Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Skanderbeg (II), herói da Cristandade e flagelo dos turcos

Skanderbeg, monumento em Pristina, AlbaniaEm 1457, amargurou a Skanderbeg, o herói albanês, a defecção de seu sobrinho Hamsa, que se uniu aos implacáveis inimigos da fé e sequazes do Islã.

Naquele ano, o sobrinho renegado invadiu seu país, acompanhado do general turco Isabeg com numeroso exército. Skanderbeg tinha para defendê-lo apenas 12 mil homens. Por isso, não enfrentou diretamente o inimigo, mas procurou atraí-lo para lugares isolados.

Em 2 de setembro desse ano, Skanderbeg, num combate sangrento, obteve a vitória nos arredores de Tomorniza, surpreendendo o exército turco enquanto este se entregava ao repouso.

Mais de 15 mil turcos foram mortos e 1500 feitos prisioneiros, entre eles o renegado Hamsa, a quem Skanderbeg poupou a vida, mas enviou-o a Nápoles para que estivesse preso com segurança.

Em carta de 17 de setembro de 1457, escreveu o Papa ao general albanês:

"Amado filho: perseverai do mesmo modo no futuro, em defesa da Fé Católica, pois Deus, por quem pelejais, não abandonará sua causa; Ele vos dará, estou seguro disso, a vós e aos demais cristãos, junto com a maior glória e triunfo, a vitória sobre os malditos turcos e demais infiéis".(4)
O Sumo Pontífice mostrou seu júbilo pela vitória obtida, nomeando Skanderbeg Capitão General da Cúria na guerra contra os turcos.

Conclama os príncipes do Ocidente a uma Cruzada

Casco de Skanderbeg, em VienaDepois dessa vitória, o herói albanês escreveu aos príncipes do Ocidente, dizendo-lhes que não tinha condições de continuar sua guerra contra os turcos se não recebesse deles auxílio.

Que era chegado o tempo em que esses príncipes despertassem do sono a que até então tinham se entregado, renunciassem às suas discórdias e se coligassem para defender a liberdade do mundo cristão. Somente Nápoles ouviu seu apelo e mandou algumas tropas.

A Albânia resistia havia dezenove anos ao poder dos sultões. Apesar de algumas derrotas e enfraquecido pela defecção de certos aliados seus, Skanderbeg mantinha contínuo assédio às tropas turcas.

Maomé II resolveu então acabar de vez com essa resistência, enviando contra ele todos os seus generais. Mas quando três deles foram derrotados, o próprio Maomé pediu a paz em 1461.

Três anos após, o Papa Pio II pregou uma nova Cruzada. Skanderbeg derrotou sucessivamente dois generais dos mais importantes do sultão. Depois, cedendo aos apelos do Papa, ajudou a repor no trono de Nápoles a Fernando, filho de Afonso V, que havia sido destronado por João de Anjou.

Com o apoio do Papa, vence o cerco de Kruja

Na primavera de 1466, um exército turco - composto, segundo uns, de 200 mil homens; segundo outros, de 300 mil - invadiu a Albânia, comandado pelo próprio Maomé II.

Pouco depois, circulou pela Europa a notícia de uma derrota de Skanderbeg, devido à traição e abandono de muitos cristãos. O pânico apoderou-se sobretudo dos italianos, tanto mais que a notícia vinha acompanhada de outra, a de que um exército turco já ameaçava a Hungria.

Replica das armas de Skanderbeg no museu de Kruje, AlbâniaFelizmente a notícia da derrota do herói albanês era falsa. Não podendo enfrentar exército tão numeroso, entregara-se à tática de guerrilha, que tantas vezes lhe tinha sido eficaz.

Estabeleceu uma forte posição nos bosques de Tumenistos, e desde lá fatigava o exército turco por meio de surpresas, falsos alarmes e fugas simuladas.

A tática foi empregada por tanto tempo, que foi desgastando o exército infiel, acostumado a travar uma guerra regular.

Cansado, Maomé retirou-se a Constantinopla para passar o inverno, deixando o general Balaban à frente de 80 mil homens fazendo o cerco de Kruja.

Como Skanderbeg, com seus poucos homens, não podia levantar o cerco, dirigiu-se à Itália em busca de socorro, armas e dinheiro. O Papa e os cardeais o receberam entusiasticamente em Roma, e "com muitos presentes e uma considerável soma de dinheiro regressou Skanderbeg aos seus, alegre e animoso", escreve seu primeiro biógrafo Bartelius.(5)

De volta à Albânia, Skanderbeg derrotou os turcos em abril de 1467, fazendo prisioneiro um irmão de Balaban.

Pouco depois alcançou outra vitória, ocasionando a morte do próprio Balaban. Com isso as tropas turcas fugiram, e levantou-se o cerco de Kruja.

Grandeza de alma, lealdade e fé sincera

Mas o heróico guerreiro estava no fim.

"Vinte e quatro anos de luta contínua esgotaram aquela natureza de ferro. E, havendo sido atacado pelas febres, morreu em Alessio aos cinqüenta e três anos, terminando assim a epopéia albanesa [...].

"À grandeza de alma, à lealdade, a uma fé sincera, juntava ele uma inteligência extraordinária, uma penetração segura e uma sagacidade pouco comum [...].

"Caritativo e humano, não parecia o mesmo homem na guerra; pois, fogoso, violento, às vezes impiedoso, chegava a assustar os mais valentes: até esse ponto o exaltavam seu ódio pelos turcos e seu amor à independência [da Albânia]".(6)

À notícia de sua morte, seu mais feroz inimigo, o sultão Maomé II, exclamou: "Por fim, me pertencem a Europa e a Ásia. Ai da Cristandade, que acaba de perder sua espada e seu escudo!".(7)

Nossa Senhora do Bom Conselho foi miraculosamente trasladada pelos anjos de Scutari na Albânia até Genazzano na Itália, onde hoje é venerada
Mas Nossa Senhora tinha outros desígnios sobre a Cristandade. Após as infidelidades do povo albanês e da morte de Skanderbeg, a imagem albanesa de Nossa Senhora do Bom Conselho transferiu-se milagrosamente, pelos ares, para Genazzano, na Itália, acompanhada por dois devotos que atravessaram a pé o Mar Adriático.
________
Notas:
(1) Ludovico Pastor, Historia de los Papas, Gustavo Gili, Barcelona - Herrero Hermanos, México, 1910, vol. II, p. 422.
(2) www.masterclass. Spunti tratti da un'articolo di A. Raspagni sulla Rivista "Militaria", nº 11, anno 2.
(3) V. Fallmerayer, Albanes. Clement 5. 7. Apud Pastor, op. cit. vol. II, p. 423.
(4) L. Pastor, op. cit., vol. II, p. 427.
(5) Cfr. L. Pastor, vol. IV, p. 82.
(6) Diccionario Enciclopedico Hispano-Americano, Barcelona, Montaner y Simón, Editores, 1896, tomo XVIII, p. 819.
(7) L. Pastor, op. cit., vol. IV, p. 84.


(Fonte: José Maria dos Santos, "Catolicismo", abril de 2004)

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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

Jorge Castriota, 'Skanderbeg' (I): espada e escudo da Cristandade

Skanderbeg , heroi católico albanes na luta contra os turcos
Príncipe da Albânia, cognominado pelo Papa Calixto III de atleta de Cristo, "durante vinte e quatro anos inteiros opôs vitoriosa resistência aos exércitos turcos, com freqüência 10 a 20 vezes mais numerosos que o seu".(1)

Jorge era o mais novo dos filhos do Príncipe João Castriota, senhor de Ematie, na Albânia, e da Princesa sérvia Voizava, tendo nascido no ano de 1414.

Quando, em 1423, o sultão turco Amurath II invadiu a Albânia, o Príncipe João, para salvar o reino, não podendo pagar a vultosa soma que lhe era exigida como dano de guerra, precisou dar como reféns ao vencedor seus quatro filhos, Estanislau, Reposio, Constantino e Jorge.

Dos quatro, dois morreriam envenenados; um terceiro, retornando à Albânia, entraria num mosteiro; e somente o caçula, Jorge, tornar-se-ia um grande guerreiro.

Chegados à Turquia, os três mais velhos foram postos no calabouço, pois não estavam dispostos a renunciar à sua fé. Como Jorge tinha apenas nove anos e era de muito boa presença, foi circuncidado e educado no islamismo. Mas, em segredo, guardou a fé de seus pais.

Tanta era a estima que tinha por ele o sultão, devido às suas inatas qualidades, que fez com que lhe ensinassem o árabe, o turco, o eslavo e o italiano, além do exercício das armas.

Skanderbeg, um novo Alexandre Magno

Aos 18 anos foi nomeado sandiak. Posto à frente de um exército de cinco mil ginetes, passou para a Ásia, onde demonstrou um valor extraordinário. Foi aí que recebeu dos turcos o sobrenome de Iskander-bei (príncipe ou chefe Alexandre, em alusão a Alexandre o Magno), que os albaneses mudaram para Skanderbeg.

Skanderbeg, George Castriota, museo de Kruja, cruzado e salvador da identidade nacional albanes"Dele se diz que era de aspecto majestoso, e dotado de uma força fora do comum. [...] Conta-se que, durante um combate, logrou com um só golpe cortar em dois um guerreiro protegido com couraça".(2)

"Todos os contemporâneos o elogiam como um dos mais belos e esforçados caracteres varonis daquele século. [...] Sua afeição aos combates era tão grande, que o dar uma batalha de quando em quando constituía para ele uma necessidade. Nele se juntavam o valor do soldado e o olhar penetrante do general; suas forças corporais apenas podiam esgotar-se com esforços, e a rapidez de seus movimentos militares trazia à memória os de César".(3)

Entretanto, Skanderbeg não se esquecia de seu país e procurava uma ocasião para a ele retornar. Em 1432, com a morte de seu pai, deveria herdar suas possessões. Mas o sultão, em vez de lhe dar o território que lhe competia por herança, quis tê-lo para si. E enquanto mandava um dos seus chefes tomar conta dele, mandou Skanderbeg invadir a Sérvia.

Jorge aproveitou-se do momento imediatamente precedente à batalha para passar para o lado sérvio. Antes, porém, tinha forçado o secretário de Estado do sultão a entregar-lhe uma ordem, dirigida ao comandante de Kruja, na Albânia, para que reconhecesse o portador como seu sucessor no comando daquela praça e lha entregasse.

Líder das tropas albanesas, cruzado contra os otomanos

Depois da batalha, vencida pelos cristãos sérvios, Skanderbeg refugiou-se nas montanhas, com 600 cristãos fugidos das tropas turcas e mais alguns montanheses. Tendo entrado em Kruja, onde recebeu o comando da praça, à noite abriu as portas para seus partidários, que aniquilaram a guarnição turca. Skanderbeg chamou depois todos os seus parentes e albaneses a Kruja, para tomarem parte na libertação de seu país.

A insurreição se alastrou com tal rapidez, que em pouco tempo Skanderbeg havia tomado as principais praças da região.

Convocou então uma reunião em Alessio, em território veneziano, da qual participaram albaneses e venezianos, sendo eleito indiscutível chefe, aclamado por todos.

Nossa Senhora do Bom Conselho de Scutari, Skanderbeg foi grande devoto delaNossa Senhora do Bom Conselho de Scutari, Skanderbeg foi grande devoto dela

Posto à frente de sete mil infantes e oito mil cavaleiros, Skanderbeg enfrentou e derrotou em 1444 um exército turco de 40 mil homens, comandado por Ali Pachá.

Skanderbeg procurou unir-se com a Hungria e a Transilvânia na luta contra os otomanos, e aderiu ao plano de Cruzada proposto pelo Papa Eugênio IV.

No ano de 1448, Skanderbeg derrotou mais uma vez os turcos comandados pelo paxá Mustafá, fazendo-o prisioneiro como a outros de seus oficiais, por cuja liberdade exigiu vultosa soma.

(Fonte: José Maria dos Santos, "Catolicismo", abril de 2004)

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Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

Expectativa portuguesa pelo extermínio dos otomanos

Do vaticínio do santo Frei Gil, português, religioso da sagrada Ordem dos Pregadores, que entre eles corre por ser de tempo imemoriável (e escuso trasladar, por ser tão sabido), vimos de próximo verificadas e cumpridas as cláusulas que tocam a Hungria, França e Inglaterra.

Seguem-se outras que tocam à Lusitânia, entre as quais uma é a ruína do dito império: Imperium Othomanum ruet; e outra, que a casa de Deus será recuperada: Domus Dei recuperabitur.

Nem devo fazer dúvida que a latinidade deste papel é mais limada do que naquele tempo se usava em Portugal, porque o santo estudou em Paris, onde se abalizou em letras, e teve pacto com o demônio para aprender as ciências facilmente, e depois foi sua conversão maravilhosa, e teve notáveis e freqüentes êxtases e revelações, cuja qualificação deixamos, com ânimo rendido, ao juízo da Santa Sé Apostólica, a quem privativamente toca.

São Miguel Arcanjo, Très Riches Heures du duc de Berry, Folio 195rEspada com asa, a que o magnânimo rei D. Afonso Henriques viu pelejar, junto a si, na célebre batalha que venceu, nos campos de Santarém, contra Albar, rei mouro de Sevilha.

Depôs o mesmo rei D. Afonso (e o mesmo afirmaram muitos mouros que ficaram cativos) que vira, a par do seu braço direito, outro, armado, que se rematava junto ao ombro com uma asa de cor purpúrea, o qual o ajudava, de sorte que matou e feriu a inumeráveis e ninguém o feriu a ele.

Por onde entendeu ser do seu anjo custódio, ou do arcanjo S. Miguel, aos quais tinha pedido auxílio antes de entrar na batalha.

Para memória do benefício, instituiu no ano de Cristo de 1167 a Ordem dos Cavaleiros da Ala, com particulares estatutos, os quais traziam ao peito a insígnia da Ala, de cor purpúrea com raios de ouro.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Papa São Pio V convoca reis católicos à guerra contra os turcos

Carta de São Pio V aos reis cristãos pedindo ajuda militar para a Ordem de Malta sitiada pelos turcos em sua ilha (8-12-1567):

"Eis o que foi bem estabelecido e é bem certo: nosso poderoso inimigo, o Sultão dos Turcos, prepara com os mais minuciosos cuidados uma frota considerável, sem precedente, uma armada e exército importantíssimos.

Visão de São Pio V da vitória cruzada de Lepanto (basílica de Fourvières, Lyon)

"Ele completa todos os preparativos que se fazem necessários, com o único fim de se precipitar o mais cedo possível contra Malta, para abater a Ordem Militar de São João, por ele particularmente odiada, e submeter essa ilha.

"Diz-se que dela deseja se apoderar, não só pelas grandes vantagens que oferece sob o ponto de vista estratégico, mas também, e mais ainda, em razão da humilhação por ele sofrida no sítio precedente.

Malta

"Como a tais forças a Ordem não pode de forma alguma resistir, nosso caro filho Jean de la Valette, seu Grão-Mestre, é obrigado a implorar o socorro dos príncipes cristãos contra o inimigo comum, o inimigo do Cristianismo.

"Não duvidamos que Vossa Majestade e seu povo venham em nosso socorro, tanto mais espontaneamente aliás, pois é de seu maior interesse que uma ilha assim próxima da Sicília e da Itália não caia em mãos inimigas.

* * *

A nosso caríssimo filho em Cristo, Carlos, Rei cristianíssimo da França:

Jean de la Valette vê-se na obrigação de apelar para todos os príncipes cristãos contra o inimigo comum do Cristianismo.

A defesa da ilha de Malta parece, no momento, ser mais importante para alguns povos do que para outros. Entretanto, trata-se incontestavelmente da salvação de todos os príncipes cristãos e de toda a Cristandade. Não ignoramos, filho cristianíssimo, quais dificuldades deveis enfrentar... (12-12-1567).

* * *

A nosso filho caríssimo, o nobilíssimo Pedro Loredano, Doge de Veneza:

Palácio da Ordem de Malta, Malta.

Os cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém são obrigados a socorrer-se de todos os príncipes cristãos.

Eles têm mais coragem que recursos para fazer face a um inimigo assim poderoso e pérfido, para contê-lo e expulsá-lo.

Essa ilha é a cidade da Cristandade inteira. Se (Deus não o permita!) ela vier a cair em poder do inimigo, pela negligência dos príncipes cristãos, não haveria mais tempo para gemer e arrepender-se (19-1-1567).

(Fonte: Léon Garnier, "Lepanto" - p. 41)

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Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

As armas portuguesas contra os maometanos

Dom Afonso Henriques
Desde os berços desta monarquia abonaram os efeitos essa verdade. Só o Conde D. Henrique, nobilíssimo tronco da real árvore dos monarcas portugueses, venceu contra mouros 17 batalhas campais.

Na célebre do campo de Ourique, venceu e destroçou el-rei D. Afonso Henriques, com 10.000 infantes e 1.000 cavalos, a 400.000 maometanos, isto pelo cômputo de quem mais abate este número, que outros o sobem a 600.000, e outros dizem que havia para cada cristão cem infiéis.

Na tomada de Lisboa (que foi no ano de Cristo 1148, a 25 de outubro), morreram 200.000 mouros. O mesmo rei desbaratou um exército de 40.000 cavalos e 60.000 infantes, com que el-rei mouro de Badajoz vinha socorrer Sesimbra.

E em diversas ocasiões ele a 30 reis venceu (para que não fosse singular nesta glória o famoso Josué, capitão do povo de Deus). Nem podemos atribuir estas vitórias à pouca gente dos exércitos contrários, porque, compensando uns com outros, lhe tocam a cada um 50.000 homens.

Para que mais particularmente conste que parece que Deus criou a nação portuguesa para estrago, desprezo e ralé da sarracena, quero referir aqui alguns casos que dentro das mesmas ferocidades de Marte descobrem um não sei quê de cômica graciosidade.

Milagre de OuriqueNa batalha que D. Francisco de Menses, capitão de Baçaim, venceu contra um poderoso campo do Nizamora, um certo Trancoso, depois de haver bem pelejado, pôde alcançar com um braço a um mouro pela petrina (que era um cinto que usavam, de muitas voltas). Como era agigantado de membros e fiava de suas forças, levantou-o no ar como escudo, e se lançou entre os mouros, matando muitos a seu salvo.

Os golpes que lhe atiravam, recebia com destreza no miserável corpo do agarrado, o qual era juntamente seu inimigo de vontade e seu protetor contra vontade, porque o braço a que servia de escudo lhe dava tantas cutiladas quantas fazia que aparasse.

Com o que assim este mouro, como os mais que se chegaram, eram todos em ajuda de Trancoso: este, porque o defendia dos mais; e os mais porque, dando neste, lhe escusavam este trabalho. Raro modo de fazer do couro alheio couraça própria!

Lá dizia uma valorosa matrona lacena, embraçando o escudo a seu filho que partia para a guerra: "Vede que ou haveis de tornar vivo com este, ou morto sobre ele". No nosso caso, pouco se lhe dava ao Trancoso de deixar na refrega o escudo; antes, quanto mais lho rachassem, tanto mais folgado e contente se recolheria.
Conquista de CeutaEm Ceuta, indo D. Afonso da Cunha, em certo recontro, atrás de um mouro, ao atirar-lhe uma cutilada, lhe resvalou a espada e saltou fora da mão; mas, em vez de assustar-se com o caso, tomou maior cólera e gritou ao mouro: "Ó cão, levanta e traze aqui logo".

E o mouro, temendo que, se não obedecesse, tinha a morte mais certa, voltou humilde, levantou do chão a espada e lha entregou. E o Cunha então, compadecido, o deixou ir livre. De sorte que este português usava daquele mouro como de inimigo para o recontro belicoso, como de escravo para o mando senhoril, e como de liberto para a manumissão fácil. Ou fazia conta que aquele infiel era juntamente caça e cão: caça para correr perseguindo-a, e cão para lhe trazer o que caísse.

Ao cão chamou S. Gregório Nisseno espada viva do homem — Hominis gladium vivum. Como aqui o cristão era o homem e o mouro o cão, no cão achou o homem à mão uma espada viva que lhe trouxesse a sua inanimada.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Bem-aventurado Papa Urbano II: “Popolo dei Franchi” (Sermão da Cruzada)

Virgem das Cruzadas, Thuret(Puy-de-Dome)
Do famoso sermão do Bem-aventurado Papa Urbano II convocando à I Cruzada em Clermont-Ferrand (França, 27 de novembro de 1095) existem diversos registros de também diversas testemunhas. Já tivemos ocasião de postar um. Eis um outro traduzido do italiano e disponível no site Documenta Catholica:

Povo dos Francos, povo de além Alpes, povo – como reluz em muitas de vossas ações ‒ eleito e amado por Deus, distinguido entre todas as nações pela posição de vosso país, pela observância da fé católica e pela honra que presta à Santa Igreja, a vós se dirige nosso discurso e nossa exortação.

Queremos que vós saibais do lúgubre motivo que nos conduziu até vossas terras; da necessidade ‒ para vós e para todos os fiéis ‒ de conhecerem o motivo que nos impeliu até aqui.

Desde Jerusalém e desde Constantinopla chegou até nós, mais de uma vez, uma dolorosa notícia: os turcos, povo muito diverso do nosso, povo de fato afastado de Deus, estirpe de coração inconstante e cujo espírito não foi fiel ao Senhor, invadiu as terras daqueles cristãos, as devastou com o ferro, a rapina e o fogo. Levou parte dos habitantes como prisioneiros até seu país, outra parte matou com infames estragos, e as igrejas de Deus ou as destruiu até os fundamentos ou as entregou ao culto da religião deles.

Estátua de Urbano II, Châtillon sur MarneDerrubam os altares após profaná-los imundamente, circuncidam os cristãos e espalham o sangue da circuncisão sobre os altares ou jogam-no nas pias batismais; e àqueles que querem condenar a uma morte vergonhosa perfuram o umbigo, arrancam os genitais, os amarram a um pau e, chicoteando-os, levam-nos pelas ruas, para que com as vísceras de fora, acabem caindo mortos prostrados por terra.

Outros se servem deles como alvo de flechas após amarrá-los a um pelourinho; a outros, após obrigá-los a dobrar a cabeça, os atacam com espadas e tentam decapitá-los de um só golpe.

O que dizer da violência nefanda praticada com as mulheres, sobre a qual é pior falar do que calar?

O reino dos gregos já foi atingido tão gravemente por eles e tão perturbado na sua vida diária que não pode ser atravessado sequer numa viagem de dois meses.

A quem, pois, cabe o ônus de vingá-lo e de reconquistá-lo se não a vós a quem Deus, mais de que aos outros povos, concedeu a insigne glória das armas, grandeza de alma, agilidade de corpo, força para humilhar a fundo aqueles que a vós resistem?

Que a gesta de vossos antepassados vos mova, que excite vossas almas a atos dignos dela, a probidade e a grandeza de vosso rei Carlos Magno e de Luis seu filho e de outros soberanos vossos que destruíram o reino dos pagãos e até eles estenderam os confines da Igreja.

Clermont-Ferrand, catedral, pórtico norteSobretudo que vos incite o Santo Sepulcro do Senhor, nosso Salvador, que está nas mãos de gentes imundas, e os lugares santos, que agora estão por eles vergonhosamente possuídos e irreverentemente profanados com sua imundícia.

Ó soldados fortíssimos, filhos de pais invictos, não vos mostreis decadentes, mas lembrai-vos da coragem de vossos predecessores; e se vos segura o doce afeto dos filhos, dos pais e das consortes, atentai para o que diz o Senhor no Evangelho: “quem ama o pai ou a mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Todo aquele que deixar seu pai ou sua mãe, ou a mulher ou os filhos ou as terras por amor de meu nome receberá o cêntuplo nesta terra e terá a vida eterna”.

Não vos detenha o pensamento de alguma propriedade, nenhuma preocupação pelas coisas domésticas, pois esta terra que vós habitais, circundada por todo lado pelo mar ou pelas montanhas, ficou estreita para vossa multidão, não é exuberante de riqueza e apenas fornece do que viver a quem a cultiva. Por isso vós vos ofendeis e vos hostilizais reciprocamente, vós vos fazeis guerra e com freqüência vos matais entre vós mesmos.

Cessem, pois os ódios intestinos, apaguem-se os contenciosos, aplaquem-se as guerras e sossegue toda discórdia e inimizade.

Empreendei o caminho do Santo Sepulcro, arrancai aquela terra àquele povo celerado e submetei-la a vós: ela foi dada por Deus em propriedade aos filhos de Israel; como diz a Escritura, nela correm rios de leite e mel.

Jerusalém é o centro do mundo, terra feraz por cima de qualquer outra quase como um paraíso de delícias; o Redentor do gênero humano a tornou ilustre com sua vinda, a honrou com sua passagem, a consagrou com sua Paixão, a redimiu com sua morte, e a tornou insigne com sua sepultura.

Exatamente esta cidade real posta no centro do mundo agora é tida em sujeição pelos próprios inimigos e pelos infiéis, feita serva do rito pagão. Ela eleva sua lamentação e anela ser liberada e não cessa de implorar que vós andeis no seu socorro.

De vós mais do que qualquer outro povo ela exige ajuda, pois vos tem sido concedida por Deus, por sobre todas as estirpes, a glória das armas. Empreendei, pois este caminho em remissão de vossos pecados, certos da imarcescível glória do reino dos Céus.

Ó irmãos amadíssimos, hoje em nós manifestou-se o que o Senhor diz no Evangelho: “Onde dois ou três estarão reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”.

Se o Senhor Deus não tivesse inspirado vossos pensamentos, vossa voz não teria sido unânime; e ainda que tenha ressoado com timbres diversos, foi única, entretanto a sua origem: foi Deus que a suscitou, foi Deus que a inspirou em vossos corações.

Seja, pois, esta vossa voz, o vosso grito de guerra, posto que ele vem de Deus. Quando fores ao ataque dos belicosos inimigos, seja este o grito unânime de todos os soldados de Deus: “Deus o quer! Deus o quer!”

Nós não convidamos a empreender este caminho aos velhos ou àqueles que não são aptos para portar armas, nem as mulheres; que as mulheres não partam sem seus maridos ou sem irmãos ou sem representantes legítimos: todos estes são mais um impedimento do que uma ajuda, mais um peso do que uma vantagem.

Que os ricos sustentem os pobres e levem a seu custo homens prestes para combater.

Aos sacerdotes e clérigos de qualquer ordem não seja lícito partir sem licença de seu bispo, porque esta viagem lhes seria inútil sem esse assentimento; e nem sequer aos leigos seja permitido partir sem a bênção de seu sacerdote.

Todo aquele que queira cumprir esta santa peregrinação e que faça promessa a Deus e a Ele se tenha consagrado como vítima viva, santa e aceitável, leve sobre seu peito o sinal da Cruz do Senhor. Aquele que, após ter cumprido seu voto queira retornar, dê meia-volta.

Cumprirão assim o preceito que o Senhor dá no Evangelho: “Quem não carrega sua cruz e não vem detrás de Mim não é digno de Mim”.

Clermont, 27 de novembro de 1095.


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Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Proezas portuguesas contra os mouros

Dom Afonso II, rei de Portugal
No tempo de el-rei Afonso II foram vencidos em Salácia (Alcácer do Sal) mais de 60.000 mouros.

E na célebre batalha do Salado, em que el-rei D. Afonso IV de Portugal ajudou nervosamente a el-rei de Castela, morreram 200.000, pelo cômputo mais escasso.

Reinando D. Afonso V, cercou el-rei de Fez a Alcácer Ceguere, com 30.000 cavalos e inumeráveis de pé, mas saindo de dentro pouco mais de 30 cavaleiros portugueses, mataram tantos que os outros, com medo, levantaram o cerco.

A mesma felicidade se viu na tomada de Ceuta em tempo de el-rei Dom João I, e nas de Arzila e Tânger em tempo do dito D. Afonso V, e nos famosos sítios que sustentaram nossos capitães nestas praças, e na de Mozagão, e nas de Diu, Calecute, Chaul, Columbo, Cananor, Cochim, Malaca, contra mui poderosos inimigos.

No cerco de Diu, que sustentou o grande capitão Antônio da Silveira, sendo Fernão Penteado ferido gravemente na cabeça, foi ao cirurgião para que o curasse. E achando-o ocupado na cura de outros, enquanto aguardava a sua vez, ouviu estrondo de um rebate que os turcos davam.

Não lhe sofrendo o coração não se achar nele, correu àquela parte onde, envolvido na refrega, ganhou segunda ferida grave na cabeça. Com que apertado, tornou ao cirurgião, a quem achou ainda mais ocupado que antes.

Dom Afonso IV, rei de PortugalE como neste tempo os turcos apertassem muito com os nossos, ele tornou a acudir com grande alvoroço, onde recebeu terceira cutilada no braço direito; e veio curar-se de todas três.

De sorte que assim ia este soldado buscar mais feridas, como se, achando o cirurgião ocioso, quisesse dar-lhe em que se ocupar, e mais falta fazia ao seu natural a briga do que à sua cabeça o sangue, querendo antes ferir-se depressa do que curar-se devagar.

A tarântula, ainda depois de esmagada, salta, se lhe tangem; este animoso guerreiro, ainda rota a cabeça, pulava se ouvia estrondos militares, porque eram música para ele.

No mesmo cerco, outro português, cujo nome se lhe não sabe, acabando-se-lhe as balas e não tendo à mão com que carregar o mosquete, abalou e arrancou um dente.

Usando-o como bala, fez o tiro e acertou em um turco, para o qual não foi favo doce, senão bocado amargoso, isto que saiu da boca deste leão. Adaptara na boca do mosquete o dente da sua, mandando-lhe que mordesse ao longe, já que não podia de perto.

Outros muitos casos semelhantes omito, porque ao meu intuito bastam os referidos. Agora o que esperamos é que a última e total ruína do império otomano se deva também, por eleição divina, às armas portuguesas, conforme os mesmos mouros temem e se diz terem disso tradição antiga (Veja-se Sebastião de Paiva, na sua "Monarquia").

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (III): sinais divinos e bençãos da Igreja

Núncio Apostólico Adhémar de Monteil na batalha da Antioquia leva a Santa Lança
* Os Barões e Cavaleiros juram combater os inimigos da Fé

“Os Barões e os Cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano fizeram o juramento de vingar a causa de Jesus Cristo; esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da Fé cristã. Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do Concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha de pano ou de seda. (...)

“Os fiéis pediram a Urbano que se pusesse à sua frente, mas o Pontífice, que ainda não tinha triunfado sobre o antipapa Guiberto, e que perseguia com seus anátemas o Rei da França e o Imperador da Alemanha, não podia deixar a Europa sem comprometer o poder e a política da Santa Sé.

“Nomeou o Bispo de Puy, seu legado apostólico, junto do exército dos cristãos. Prometeu a todos os cruzados a remissão de seus pecados. Suas pessoas, suas famílias, seus bens, foram postos sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo. O concílio declarou que toda a violência feita contra os soldados de Jesus Cristo seria castigada com o anátema e entregou seus decretos, em favor dos cruzados à vigilância dos Padres e dos Bispos.

“Urbano percorreu ele mesmo várias províncias da França, para terminar sua obra tão felizmente começada. (...)

* A benção das Cruzes

“Os Bispos e os simples pastores, não paravam de benzer cruzes para os fiéis que prometiam armar-se para a libertação da Terra Santa.

Benção da Igreja aos cruzados“A Igreja conservou em seus anais as fórmulas de orações rezadas nessa cerimônia.

“O padre, depois de ter invocado o auxílio de Deus, que fez o Céu e a Terra, rogava ao Senhor que abençoasse, em sua bondade paterna, a cruz dos peregrinos, como tinha outrora abençoado a vara de Aarão; rogava à misericórdia divina que não abandonasse nos perigos os que iam combater por Jesus Cristo e que lhes enviasse o anjo Rafael que outrora tinha sido o fiel companheiro de Tobias.

“O padre dizia, depois de ter prendido a cruz ao peito: Recebe este sinal, imagem da Paixão e da Morte do Salvador do mundo, a fim de que em tua viagem nem a infelicidade nem o pecado te possam ferir e voltes mais feliz e sobretudo, melhor, para junto dos teus.” (...)

“Tal o ascendente da religião ultrajada pelos infiéis, que todas as nações cristãs logo esqueceram o que era objeto de sua ambição ou de seus temores e forneceram à cruzada os soldados de que precisavam para se defenderem. Todo o Ocidente reobava com estas palavras: Aquele que não traz sua cruz e não vem comigo, não é digno de Mim.

* Vários milagres incentivam à “sublime epopéia”

“Que se julgue o que se deveu operar nos espíritos, quando a Igreja tocou a trombeta guerreira e apresentou como agradável a Deus o amor das conquistas, a glória de vencer, o ardor pelos perigos. (...)

“O clero mesmo deu o exemplo. A maior parte dos Bispos, que tinham o título de Conde ou de Barão (...) julgou dever armar-se para a causa de Jesus Cristo.

Clermont-Ferrand, Praça onde o santo Urbano II pregou a Primeira Cruzada“Os autores contemporâneos contam vários milagres que contribuíram para inflamar o espírito da multidão. Haviam-se visto estrelas destacarem-se do firmamento e caírem sobre a terra; mil fogos desconhecidos corriam pelo ar e davam à noite a claridade do dia; nuvens cor de sangue levantavam-se de repente no horizonte, e no ocidente um cometa ameaçador apareceu ao meio-dia; sua forma era a de uma espada.

“Viram-se nas altas esferas do céu cidades com suas torres e defesas, armadas, prestes a combater, seguindo o estandarte da cruz. O monge Roberto refere que, no mesmo dia em que no concílio de Clermont, se decidiu a cruzada, aquela deliberação foi proclamada além dos mares.

“Essa notícia, diz ele, tinha reerguido a coragem dos cristãos no Oriente e levado de repente o desespêro aos povos da Arábia.” Para cúmulo de prodígios, os Santos e os Reis das idades precedentes saíam de seus túmulos e vários franceses haviam visto a sombra de Carlos Magno exortando os cristãos a combater contra os infiéis.

* A benção das armas e dos estandartes

“O concílio de Clermont, que se havia reunido no mês de novembro de 1095, tinha marcado a partida dos cruzados para a festa da Assunção, do ano seguinte. (...)

“No meio da efervescência geral, a religião, que animava todos os corações velava pela ordem pública. Não se ouvia mais falar de roubos, de assaltos. (...)

Mapa medieval de Londres a Jerusalem“Entre os preparativos da cruzada, não devemos esquecer do cuidado que os cruzados tomavam em mandar abençoar suas armas e suas bandeiras. Em cada paróquia, o Pontífice ou o pastor, depois de ter aspergido a água benta sobre as armas colocadas diante dele, rogava a Deus Todo Poderoso, que concedesse aquele ou aos que as deviam usar nos combates, a coragem e a força que outrora Ele havia dado a Davi, vencedor do infiel Golias.

“Entregando ao cavaleiro sua espada, que ele tinha abençoado, o padre dizia: Recebei esta espada em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo. Serví-vos dela para o triunfo da Fé; que jamais ela derrame o sangue inocente.

“A benção dos estandartes fazia-se com a mesma solenidade: o ministro do Deus dos exércitos pedia ao céu que aquele sinal da guerra fosse para os inimigos do povo cristão um motivo de terror e para todos os que esperavam em Jesus Cristo, um penhor de sua vitória. O estandarte, entregava-o aos guerreiros, de joelhos diante dele, dizendo: “Ide combater pela glória de Deus e que esse sinal vos faça triunfar de todos os perigos.”

* A partida para a Terra Santa

“A maior parte ia a pé; havia alguns cavaleiros no meio da multidão, outros viajavam em carros puxados por bois ferrados, outros costeavam o mar, desciam os rios, em barcas. Estavam vestidos de diversas maneiras, armados de lanças, de espadas, de dardos, de ferros, etc. (...)

Cavaleiros“Perto das cidades, perto das fortalezas, nas planícies, nas montanhas, erguiam-se tendas, pavilhões para todos os cavaleiros, altares, levantados às pressas, para o ofício divino. Por toda a parte exibia-se um aparato guerreiro e de festa solene.

“De um lado um chefe militar exercitava seus soldados; de outro, um pregador chamava a atenção de seus ouvintes sobre as verdades eternas; aqui, o ruído de clarins, de trombetas, mais além o canto dos salmos e de outras melodias.

“Desde o Tibre até o Oceano e desde o Reno até além dos Pirinéus só se viam grupos de homens marcados com a cruz, jurando exterminar os sarracenos e antecipadamente celebrando suas conquistas. De todos os lados ressoava o grito de guerra dos cruzados: Deus o quer! Deus o quer!

Fonte: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.

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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (II): Concílios de Piacenza e Clermont Ferrand, sermão do Beato Papa Urbano II

Estátua de Urbano II, Châtillon sur Marne* Urbano II convoca o Concílio de Piacenza

“Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expôr os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

“No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

“Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza. Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

* Um novo Concílio: Clermont-Ferrand

“O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa. O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Plaisance; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

Pedro o Eremita pregando“O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme. Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; ao seu lado estava Pedro, o Eremita, com o bordão de peregrino e a capa de lã. (...)

"O apóstolo da guerra santa falou primeiro dos ultrajes feitos à Fé de Cristo: (...) Ele tinha visto cristãos carregados de grilhões, levados à escravidão, atrelados ao jugo, como animais de carga; ele tinha visto os opressores de Jerusalém vender aos filhos de Cristo a licença de saudar o túmulo de seu Deus, arrancar-lhes até o mesmo pão da miséria e atormentar a mesma pobreza, para conseguir tributos; ele tinha visto os ministros do Todo-Poderoso tirados do Santuário, vergastados, e condenados a uma morte ignominiosa. (...)

* A exortação de Urbano II

“Urbano II falou depois de Pedro, o Eremita, e fê-lo nestes têrmos:

“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente. Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos; de como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para “servir de palha ao fogo eterno”.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da Ásia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos. Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo, digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exacções mais vergonhosas. A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus; os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; “o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos”. Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades! Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo? Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja “mais forte que a mesma morte”, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, prosseguia o eloqüente Pontífice, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima: chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender “a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos”. Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bençãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna.”

* Um brado unânime: “Deus o quer”

“Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...) A assembléia dos fiéis -- levados por um entusiasmo que jamais a eloqüência humana tinha inspirado -- ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras: Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

Beato Urbano II prega a primeira Cruzada“Vêdes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: “Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles; sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir. Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos.” (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz; ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes; ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele.”

“Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão.”

Fonte: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.

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Quarta-feira, 4 de Março de 2009

Como foram os fatos que antecederam a Iª Cruzada (I)

Portaestandartes do Califa de Bagdã
Situação geral, à época das Cruzadas

A causa inicial das Cruzadas foi a invasão da Terra Santa pelos Turcos seldjucidas.

Este povo originário do Turquestão, região ao Norte da Pérsia, aderiu ao islmamismo e através da "guerra santa" destruiu o império árabe de Bagdad e conquistou a parte asiática do Império Bizantino.

Em 1076 chegaram a ameaçar Constantinopla mas desviaram o objetivo e dois anos depois conquistaram Jerusalém, que estava em poder de muçulmanos árabes desde 636.

Fanáticos e cruéis, os turcos perseguiam os peregrinos: infringiam-lhes mil vexames e até os torturavam. A Terra Santa foi a partir de então fechada para os cristãos.

Cluny e a Reforma Gregoriana

Governava então a Igreja um dos maiores Papas da História: São Gregório VII. Sob seu governo, a Cristandade recebeu um impulso decisivo: a luta que os monges de Cluny travaram, desde o século X contra as desordens (que a partir da desagregação da obra de Carlos Magno assolaram a Igreja e a Sociedade), chegou então a seu período mais épico.

Essa luta gloriosa, sob um Papa admirável, explica o fervor que então se manifestava na Cristandade.


A Reconquista Ibérica, uma Cruzada de oito séculos

Desde antes de Carlos Martel e Carlos Magno, os cristãos da Península Ibérica escreviam com seu heroísmo a epopéia da Reconquista.

Com efeito, nunca os muçulmanos puderam dominá-la, pois D. Pelayo e seus sucessores mantiveram invencíveis as Astúrias, região montanhosa ao norte da Península; Covadonga marcara o início e o berço da Reconquista já desde o próprio momento em que o Islã ocupara a Península Ibérica.

São Gregorio VIISão Gregório VII logo após sua eleição procurou conseguir aliados para os cristãos da Espanha em sua luta contra os mouros e para os gregos em luta com os turcos. O poderoso conde de Roncy, na Champagne, e alguns outros nobres franceses apresentaram-se então para a luta.

O Papa prometeu-lhes todas as terras que eles conquistassem aos mouros, respeitados os antigos direitos da Santa Sé que existissem naquelas reigões.

Alguns anos depois, em 1085, outros potentados franceses, entre os quais sobressaía Raymond, Conde de Toulouse, combateram valentemente ao lado das forças espanholas que Alfonso VI lançou contra os mouros.

Os turcos seljucidas contudo, constituíam no Oriente um perigo cada vez maior. Os turcos, que levavam por toda a parte a pilhagem e o massacre, ameaçavam destruir o império grego, o que tornaria muito provável uma invasão de todo o Ocidente.

São Gregório VII avaliou o perigo e em 1074, em diversos documentos, conclamou os fiéis para a defesa da Cristandade. Nesse mesmo ano o Papa convidou o Imperador Germânico a se reunir com suas forças ao exéricto de 50.000 soldados que já preparara para levar à Terra Santa.

O Papa desejava também aproveitar a ocasião para reunir a Igreja Grega com a Santa Sé da qual se separara com o cisma do Oriente.

Era uma verdadeira cruzada, muito bem organizada e se o Imperador da Alemanha tivesse atendido a esse convite do Sumo Pontífice, teria evitado muitos males para a Igreja, para o povo alemão e para si mesmo.

Porém, Henrique IV, em seu orgulho e sua cobiça iria em breve levantar-se contra São Gregório VII: a luta interna assim desencadeada impediu que o projeto do Papa se cumprisse. É impossível prever as extraordinárias conseqüências que teriam decorrido de uma cruzada realizada sob o comando de um tão forte e glorioso Pontífice.

O Patriarca de Jerusalém implora o socorro do Papa e dos Príncipes

Os anseios de Cruzada seriam realizados pouco depois por outro grande Papa, cluniacense também ele, como o fôra São Gregório VII: Urbano II. Ele a convocou no Concílio de Clermont em 1095, como no-lo narra Michaud em sua História das Cruzadas:

História da CruzadaA fama das peregrinações ao Oriente fez Pedro (o Eremita) sair de seu retiro. Ele seguiu a multidão dos cristãos à Palestina, para visitar os santos lugares. (...) Depois de ter seguido seus irmãos ao Calvário e ao Sepulcro de Jesus Cristo, foi ter com o Patriarca de Jerusalém. Os cabelos brancos de Simeão, sua venerável figura e principalmente a perseguição que ele havia sofrido, mereceram-lhe toda a confiança de Pedro: eles choraram juntos os males dos cristãos. (...) Pedro disse-lhe, que talvez um dia os guerreiros do Ocidente seriam os libertadores de Jerusalém. Sim, sem dúvida, replicou o Patriarca; quando nossa aflição chegar ao auge, quando Deus se comover, ante nossas misérias, Ele moverá o coração dos Príncipes do Ocidente e os mandará em auxílio da cidade santa. (...) O Patriarca resolveu implorar por meio de cartas o socorro do Papa e dos Príncipes da Europa. (...)

Depois dessa entrevista, Pedro ficou persuadido de que o céu mesmo o havia encarregado de vingar sua causa. Um dia, quando estava prostrado diante do Santo Sepulcro, pareceu-lhe ouvir a voz de Jesus Cristo que lhe dizia: "Pedro, levanta-te, corre a anunciar as tribulações de meu povo; é tempo de que meus servidores sejam socorridos e os lugares santos, libertados". Cheio do espírito dessas palavras que lhe ecoavam continuamente ao ouvido, atravessa os mares, desembarca nas costas da Itália e vem lançar-se aos pés do Papa.

Urbano II encarrega Pedro o Eremita de pregar a Cruzada

Urbano recebeu Pedro e o encarregou de anunciar a próxima libertação da Jerusalém.

O Eremita atravessou a Itália, passou os Alpes, percorreu a França e a maior parte da Europa, abrasando todos os corações com o zelo que o devorava. (...)

Mapa da Europa no tempo da primeira CruzadaEle lembrava a profanação dos santos lugares e o sangue dos cristãos derramado em rios pelas ruas de Jerusalém: invocava o céu, os santos, os anjos, que ele tomava como testemunhas das suas afirmações e da veracidade de tudo o que dizia. (...)

A esse espetáculo, os fiéis experimentavam por sua vez as mais vivas emoções da piedade e o furor da vingança; todos deploravam em seu coração a desgraça e a vergonha de Jerusalém. O povo elevava sua voz para o céu para pedir a Deus que se dignasse lançar um olhar sobre a cidade de sua predileção; uns ofereciam suas riquezas, outros, suas orações; todos prometiam dar sua vida para a libertação dos santos lugares.

No meio dessa agitação geral, Alexis Comeno (Imperador do Oriente), ameaçado pelos turcos, mandou embaixadores ao Papa para pedir o auxílio dos latinos."

Fonte: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.

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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. IV ‒ esquema do exemplo de São Francisco e o Direito da Cruzada


I – O problema teológico: é lícita uma Cruzada para assegurar a liberdade dos pregadores do Evangelho?

A. Parece que não (São Tomás começa habitualmente com a objeção):

1. Porque Nosso Senhor é o modelo de todas as virtudes – e eu vou por tom mais romântico e sentimental, porque é um argumento sentimental – e entre os atos que Ele praticou não estava o de matar, mas, pelo que não se converta no contato com missionários verdadeiramente santos.

Portanto, se um governo resiste, e o missionário não consegue converter, Nosso Senhor ensinou a derramar seu próprio sangue na flagelação, em vez de inspirar os guerreiros católicos a que derramem o sangue do pobre adversário. Essa é a formulação sentimental errada.

C. Sed contra. Parece que sim:

1. Nosso Senhor não matou pessoalmente, mas o Espírito Santo inspirou mais de uma vez precursores os imitadores perfeitos dEle a que o fizessem.

2. Assim, os Macabeus antes dEle. O profeta Santo Elias degolou 400 profetas de Baal, etc.

Jesus Cristo açoita os mercadores do Templo, Gustave Doré3. Ademais, é falso que o católico só deva fazer o que Ele fez. O católico deve fazer o que Ele ensinou. É claro. Nosso Senhor não podia fazer todas as coisas fazíveis. Isso é uma coisa protestantosa, das mais estúpidas. E, Ele ensinou: Se teu olho te escandaliza arranca-o, se teu pé te escandaliza, corta; quando Ele vergastou os vendilhões, o normal é que eles tenham sangrado. O Evangelho nos diz que tudo quanto Ele fazia, fazia bem feito. Onde é que se viu açoitado que não faz sair sangue?

4. Não é fato que o santo sempre converte, do contrário o povo judeu se teria convertido. É tão evidente.

5. Logo, conclusão: é um dever para o Estado católico pôr a sua força a serviço dos missionários, para garantir a liberdade deles. Deus lhes disse: Ensinai a todos os povos. Ninguém tem o direito de se opor a isso.

II. São Francisco e o sultão:

1. A resistência do sultão a um dos maiores missionários da história provou que muitas vezes amor não converte e que, portanto, é necessária a força. Não para impor a conversão, mas para garantir a liberdade do missionário.

2. O fato dos cruzados terem conduzido São Francisco prova o espírito de justiça que os animava: eles preferiam a conversão à luta; mas enfrentavma a luta compreendendo bem o quanto o adversário rejeitava a conversão.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).


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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. III ‒ o exemplo de São Francisco glorifica as Cruzadas

Segunda vinda de Cristo
Pode se levantar uma objeção contra a Cruzada: Nosso Senhor Jesus Cristo pessoalmente nunca chefiou uma Cruzada.

Ele se deixou prender em vez de pedir às legiões dos anjos que viessem à terra para impedir a Sua crucificação. Então, não seria mais conforme à mansidão evangélica só pregar a palavra de Deus? Será que o homem se tornou tão ruim que ele resistirá à palavra de Deus?

Não seria mais generoso nós esperarmos na bondade do homem e que a palavra de Deus o convertesse?

Aqui está o ponto central do problema das Cruzadas, em termos de doutrina católica.

Mas é verdade que o homem muitas vezes é tão mau que pode recusar a palavra de Deus. Nesses casos, a Cruzada é legítima.

Se o homem nunca é tão mau que recuse a palavra de Deus então a Cruzada não é legítima.

Há um mundo de democrata-cristãos e caterva do gênero, que sustenta que por meio da bondade se consegue tudo, e que basta o missionário ser muito santo para ele converter qualquer pessoal.

De onde então, o uso da violência a favor das missões seria uma coisa injustificada.

O equilíbrio teológico sobre este problema se manifestava no navio que conduziu São Francisco.

Vai o maior dos missionários que se possa imaginar e prega ao sultão. Os guerreiros são movidos por um tão bom espírito que eles preferem as palavras de amor à força. Mas, se houver dificuldade, entra a força. Eles mandam o santo que emprega as palavras de amor. O sultão prova a dureza do espírito maometano. Diante de São Francisco ele começou a se converter, e resistiu.

Cruzados acham o Santo Lenho a caminho de conquistar JerusalemSão Francisco expulso, prova a legitimidade das Cruzadas.

E a glorificação das Cruzadas vem do próprio fato dele não ter vencido.

Então, nem se pode dizer que os Cruzados eram sanguinários, que iam matar ou que tinham vontade de liquidar.

Não! eles preferiam convencer porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva. Mas se ele não se converte, se está de má fé, ali está a lança, ali está o ferro, está a guerra. Está perfeito. É o equilíbrio maravilhoso e católico.

É a melhor justificação que se possa imaginar da Cruzada e do espírito das Cruzadas.

São Francisco de Assis, levando o amor na ponta da Cruzada provou que ela era indispensável.

Porque o amor nem tudo consegue, e onde o amor fracassa não há remédio. É preciso entrar a lança.

Essa é a grande lição que este fato nos dá.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).

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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. II ‒ o exemplo de São Francisco e o sultão ilustra o direito a se fazer Cruzadas

Ultima Ceia
Nosso Senhor, quando esteve com os Apóstolos, disse: Ide e pregai por toda a terra, a todos os povos, batizando-os em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Aqueles que crerem serão salvos, aqueles que não crerem se perderão.

Isso é um mandato, quer dizer, é uma ordem que Ele deu.

Esse mandamento dava aos Apóstolos e aos sucessores, bispos e padres católicos de todo mundo, em todos os tempos, a ordem de fazer missões. Daí o fato de que Nosso Senhor morrendo, eles se espalharam pelo mundo inteiro. Eles receberam uma ordem.

Mas junto com essa ordem vinha um direito: e o direito era de ir aos países, ainda que os governos não quisessem, pregar nesses países.

E, é uma obrigação para todos os governos, de atenderem à voz dos missionários e de lhes dar liberdade. Não estão obrigados a se converter, mas tem o dever de dar liberdade aos pregadores da Santa Igreja para que possam fazer ouvir a palavra de Deus ao povo.

Isso traz um corolário. Se os missionários têm direito de ir por toda parte pregar a fé, e se um governo nega o direito ao missionário de entrar, as tropas de um país católico têm o direito de marchar contra esse governo e dizer: "nós viemos aqui arrombar a porta que vocês fecharam. Porque contra Deus, ninguém prevalece. Nós estamos fazendo uma Cruzada". Entram a asseguram aos missionários o direito de pregar.

Jesus Cristo à testa dos cruzadosEntão, podemos imaginar oito, dez, cinqüenta cruzados numa praça, e junto com ele um santo, um padre, um missionário, num lugar em evidência, pregando.

E eles com as lanças, ou com armas mais atualizadas.

É teologicamente perfeito.

O que não seria perfeito seria dizer: ou você crê, ou morre. Isso não seria perfeito.

Mas aplicar a força justa a quem quisesse criar obstáculo, pois não, porque ninguém tem o direito de ir contra os desígnios de Deus.

Então a Cruzada é um direito outorgado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).

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Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. I ‒ o equilíbrio entre a mansidão e a força

Do livro “Les Templiers”, do mundialmente reputado historiador francês Georges Bordonove:

Entre a 4ª e 5ª cruzada houve algumas expedições militares contra os infiéis. De uma delas, que aportou no Egito, participou São Francisco de Assis.

Ele, (São Francisco) teve a audácia de se fazer conduzir à presença do sultão, tendo somente sua fé por salvaguarda. O sultão o escutou com a maior atenção, como que subjugado.

Como o bem aventurado Francisco começasse a pregar e ofereceu-se para entrar no fogo juntamente com um sacerdote sarraceno, para assim provar ao sultão que a Lei de Cristo era verdadeira, o sultão respondeu: Irmão, eu não creio que algum sacerdote sarraceno queira entrar no fogo por sua fé.

Depois, temendo que alguns dos de seu exército, pela eficácia da palavra de São Francisco, fossem convertidos para o Senhor, o sultão o fez conduzir, com toda sorte de considerações e em perfeita segurança, ao campo dos nossos, dizendo-lhe por despedida: Reze por mim para que Deus se digne de me revelar a lei e a fé que mais Lhe agrada.

Comentário de Plinio Corrêa de Oliveira:

O mundo estava dividido em dois campos opostos. Essa divisão estava eriçada de espadas e lanças de ambos os lados.

O assalto de TiroDe um lado o mundo maometano, de outro lado o mundo católico.

Nessa situação, uma expedição militar embarca cheia de ardor. Ela vai levando o homem que, para a sensibilidade deformada de nossos dias, é precisamente o contrário do espírito militar: São Francisco de Assis.

O santo da doçura, da ternura, da bondade, que cantava aos passarinhos e chamava o boi e a vaca de irmãos; o santo – para usar uma expressão má, mas que teria seu cabimento aqui – o santo da fraternidade.

Esse santo vai no meio dos cruzados.

Parece que seu contínuo cântico de afabilidade, cordialidade e amor é o contrário da mensagem dos cruzados.

Ele tem esperança de converter o sultão. Ora, converter é muito melhor do que matar. O indivíduo precisa ser completamente doido, precisa ter perdido completamente o espírito católico, para preferir matar a converter. Converter é muito melhor do que matar.

Degolação de um cristãoDe outro lado, converter é, de algum modo, o contrário de matar. Porque se um homem pode ser conversível, para que matá-lo? Dir-se-ia então que São Francisco de Assis ia como companheiro dos cruzados, com o intuito de tornar inútil a Cruzada.

Bem, ele transpõe as fileiras adversárias e vai falar com o sultão.

Nós podemos imaginar a cena. O sultão aparece como um soberano oriental, no luxo enorme– tecidos finíssimos, tapetes magníficos, casas esplendidamente decoradas, espaçosas, soldados prestando armas, doces regalados, harém – tudo quanto o prazer dos sentidos pode proporcionar de lícito e de ilícito, de belo e de feio, de honroso, e de desonroso, o sultão tinha para si.

Podemos imaginar uma sala magnificamente atapetada. Nas paredes há arcadas com arabescos. Ao longeum pátio com uma fonte que deita água perfumada e um jardim com laranjeiras em flor.

Bate o vento e entra o perfume das laranjeiras; ouvisse o canto das odaliscas dentro do harém. Mais no fundo, um minarete poético que se levanta.

Gordalhão, contente da vida, satisfeito, sentado sobre almofadas, com um turbante esplêndido, coberto de jóias, um sultão.

Sao Francisco prega aos animaisEntra para falar com ele um homem que é o contrário. São Francisco de Assis: renunciou a tudo, é o santo do jejum, da penitência.

O sultão é truculento, autoritário, sanguinário, mata por dá cá aquela palha, cercado de escravos que ele maltrata de todos os modos.

São Francisco de Assis é um homem que quando vai aos matos, os passarinhos descem das árvores e pousam sobre os ombros dele para cantar.

Vê uma flor, uma rosa, se extasia e glorifica a Deus, é o homem que faz sua felicidade em não ter nada daquilo que é a felicidade do sultão. E que se apresenta com umas sandálias ou talvez descalço.

E aí uma das enormes antíteses, não só daquele tempo mas de todos os tempos, se estabelece: o diálogo de São Francisco com o sultão. Fala-se hoje tanto em diálogo. Isso foi diálogo.

São Francisco começa a falar. Não nos é difícil conceber o estado de alma de um sultão. Quando o homem tem todos os bens do corpo, é o sinal de que ele não tem nenhum dos bens da alma. Porque depois do pecado original, quanto mais os bens do corpo se multiplicam, tanto mais os bens de alma vão minguando e empobrecendo.

O sultão não tem tranqüilidade, não tem alegria, não tem sensação de asseio nem de bem-estar dentro de si mesmo. Ele se sente uma charneca. Tudo em torno dele é belo mas nada lhe agrada. Tudo dentro dele é feio.

Aparece São Francisco e ele começa a sentir uma paz. Ele olha São Francisco e vê que São Francisco o olha com um sentimento que ele nunca conseguiu despertar em ninguém. São Francisco olha com afeto desinteressado. Ele começa a se comover diante das frases de São Francisco.

Se o violino de São Francisco Solano conseguia desarmar os índios, os senhores podem imaginar o timbre de voz de São Francisco de Assis se não faria desarmar um sultão! Por certo e largamente. O sultão começa a se comover. Começa a se sentir tão comovido, que começa a perceber que está mudando de doutrina e que ele mesmo vai começando a ficar católico.

Massacre dos peregrinos de Pedro o ErmitãoEle tem medo da ação de São Francisco sobre ele, porque ele não quer largar aqueles bens que São Francisco mostra a ele que são efêmeros, secundários, que não são a razão de ser da vida.

Então, ele comete um primeiro pecado contra o Espírito Santo. Porque negar a verdade conhecida como tal é um pecado contra o Espírito Santo. E diz: esse homem é capaz de me converter. Eu vou pô-lo fora.

Vem um segundo receio: eu não vou me converter, mas se esse homem ficar rodando pela cidade, ele vai converter os outros. Esse homem diz coisas tais, dá um tal brilho de verdade a tudo que ele profere, que outros serão capazes de ser menos duros do que eu, e são capazes de se converter. Eu vou perder meus soldados.

Então, ele toma a resolução injusta de expulsar São Francisco de seu palácio, de seu país.

Mas o pecado nele não foi tão ao fundo como se poderia recear. Ele manda, em vez de matar São Francisco, ele manda levá-lo com toda espécie atenções, até o acampamento dos católicos.

Além do mais, ele faz um pedido na hora da despedida: reze por mim para que eu conheça a verdadeira fé.

Pedido que era, de algum lado, hipócrita. Porque, ao se comover, já ou ao menos já começou a conhecer a verdadeira fé. Ele pedia o que já lhe tinha sido dado. Mas, de outro lado, era um pedido de quem não tinha renunciado inteiramente a, em determinada emergência, seguir a São Francisco. De maneira que é um pedido que tinha um certo lado de bem.

São Francisco de Assis, convento de São Francisco, QuitoE é possível que São Francisco tenha rezado por ele, e não é impossível que, pelos rogos de São Francisco, grande devoto de Nossa Senhora, esse sultão se tenha convertido na hora da morte.

De qualquer maneira, o sultão expulsou São Francisco e essa admirável possibilidade de conversão cessou para o Oriente.

Que beleza seria o sultão do Egito converter-se? Quanto lutou São Luís, quanto lutaram todos os Cruzados para conquistarem o Egito! Que magnífico teria sido se o Egito se tivesse feito católico. A história do mundo poderia ter virado.

A história do mundo dependeu, naquele momento, da alma de um sultão que tinha diante de si um dos maiores santos de toda a história; e que recebeu, com certeza, naquele momento, uma graça enorme.

Porque a simples presença de São Francisco de Assis era uma graça fabulosa. São Francisco de Assis ir, conduzido pelo Espírito Santo, de tão longe visitar esse sultão, é impossível que esse sultão não tivesse recebido nessa ocasião, graças enormes.

Um homem disse não, um palácio se fechou, um país se fechou, a história da conquista do Oriente pelos católicos estava modificada. O Egito nunca haveria de ser conquistado a não ser no século XIX, mas por uma potência protestante: a Inglaterra.

Seja como for, São Francisco voltou para o meio dos cruzados.

Qual é efeito maravilhoso desse fato? Para a história das Cruzadas?

É a justificação teológica mais magnífica do espírito que movia os cruzados e, ao mesmo tempo, das Cruzadas em si.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).


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Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

As quatro barras catalunhas


Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos Magno. O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo o Zeloso, Conde de Barcelona, uma carta na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército, que entrou na batalha, e foram vencidos os normandos, que se retiraram.

Durante a batalha, uma flecha acertou o peito de Vifredo. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar seu sobrinho, dando-lhe riquezas e bens. Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido em diversas batalhas nas quais tomara parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelassem as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou então os quatro dedos de sua mão direita na ferida de Vifredo, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue, que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valência e Aragão.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


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