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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Salvação da civilização e aproximação do Ocidente e do Oriente
Benefícios das Cruzadas – 2

Sítio de Jerusalém. Biblioteca Nacional da França, Français 10, fol 412v.
Sítio de Jerusalém. Biblioteca Nacional da França, Français 10, fol 412v.

Continuação do post anterior


Nós dissemos várias vezes e tivemos ocasião de notar como frequentemente os homens que passam à posteridade por terem dominado seu século, são os que por primeiro, se deixaram dominar, eles mesmos, e dele se mostraram seus mais apaixonados intérpretes.

Um dos resultados dessa cruzada foi levar o espanto e o terror para o seio das nações muçulmanas e colocá-las, por muito tempo na impossibilidade de tentar algum empreendimento contra o Ocidente.

Graças às vitórias dos cruzados, o império grego recuou seus limites e Constantinopla, que era o caminho do Ocidente para os muçulmanos, ficou a salvo de seu ataque.

Nessa expedição longínqua, a Europa perdeu a fina flor de sua população; mas não foi como a Ásia, o teatro de uma guerra sangrenta e desastrosa, de uma guerra na qual nada era respeitado, onde as cidades e as províncias eram ora devastadas pelos vencedores ora pelos vencidos.

Enquanto os guerreiros vindos da Europa derramavam seu sangue nos países do Oriente, o Ocidente vivia em profunda paz.

Entre os povos cristãos, considerava-se então um crime, usar armas por outro motivo, que não por Jesus Cristo.

Essa opinião contribuiu muito para acabar com o banditismo e para fazer respeitar a trégua de Deus, que foi, na Idade Média, o germe ou o sinal de melhores instituições.

Fossem quais fossem os reveses da cruzada, eram eles menos deploráveis que as guerras civis e os flagelos da anarquia feudal que tinham por muito tempo devastado todas as regiões do Ocidente.

Essa primeira cruzada trouxe outras vantagens para a Europa. O Oriente, na guerra santa, de algum modo foi revelado ao Ocidente, que muito mal o conhecia.

O Mediterrâneo foi mais frequentado pelos navios europeus; a navegação fez algum progresso, e o comércio, principalmente o dos pisanos e genoveses, aumentou e se enriqueceu com a fundação do reino de Jerusalém.

Uma grande parte, é verdade, do ouro e da prata que se encontrava na Europa, tinha sido levada à Ásia, pelos cruzados; mas esses tesouros, escapados pelo temor ou pela ambição, estavam perdidos há muito tempo para a circulação; o ouro que não foi levado na cruzada, circulou mais livremente e a Europa, com uma menor quantidade de dinheiro, parecia na verdade, mais rica do que jamais o tinha sido.

Nós não vemos, embora se tenha dito, que, na primeira guerra santa a Europa tenha recebido grandes luzes do Oriente.

Durante o século XI a Ásia se tinha tornado teatro das mais espantosas revoluções. Nessa época, os sarracenos e principalmente os turcos não cultivavam as artes e as ciências.

Os cruzados com eles só tiveram relações belicosas, numa guerra terrível. Por outro lado, os francos desprezavam muito os gregos, entre os quais além disso, as ciências e as artes estavam em decadência, para de eles receber qualquer gênero de instrução.

No entanto, como os sucessos da cruzada tinham impressionado vivamente a imaginação dos povos, esse espetáculo grandioso e imponente, era bastante para dar uma espécie de impulso ao espírito humano no Oriente.

Falaremos alhures do caráter dessa cruzada; diremos somente, aqui, algumas palavras sobre o bem que ela pôde fazer à geração contemporânea.

Sabemos bastante de quantos males foi acompanhada. Os desastres mais nos ferem na história e não temos necessidade de recordá-los, mas o bem e seus progressos insensíveis são menos fáceis de perceber.

O primeiro resultado da cruzada para a França, foi a glória de nossos antepassados: quantos nomes ilustres nessa guerra!

As recordações gloriosas são um proveito real, pois fundem a existência das nações com a das famílias.

Não nos esquecemos do apelo que o Papa Urbano fez à nação belicosa dos francos e a história narra os prodígios com os quais estes responderam ao apelo do pontífice.

Um cronista nos diz que Deus, nessa ocasião, rejeitou os grandes monarcas da terra e não quis associar aos seus desígnios, senão a França, que estava pura na sua presença, pois nenhuma heresia até então tinha manchado o seu povo.

O Abade Guibert que tinha escolhido para título de sua história estas palavras: Gesta Dei per Francos (Feitos de Deus, pelos francos) expressou ao mesmo tempo o pensamento de seus contemporâneos como o da posteridade.

O que havia de mais interessante no tempo dos cruzados, é que o mundo julgava-se velho e perto do seu declínio: Guibert admirava-se de que as maravilhas, como as de que se era testemunha, tivessem acontecido num tempo de decrepitude.

A conquista de Jerusalém, por fim, sepultou os espíritos e os avisou de que o mundo não estava no fim, e que uma grande revolução ia começar para renovar o Oriente e o Ocidente.

“Nós sabemos, e não duvidamos, diz Guibert, que Deus não empreendeu estas coisas para a salvação de uma única cidade, mas Ele lançou em toda a parte, sementes, que produzirão muitos frutos”.

De todos os lados, já todos se entregavam com ardor ao estudo da gramática: o número sempre crescente de escolas tornava-lhes fácil o acesso, mesmo aos homens mais rudes.

O Abade de Nogent, começando sua história, declara que ele quer ornar o seu estilo e que seu intento é produzir um livro digno do tempo em que ele escreve e principalmente as maravilhas que ele vai celebrar.

Outros escritores tinham já começado a traçar a história dessa época memorável.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 72-83).

Continua no próximo post




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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Salutares benefícios das Cruzadas para a paz e para a ordem
Benefícios das Cruzadas – 1

Cruzados na tomada de Jerusalem.
Cruzados na tomada de Jerusalem.
Reproduziremos a continuação alguns excertos da renomeada “História das Cruzadas” de Joseph-François Michaud (1767—1839). Ele foi membro da Academia Francesa de
Túmulo de J.F. Michaud
Cemitério de Passy, Paris
Letras e da Academia da Saboia, jornalista e político de intensa vida, e autor de obras célebres, como a história das Cruzadas que citamos:

Detenhamo-nos uns instantes ante o espetáculo que se acaba de realizar e que tivemos sob nossas vistas, no qual vemos duas religiões disputar o mundo com as armas na mão; voltemos atrás nossos olhos e vejamos o que aquela grande revolução das guerras santas produziu para as gerações contemporâneas e o que ela devia deixar depois de si, para os povos do Ocidente.

Muitas vezes repetimos, falando desta primeira guerra santa, onde o Oriente viu um exército de seiscentos mil cruzados, que Alexandre, tinha conquistado a Ásia com trinta mil homens.

Sem repetirmos o que já foi dito, limitar-nos-emos a fazer observar que os gregos de Alexandre, em sua invasão do Oriente, só tinham que combater contra os persas, nação efeminada e que a Grécia desprezava, enquanto que os cruzados tiveram que combater contra uma multidão de povos desconhecidos e que, chegando à Ásia tiveram que se haver com várias nações de conquistadores.

Não é demais dizer-se que aqui duas religiões armaram-se uma contra a outra; entre os cristãos e os muçulmanos, só poderia haver uma guerra de extermínio; se as guerras religiosas são sempre as mais sangrentas, são também as mais difíceis para o vencedor estender ou conservar as conquistas.

Essa observação é muito importante para apreciarmos o resultado e mesmo o caráter da primeira cruzada e das que a seguiram.

O que os homens esclarecidos não podiam compreender nesse grande movimento de nações, era o motivo milagroso que animava os chefes e os soldados.

“Que pensar, diz o Abade Guibert, que escrevia alguns anos depois da cruzada, ao ver os povos agitarem-se, e, fechando seu coração a todas as afeições humanas, lançarem-se de repente num exílio, para derrotar os inimigos do nome de Cristo, transpor o mundo latino e os limites do mundo conhecido, com mais ardor e alegria, do que jamais demonstraram os homens quando correm para alguma festa ou prazer?”

O mesmo cronista acrescenta que, no seu tempo, não se fazia mais a guerra a não ser levado pela ambição e pela avareza, e por paixões profanas e odiosas.

Como o ardor dos combates era mais ou menos geral e arrebatava as populações (é sempre a ideia do Abade Guibert), Deus suscitou novas guerras, que seriam empreendidas pela glória do seu nome e que ele mesmo conduziria.

Guerras santas que ofereceriam um meio de salvação aos cavaleiros e aos povos, guerras, onde os que tinham abraçado a profissão das armas poderiam, sem renunciar aos seus hábitos e sem encontrar obstáculos, de qualquer espécie, sair do século, obter a misericórdia divina.

Com efeito, desde que a guerra se viu assim santificada, todos correram para ela e quiseram marchar sob as bandeiras de Deus.

Um dos caracteres maravilhosos dessa cruzada, é que ela foi anunciada antecipadamente, quase em todo o universo.

Quando as revoluções estão para acontecer, um secreto pressentimento se apodera dos povos.

Sabemos os mil prodígios que tinham precedido o belicoso despertar da Europa cristã.

Os muçulmanos tiveram-lhe também os presságios; vários sinais vistos no céu lhes haviam anunciado que o Ocidente ia se levantar contra eles.

Durante a permanência de Roberto, o Frisão, em Jerusalém, doze anos antes do concílio de Clermont, todos os chefes do povo muçulmano haviam se reunido, desde a manhã até à noite, na mesquita de Omar; lá haviam estudado nos livros de sua lei as ameaças proféticas das constelações; souberam com conjeturas quase certas, que homens de condição cristã viriam a Jerusalém e se apoderariam de todo o país, depois de grandes vitórias; mas não se conseguiu saber em que tempo se verificariam tão sinistros presságios.

Assim, à medida que o tempo se aproximava, o Ocidente e o Oriente esperavam vagamente grandes coisas.

No religioso ardor que abrasou o fim do século XI, duas paixões dividiram a sociedade cristã: a primeira impelia os homens à vida solitária e contemplativa; a outra os levava a percorrer o mundo e a procurar a remissão de seus pecados no tumulto e no torvelinho das guerras santas.

Por um lado, dizia-se aos cristãos: “É na solidão que se encontra a salvação, é lá que o senhor distribui suas graças, é lá que o homem se torna melhor e mais digno da misericórdia divina”.

Por outro lado, repetiam-lhe sem cessar: “Deus vos chama em sua defesa; é no tumulto dos campos de batalha, nos perigos da guerra santa, que obtereis as bênçãos do céu”.

Estas duas opiniões tão opostas eram pregadas com o mesmo êxito e encontravam partidários em todas as camadas do povo, apóstolos e mártires.

Entre os mais fervorosos dos fiéis, uns não viam outro meio de agradar a Deus, que sepultar-se no deserto; outros julgavam santificar sua vida percorrendo com a espada na mão e a cruz sobre o peito, as regiões mais afastadas.

A necessidade da solidão e o zelo da guerra sagrada eram tão ardentes, que jamais a Europa viu tantos solitários e tantos soldados, jamais se viram erigir tantos mosteiros como no século XII e jamais se viram tantos e tão numerosos como formidáveis exércitos.

Não procuraremos caracterizar esse estranho contraste; mas, parece-nos que um único homem seria aqui suficiente para explicar todo um século e esse homem é Pedro, o Eremita.

Lembremo-nos de que o pregador da cruzada obedeceu ora a uma, ora à outra das opiniões do seu tempo. Dotado de imaginação ardente, com espírito volúvel e irrequieto, dedicou-se antes à vida austera dos cenobitas e em seguida, apresentou-se no meio daquela multidão que tinha tomado as armas à sua voz, e voltou para finalmente morrer num claustro.

Pedro, o Eremita, foi então eminentemente o homem dos tempos em que viveu, por isso ele exerceu tão grande influência sobre seus contemporâneos.

(Autor: Joseph-François Michaud, “História das Cruzadas”, vol. II, Editora das Américas, São Paulo, 1956. Tradução brasileira do Pe. Vicente Pedroso, páginas 72-83).

Continua no próximo post



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segunda-feira, 23 de junho de 2014

São Bernardo recomenda os cavaleiros templários ao Patriarca de Jerusalém

Crak dos Cavaleiros, fortaleza cruzada na Síria
Crak dos Cavaleiros, fortaleza cruzada na Síria
O Patriarca de Jerusalém havia escrito várias cartas a São Bernardo cheias de manifestações de amizade. O santo lhe responde em 1135 e recomenda-lhe os cavaleiros do Templo:

Após ter recebido tantas cartas de Vossa Grandeza patriarcal, eu passaria como um ingrato se não vos respondesse. Mas devolvendo-vos os cumprimentos que me tendes enviado, terei eu feito tudo o que devo?

Vós me tendes alertado por meio de vossas amáveis iniciativas, tendes vos dignado a tomar a iniciativa de me escrever para além dos mares, dando-me assim a prova tanto de vossa humildade quanto de vossa amizade.

Como poderia eu responder-vos à mesma altura?

Eu não sei absolutamente o que fazer para vos retribuir convenientemente, sobretudo agora, quando concedeis uma parte do maior tesouro do mundo enviando-me um fragmento da verdadeira Cruz de Nosso Senhor.

São Bernardo de Claraval. Segundo Philippe de Champaigne. Igeja de Saint-Etienne du Mont, Paris.
São Bernardo de Claraval. Segundo Philippe de Champaigne.
Igeja de Saint-Etienne du Mont, Paris.
Mais, o que dizer! Deveria dispensar-me de responder do melhor modo possível a essas iniciativas se não pudesse fazê-lo como devo?

Eu vos manifestaria pelo menos os sentimentos e as disposições de meu coração respondendo vossas cartas. É a única coisa que posso fazer, separado de vós como estou por tal espaço de terra e mares. Feliz se eu encontro uma ocasião para vos provar que não é só nas palavras e no papel que eu vos amo, mas efetivamente e na prática.

Rogo-vos que vos mostreis propício aos cavaleiros do Templo, e de abrir em favor destes intrépidos defensores da Igreja as entranhas de vossa imensa caridade.

Protegendo esses guerreiros corajosos que expõem sua vida pela salvação de seus irmãos Vós praticareis uma obra tão agradável a Deus como digna dos homens.

Quanto ao encontro que me solicitais, o irmão André vos fará conhecer minhas intenções.



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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Estímulos de São Bernardo a seu tio André, cavaleiro do Templo

Estímulos de São Bernardo a seu tio André, cavaleiro do Templo
Estímulos de São Bernardo a seu tio André, cavaleiro do Templo
São Bernardo deplora o lamentável resultado da II Cruzada e manifesta a seu tio o desejo de vê-lo.

l. Eu estava no leito pela doença, quando recebi vossa última carta. E não saberia vos dizer com quanta pressa eu a recebi, com quanta felicidade a li e reli; mas quão mais feliz eu teria sido se voltasse a vos ver.

Sim, a vós! Vós me testemunhais o mesmo desejo, expondo-me os temores que vos inspiram o estado do país que o Senhor honrou com sua presença, assim como os perigos que ameaçam a cidade regada com seu sangue.

Oh! Desgraça para os nossos príncipes cristãos! Eles nada de bom fizeram na Terra Santa, apressando-se a voltar a seus países apenas para se entregarem a toda espécie de desordens insensíveis à opressão de José.

Impotentes para o bem, infelizmente eles são poderosos demais para o mal.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O sítio de Famagusta e o capitão Bragadino

Mapa da cidade de Famagusta em 1568
Mapa da cidade de Famagusta em 1568

Em meados de 1570, Famagusta, na ilha de Chipre, foi sitiada pelos turcos (mapa ao lado). Em setembro desse ano, tropas venezianas entraram na cidade para auxiliar na defesa.

Sabiam que poderiam resistir algum tempo, mas confiavam nos reforços dos cristãos, que nunca chegaram.

A queda de Famagusta é uma página épica, destacando-se entre todos a figura do capitão chefe Marco Antônio Bragadino.

Este sítio foi relatado pelo único oficial milagrosamente sobrevivente ao massacre: Nestor Martinego.

Na cidade todos lutaram, e em todos os campos: elevando fortificações, atirando com armas de fogo ou outras improvisadas, cavando trincheiras.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

São Bernardo exorta Manuel Comneno, Imperador de Constantinopla a apoiar a Cruzada

São Bernardo de Claraval
São Bernardo de Claraval
Ao grande e glorioso Manuel, Imperador de Constantinopla, o irmão Bernardo, abade de Claraval, saudação e orações.

1. Se eu me permito escrever a uma Majestade como a vossa, não me acuseis nem de temeridade nem de audácia. Agindo assim eu só cedo diante de uma inspiração da Caridade que não duvida de nada.

Pois, da minha parte, quem sou eu e que posição ocupa minha família em meu país para que eu ouse escrever a um tão grande imperador?

Eu sou pobre e obscuro, distâncias imensas e vastos mares me separam de vossa sublime pessoa. O que há, pois, que possa aproximar minha inferioridade de vossa grandeza, se eu não contasse para isso com a própria humildade de Jesus Cristo, de quem os reis e os povos da terra, os príncipes e os juízes se glorificam?

O renome trouxe até nós o eco de vossa magnificência e a glória de vosso nome que hoje enchem a terra inteira.

terça-feira, 29 de abril de 2014

A tomada de Trípoli e a destruição da biblioteca máxima das crendices islâmicas

Porta da Ponte, Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer, Fr 5594, BnF

O historiador Ibn abi Tayyî (1160 – 1235 aprox.), da seita xiita, deixou um escrito sobre o impacto da tomada de Trípoli pelos Cruzados, liderados pelo rei Balduíno e os heróis Tancredo e Saint-Gilles.

A cidade, e, sobretudo, a sua biblioteca, eram o grande polo dos erros e superstições islâmicos, aonde acorriam ulemás (doutores) e sufis (curandeiros-bruxos) para se aprofundarem em seus sofismas e nas artes mágicas.

“Havia em Trípoli – escreveu Ibn abi Tayyî – um palácio da Ciência que não havia igual em país algum pela sua riqueza, beleza ou valor.

“Meu pai me contou que um sheik de Trípoli disse ter estado com Frakhr al-Mulk b'Ammar em Shayzar e que ele desmaiou quando soube da queda Trípoli.

“Recuperando-se, chorava copiosamente. ‘Nada me aflige tanto, dizia ele, quanto a perda do palácio da Ciência. Lá havia três milhões (sic) de livros, todos de teologia, ciência corânica, hadiths, de adabs e ainda outros cinquenta mil exemplares do Corão e vinte mil comentários sobre o Corão feito por Alá todo-poderoso’.

“Meu pai acrescentava que esse palácio da Ciência era uma das maravilhas do mundo.

“Os Banu'Ammâr haviam investido nele enormes riquezas; ali trabalhavam cento e oitenta copistas dia e noite. Os Banu'Ammâr tinham agentes em todos os países que compravam para eles livros seletos.

terça-feira, 22 de abril de 2014

São Bernardo aos barões da Bretanha: “Quem não tem espada, compre-a!”

São Bernardo consola Jesus Crucificado. Bamberg, Alemanha
São Bernardo consola Jesus Crucificado. Bamberg, Alemanha
Em 1146, o Doutor Melífluo – assim denominado pela unção que emanam de seus escritos, especialmente os dedicados a Nossa Senhora – escreveu uma carta aos barões da Bretanha.

Naquele tempo o ducado de Bretanha constituía um Estado independente.

“1. A terra inteira treme e está abalada porque o Rei do Céu perdeu sua pátria aqui embaixo, os locais que seus pés pisaram.

Os inimigos de sua Cruz conjuraram-se contra Ele e exibindo-se cheios de audácia e orgulho, bradaram todos juntos: “Apoderar-nos-emos de seu santuário”.

Eles querem se apoderar dos Santos Lugares onde se efetivou nossa salvação, e ameaçam emporcalhar com sua presença os locais regados com o sangue de nosso Salvador.

Mas o que eles querem no mais fundo de seu coração é destruir o tesouro insigne da religião cristã, esse Sepulcro onde o corpo do Salvador foi depositado e sua Face divina recoberta com um Sudário.

Eles apontam com mão ameaçadora a montanha de Sião, e se o próprio Senhor não fosse seu guardião, eles não demorariam em cair sobre a cidade santa de Jerusalém, a cidade onde o nome de Deus vivo foi outrora invocado.

Os cristãos são jogados nos cárceres ou cruelmente massacrados como ovelhas sem defesa.

O olho da Providência parece fechado sobre estas desgraças, mas só para melhor ver se encontrará alguém que compreenda a vontade de Deus e queira efetivá-la, que sofre a afronta com a qual Ele é ameaçado e esforce-se em devolver-lhe sua herança.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Al-Jihad Sulami conclama uma contracruzada à 1ª Cruzada vitoriosa

Sitio de Jerusalém, Français 770, fol 349 (1187). BnF
Sitio de Jerusalém, Français 770, fol 349 (1187). BnF

A vitória da 1ª Cruzada representou um abalo moral formidável para o mundo muçulmano.

Os maometanos da seita seljúcida até então invencíveis haviam sido derrotados pelos cristãos.

O autor islâmico que ficou para a História como Al Jihad Sulami, presumivelmente de Damasco, compôs um Tratado por volta de 1105, visando inflamar o zelo dos príncipes e emires do mundo islâmico para uma contracruzada contra os católicos que já dominavam Terra Santa.

O Tratado nos revela o ponto de vista, bastante imaginoso, islâmico sobre as origens da I Cruzada.

Contudo, nos apresenta de modo muito claro o estado de desmoralização das cortes maometanas, já submersas na luxúria e pusilanimidade, diante das sucessivas derrotas sofridas pelas mãos dos cavaleiros da Cruz.

O Tratado também deita uma luz esclarecedora sobre o espírito militar agressivo dos mais genuínos representantes do Islã da época.

O apelo de Al-Jihad Sulami afasta definitivamente a ideia de uma religião muçulmana pacífica padecendo a agressividade “colonialista” dos francos.

Os argumentos de natureza econômica são afastados. O Corão e a religião de Maomé ordenam a guerra. As ideias de coexistência pacífica, diálogo ou ecumenismo simplesmente não existem e não podem existir na alma do bom muçulmano.

Mas, sim a guerra por Alá para extinguir os cristãos, então vitoriosos.

Diz Al-Jihad Sulami :

segunda-feira, 17 de março de 2014

Felicitacões de São Bernardo a Hugo, filho do conde de Champagne,
que se fez cavaleiro templário

São Bernardo de Claraval. Juan Correa de Vivar (1510-1566)
Em 1125, São Bernardo escreveu a Hugo, filho de Thibaut III e conde de Champagne, para felicitá-lo por ter ingressado na Ordem de Cavalaria do Templo e assegurar-lhe sua eterna gratidão.

“Se for por Deus que de conde vos tornastes um simples soldado; e em pobre de rico que fostes, eu vos felicito do mais fundo de meu coração, e dou glória a Deus, porque eu estou convencido de que essa mudança foi obra da destra do Altíssimo.

“Entretanto, sinto-me obrigado a vos confessar que não posso facilmente renunciar, por uma ordem secreta de Deus, a vossa amável presença, e de nunca mais voltar a vos ver, a vós junto a quem eu teria desejado ter passado minha vida inteira, se isso tivesse sido possível.

“Poderia eu, com efeito, esquecer vossa antiga amizade, e os benefícios com que tendes cumulado nossa Casa?

“Eu rogo a Deus, cujo amor vos inspirou tanta munificência por nós, de vos ter em conta de um verdadeiro fiel.

“Da minha parte, conservarei uma gratidão eterna, da qual quereria poder vos dar as provas.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Ibn al-Athîr e as versões caricatas islâmicas sobre a origem das Cruzadas

Peregrinos chegam a Jerusalém, f 86v. Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer, Fr 5594, BnF

O historiador muçulmano Ibn al-Athîr construiu no século XIII, por volta de duzentos anos após os fatos, uma narração caricata sobre as razões que impulsionaram a primeira Cruzada.

A narração desprovida de substância histórica, entretanto, serve para mostrar o ódio soez e falso que os islâmicos professavam sempre contra os seguidores de Jesus Cristo.

Elementos materialistas e caricatos desta lenda islâmica aparecem com relativa frequência, mas com véus mais dissimulados em muita literatura pseudo-histórica sobre as Cruzadas.

“A primeira manifestação de poderio e de expansão dos francos à custa dos países muçulmanos deu-se no ano 478 [Nota: pelo calendário islâmico, que corresponde ao ano 1085] com a tomada de Toledo e de outras cidades espanholas. Disso já falamos.

“No ano 484 (1091), eles completaram a conquista da Sicília como narramos; atacaram as costas da África, ocuparam-na em alguns pontos, mas nós as recuperamos depois.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Monge armênio Hovannés: os Cruzados foram o braço misericordioso do Deus todo-poderoso

Chegada dos cruzados a Antioquia,
Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer, Fr 5594, BnF

O monge armênio Hovannés [João] que morava em Antioquia durante o sítio cruzado, assistiu à sua subsequente invasão, ao sítio maometano e, por fim à libertação final num combate humanamente inexplicável, deixou uma crônica bastante pormenorizada de como aconteceram esses fatos:

“... Naquele ano [Nota: fala das operações militares do ano 1098] o Senhor visitou o seu povo, segundo está escrito: “Eu não vos abandonarei nem me afastarei de vós”.

“O braço todo poderoso de Deus foi o nosso guia.

“Eles [os Cruzados] trouxeram o estandarte da Cruz de Cristo e depois de ostentá-lo pelo mar, massacraram uma multidão de infiéis e puseram os outros a fugir pela terra.

“Eles tomaram a cidade de Nicéia e a sitiaram por cinco meses.

“Depois vieram ao nosso país na região da Cilícia e da Síria, e atacaram, postando-se em volta da metrópole de Antioquia.

“Durante nove meses eles fizeram a cidade e as regiões vizinhas passarem por momentos difíceis.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A tomada de Antioquia e morte de Yaghi-Siyan

Armaduras dos húsares de Jan III Sobieski, rei da Polônia
Em 1097, quando a I Cruzada chegou a grande cidade de Antioquia, Yaghi Siyan era seu governador e pertencia a seita fanática muçulmana dos seljúcidas, que havia conquistado Terra Santa.

Ficou mais conhecido pelos cronistas europeus como Acxiano, Graziano ou Cassiano.

Ele se viu em dificuldades quando o exército católico iniciou o cerco da cidade no fim de 1097.

Embora os cruzados estivessem famintos, mantiveram o cerco durante a maior parte do ano até que, por fim, tomaram a cidade na noite de 2 a 3 de junho de 1098.

O historiador árabe Ali ibn al-Athir assim escreveu sobre a queda da cidade em mãos católicas:

“Após manter o cerco por longo tempo, os francos fizeram tratativas com um dos responsáveis por uma das torres cujo nome era Ruzbih [ou Firuz, ou Firouz]. Ele era fabricante de couraças. Pelos serviços, os francos pagaram uma fortuna em dinheiro e terras. O seu local de trabalho era na torre que ficava sobre o rio, no lugar onde ele deixa a cidade em direção ao vale.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O martírio de Reinaldo e dos cavaleiros cristãos em Antioquia (1098)

O Pe. Peter Tudebode, testemunha ocular do fato, deixou escrito que durante o cerco de Antioquia na I Cruzada, precisamente o dia 3 de abril de 1098, os muçulmanos conduziram ao topo das muralhas da cidade o nobre cavaleiro Reinaldo Porchet [também lembrado como Reynaud Porquet], que eles tinham acabado de prender numa emboscada.

Daquela ‘tribuna’, ele deveria perguntar aos peregrinos cristãos quanto eles pagariam pela sua libertação a fim de impedir que os turcos lhe cortassem a cabeça.

Segundo descreve o livro de Yvonne Friedman “Choques entre inimigos: Captura e no Reino Latino de Jerusalém” (“Encounter Between Enemies: Captivity and Ransom in the Latin Kingdom of Jerusalem”) mercadejar prisioneiros para obter resgate era uma prática frequente, quando se tratava de pessoas de boa condição.

Era, aliás, segundo o autor “um método diplomático para um encontro pacífico com o inimigo num interlúdio das batalhas”.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Os Papas percebem a necessidade da Cruzada, mas os príncipes não ouvem bem

Bem-aventurado Papa Urbano II convocou a Cruzada contra o Islã
continuação do post anterior

Em 1075, o grande papa Gregório VII já pressionava avidamente os príncipes cristãos à guerra santa, prevista por Carlos Magno, implorada por Silvestre II.

Ele impôs, neste mesmo ano, a peregrinação de Jerusalém ao abominável Cencius, que tinha odiosamente atentado contra sua liberdade e sua vida.

50 mil cristãos se levantaram, contudo, faltavam-lhes chefes, pois os príncipes cristãos se mantinham surdos.

Em 1085, Roberto, o Frísio, tendo se associado ao governo dos Estados de Flandres, seu filho primogênito, Roberto II, partiu para a santa viagem, mais ou menos ao mesmo tempo em que Berenguer II, conde de Barcelona; Fréderic, conde de Verdun, e Conrado, conde de Luxemburgo, a quem a santa peregrinação estava prescrita em expiação, assim como havia sido para Roberto da Normandia, a Fulque d'Anjou, a Frotmond e a outros personagens culpados por assassinatos ou rebelião.

Depois de longas vicissitudes, Roberto, o Frísio, e seus companheiros puderam, pela força do dinheiro, adorar seu Deus sobre o Calvário.

Eles voltaram somente em 1091, e Roberto passou a se ocupar somente de sua salvação.

Contudo, ele enviará tão logo seu filho para a Cruzada. Ele tinha visto, na Palestina, reinos à conquistar.