Passages de Outremer” relata o encontro:

“Depois que eles chegaram a Trípoli e descansaram um pouco, eles fizeram uma saída contra o campo sarraceno, e o Cavaleiro Verde os comandou.

“Quando os sarracenos viram o Cavaleiro Verde, contaram a Saladino que ele estava lá. O califa enviou um mensageiro convidando-o a visita-lo com a garantia de sua integridade pessoal.

“Ele foi, e Saladino deu a ele um cavalo, ouro e prata e o recebeu com muito barulho (...);

“Saladino lhe disse que, se ficava na Terra Santa, lhe daria grandes extensões de terra.

“Ele respondeu que não viera morar com sarracenos, mas que envidara todos os seus esforços para destruí-los e machucá-los o máximo que pudesse.

“Então ele se despediu e voltou para Trípoli”.

Há quem garanta que Saladino lhe propôs a conversão ao Islã e até lhe ofereceu uma de suas filhas.

Outras fontes dizem que Sancho Martín falou das intenções de resistir até o fim.

Até se diz que até jogaram uma partida de xadrez, gesto com que o Saladino o tratava de igual a igual, embora adversário.

De qualquer forma, o Cavaleiro Verde venceu mais uma vez a Saladino.

O sultão teve que se retirar da cidade e Trípoli permaneceu cristão por mais cem anos, viabilizando a Quarta Cruzada.

Jogo de xadrez simbolizando a guerra
Jogo de xadrez simbolizando a guerra
Após esse encontro único, Sancho Martín desapareceu da face da terra. Nunca mais foi ouvido.

Teria morrido em alguma batalha? Voltou para a Espanha? Estabeleceu-se na terra que o tornou famoso?

Não há vestígios, narra o premiado livro.

Naquela época houve sucessos de grande porte onde poderia se ter engajado. Por exemplo, na Quarta Cruzada que ele tornou possível e a desastrada toma de Constantinopla com imenso botim.

Se tivesse voltado à Espanha, Sancho Martín poderia ter assistido à histórica união que formou o reino de Aragão. Mas, nada.

Quem foi ele ao certo?

Foi lenda? É preciso reconhecer que, diversamente da nossa época, a Idade Média teve homens maiores que as lendas.

Em qualquer caso, sua figura foi um espelho do homem de seu tempo, esbanjando forças até à exaustão, imbuído de espírito cavalheiresco, fiel a um juramento sagrado.

Sancho Martín, o Cavaleiro Verde, quem quer que seja, foi o homem que derrotou duas vezes Saladino, o guerreiro que ajudou a conter a maré do Islã na Terra Santa.

E entrou na história sem procurar nada para ele, mas dando tudo por Nosso Senhor Jesus Cristo e a libertação de Seu Santo Sepulcro.




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terça-feira, 7 de julho de 2020

A devoção a São Jorge no Ocidente: trazida pelas Cruzadas

São Jorge, Paris
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






A devoção a São Jorge nasceu no Oriente, no século XI, e foi trazida pelos cruzados.

São Jorge é o paladino da luta contra o inimigo primordial, a serpente maldita, Satanás.

Ele é o herói na luta contra o próprio chefe dos inimigos de Cristo e de seu povo.

A devoção teve imenso papel na cruzada de Reconquista da Espanha e Portugal, países invadidos pelos muçulmanos.

O milagre da Batalha de Alcoraz no Reino de Aragão marcou época.

Aragão ficou ligado à figura do santo cavaleiro que apareceu naquela batalha combatendo lado a lado contra o moraima muito superior em número e que ainda confessou ter visto o cavalheiro sobrenatural de brancas insígnias.

Desde então, o reino aragonês adotou como emblema a própria Cruz de São Jorge (cruz vermelha sobre fundo branco) e quatro cabeças de mouros.

O rei Pedro IV o Cerimonioso, por ocasião de um enfrentamento com o rei Pedro I de Castela, ordenou a seus exércitos levar bandeiras “com o sinal de São Jorge” (1356-1359).

Até o dragão ‒ o drac ‒ apareceu nas roupagens de cerimônia.

São Jorge, igreja de Saint Nizier, Lyon
São Jorge preside a capela do palácio de La Aljafería, em Zaragoza, e é invocado em todas as igrejas do Reino implorando sua intercessão pela vitória dos heróis aragoneses.

A devoção a São Jorge de início foi quase uma exclusividade do monarca e dos cavaleiros.

Mas no século XIII apareceram muitas confrarias sob o patrocínio do Santo guerreiro.

O rei Pedro IV promoveu uma confraria posta “no serviço de Deus e de Nossa Senhora Santa Maria e em veneração e reverência ao Senhor São Jorge, composta de nobres e cavaleiros”.

Em Huesca, 1243, foi fundada a Confraria de São Jorge.

E, em Teruel, outra do mesmo nome, em 1263 sob o patrocínio real de Jaime I.

São Jorge, o santo guerreiro contra o dragão infernal
A “Diputación del Reino” de Aragão, espécie de assembleia dos representantes dos povos, adotou a simbologia do santo nos selos dos documentos, erigiu uma capela a ele dedicada, e a sala principal do palácio recebeu o nome do santo e sua imagem foi instalada em local privilegiado.

As primeiras igrejas do santo guerreiro foram a de Monzón, Espanha, mencionada em 1090, e a de São Jorge de las Boqueras, perto de Huesca, da qual já se falava por volta de 1094.

Inumeráveis outras foram construídas nos séculos posteriores.


 Fonte: Pandeoro.


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