segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A batalha de Dorileia quebrou o poder turco e inaugurou o predomínio cristão no Oriente Próximo

Após tomar a cidade de Nicéia, os cruzados empreenderam a travessia da Ásia Menor em direção a Jerusalém.

Travessia penosa, o planalto anatoliano no qual entraram é uma zona de estepes secas que conduzem a um deserto salino que há no seu centro e onde o problema do reabastecimento foi sempre difícil.

Para enfrentá-lo, o exército dividiu-se em dois. No primeiro grupo marchavam Boemundo, seu sobrinho Tancredo e Roberto Courte-Heuse. No segundo, Godofredo de Bouillon (ou Bulhão) e Raimundo de Saint-Gilles.

Os turcos da Ásia Menor haviam concentrado todas suas forças sob as ordens de seu sultão, o seljúcida Kilij Arslan e tentaram explorar a divisão.

Na manhãzinha do 1º de julho, na altura de Dorileia, atualmente Escki-Chéhir, eles caíram em massa sobre o corpo de exército de Boemundo.

A brusquidão do ataque foi tal que Boemundo, surpreso em plena marcha, apenas teve tempo para reagrupar sua tropa às presas para resistir às cargas da cavalaria turca que o rodeou por todos os lados.

Seguindo a tática de seus ancestrais nômades, os esquadrões turcos aproximavam-se à distancia de um tiro de flecha, esvaziavam suas aljavas depois davam meia volta cedendo o lugar para novas nuvens de arqueiros montados.

Os francos ‒ que a chuva de flechas dizimava ‒ carregavam em vão visando engajar a luta com o adversário. Este evitava o contacto e fugia de cada vez.

Foi só quando o exército normando começou a ficar visivelmente esgotado por este jogo assassino que os turcos desembainharam as espadas e carregaram por sua vez.

Os normandos foram sendo acuados até as charretes do combóio, se abrigando detrás delas do modo que podiam, resistindo com feroz obstinação... A cruzada iria se terminar num desastre logo no primeiro encontro?

Mas Boemundo, antes de ser rodeado, teve tempo de avisar do perigo em que se encontrava à outra divisão franca. Ouvindo seu apelo, os chefes dessa acorreram em tromba para auxiliá-lo.

Godofredo de Bouillon (ou Bulhão) chegou o primeiro com somente cinqüenta cavaleiros. O resto dos brabanções vinha atrás ao galopo.

Quase no mesmo tempo apareceram no campo de batalha Hugo I de Vermandois, depois o legado pontifício bispo Dom Adhémar de Monteil e Raimundo de Saint-Gilles.

Por volta de duas da tarde todos intervinham na batalha.

A chegada dessas massas francas iria cambiar o resultado da jornada. Acresce que dom Adhémar de Monteil, bispo de Puy, avançou dissimulado por uma série de morros e foi aparecer no flanco esquerdo dos turcos.

O movimento foi imitado pelo lado direito por Godofredo de Bouillon (ou Bulhão), o conde de Flandres e Hugo I de Vermandois. Eles começaram a desbordar o exército turco também por seu lado.

Na iminência de ficarem cercados, moídos pela carga furiosa da cavalaria pesada cristã, os turcos deram-se à fuga sem sequer se dar o tempo de salvar as riquezas de seu chefe.

“Eles fugiram através dos desfiladeiros, das montanhas e das planícies e nos tomamos suas tendas com um botim considerável em ouro, prata, gado e camelos”.

Os cruzados “tornaram-se donos de uma grande quantidade de víveres, tendas magnificamente ornadas, imensos tesouros, toda espécie de animais de carga e, sobre tudo, um grande número de camelos. Na derrota, as perdas dos turco-árabes foram de grande número de emires mortos, assim como três mil oficiais e vinte mil soldados rasos.”

A batalha de Dorileia definiu por perto de um século a nova relação de forças no Oriente Próximo. Desde a jornada de Malazgerd e a captura de um imperador bizantino por um sultão turco em 1071, a potência turca dominava Oriente.

A jornada do 1º de julho de 1097 anunciou ao mundo que uma força nova tinha se levantado: a força franca, e que ela ia prevalecer desde aquele momento em diante.

Neste sentido a jornada de Dorileia, apagando a de Malazgerd, se reviste na história da Ásia de uma importância tão grande como as vitórias de Alexandre Magno em Granique ou em Arbeles.

Dois séculos de hegemonia européia no Levante vão se derivar desse fato, dois séculos durante os quais o avanço turco recuará não só diante da conquista franca da Síria e da Palestina, mas também diante da reconquista bizantina na Ásia Menor.

É de se destacar que os francos e os turcos, a raça militar de Ocidente e a raça militar da Ásia, aprenderam a se estimarem desde esta primeira trombada.

A este respeito, o cronista da Gesta Francorum nos transmite as impressões sentidas:

“Deve se reconhecer as qualidades militares e a valentia dos turcos. Eles acreditavam que iriam nos apavorar com a chuva de flechas, como eles apavoravam os árabes, os armênios, os sírios e os gregos. Mas, com a graça de Deus, eles não prevalecerão sobre nós! Em verdade, eles reconheciam de seu lado que ninguém, salvo os francos e eles próprios, tinha o direito de se dizer cavaleiro”.
(Fonte: René Grousset, “L’epopée des croisades”, Perrin, Paris, 2002)

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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O conde de Blois descreve o avanço da I Cruzada

Estevão Henrique II, Conde de Blois e de Chartres (1045 – 19.5.1102), casou com Adela de Normandia, filha de Guilherme o Conquistador, por volta de 1080 em Chartres. Teve onze filhos, entre os quais: Guilherme, (†1150), Conde de Sully e Chartres; Teobaldo II, conde de Champagne; Estevão, rei da Inglaterra e Henrique, bispo de Winchester.

O conde Estevão foi um dos líderes da Primeira Cruzada. Ele escreveu pormenorizadas cartas a sua esposa Adela contando os progressos da mesma. Ele voltou a casa em 1098 quando o assédio de Antioquia se eternizava, sem cumprir o voto de liberar Jerusalém.

Pressionado por Adela, em 1101 fez uma segunda peregrinação junto com outros que voltaram prematuramente. Em 1102, Estevão encontrou a morte na batalha de Ramla quando tinha 57 anos. Morreu heroicamente mas sem ter a glória de conquistar Jerusalém, fato que aconteceu durante seu retorno a Europa.

A carta seguinte é de 1098 e foi escrita durante o sitio de Antioquia:



O conde Estevão, a Adela, sua docíssima e amabilíssima esposa, a seus amados filhos, e a todos os seus vassalos de todos os rangos, saudações e bênçãos.

Deves estar certa, minha caríssima, que o mensageiro que eu enviei para te tranqüilizar, deixou-me diante de Antioquia a salvo e sem feridas, e pela graça de Deus na maior prosperidade.

Desde aquele tempo, junto com todo o exército eleito de Cristo, fortalecidos com grande valor por Ele, nós temos avançado em continuidade durante 23 semanas rumo à casa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deves saber, minha amada, que em ouro, prata e muitos outros tipos de riquezas, agora eu tenho o dobro que teu amor me consignou quando te deixei. Todos os príncipes com o consentimento de todo o exército, contra minha vontade, me escolheram como seu líder no momento presente, como chefe e condutor de toda a expedição.

Deves ter certamente ouvido que após a captura da cidade de Nicéia, nos livramos uma grande batalha contra os turcos e com a ajuda de Deus a vencemos.

A continuação nós conquistamos para o Senhor toda a România. Assim que nós ficamos sabendo que havia um príncipe turco de nome Assam, instalado na Capadócia; logo desviamos nosso caminho para ir a seu encontro.

Conquistamos todos os seus castelos pela força e o compelimos a fugir para um castelo muito forte situado num alto rochedo. Nós também demos a terra desse Assam a um dos nossos chefes e para que ele pudesse vencer dito Assam nós deixamos com ele muitos soldados de Cristo.

A continuação, perseguindo os malvados turcos, nós os empurramos até o centro da Armênia, até o grande rio Eufrates. Ali abandonando todas suas bagagens e animais de carga na ribeira, eles fugiram atravessando o rio para a Arábia.

O grosso dos soldados turcos, porém, entrou na Síria, correndo em marchas forçadas noite e dia, para poder entrar na cidade real de Antioquia antes de nossa chegada.

Tendo sabido disto, todo o exército de Deus orou dando as devidas graças ao Senhor. Acelerando nosso passo com grande alegria para chegar a dita cidade principal de Antioquia, nos a sitiamos e bem cedo tivemos várias trombadas com os turcos. Sete vezes lutamos contra os habitantes de Antioquia e com tropas incalculáveis que vinham em seu auxílio, e que nós nos apressamos a enfrentar, e combatemos com a coragem mais fera, sob a liderança de Cristo.

E, em todas essas sete batalhas, com a ajuda de Deus Nosso Senhor, nós vencemos e certamente matamos um número incontável deles.

Porém, nessas batalhas e em vários ataques feitos à cidade, muitos de nossos irmãos e seguidores foram mortos e suas almas foram conduzidas às alegrias do Paraíso.


Nós verificamos que a cidade de Antioquia é muito grande, fortificada com inacreditáveis reforços e quase inexpugnável.

Acresce que mais de 5.000 fortes soldados turcos entraram na cidade, sem contar os sarracenos, publicanos, árabes, tulitanos, sírios, armênios e outros povos diferentes que formando uma infinita multidão estavam todos juntos ali.

Para combater todos esses inimigos de Deus e nossos nós tínhamos, pela graça de Deus, passado por muitos sofrimentos e inúmeros males até o dia de hoje.

Muitos também esgotaram todos seus recursos nesta santíssima empresa. Muitíssimos de nossos francos teriam morrido de inanição se a clemência de Deus e o nosso dinheiro não os tivesse salvo. Diante da mencionada cidade de Antioquia, durante todo o inverno nos sofremos por Cristo Nosso Senhor um frio excessivo e imensas chuvas torrenciais. Alguns falam da impossibilidade de suportar o calor do sol na Síria, mas não é verdade. Porém, o inverno é muito semelhante ao nosso inverno no Ocidente.

Quando Caspian [Bagi Seian], o emir de Antioquia – isto é, o príncipe e senhor – sentiu-se muito apertado por nós, enviou um filho seu de nome Sensodolo [Chems Eddaulah], ao príncipe que possui Jerusalém, e aos príncipes de Calep, Rodoam [Rodoanus], e a Docap [Deccacus Iba Toutousch], príncipe de Damasco. Ele também enviou mensageiros para a Arábia: para Bolianuth, Carathania e Hamelnuth.

Estes cinco emires com 12.000 cavaleiros turcos escolhidos chegaram subitamente para ajudar os habitantes de Antioquia. Nós, entretanto, que ignorávamos tudo isso, tínhamos enviado muitos soldados nossos às cidades e fortalezas. Aliás, há cento e sessenta e cinco cidades da Síria em nosso poder.


Mas, pouco antes que eles pudessem se aproximar da cidade, nós os atacamos a três léguas de distancia com 700 soldados, numa planície perto do “Portão de Aço”. Deus, entretanto, lutou por nós, e seus fiéis contra eles. Porque naquele dia, lutando com a força que Deus dá, nós os derrotamos e matamos uma incontável multidão deles – Deus continuamente combatendo por nós – e nós trouxemos para o exército mais de duzentas cabeças deles, para que o povo pudesse se regozijar com o número. O imperador de Babilônia também enviou mensageiros sarracenos a nosso exército com cartas nas quais ele propunha paz e concórdia conosco.

Eu me aprazo em te contar, minha amadíssima, o que aconteceu nesta Páscoa. Nossos príncipes construíram uma fortificação perto de uma porta que há entre nosso acampamento e o mar. Porque os turcos saíam diariamente por essa porta, e matavam os nossos homens indo ou vindo do mar.

A cidade de Antioquia encontra-se a perto de cinco léguas do mar. Por esta razão, nossos príncipes enviaram o excelente Boemundo e a Raimundo, conde de Saint Gilles, até o mar com somente sessenta cavaleiros, para eles trazerem marinheiros que ajudassem na obra.

Porém, quando eles voltavam até nós com os marinheiros, os turcos reuniram um exército e caíram subitamente sobre nossos dois líderes e os puseram em perigosa situação. Na inesperada e precipitada retirada nós perdemos mais de 500 de nossos soldados de infantaria – pela glória de Deus. Da cavalaria, porém, nós perdemos só dois com certeza.


Naquele mesmo dia, para receber nossos irmãos com alegria, e ignorando sua desgraça, nós fomos a seu encontro. Quando, porém, nós nos aproximamos de dita porta da cidade, uma turba de cavaleiros e de infantaria de Antioquia, exaltados pela vitória que obtiveram, avançaram por cima de nós da mesma maneira.

Vendo-os, nossos líderes enviaram ordem ao acampamento dos cristãos para que todos estivessem prestes a nos acompanhar na batalha. Entrementes, nossos homens reuniram-se com os líderes dispersos Boemundo e Raimundo e o remanescente de seu exército, e eles narraram a grande desgraça que sofreram.

Nossos homens, cheios de fúria ouvindo essas péssimas notícias, prepararam-se a morrer por Cristo e, profundamente pesarosos por seus irmãos, despencaram sobre os sacrílegos turcos. Eles, inimigos de Deus e nossos, fugiram apressadamente diante de nós e tentaram entrar na cidade. Mas, pela graça de Deus o caso acabou de um modo muito diferente. Porque quando eles quiseram atravessar a ponte construída sobre o grande rio Moscholum, nós os perseguimos tão perto quanto possível, matamos muitos antes que chegassem à ponte, forçamos muitos a cair no rio, tendo encontrado todos estes a morte, nós derrubamos muitos sobre a ponte e muitíssimos bem perto da estreita entrada da porta.

E eu estou te dizendo a verdade, minha amadíssima, e deves ter certeza de que nesta batalha nós matamos trinta emires, isto é príncipes, e trezentos outros turcos nobres, sem contar os demais turcos e pagãos. Mais ainda, o número de turcos e sarracenos mortos foi calculado em 1.230. Mas dos nossos nós não perdemos sequer um só homem.

No dia seguinte (Páscoa) enquanto meu capelão Alexandre escrevia esta carta com grande pressa, uma parte de nossos homens que ficou à espera dos turcos, iniciou uma batalha bem sucedida e matou sessenta cavalheiros deles, cujas cabeças eles trouxeram até o acampamento.

Estas coisas que te escrevo, são somente algumas, minha caríssima, das muitas que nos aconteceram, e posto que eu não posso te contar tudo que há na minha cabeça, eu te encarrego, minha amadíssima, fazer tudo direito, vigiar cuidadosamente nossas terras, cumprir teus deveres como deves em relação a teus filhos e a nossos vassalos. Certamente ver-me-ás cedo na medida em que possivelmente retornarei até ti.

Despedida.

(Datado diante de Antioquia, 29 de março de 1098)


(Fonte: Dana C. Munro, "Letters of the Crusaders", Translations and Reprints from the Original Sources of European History, Vol 1:4, (Philadelphia: University of Pennsylvania, 1896), 5-8.)


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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Carta de São Bernardo incitando franceses e bávaros a partirem para a II Cruzada


Com sua grande oratória, São Bernardo de Claraval, Doutor da Igreja, um dos maiores doutores do seu tempo, pregou a II Cruzada aos franceses e aos alemães.

Ele expõe o perigo que corre a Terra Santa. Ele começa mostrando a ofensa feita a Deus pelo fato da terra sagrada cair na mão dos adversários da Fé. Depois ele mostra que ali se deu a Encarnação do Verbo, a pregação de Nosso Senhor Jesus Cristo e toda a vida dEle.

E prova que cada um desses dados por si só bastaria para tornar maldito o povo que pretendesse conquistar a Terra Santa. Depois ele mostra que não só tentam conquistá-la, mas destruí-la, que os maometanos são selvagens e as relíquias do tempo de Nosso Senhor Jesus Cristo estão ameaçadas de destruição.

O pensamento se estabelece com lógica. São Bernardo, conhecendo a miséria humana, interpela os guerreiros. Que fazeis, bravos soldados, diante disto? Vós não fazeis nada? Vós tendes muitos pecados, é preciso expiá-los e a ocasião é muito boa. Então fazei essa penitência, ide às Cruzadas.

Segunda razão: vós viveis vos matando uns aos outros. Já que vós gostais de combater eu vos apresento um combate justo contra um inimigo que merece ser combatido.

Por todas essas razões ide vós e tomai a Cruz. Esse é o sermão de São Bernardo.


A meus senhores e caríssimos pais os arcebispos e bispos, a todo o clero e fiéis da França oriental e da Baviera, Bernardo, abade de Claraval, que o espírito de força abunde em vós.


Eu Vos escrevo por uma questão que se refere a Jesus Cristo e à vossa salvação. Eis, meus irmãos, um tempo favorável, um tempo de propiciação e de salvação.

O mundo cristão foi atingido pela notícia de que o Deus do céu vai perder sua pátria. Pois é o país onde Ele foi visto, Ele, o Verbo do Pai, instruindo os homens e vivendo entre eles, na sua forma humana, durante mais de trinta anos.

É o país que ele ilustrou com seus milagres, regou com seu sangue, adornou com as primeiras flores da Ressurreição. Hoje nossos pecados o fizeram cair nas mãos de ferozes e sacrílegos inimigos da Cruz cuja espada devoradora semeia por toda a parte a morte sobre a terra das antigas promessas.

Logo, logo, se ninguém se opuser a seu furor eles cairão sobre a própria cidade do Deus vivo, derrubarão os monumentos sagrados de nossa Redenção, macularão os lugares santos que o Sangue do Cordeiro sem mancha outrora regou. Já no seu ardor sacrílego eles estendem a mão para se apoderar, oh dor, do leito sobre o qual Aquele que nos deu a vida fechou os olhos por nós, nos braços da morte.

Então, generosos guerreiros, servidores da Cruz, abandonareis o Santo dos Santos aos cães e jogareis pérolas tão preciosas aos porcos?

Quantos pecadores penitentes nesses lugares lavaram suas iniqüidades com lágrimas e obtiveram o perdão, desde que a espada de vossos pais afastou os pagãos que as desonravam!

O inimigo da salvação percebe-o e se contorce de dor; esse espetáculo é para ele um tormento, ele range os dentes de raiva, mas ao mesmo tempo ele suscita povos que são vasos de iniqüidade e se prepara para destruir até os últimos vestígios de tantos santos mistérios.

Se, que Deus não o permita, ele conseguir se apoderar desses lugares santos entre todos, essa desgraça irreparável permanecerá por todos os séculos vindouros como um fonte de dores incessantes, e para nós, uma causa de vergonha e infâmia.

Seja como for, meus irmãos, haveria de se acreditar que o braço de Deus ficou curto, que sua mão tornou-se impotente para nos salvar, e que Ele tem necessidade do auxílio de miseráveis vermes da terra como somos nós, para restabelecer e proteger sua herança?

Não tem Ele doze legiões de anjos a seu serviço, e não pode Ele com uma só palavra liberar sua pátria?

Ele pode fazê-lo, a coisa é certa, pois para Ele basta desejá-lo. Mas, deixai-me vos dizer que Ele quer vos provar hoje e garantir que entre os filhos dos homens, há alguns ainda que compreendem suas vias, procuram se engajar nelas, e deploram o triste estado em que sua causa caiu. Pois, na sua misericórdia ele se apraz em oferecer a seu povo o meio de reparar as faltas enormes de que se tornou culpado.

Lançai, oh pecadores, lançai um olhar de admiração sobre os meios de salvação que o Senhor vos oferece, e sondai com confiança os abismos de sua misericórdia.

Tende certeza de que, em lugar de querer vossa morte, ele vos prepara os meios de conversão e salvação, pois seu desejo é de vos salvar e não de vos perder. Não há senão um só Deus, com efeito, que possa criar semelhante ocasião para a salvação de homicidas e ladrões, de adúlteros e perjuros, enfim de homens maculados por toda espécie de crimes, lhes conferindo o meio de cooperar com seus desígnios todo-poderosos como se fosse um povo inocente e justo.


Eu vejo, pois, nesta conduta do Deus das misericórdias um grande sinal de confiança para vós, pecadores. Pois, se Deus quisesse vos castigar, ele recusaria vossos serviços em lugar de reclamá-los.

Mais uma vez, considerai os tesouros de bondade do Altíssimo e refleti sobre seus desígnios cheios de misericórdia. Ele dispõe assim as coisas que possui: ele finge ter necessidade de vosso auxílio para poder vir em vossa ajuda; ele quer ser vosso devedor a fim de pagar vossos serviços pela remissão de vossos pecados e pelo dom da vida eterna.

Eu não saberia felicitar suficientemente a geração que vê encontra um tempo tão propício para a salvação, e encontra este ano de propiciação fácil e de jubileu. Já uma multidão de cristãos ressente os efeitos e vá em massa a pedir o sinal da salvação.

É a vós agora, povo rico e fecundo em jovens e valorosos guerreiros, a vós de quem o mundo inteiro conhece a glória e celebra a coragem, é a vós que vos cabe vos levantar como um só homem, cingir vossos rins com as armas abençoadas dos cristãos.

Renunciai a esse gênero de milícia, para não dizer de malícia inveterada que grassa entre vós, e que vos arma tão freqüentemente e vos precipita uns contra os outros para vos exterminar com vossas próprias mãos.

Com quanto furor e quanta crueldade, oh como sedes desditados!, afundais vossa espada no corpo de vosso semelhante e lhe fazeis perder a vida da alma no mesmo tempo que a vida do corpo !

Ai! O vencedor nestas lutas não tem do que se glorificar de uma vitória onde ele feriu de morte sua alma com a mesma espada que matou seu inimigo. Não é um ato de bravura, mas um verdadeiro acesso de loucura que vos impulsiona nas incertezas de semelhantes combates.


Eu vos ofereço, hoje, povo belicoso e bravo, uma bela ocasião de combater sem vos expor a perigo algum, de vencer com verdadeira glória e de morrer com vantagem.

Se vós vos entregais aos negócios, se vós procurais especulações vantajosas, eu não saberia vos indicar uma mais bela ocasião de fazer um comércio frutífero, não a deixeis passar.

Cruzai-vos, irmãos meus, e vós tereis a certeza de ganhar a indulgência de todos os vossos pecados confessados com um coração contrito.

Esta Cruz de pano não vale grande coisa se considerada em termos de dinheiro. Mas, colocada sobre um coração devotado, ela não vale menos que o Reino dos Céus.

Felizes, pois, aqueles que já se cruzaram, felizes também aqueles que seguindo o exemplo dos primeiros farão questão de pôr sobre seu peito o sinal da Salvação!

Assim seja.

(Fonte : São Bernardo de Claraval, “Obras Completas”, Carta nº CCCLXIII, “Ao povo e ao clero da França oriental”, ano 1146 [excertos]. Texto completo).


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domingo, 20 de dezembro de 2009

Santo Natal e Feliz Ano Novo!



Se seu email não reproduz as músicas embaixo CLIQUE AQUI

Clique aqui para ouvir o canto de natal francês “Os anjos em nossos campos”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal alemão “Stille nacht”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal francês “Marcha dos Reis Magos”:


Clique aqui para ouvir o canto de natal alemão “O du fröliche, o du seliche”:


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Papa São Gregório VII: alma inspiradora das Cruzadas

Coube ao Papa São Gregório VII (1020-1085) a honra de inspirar o movimento das cruzadas. Seu plano resulta claro na carta de 1074 reproduzida embaixo, mas que no seu tempo não chegou a ser enviada.

Aconteceu que São Gregório VII teve que enfrentar a revolta do imperador Henrique IV e não pôde completar seu determinado projeto.

São Gregório VII

Entre seus assessores mais próximos estava o futuro Urbano II. São Gregório VII externou o desejo que ele fosse eleito para sucedê-lo.

Por sua vez, Urbano deixou bem claro aos Cardeais que de ser eleito continuaria a pastoral intransigente de São Gregório VII face à baixa moralidade de certo clero mundanizado, a simonia, a nomeação de bispos pelo poder temporal e a luta contra os inimigos da Cristandade sobre tudo o Islã.

Os Cardeais, entretanto, temeram continuar na linha do Santo Gregório VII e escolheram um pontífice conciliante.

Após poucos anos de pontificado, os purpurados bem perceberam a insuficiência da escolha.

À morte de Vitor III (1027-1087), Urbano voltou a sublinhar que ele retomaria a intransigência de São Gregório VII. E os cardeais o elegeram por unanimidade em 12 de março de 1088.

Beato Urbano II

Quando o Bem-aventurado Papa Urbano II (1042-1099) convocou a I Cruzada em 1095 a situação não era materialmente diferente de 1074.

O Beato Papa convocou o concílio de Clermont-Ferrand e fez o inspirado e épico sermão que atraiu a graça das Cruzadas.

Nesse sermão, ele retomou o essencial das idéias de São Gregório VII contidas na carta de 1074.

Por isso, pode se disser com certeza que o Beato Urbano II convocando a Cruzada, não fez outra coisa senão realizar o que estava na mente de São Gregório VII:


Gregório, bispo, servidor dos servidores de Deus, a todos os que anseiam defender a Fé cristã, saudações e benção apostólica.

Nós vos informamos que o portador desta carta, no seu recente retorno através do mar desde a Palestina veio nos visitar na cidade de Roma.

Ele repetiu para nós o que já tínhamos ouvido de muitos outros, a saber, que uma raça pagã tem subjugado os cristãos e com horrível crueldade devastou praticamente tudo até as muralhas de Constantinopla.

Eles estão agora governando as terras conquistadas com tirânica violência e têm escravizado muitos milhares de cristãos como se fossem gado.

Se nós amamos a Deus e desejamos sermos reconhecidos como cristãos, nós deveríamos nos encher de dor diante do infortúnio deste grande império (o grego) e pelo assassinato de tantos cristãos.


Mas só a dor não satisfaz todo o nosso dever. O exemplo do Redentor e o dever do amor fraterno exigem que engajemos nossas vidas para liberá-los.

Porque Ele deu sua vida por nós, nos ficamos obrigados a dá-la pelo nosso irmão? (1 Jn 3:16).

Sabei, portanto, que nós confiamos na graça de Deus e no força de seu poder e que estamos trabalhando por todas as formas possíveis e fazendo preparativos para levar auxílio ao império Cristão (grego) tão prestes quanto possível.

Em conseqüência vos exortamos pela Fé que nos une em Cristo para fazer vossos os sofrimentos dos filhos de Deus, e pela autoridade de São Pedro, príncipe dos apóstolos, vos conjuramos para que, tocado de justa compaixão pelas feridas e o sangue de vossos irmãos e pelo perigo em que se encontra dito império, pela glória de Cristo, vós assumais a difícil tarefa de dar auxílio a vossos irmãos gregos.

Enviai-nos mensageiros para nos informar do que Deus tenha vos inspirado nesta matéria.

(Fonte: Migne, Patrologia Latina, 148:329 [tradução para o inglês de Oliver J. Thatcher, and Edgar Holmes McNeal, eds., A Source Book for Medieval History, New York, Scribners, 1905, 512-13].

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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Roger, príncipe de Antioquia, entrou até nas lendas dos muçulmanos


Em 1113, o sultão seljúcida da Pérsia e o califa de Bagdá empreenderam mais uma contra-cruzada. Dois exércitos turcos convergiram no sul do lago Tiberíades.

Balduíno I lançou um premente apelo aos príncipes francos. Mas, as devastações das bandas turcas tinham-no exasperado. Ele não aguardou os outros príncipes. Apenas com 700 cavaleiros e 4.000 infantes caiu como um raio sobre os turcos em Sinn en-Nabra, a 20 de junho de 1113. Os turcos, porém, tinham montado uma emboscada que Balduíno I não percebeu.

Ele viu-se subitamente envolto pela cavalaria de elite turca esmagadora em número. Pegando a bandeira do reino nas próprias mãos ele lutou até o ultimo momento congregando os seus. No fim, deixou o campo de batalha com a maioria dos cavaleiros e se refugiou na cidade de Tiberíades.

Ali recebeu os reforços de Tancredo, príncipe de Antioquia, e Pons conde de Trípoli que chegaram com bela cavalaria.

Lealmente, o rei acusou-se diante deles pela sua falta, e depois reuniu o conselho. O exército franco foi reconstituído, mas a superioridade numérica turca ficava sempre imensa.

As bandas turcas e árabes começaram a saquear as aldeias vizinhas de Tiberíades.

Mas, Balduíno I, agora mais prudente teve a energia de não cair nas provocações. Após um mês o chefe turco compreendeu que tinha fracassado e empreendeu a retirada para Damasco.

Em 1115, o sultão da Pérsia enviou mais um exército numa nova contra-cruzada, desta vez sob o comando do emir de Boursouq, com ordens de reconquistar a Síria.

Mas os chefes francos voltaram a reafirmar sua unidade. Vendo a formidável coesão cristã, os emires locais preferiram se unir a eles antes de que aos turcos. Boursouq percebeu que seria impossível romper esse frente.

Então, ele fingiu que tinha renunciado à empresa e se encaminhou para Djéziré.

A coalizão não desconfiou e cada um voltou para seu feudo.

Assim que os francos se dispersaram, Boursouq deu meia volta e invadiu a Síria.

Roger de Antioquia, sucessor de Tancredo correu às armas. Não havia mais tempo para aguardar pelo retorno do rei Balduíno I. Apelou para os príncipes vizinhos e correu ao encontro dos turcos, dissimulando sua marcha pelo maciço florestado de Feiloun.

Roger enviou em missão de reconhecimento um dos seus melhores cavaleiros: Teodoro de Barneville.


Teodoro voltou quase se alastrando. Os turcos estavam muito perto, do outro lado do bosque montando suas tendas.

Gautier nos relata a alegria épica do exército católico normando quando soube da surpresa que se preparava.

Roger deu o sinal de montar:

“Em nome de nosso Deus, às armas, cavaleiros!”

A relíquia do Santo Lenho foi exposta aos esquadrões que partiam em tromba rumo a Tell-Danith naquela madrugada de 14 de setembro do ano do Senhor de 1115.

Roger galopava à testa do centro, Balduíno du Bourg, conde de Edessa, comandava a ala esquerda. Na direita ia a cavalaria indígena dos turcopoles, recrutados na Síria franca.

Toda essa cavalaria caiu encima dos turcos como um furacão. De início, o acampamento turco desguarnecido foi conquistado num instante.

Logo a seguir, os francos lançaram-se sobre as divisões turcas que chegavam dispersas e foram pegas de surpresa.

Boursouq com 800 cavaleiros tentou reagrupar os seus no morro de Tell Danith, mas a elevação foi tomada de assalto por Balduíno du Bourg e ao chefe turco só restou fugir.

Boursouq morreu de desgosto voltando para Hamadã.

O reino turco-árabe de Alepo caiu logo sob o protetorado de Roger.

Esta brilhante vitória valeu ao príncipe de Antioquia um prestígio inaudito no mundo muçulmano. Sob o nome de Sirodjal (Senhor Roger) ele iria se imortalizar na legenda muçulmana do mesmo modo que Ricardo Coração de Leão.

(Fonte: René Grousset, “L’epopée des croisades”, Perrin, Paris, 2002, cap. IV)

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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Carta de D. Manassés II, arcebispo de Reims, encomendando ações de graças pela conquista de Jerusalém


Manasses, arcebispo de Reims pela graça de Deus, a seu irmão Lamberto, bispo de Arras; cumprimentos em Jesus Cristo.

Seja-nos permitido, caríssimo irmão, vos fazer conhecer uma notícia verdadeira e gaudiosa que chegou até nossos ouvidos, e que nós acreditaríamos não provir de fonte humana, mas da Divina Majestade. A saber:

Jerusalém ergue-se, com alegria e gratidão, na cimeira em que Deus quis elevá-la gloriosamente nos nossos tempos. Jerusalém, a cidade de nossa Redenção e de nossa glória, delicia-se com inconcebíveis alegrias, porque graças ao esforço e incomparável empenho dos filhos de Deus foi liberada da mais cruel servidão dos pagãos.

Regozijemo-nos também nós, porque nossa fé cristã em tempos como estes foi estabelecida como um espelho vivo da luz eterna.

Portanto, nós vos admoestamos, exortamos e instamos, não somente em atenção às cartas de Nosso Senhor o Papa Pascual, mas também das humildíssimas orações do duque Godofredo, que o exército de Cristo divinamente conduzido elevou à condição de Rei, como também das doces súplicas de Monsenhor Arnolfo, que foi unanimemente escolhido Patriarca da Sé de Jerusalém – nós ordenamos com o mesmo afeto que Vós tendes por cada uma de vossas paróquias, que sem falta, sejam elevadas solenes orações e ações de graças para que o Rei dos Reis e o Senhor dos Senhores coroe o Rei dos Cristãos com a vitória contra o inimigo, e ao Patriarca com a religião e a sabedoria contra as seitas e as artimanhas dos heréticos.


Nós ordenamos, da mesma maneira, e exortamos, por meio de vossa obediência, que ordeneis com vossa autoridade a todos os que prometeram sair na expedição e que se impuseram o signo da Cruz, a partirem para Jerusalém, se eles estão fortes de corpo e possuem meios para empreender a viagem.

Em relação aos outros, não cesseis de admoestá-los prudentemente e com o maior tato para não negligenciarem suas ajudas aos ministros de Deus, de maneira que não só o mais elevado, mas o mais inferior, possa receber o espórtula devida àqueles que trabalham a vinha do senhor.

Despeço-me…

Rezai pelo bispo de Puy, pelo bispo de Orange, por Anselmo de Ribemont, e por todos aqueles que hoje repousam em paz, coroados com um tão glorioso martírio.

(Fonte: August. C. Krey, “The First Crusade: The Accounts of Eyewitnesses and Participants”, Princeton, 1921, 264-65. Internet Medieval Source Book)


D. Manassés II (falecido em 17 de setembro de 1106) foi arcebispo de Reims (1096–1106) no tempo da primeira Cruzada.

Da nobre linhagem da casa de Châtillon, foi filho de Manassés o Calvo, vidame de Reims. Foi aluno de São Bruno e firme defensor dos direitos episcopais.

O bem-aventurado Papa Urbano II escreveu dele que “nasceu cheio de zelo”. Ele morreu rodeado pelos cônegos de Saint-Denis de Reims tendo deixado muitas cartas que refletem seu episcopado e o movimento pelas cruzadas no norte da França.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Balduíno I estabeleceu solidamente o reino franco de Jerusalém

Godofredo de Bouillon, primeiro rei  de Jerusalém -- embora não quis portar o título, e ser tratado de Defensor do Santo Sepulcro -- faleceu pouco depois da tomada da Cidade Santa, enquanto consolidava a conquista.

Nesse tempo, os turcos prepararm uma segunda anti-cruzada. Assim descreve os fatos o famoso historiador René Grousset:

Balduíno I entra em Edessa

Mais uma vez, o atabeg de Mossul, Maudoud foi posto à cabeça das forças turcas.

Na primavera de 1111, o exército turco testou as muralhas de Edessa. Porém, elas tinham sido reforçadas por Balduíno I e era impossível tomá-las de assalto. Maudoud dirigiu-se contra o principado de Antioquia.

Os francos concentraram-se. Lado a lado, Balduíno I, rei de Jerusalém; Tancredo, príncipe de Antioquia; Balduíno du Bourg, conde de Edessa, e Bertrand, conde de Trípoli conduziam 16.000 cavaleiros, sargentos e ajudantes.

Diante de tropas francas de tal maneira unidas, Maudoud perdeu coragem e o grande exército turco voltou a travessar o Eufrates sem obter sucesso algum...

Tal resultado foi a obra própria de Balduíno I. A Síria franca, até então constituída por farrapos de território dependentes de aventuras individuais, desde a morte de Godofredo de Bouillon não possuía nenhum estatuto de conjunto, nenhuma coesão.


Foi Balduíno I que criou a Síria franca. Assumindo para isso, primeiro o título real, e depois as funções de rei, com todas as obrigações que o título e a função comportavam, prestando a seus vassalos sem cessar os serviços do suserano feudal, lhes impondo a união face ao inimigo.

Eleição e coroação de Balduíno I

A campanha de 1111 patenteou que ele era o chefe incontestado, o federador das energias francas.

Desde então até 1186 a Síria franca formou um todo solidário, a despeito da partilha feudal. As instituições fundadas pelo gênio do primeiro Balduíno garantiram ao país 86 anos de estabilidade.

A Síria franca encontrou seus capetíngios.

Balduíno de Boulogne, o primeiro rei franco de Jerusalém liberada por certo não foi um santo como seu irmão Godofredo de Bouillon.

Mas, do ponto de vista político foi o homem necessário, entalhado na medida certa exigida pela epopéia. Pois só ele, único entre todos esses paladinos, soube integralmente conduzir a epopéia.

Nele, o aventureiro sem escrúpulos deixou naturalmente lugar ao homem de Estado. Violência ou paciência, ímpeto ou cautela, todos esses elementos de uma densa personalidade nele ficaram controlados e dominados pela razão de Estado.

Os antigos gregos o teriam cognominado Balduíno o Fundador. Pois, o estado franco de Jerusalém, nascido de uma surpresa, por obra dele encontrou-se, de um dia a outro, estabelecido tão solidamente que ninguém ousou contestá-lo.

Morte de Balduíno I 

Posta aquela iniciativa extrema da Cristandade que foi a I Cruzada ele construiu a única coisa que podia ser feita para continuasse viável: uma sólida monarquia militar.

Qualquer que tenha sido a liberdade de seus costumes, ele irradiava majestade. Ele fundou uma legitimidade de direito divino ‒ a mais sagrada do mundo cristão! ‒ criando uma ponte com a realeza de David e de Salomão.

Em dezoito anos de reinado ele ditou os fundamentos de uma tradição monárquica igual ‒ porque fundada no rochedo de Sion ‒ à dos Capetos, do reino Anglo-Normando ou do imperador do Sacro Império Romano Alemão.

Toda a história posterior do reino de Jerusalém é fruto de sua obra.

(Fonte: René Grousset, “L’epopée des croisades”, Perrin, Paris, 2002, cap. IV)

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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Balduíno I, rei de Jerusalém: herói da concórdia dos príncipes católicos no Oriente Médio


Após a morte de Godofredo de Bouillon, tornou-se premente que os príncipes francos se unissem. A união aconteceu sob o enérgico impulso de Balduíno I, primeiro rei de Jerusalém (1110-1118).

De fato, em 1110, por vez primeira após a tomada da Cidade Santa o mundo turco se agitava preparando uma contra-cruzada.

O sultão seljúcida da Pérsia organizou uma grande expedição à testa da qual colocou seu ajudante Maudoud, emir de Mossul.

Em abril-maio daquele ano Maudoud sitiou a cidade de Edessa com um poderoso exército. Edessa (hoje Orfa) estava à testa de um condado franco que se estendia para além do rio Eufrates abarcando grande parte do norte do Iraque atual.

Vendo os turcos se aproximarem, Balduíno du Bourg, conde de Edessa enviou Jocelin de Courtenay a pedir auxílio para Balduíno I, rei de Jerusalém.

A situação piorara muito porque o vizinho príncipe de Antioquia, Tancredo, deveria ter fornecido uma ajuda mais rápida, mas dava claros sinais de má vontade.

Balduíno I partiu logo, recolhendo no caminho todos os contingentes disponíveis. Em poucas semanas reuniu quinze mil homens e com eles apareceu na planície de Edessa.

A crônica descreve com alegria a chegada de este exército de reforço

“as bandeiras e os elmos reluziam sob os raios do sol de verão, as trombetas soavam rumorosamente, era o enorme tumulto de muitas tropas”.

Os turcos não esperavam essa e bateram em retirada para Harran.

Edessa estava salva, mas o rei de Jerusalém percebeu a necessidade de acabar com as dissensões entre os francos. Ele, então, convidou Tancredo para vir explicar sua defecção.

Era tão viva a animosidade do príncipe normando que este hesitou em obedecer. Mas, afinal, decidiu ir, pois diante da ameaça turca uma ausência mais demorada equivaleria à traição.

Chegando a Edessa Tancredo foi cumprimentar ao rei recebendo cordial acolhida. Quando Balduíno I inquiriu as razões de sua atitude, Tancredo reivindicou a suserania de Edessa porque “a cidade pertenceu desde sempre a Antioquia”.

Alberto de Aix nos fornece a substância da réplica de Balduíno I, verdadeira sentença real, cheia de força e de majestade:

“Meu irmão Tancredo, o que tu pedes não é justo. Tu te fundas no estatuto de um país no tempo da dominação muçulmana, mas tu deves te lembrar que, quando nos partimos para a guerra santa, ficou acordado que cada um de nós guardaria tudo o que tirasse dos infiéis.


“Além do mais, vos tendes constituído um rei para que ele vos sirva de chefe, de salvaguarda e de guia na conservação e na dilatação da conquista. É por isso que eu tenho o direito, em nome de toda a Cristandade aqui representada, de te exigir uma reconciliação sincera com Balduíno du Bourg. Se não, se tu preferes intrigar com os turcos, tu não podes ficar um dos nossos e nós te combateremos sem piedade!”

Desta vez, Tancredo inclinou-se definitivamente.

Não foi pequeno o mérito de Balduíno I ter sabido na base da firmeza e das boas graças fazer cessar a oposição de Tancredo e associar à política real este antigo adversário pessoal.

Tancredo tornou-se um partidário decidido da concórdia franca até morrer em Antioquia em 12 de dezembro de 1112.

(Fonte: René Grousset, “L’epopée des croisades”, Perrin, Paris, 2002, cap. IV)

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Auxílios divinos na tomada e defesa de Antioquia


No ano de 1098, os cruzados chegaram a Antioquia, grande cidade do Oriente Próximo. A cidade estava poderosamente amuralhada. Mas com a ajuda de Deus conseguiram tomá-la.

Mas, poucos dias depois chegou imenso exército turco que inverteu totalmente os papéis. O exército da fé ficou sitiado por um mar de infiéis certos da vitória.

Foi então que se fez sentir um manifesto auxílio sobrenatural que deu novas forças aos católicos e os conduziu a uma histórica vitória.

Eis o relato de uma testemunha presencial.

Relato do monge armênio Hovannés (João) no fim de um manuscrito por ele copiado no mosteiro de São Barlaam, na cidade alta de Antioquia, durante as operações militares dos cruzados no ano de 1098 (traduzido do latim a partir do texto tirado do armênio pelo Pe. Peeters, “Miscellanea Historica Alberti de Meyer”, Louvain, 1946, p. 376).

“Neste ano o senhor visitou seu povo como está escrito “eu não vos abandonarei nem vos deixarei”. O braço todo-poderoso de Deus foi seu guia.

“Eles trouxeram o signo da Cruz de Cristo, e tendo chegado pelo mar, massacraram uma multidão de infiéis, e puseram os outros em fuga pela terra.

“Eles tomaram a cidade de Nicéia que assediaram durante cinco meses. Depois chegaram até nosso país, na região de Cilícia e da Síria, e investiram se espalhando em volta da metrópole de Antioquia.

“Durante nove meses eles sofreram e causaram às regiões vizinhas consideráveis lutas.


“Por fim, como a captura de um local de tal maneira fortificado não estava no poder dos homens, Deus todo-poderoso pelos seus conselhos obteve a salvação e abriu a porta da misericórdia.

“Eles tomaram a cidade e com o fio da espada trucidaram o arrogante dragão com suas tropas.

“E após um ou dois dias, chegou imensa multidão trazendo socorros a seus cúmplices muçulmanos.

“Em virtude de seu grande número e desprezando o pequeno número dos outros (cristãos) eles mostravam-se insolentes em relação ao imperador de Constantinopla dizendo: “Eu os matarei com minha espada, meu punho os dominará”.

“Durante quinze dias, os cruzados ficaram reduzidos à maior das angústias. Eles estavam esmagados pela aflição porque faltavam os alimentos necessários para a supervivência de homens e animais.


“Gravemente debilitados e espantados pela multidão dos infiéis, eles se reuniram na grande basílica do Apóstolo São Pedro e com poderoso clamor e uma abundante chuva de lágrimas, numa só voz pediam mais ou menos nestes termos: “Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, em quem nós esperamos e por cujo nome nós somos chamados cristãos, tu nos tendes conduzido até este lugar.

[N.: Os cruzados tinham achado a Santa Lança que atravessou o peito de Nosso Senhor Jesus Cristo]

“Se nos pecamos contra ti, tu tendes muitos meios para nos punir. Não queiras nos entregar aos infiéis para que eles enchidos de orgulho não possam dizer: ‘Onde está o Deus deles?’

E tocados pela graça da oração, eles se encorajavam uns aos outros dizendo: ‘O Senhor dará força a seu povo, o Senhor abençoará seu povo na paz’.

“Foi assim que montando audazmente cada um seu cavalo, eles precipitaram-se por cima dos ameaçadores inimigos, e os dispersaram, puseram-nos em fuga e os massacraram até o pôr do sol.

“Isso trouxe grande alegria aos cristãos, e houve abundante trigo e cevada, como nos tempos de Eliseu nas portas de Samaria.

“Por isso eles aplicavam a eles próprios o cântico profético: ‘Eu te glorifico Senhor, porque Tu cuidaste de mim, e por causa de mim Tu não deste alegria a meu inimigo’”.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A morte de Vivien


Todo o poema “La Chanson de Guillaume” gira em torno de uma batalha desenvolvida por Guilherme do Nariz Curvo contra os sarracenos de Deramé, na planície de Larchamp. Vivien atira-se à luta acompanhado de seu primo Girart. A batalha é calorosa e os franceses são dizimados. Ao cair da tarde, Vivien envia Girart a pedir ajuda a Guilherme.

O conde Vivien perdeu 10 homens, dos 20 que lhe restavam. Os outros perguntaram:

— Que faremos na batalha, amigos?

Disse Vivien:

— Em nome de Deus, senhores, escutai-me. Enviei Girart levando uma mensagem. Hoje mesmo vereis Guilherme ou Luís, o piedoso. Com um ou outro venceremos os árabes.

— Avante, pois, valoroso marquês — responderam eles.

E ei-los que marcham contra o inimigo.

Os pagãos colocaram Vivien em grande perigo. De seus 10 homens, não deixam um só vivo. É segunda-feira à noite, e ele fica só na peleja. Tendo permanecido só, com seu escudo, ele os atormenta com cutiladas repetidas. Com sua espada, ele abate uma centena.

— Não chegaremos ao final — diziam os pagãos — enquanto deixarmos seu cavalo vivo debaixo dele.

Eles o perseguem através dos montes e vales, como o caçador acua um animal selvagem. Um grupo o surpreende no meio de um pequeno vale. Atiram sobre ele flechas e dardos agudos, que se enterram no corpo de seu cavalo. Um bárbaro, montado em rápido cavalo, avança pelo meio do vale. Três vezes ele brandiu a lança que tem na mão direita, e numa quarta vez a lançou. O projétil se enterra no lado esquerdo da cota de malhas, fazendo saltar 30 escamas. Vivien recebe no corpo uma grave ferida, e sua insígnia branca lhe escapa das mãos. Jamais ele a reerguerá.

Ele coloca a mão atrás de si, sente a haste e extrai o dardo de seu corpo. Ele atinge o pagão nas costas e lhe enterra o ferro nos rins. De um só golpe ele o faz cair morto.

— Adeus, patife! Bérbere perverso! — brada o jovem Vivien — Não retornarás mais a teu país, e jamais te vangloriarás de ter matado um nobre de Luís.

Depois ele tira sua espada e retorna a combater. Quando ele golpeia as cotas de malha e os elmos, seus golpes os abatem até o chão.

— Santa Maria, Virgem Mãe e Donzela, enviai-me Luís ou Guilherme. Deus, Rei da glória, a quem devo a vida, vós que nascestes da Virgem Maria e cujo corpo foi criado em união com as Três Pessoas; vós que pelos pecadores sofrestes sobre a Cruz; que fizestes o céu e as estrelas, a terra e o mar, o sol e a lua, Eva e Adão para povoar o mundo, tão verdadeiramente como sois o verdadeiro Deus, impedi-me de ser tentado a recuar um só passo. Antes, que eu perca a vida. Fazei que eu observe meu voto até a morte, e que, graças à vossa bondade, não o atraiçoe. Santa Maria, Mãe de Deus, tão verdadeiramente que carregais Deus como vosso filho, protegei-me, por vossa santa piedade, para que os vilões sarracenos não me matem.

Logo que pronunciou essas palavras, se arrependeu:

— Tive um pensamento tolo, querendo evitar a morte. Nosso Senhor não agiu assim, Ele que sofreu, por nossa Redenção, a morte dos crucificados. Não devo, Senhor, pedir um adiamento da morte, posto que Vós mesmo não quisestes isso. Enviai-me Guilherme de Nariz Curvo ou Luís, que governa a França. Graças a ele nós obteremos a vitória.

O calor era forte, como em maio, durante o outono. Os dias eram longos, e ele jejuava havia três dias. Sofria os tormentos da fome e da sede. O sangue claro escorria de sua boca e da chaga que tinha ao lado esquerdo. Não havia água nas proximidades; a menos de quinze léguas, não conseguiria encontrar nem riacho nem fonte; não havia senão água salgada, das ondas marinhas.

No entanto, no meio da planície corre um vale com água lamacenta, brotada de uma rocha à beira-mar, que os sarracenos turvaram com seus cavalos. Está suja de sangue e de miolos. O bravo Vivien corre para lá e, inclinando-se, toma a contragosto aquela água salobra.

Os inimigos fazem chover sobre ele os golpes de lança, mas a cota é sólida e lhe protege o busto. Somente suas pernas e seus braços recebem mais de vinte ferimentos. Ele então se reergue, como um javali feroz, e tira a espada que lhe pende ao lado. Defende-se com coragem, mas os outros o atormentam como os cães a um javali. A água salobra que ele bebeu, e que não pode reter, lhe sai pela boca e pelo nariz. Ele sofre tanto, que sua vista se turva e ele perde a direção. Para acabar com sua bravura, os pagãos o cercam mais de perto.

Os inimigos o cobrem de golpes de lança e flechas de aço, por todas as partes. Elas se cravam em seu escudo, tão numerosas que o conde não o pode manter à altura de sua cabeça, e o deixa escorregar para os pés.

Lançando setas agudas, dardos e ferros, os inimigos despedaçam a cota do conde. O aço cortante fende o ferro leve de seu peito coberto de malha. Suas entranhas saem para fora. Como ele sente que seu fim está próximo, roga a Deus misericórdia.

Vivien caminha através da planície, arrastando suas entranhas entre seus pés e segurando-as com a mão esquerda. Seu elmo afunda até a altura do nariz. Em sua mão direita ele segura uma lâmina de aço, vermelha da copa à ponta e até à bainha ensangüentada.

Já atormentado pela agonia da morte, ele caminha sustentado por sua espada. Pede com fervor a Jesus Todo-Poderoso de lhe enviar Guilherme, o bom francês, ou o Rei Luís, valente guerreiro.

— Verdadeiro Deus de glória, unido em Trindade, Tu que nasceste da Virgem Maria e foste criado em união com as Três Pessoas, Tu que foste crucificado pelos pecadores, defende-me, ó Pai! Por tua santa bondade, para que eu não seja tentado a recuar um passo sequer na batalha, envia-me, Senhor, Guilherme do Nariz Curvo, porque ele sabe dirigir uma batalha. Deus, nosso Pai, Rei glorioso e forte, que jamais me venha a idéia de recuar um passo por medo da morte.

Um bérbere, vindo pelo pequeno vale e dando galope a seu cavalo rápido, fere na cabeça o nobre barão, com uma lança de aço que leva na mão direita, e seus miolos se espalham pela grama. Vivien cai de joelhos. É uma grande perda a morte de um tal homem!

Os pagãos, surgindo de todas as partes, fazem em pedaços o seu cadáver. Eles o levam e o colocam sob uma árvore, ao longo do caminho, para que os cristãos não o achem mais.

No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange — Guilherme do Nariz Curvo — tinha sido derrotado pelos sarracenos. Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes. Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino, que apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado. Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha, Guilherme reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

— Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico? — e lhe mostrou uma Hóstia consagrada. — Porém é preciso que faças tua confissão.

— Eu quero muito — responde uma voz fraca — mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste Pão. Eis minha confissão: Não me recordo de uma só falta, a não ser que eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito, e a aproxima dos lábios entreabertos de Vivien, cujos olhos se iluminam. A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.

(Fonte : “La Chanson de Guillaume”; “Extraits des Chansons de Geste” - Larousse, 1960, pp. 53; Funck-Brentano, “Féodalité et Chevalerie”)

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Simão de Montfort, líder da cruzada contra os heréticos albigenses (II)

Simon de Montfort, batalha de Muret, Herois medievais“Levanta-te e cinge-te da espada”

O Papa, temendo o desaparecimento da Igreja naquelas paragens, incentivou Simão de Montfort a combater tenazmente os hereges:

“Eia, paladino de Cristo, o sangue dos justos clama a ti para que ponhas diante da Igreja o escudo da fé contra seus inimigos! levanta-te e cinge-te da espada”.
Acusa-se de excessos a Simão de Montfort em sua campanha, mas tem-se que levar em conta os usos bárbaros que ainda persistiam de algum modo naquele século.

Sobretudo é necessário ressaltar que a crueldade dos albigenses em seus ataques às igrejas e mosteiros, seu ódio à Religião católica e seu fanatismo religioso causavam justa indignação no ânimo de seus adversários católicos.

Ademais, aquela guerra adquirira ainda o caráter de uma guerra de civilizações,
“pelo ódio que dividia então as duas raças – os franceses do norte e os franceses do sul – tão diferentes pela sua língua, costumes e grau de civilização”.
Se não fosse o valor e a energia de Simão de Montfort, provavelmente a heresia albigense teria dominado não só o sul da França, mas teria se estabelecido na Itália e outros países europeus.

Monségur, último castelo cátaro tomado pelos Cruzados. As CruzadasEm 1213 Simão derrotou o Rei Pedro de Aragão, genro de Raimundo, na batalha de Muret.

Os albigenses foram então esmagados, mas Simão continuou a guerra como uma guerra de conquista, sendo indicado, pelo Conselho de Montpellier, senhor de todos os recém- conquistados territórios, como Conde de Toulouse e Duque de Narbonne (1215). O Papa confirmou essa indicação, entendendo que ele efetivamente completaria a supressão da heresia.

Mas não era o fim da guerra. Em 1218 Raimundo voltou da Espanha, para onde fugira. Com a ajuda de seu sobrinho Jaime I, de Aragão, formara poderoso exército, e com ele cercou Toulouse.

Simão de Montfort estava assistindo à Missa quando lhe foram dar a notícia.

Era antes da Consagração. Respondeu ele: “Não vou enquanto não tiver visto meu Salvador”.

E quando o sacerdote elevava a Hóstia, ele estendeu as mãos ao céu e exclamou: “Senhor, deixa que teu servo morra em paz, se é tua vontade”.

Logo montou a cavalo e correu para o lugar da luta, quando viu seu irmão Guido de Montfort caindo do cavalo, ferido por uma seta.

Morte de Simon de Montfort, Heróis medievaisNesse momento uma pedra, atirada por uma máquina de guerra, lhe rompeu a cabeça. Ele morreu recomendando sua alma a Deus. Foi enterrado no mosteiro de Haute-Bruyère.

À morte do intrépido comandante, os cruzados retiraram-se para um acampamento fortificado, enquanto na cidade os rebeldes, de alegria, fizeram tocar a repique os sinos de todas as igrejas.

Dos três filhos do heróico comandante, o mais velho, Amaury, herdou suas possessões francesas; e o caçula, com o mesmo nome que o pai, sucedeu-o como barão de Leicester, desempenhando um importante papel na história da Inglaterra.

Amaury, filho de Simão, estava longe de ter o valor do pai. Tanto ele quanto Raimundo VII, que também sucedera ao pai, cederam seus direitos sobre o território ao rei da França.

O Concílio de Toulouse, em 1229, confiou a vigilância religiosa do território à Inquisição. Mais tarde, em 1233, esta passou aos dominicanos.

Mas a perniciosa heresia só iria desaparecer no fim do século XIV.

Entretanto, Simão de Montfort lhe havia dado o golpe mortal.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Simão de Montfort, líder da cruzada contra os heréticos albigenses (I)

Simon de Montfort, selo, Heróis Medievais
Simão IV, conde de Montfort, foi o segundo filho de Simão III e de Amícia, filha de Roberto de Beaumont, conde de Leicester, na Inglaterra. Nasceu aproximadamente em 1150.

Tendo sucedido a seu pai como barão de Montfort em 1181, casou-se em 1190 com Alice de Montmorency, de quem teve três filhos.

Em 1198 partiu para a Palestina com uma tropa de cavaleiros franceses, mas obtiveram poucos êxitos.

Em 1202 participou da IV Cruzada. Mas vendo que seus companheiros se desviavam do fim piedoso que os tinha movido, e tomaram de assalto Constantinopla, separou-se deles e foi para a Terra Santa, onde se cobriu de glória.

Montfort l'Amaury, cidade natal de Simon de Montfort, perto de Pariws, Heróis medievaisAlguns anos mais tarde, em 1209, aderiu à cruzada convocada pelo Papa Inocêncio III contra os albigenses, no sul da França.

Quem eram os albigenses

Tomando o seu nome da cidade de Albi, ao sul da França, centro da heresia, essa seita panteísta e maniqueísta pregava a existência de dois princípios (ou deuses) opostos, um bom e outro mau.

O bom era o criador do mundo espiritual, e o mau o do material.

Eram considerados males — frutos do princípio mau — os fenômenos naturais, como o crescimento dos homens, animais e plantas, e mesmo os fenômenos extraordinários, como terremotos; esse princípio mau era também responsável pelas desordens sociais, como a guerra.

Imoralíssimos cátaros expulsos pelos Cruzados anti-albigenses. As CruzadasFora ele quem criara o corpo humano, e, sendo responsável pela matéria, era o autor do pecado, o qual teria sua origem nela, e não do espírito.

Por isso a procriação era também um mal, porque perpetuava a matéria. Foram eles precursores dos atuais inimigos da vida, utilizando preservativos e práticas anti-natalistas.

Daí tiravam como conseqüência os maiores absurdos. O ideal para os mais perfeitos era aniquilar o corpo até atingir uma espécie de nirvana budista.

Para livrar-se da matéria pecaminosa, alguns chegavam a tais excessos, que procuravam a morte pela abstenção da comida e da bebida (endura), por sangramentos ou veneno, ou ainda fazendo-se degolar para não voltar a cair na classe dos impuros.

Segundo essa doutrina, Cristo, como era perfeito, só tinha espírito. Seu corpo material era apenas uma aparência. Com isso, conseqüentemente, negava-se sua paixão e morte real; negavam também a maternidade divina de Nossa Senhora e os Sacramentos.

Quéribus, fortaleza catara conquistada por Simon de Montfort, Heróis medievaisEvidentemente, os albigenses eram contra a Igreja enquanto instituição e contra sua Hierarquia, e visavam sua extinção, como também a do Estado. Constituíam uma seita “socialista, ou seja, anarquista”, contrária ao casamento e à propriedade privada, e mesmo contra a raça humana, ao pregar o suicídio.

Desejavam extinguir a Igreja e instalar um Estado onde só houvesse puros. O Papa Inocêncio III dizia que os albigenses eram piores que os sarracenos.

Quando os albigenses adquiriram força suficiente, com o auxílio de vários senhores da região, aos poucos começaram a atacar igrejas e mosteiros, a expulsar bispos de suas cidades e a ameaçar os fiéis. A situação chegou a tal estado de calamidade, que uma testemunha ocular declara: “Vi igrejas incendiadas e destruídas até os alicerces, e vi os mosteiros transformados em habitação dos animais do campo”.

O grande São Bernardo, visitando aquela região, registra que encontrou “as igrejas sem povo, o povo sem sacerdotes, os cristãos sem Cristo”.

Carcassonne não resistiu ao embate dos cruzados. Heróis medievaisTal seita teve um grande defensor no conde Raimundo VI, de Toulouse, que “levava uma vida licenciosa, havia-se casado cinco vezes e voltara a se separar de suas mulheres ao seu capricho; atribuíam-se a ele os lances mais licenciosos”.

Outros senhores da região, que levavam vida igualmente licenciosa, favoreceram também a heresia.

Papa Inocêncio III procurou antes ganhar os hereges pela persuasão, enviando entre eles monges cartuxos como missionários. Mas os hereges não lhes deram ouvidos e continuaram em sua impiedade.

Simon de Montfort, Toulouse restaura muralhas destruídas por Simon de Montfort, Herois medievaisO Pontífice incitou então o conde de Toulouse a perseguir seus súditos hereges.

Raimundo VI fez jogo duplo, expulsando alguns deles, mas concorrendo para o assassinato do legado papal, Pedro de Castelnau (1208). Inocêncio III então o excomungou, desligando seus súditos do juramento de fidelidade, e pregou uma cruzada contra os albigenses.

Entretanto, o rei da França, Felipe Augusto, suserano de Raimundo VI, e por isso mais diretamente responsável pela cruzada, não acorreu ao chamado do Papa por estar em guerra contra João Sem-Terra, da Inglaterra. Mas liberou seus vassalos para esse fim.

Uma multidão deles atendeu ao apelo pontifício, entre os quais o conde Simão de Montfort, que logo foi eleito capitão general da empresa.

Foi ele o homem talhado para tal, pois

“era da madeira de que se fazem os fundadores de Estados. Se bem que já com 60 anos de idade, era ainda um homem formoso, hábil, prudente, intrépido, de heróico valor, incansável, eloqüente, afável; soube inspirar em seus súditos uma fervorosa adesão, e exercia sobre seus inimigos uma forma de fascínio que os paralisava”.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Em Alcoraz São Jorge entrou de cheio na luta trazendo um cruzado alemão desde Terra Santa


Em 1096, o exército católico assediava a cidade de Huesca (Espanha). Ele era dirigido pelo rei de Aragão Sancho Ramírez.

O rei tinha construído a cidadela de Montearagón (foto), hoje em ruínas, como quartel geral do sítio da cidade.

Ela fica sobre o morro chamado desde então de São Jorge.

A batalha já havia começado quando chegaram topas muçulmanas desde a grande cidade de Zaragoza.

O rei morreu e tudo virou para o desastre. Foi quando apareceu São Jorge e a batalha foi ganha pelos cristãos.

A cidade de Huesca capitulou, então, ante o novo rei Pedro I.

Uma crônica do tempo relata a miraculosa intervenção do santo comandante cristão:

“… invocando o Rei o auxilio de Deus nosso senhor, apareceu o glorioso cavaleiro e mártir São Jorge, com armas brancas e resplandecentes, sobre um muito poderoso cavalo ajaezado com paramentos prateados.

“Ele trazia um cavaleiro na garupa, e ambos os dois com Cruzes vermelhas nos peitos e escudos, divisa de todos os que naquele tempo defendiam e conquistavam a Terra Santa, e que agora é a Cruz e o hábito dos cavaleiros de Montesa.

“E fazendo sinal ao cavaleiro que vinha na anca para que apeasse, começaram a combater ambos os dois de modo tão forte e denodado contra os Mouros, e davam-lhes golpes tão mortais, um lutando a pé e o outro no cavalo, que abriam clareiras por onde quer que iam, e reuniam e acaudilhavam os Cristãos.

“O cavaleiro que trouxe o santo mártir São Jorge, diz a história de São João de la Peña alegada por Zurita, que era alemão, e que naquele dia e hora pelejava em Antioquia junto com os demais cruzados.

“Mas os mouros abateram seu cavalo e rodearam-no para matá-lo; nesse momento apareceu o glorioso São Jorge, sem que o bom cavaleiro alemão entendesse nem soubesse quem era … e ajudou ele para subir na garupa do cavalo, e o tirou da batalha, e instantaneamente transportou-o para Aragão, ao local onde se dava a batalha do Rei com os Mouros, então lhe fez sinal que apeasse e pelejasse….

“Espantaram-se os inimigos da fé vendo aqueles dois cavalheiros cruzados, um a pé e outro no cavalo. E como Deus os perseguia começaram a fugir a ver quem mais podia.

“Pelo contrario, os Cristãos, embora ficassem maravilhados vendo o novo estandarte da Cruz: sendo Cruz alegraram-se, e redobraram seus esforços ferindo os Mouros: e assim os enxotaram do campo e acabaram vencendo”.

Alcoraz não foi o único nem o último prodígio em que São Jorge interveio como terrível capitão dos cruzados.

Jaime I, rei de Aragão e cronista, conta que na campanha de Valencia quando nobres e cavaleiros, aragoneses e catalães, “estavam num morro agora conhecido como Santa María del Puig, veio contra eles a mourama toda, e na grande batalha que logo se entabulou entre todos eles, apareceu São Jorge com muitos cavaleiros do paraíso que ajudaram a vencer a batalha na qual não morreu cristão algum”.

O próprio Jaime I deixou consignado que na conquista de Mallorca, “segundo contaram-lhe os sarracenos, estes vieram entrar primeiro a cavalo um cavaleiro branco com armas brancas”.

Segundo o rei este cavaleiro foi São Jorge, “pois se encontra em outras histórias, que em outras batalhas ele foi visto muitas vezes por cristãos e sarracenos”.

Os cruzados trouxeram para Ocidente a devoção a São Jorge desde Terra Santa. Lá o santo era famoso pelas suas proezas, coragem, espírito de maravilhoso e de cortesia.

(Fonte: “La batalla de Alcoraz”, segundo Diego de Aínsa, 1619).

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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

João Sobieski (II), o rei cruzado que salvou Europa

Jan III Sobieski libera Viena
Por volta de 1680, os islamitas voltaram-se contra a Áustria. “Havia sete anos eles se armavam desde o Danúbio até o Eufrates, desde o Mar Adriático até as Cataratas do Nilo; em todos os portos se embargavam os navios estrangeiros, para passar da Ásia e África à Europa”.

Assim, com uma impressionante armada, “cuja descrição traz à memória a expedição de Xerxes contra a Grécia”,(2) com cerca de 300 mil homens os turcos atravessaram a Hungria, uma grande parte da qual havia sido por quase 150 anos dominada por eles, e encaminhavam-se para Viena.

A situação era alarmante, pois se os turcos dominassem a Áustria, estaria ameaçada toda a Cristandade.

“Foi um momento transcendental na História do mundo; importante como o ano de 732, quando os árabes, diante de Tours, lutavam pelo senhorio da Europa. [...] Pode-se dizer, com razão, que a independência da Alemanha estava nos muros de Viena; a meia-lua plantada de um modo duradouro nas muralhas de Viena teria mudado o curso da História universal”.(3)

Beato Papa Inocencio XI pregou a Cruzada contra os turcos para liberar Viena, túmulo em altar da basílica de São Pedro, RomaLancinante apelo do Papa Inocêncio XI

Percebendo toda a transcendência do perigo turco, o Papa de então, o Bem-aventurado Inocêncio XI, fez todo o possível para procurar auxílio em prol da ameaçada Áustria: “Conjuro-te pela misericórdia de Deus — escrevia a Luís XIV — que acudas em auxílio da oprimida Cristandade, para que não caia sob o jugo do horrível tirano”.(4)

O monarca francês respondeu evasiva e friamente, com vãs desculpas e com acusações à corte de Viena.

O Soberano Pontífice apelou então para a Polônia. João Sobieski não foi surdo ao pungente apelo. Sabia bem que se Viena caísse, a Polônia tornar-se-ia fácil presa para o Islã.

Em 31 de março de 1683, por mediação do Papa, ajustou-se uma aliança defensiva e ofensiva com o Imperador, contra os turcos, da qual se fez garantia o Papa, e que não só juraram os dois soberanos [o Imperador e Sobieski], mas também seus plenipotenciários e os cardeais” que os representavam.(5) O Imperador comprometia-se a mandar 60 mil homens para a campanha, e o rei da Polônia, 40 mil.

Jan III Sobieski em Czestohowa, diante da padroeira da PoloniaO astuto rei polonês, baseado nos seus espias, e contra a opinião geral, afirmava que os turcos iriam diretamente sobre Viena. Por isso, pôs-se a caminho da capital austríaca, levando consigo seu filho Jacó Luís, de apenas 16 anos de idade.

Passando por Czestochowa, as tropas rezaram pedindo à Mãe de Deus a bênção para suas armas.

Enquanto isso, o Vizir Kara Mustafá havia chegado próximo a Viena e organizado o cerco da cidade, que era defendida pelo valente Conde de Stahrenberg, à frente de 15 mil homens. O Imperador teve que deixar a cidade.

Os turcos devastavam tudo nos arredores, praticando incêndios, assassinatos e violências. Faziam muitos prisioneiros nas aldeias em redor de Viena.

Parte da população levavam como escravos, e parte matavam sem misericórdia. Vendo o estado de muitos desses infelizes que conseguiram escapar, mais de 60 mil habitantes de Viena fugiram da cidade sitiada.

Escudo e armas turcas, troféus de guerra no Museu Czartoryski, Cracóvia“Vencer com glória ou morrer como cavalheiro”

Para incentivar seus homens e os cidadãos de Viena à resistência, o Conde de Stahrenberg fez-lhes uma preleção que terminava com as palavras: “Preferimos uma morte gloriosa no campo de honra que entregarmo-nos aos inimigos. [...] Segui-me como vosso líder, cordial e alentadamente, já que penso ou vencer com glória ou morrer como cavalheiro”.(6)

Os olhos da Europa estavam voltados para Viena, e em todas as igrejas, por ordem do Papa, foi exposto o Santíssimo Sacramento.

Quando Sobieski chegou com seu exército libertador nas proximidades de Viena, em 11 de setembro, a cidade exangue já estava em seus últimos haustos. No dia seguinte os cristãos cruzaram o Danúbio e juntaram-se às forças alemãs, sob o comando do Eleitor da Saxônia, João Jorge, e do Príncipe Carlos de Lorena. O total das forças cristãs chegava a 84 mil homens, sendo 38 mil infantes e 46 mil ginetes.

João III SobieskiAo saberem da chegada de Sobieski, os turcos foram tomados de terror, ainda mais que já estavam agastados com a duração do cerco, que excedia os usuais 43 dias, e suas fileiras estavam sendo dizimadas pelas balas dos resistentes e pela peste.

Mas tinham ainda 170 mil guerreiros, sem contar as divisões que estavam na Hungria.

“Promessa: vitória se houver confiança em Deus”

Na manhã do dia 12 de setembro de 1683, travou-se a famosa batalha. Antes, na madrugada desse dia, Sobieski com todo seu estado-maior assistiu à Missa celebrada por um capuchinho enviado por Inocêncio XI, Frei Marco d’Aviano, que tinha fama de santidade e de visão profética do futuro.

O próprio Sobieski acolitou a Missa. No fim desta, depois de abençoar o exército, Frei d’Aviano disse aos combatentes: “Em nome do Santo Padre, vos digo que a vitória é vossa, se tiverdes confiança em Deus”. Nesse momento Sobieski armou seu filho cavaleiro.

Depois, quando os dois exércitos estavam frente a frente, Sobieski deu sinal para o combate com o grito: “Deus é nosso auxílio!”

Armaduras de hussardos poloneses, Museu Czartoryski, CracóviaA resistência dos turcos foi desesperada. Por duas vezes foram acuados, e por duas vezes refizeram-se e contra-atacaram.

Em determinado momento daquela carnificina, os hussardos (foto ao lado) carregaram com sua habitual impetuosidade sobre o inimigo, mas este era muito compacto e parecia impenetrável. Por isso os hussardos recuaram para nova investida.

Mas os inimigos, tomando aquilo como fuga, correram atrás deles, abrindo assim sua defesa. Os hussardos então voltaram-se contra eles, junto a um reforço, abrindo grandes clareiras em meio ao inimigo e gritando o nome de Sobieski. Os turcos debandaram em desordem, enquanto o rei polonês e seus cavaleiros lançavam-se em sua perseguição.

Os dois lados lutavam valentemente. Sobieski estava em toda parte comandando, combatendo, encorajando seus homens e impelindo-os sempre para a frente. Ele foi o primeiro a entrar no campo infiel. Kara Mustafá já havia fugido, os turcos foram vencidos e a Cristandade estava salva.

Joao III Sobieski entra em VienaVitória por Deus numa luta a Ele consagrada

Sobieski enviou ao Papa a notícia da vitória, junto ao “Estandarte do Profeta” tomado aos turcos.

“Prostrado, com os braços abertos, Sobieski declarou que era pela causa de Deus que ele estava lutando, e Ele quem dera a vitória: ‘Veni, vidi, Deus vincit’, escreveu ele em sua carta a Inocêncio XI”.(7)

Sobieski atacou ainda os turcos na Hungria, fazendo-os recuar ainda mais, e depois voltou à Polônia para passar o inverno. O perigo turco estava quebrado para sempre.

De volta à pátria, Sobieski passou seus últimos anos no seio da família, onde veio a falecer em 1696, consumido pelas preocupações políticas e pela doença.

“Ele amava as ciências, falava várias línguas, e não se fazia menos amar pela doçura de seu caráter que pela atração de sua conversação”.(8)

(Fonte: José Maria dos Santos, Catolicismo, janeiro de 2005)

Notas: 1. S. Tarnowsi, Sobieski, in The Catholic Encyclopedia”, vol. 15, New York, The Universal Knowledge Foundation, Inc., 1911, pp. 61-62. 2. Juan Batista Weiss, Historia Universal, Tipografia La Educación, Barcelona, 1930, vol. XI, p. 880. 3. Id., pp. 881, 882. 4. Id., p. 883. 5. Id., p. 884. 6. Id., p. 889. 7. The Catholic Encyclopedia, id., p. 62. 8. Dictionnaire de la Conversation et de la lecture, par une société de savants et de gens de lettres, Paris, Librairie de Firmin Didot Frères, Fils et Cie., 1863, tomo 11, p. 589.

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segunda-feira, 27 de julho de 2009

João Sobieski (I), o “Invencível Leão do Norte” desfez o poder turco nas portas de Viena

João Sobieski, rei da Polônia, esmaga os turcos nas portas de Viena
Sobieski, o Rei João III da Polônia, foi um dos maiores capitães de guerra do século XVII, e a ele se deve a salvação da Europa ao derrotar os turcos na batalha de Viena.

Ele nasceu em 1624, filho de Jaime Sobieski, castelão de Cracóvia, da pequena nobreza polaca. João e seu irmão Marcos foram educados com o maior esmero. Passaram grande parte de sua juventude em Paris e estiveram na Itália, residindo por três anos em Pádua, onde freqüentaram a Universidade local. Estiveram também na Inglaterra e na Alemanha.

Ambos estavam na Turquia quando, em 1648, à morte de seu pai, tiveram que voltar à pátria. Nessa ocasião os poloneses tinham sido derrotados pelos russos na batalha de Pilawiecz, os dois irmãos quiseram desagravar seus conterrâneos e entraram na liça. Marcos foi feito prisioneiro pelos tártaros, e por eles assassinado.

Terror dos tártaros e herói nacional

Tenda e armaduras capturadas aos turcos, Museu Czartoryski, CracóviaEm pouco tempo a coragem extraordinária e a bravura de João Sobieski o cobriram de glória em sua nação e o tornaram o terror dos tártaros.

Assim chegou ele a ser nomeado grande Marechal da Coroa e, logo depois, Comandante-em-chefe do exército polonês.

Seu primeiro grande feito nessa qualidade realizou-se em Podhajce, que estava sitiada por um exército de cossacos e de tártaros. Ele levantou, a suas expensas, um exército de 8 mil homens, guarneceu de trigo a praça sitiada e derrotou completamente o exército inimigo.

Quando em 1672 os turcos tomaram a cidade de Kamieniec, Sobieski derrotou-os completamente, tendo eles deixado 20 mil mortos e grande quantidade de armamento no campo de batalha. Esse feito provocou alívio geral na Polônia, tornando-se então Sobieski o grande herói nacional.

Sobieski aclamado rei por unanimidade

Com a morte do Rei Miguel, em 1674, Sobieski foi aclamado rei da Polônia por unanimidade, entre 17 pretendentes, sendo seis deles cabeças coroadas. A monarquia polonesa era eletiva.

Armadura do rei João SobieskiEntretanto, mesmo antes de sua coroação, foi ele forçado a repelir as hordas turcas que mais uma vez tinham invadido a Polônia. Derrotou-as no ano de 1675 em Lemberg, chegando a tempo para fazer levantar o cerco de Trembowla e salvar seus defensores.

No ano seguinte, foi solenemente coroado em Cracóvia com sua esposa, Maria Casemiro Luisa, filha do marquês francês Lagrange d’Arquien.

Não teve muito tempo para gozar esse triunfo, pois foi necessário combater os russos nas províncias rutenas. Com um exército de apenas 20 mil homens, tinha diante de si um outro 10 vezes maior. Por meio de estratagemas e escaramuças, Sobieski logrou causar tanto dano ao inimigo, que o forçou a um tratado mediante o qual foi-lhe cedida boa parte da Ucrânia.

Sobieski pôde, enfim, gozar algum tempo de paz, pois os turcos haviam aprendido a temer o “Invencível Leão do Norte” — como o chamavam.

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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Skanderbeg (II), herói da Cristandade e flagelo dos turcos

Skanderbeg, monumento em Pristina, AlbaniaEm 1457, amargurou a Skanderbeg, o herói albanês, a defecção de seu sobrinho Hamsa, que se uniu aos implacáveis inimigos da fé e sequazes do Islã.

Naquele ano, o sobrinho renegado invadiu seu país, acompanhado do general turco Isabeg com numeroso exército. Skanderbeg tinha para defendê-lo apenas 12 mil homens. Por isso, não enfrentou diretamente o inimigo, mas procurou atraí-lo para lugares isolados.

Em 2 de setembro desse ano, Skanderbeg, num combate sangrento, obteve a vitória nos arredores de Tomorniza, surpreendendo o exército turco enquanto este se entregava ao repouso.

Mais de 15 mil turcos foram mortos e 1500 feitos prisioneiros, entre eles o renegado Hamsa, a quem Skanderbeg poupou a vida, mas enviou-o a Nápoles para que estivesse preso com segurança.

Em carta de 17 de setembro de 1457, escreveu o Papa ao general albanês:

"Amado filho: perseverai do mesmo modo no futuro, em defesa da Fé Católica, pois Deus, por quem pelejais, não abandonará sua causa; Ele vos dará, estou seguro disso, a vós e aos demais cristãos, junto com a maior glória e triunfo, a vitória sobre os malditos turcos e demais infiéis".(4)
O Sumo Pontífice mostrou seu júbilo pela vitória obtida, nomeando Skanderbeg Capitão General da Cúria na guerra contra os turcos.

Conclama os príncipes do Ocidente a uma Cruzada

Casco de Skanderbeg, em VienaDepois dessa vitória, o herói albanês escreveu aos príncipes do Ocidente, dizendo-lhes que não tinha condições de continuar sua guerra contra os turcos se não recebesse deles auxílio.

Que era chegado o tempo em que esses príncipes despertassem do sono a que até então tinham se entregado, renunciassem às suas discórdias e se coligassem para defender a liberdade do mundo cristão. Somente Nápoles ouviu seu apelo e mandou algumas tropas.

A Albânia resistia havia dezenove anos ao poder dos sultões. Apesar de algumas derrotas e enfraquecido pela defecção de certos aliados seus, Skanderbeg mantinha contínuo assédio às tropas turcas.

Maomé II resolveu então acabar de vez com essa resistência, enviando contra ele todos os seus generais. Mas quando três deles foram derrotados, o próprio Maomé pediu a paz em 1461.

Três anos após, o Papa Pio II pregou uma nova Cruzada. Skanderbeg derrotou sucessivamente dois generais dos mais importantes do sultão. Depois, cedendo aos apelos do Papa, ajudou a repor no trono de Nápoles a Fernando, filho de Afonso V, que havia sido destronado por João de Anjou.

Com o apoio do Papa, vence o cerco de Kruja

Na primavera de 1466, um exército turco - composto, segundo uns, de 200 mil homens; segundo outros, de 300 mil - invadiu a Albânia, comandado pelo próprio Maomé II.

Pouco depois, circulou pela Europa a notícia de uma derrota de Skanderbeg, devido à traição e abandono de muitos cristãos. O pânico apoderou-se sobretudo dos italianos, tanto mais que a notícia vinha acompanhada de outra, a de que um exército turco já ameaçava a Hungria.

Replica das armas de Skanderbeg no museu de Kruje, AlbâniaFelizmente a notícia da derrota do herói albanês era falsa. Não podendo enfrentar exército tão numeroso, entregara-se à tática de guerrilha, que tantas vezes lhe tinha sido eficaz.

Estabeleceu uma forte posição nos bosques de Tumenistos, e desde lá fatigava o exército turco por meio de surpresas, falsos alarmes e fugas simuladas.

A tática foi empregada por tanto tempo, que foi desgastando o exército infiel, acostumado a travar uma guerra regular.

Cansado, Maomé retirou-se a Constantinopla para passar o inverno, deixando o general Balaban à frente de 80 mil homens fazendo o cerco de Kruja.

Como Skanderbeg, com seus poucos homens, não podia levantar o cerco, dirigiu-se à Itália em busca de socorro, armas e dinheiro. O Papa e os cardeais o receberam entusiasticamente em Roma, e "com muitos presentes e uma considerável soma de dinheiro regressou Skanderbeg aos seus, alegre e animoso", escreve seu primeiro biógrafo Bartelius.(5)

De volta à Albânia, Skanderbeg derrotou os turcos em abril de 1467, fazendo prisioneiro um irmão de Balaban.

Pouco depois alcançou outra vitória, ocasionando a morte do próprio Balaban. Com isso as tropas turcas fugiram, e levantou-se o cerco de Kruja.

Grandeza de alma, lealdade e fé sincera

Mas o heróico guerreiro estava no fim.

"Vinte e quatro anos de luta contínua esgotaram aquela natureza de ferro. E, havendo sido atacado pelas febres, morreu em Alessio aos cinqüenta e três anos, terminando assim a epopéia albanesa [...].

"À grandeza de alma, à lealdade, a uma fé sincera, juntava ele uma inteligência extraordinária, uma penetração segura e uma sagacidade pouco comum [...].

"Caritativo e humano, não parecia o mesmo homem na guerra; pois, fogoso, violento, às vezes impiedoso, chegava a assustar os mais valentes: até esse ponto o exaltavam seu ódio pelos turcos e seu amor à independência [da Albânia]".(6)

À notícia de sua morte, seu mais feroz inimigo, o sultão Maomé II, exclamou: "Por fim, me pertencem a Europa e a Ásia. Ai da Cristandade, que acaba de perder sua espada e seu escudo!".(7)

Nossa Senhora do Bom Conselho foi miraculosamente trasladada pelos anjos de Scutari na Albânia até Genazzano na Itália, onde hoje é venerada
Mas Nossa Senhora tinha outros desígnios sobre a Cristandade. Após as infidelidades do povo albanês e da morte de Skanderbeg, a imagem albanesa de Nossa Senhora do Bom Conselho transferiu-se milagrosamente, pelos ares, para Genazzano, na Itália, acompanhada por dois devotos que atravessaram a pé o Mar Adriático.
________
Notas:
(1) Ludovico Pastor, Historia de los Papas, Gustavo Gili, Barcelona - Herrero Hermanos, México, 1910, vol. II, p. 422.
(2) www.masterclass. Spunti tratti da un'articolo di A. Raspagni sulla Rivista "Militaria", nº 11, anno 2.
(3) V. Fallmerayer, Albanes. Clement 5. 7. Apud Pastor, op. cit. vol. II, p. 423.
(4) L. Pastor, op. cit., vol. II, p. 427.
(5) Cfr. L. Pastor, vol. IV, p. 82.
(6) Diccionario Enciclopedico Hispano-Americano, Barcelona, Montaner y Simón, Editores, 1896, tomo XVIII, p. 819.
(7) L. Pastor, op. cit., vol. IV, p. 84.


(Fonte: José Maria dos Santos, "Catolicismo", abril de 2004)

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segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jorge Castriota, 'Skanderbeg' (I): espada e escudo da Cristandade

Skanderbeg , heroi católico albanes na luta contra os turcos
Príncipe da Albânia, cognominado pelo Papa Calixto III de atleta de Cristo, "durante vinte e quatro anos inteiros opôs vitoriosa resistência aos exércitos turcos, com freqüência 10 a 20 vezes mais numerosos que o seu".(1)

Jorge era o mais novo dos filhos do Príncipe João Castriota, senhor de Ematie, na Albânia, e da Princesa sérvia Voizava, tendo nascido no ano de 1414.

Quando, em 1423, o sultão turco Amurath II invadiu a Albânia, o Príncipe João, para salvar o reino, não podendo pagar a vultosa soma que lhe era exigida como dano de guerra, precisou dar como reféns ao vencedor seus quatro filhos, Estanislau, Reposio, Constantino e Jorge.

Dos quatro, dois morreriam envenenados; um terceiro, retornando à Albânia, entraria num mosteiro; e somente o caçula, Jorge, tornar-se-ia um grande guerreiro.

Chegados à Turquia, os três mais velhos foram postos no calabouço, pois não estavam dispostos a renunciar à sua fé. Como Jorge tinha apenas nove anos e era de muito boa presença, foi circuncidado e educado no islamismo. Mas, em segredo, guardou a fé de seus pais.

Tanta era a estima que tinha por ele o sultão, devido às suas inatas qualidades, que fez com que lhe ensinassem o árabe, o turco, o eslavo e o italiano, além do exercício das armas.

Skanderbeg, um novo Alexandre Magno

Aos 18 anos foi nomeado sandiak. Posto à frente de um exército de cinco mil ginetes, passou para a Ásia, onde demonstrou um valor extraordinário. Foi aí que recebeu dos turcos o sobrenome de Iskander-bei (príncipe ou chefe Alexandre, em alusão a Alexandre o Magno), que os albaneses mudaram para Skanderbeg.

Skanderbeg, George Castriota, museo de Kruja, cruzado e salvador da identidade nacional albanes"Dele se diz que era de aspecto majestoso, e dotado de uma força fora do comum. [...] Conta-se que, durante um combate, logrou com um só golpe cortar em dois um guerreiro protegido com couraça".(2)

"Todos os contemporâneos o elogiam como um dos mais belos e esforçados caracteres varonis daquele século. [...] Sua afeição aos combates era tão grande, que o dar uma batalha de quando em quando constituía para ele uma necessidade. Nele se juntavam o valor do soldado e o olhar penetrante do general; suas forças corporais apenas podiam esgotar-se com esforços, e a rapidez de seus movimentos militares trazia à memória os de César".(3)

Entretanto, Skanderbeg não se esquecia de seu país e procurava uma ocasião para a ele retornar. Em 1432, com a morte de seu pai, deveria herdar suas possessões. Mas o sultão, em vez de lhe dar o território que lhe competia por herança, quis tê-lo para si. E enquanto mandava um dos seus chefes tomar conta dele, mandou Skanderbeg invadir a Sérvia.

Jorge aproveitou-se do momento imediatamente precedente à batalha para passar para o lado sérvio. Antes, porém, tinha forçado o secretário de Estado do sultão a entregar-lhe uma ordem, dirigida ao comandante de Kruja, na Albânia, para que reconhecesse o portador como seu sucessor no comando daquela praça e lha entregasse.

Líder das tropas albanesas, cruzado contra os otomanos

Depois da batalha, vencida pelos cristãos sérvios, Skanderbeg refugiou-se nas montanhas, com 600 cristãos fugidos das tropas turcas e mais alguns montanheses. Tendo entrado em Kruja, onde recebeu o comando da praça, à noite abriu as portas para seus partidários, que aniquilaram a guarnição turca. Skanderbeg chamou depois todos os seus parentes e albaneses a Kruja, para tomarem parte na libertação de seu país.

A insurreição se alastrou com tal rapidez, que em pouco tempo Skanderbeg havia tomado as principais praças da região.

Convocou então uma reunião em Alessio, em território veneziano, da qual participaram albaneses e venezianos, sendo eleito indiscutível chefe, aclamado por todos.

Nossa Senhora do Bom Conselho de Scutari, Skanderbeg foi grande devoto delaNossa Senhora do Bom Conselho de Scutari, Skanderbeg foi grande devoto dela

Posto à frente de sete mil infantes e oito mil cavaleiros, Skanderbeg enfrentou e derrotou em 1444 um exército turco de 40 mil homens, comandado por Ali Pachá.

Skanderbeg procurou unir-se com a Hungria e a Transilvânia na luta contra os otomanos, e aderiu ao plano de Cruzada proposto pelo Papa Eugênio IV.

No ano de 1448, Skanderbeg derrotou mais uma vez os turcos comandados pelo paxá Mustafá, fazendo-o prisioneiro como a outros de seus oficiais, por cuja liberdade exigiu vultosa soma.

(Fonte: José Maria dos Santos, "Catolicismo", abril de 2004)

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

Expectativa portuguesa pelo extermínio dos otomanos

Do vaticínio do santo Frei Gil, português, religioso da sagrada Ordem dos Pregadores, que entre eles corre por ser de tempo imemoriável (e escuso trasladar, por ser tão sabido), vimos de próximo verificadas e cumpridas as cláusulas que tocam a Hungria, França e Inglaterra.

Seguem-se outras que tocam à Lusitânia, entre as quais uma é a ruína do dito império: Imperium Othomanum ruet; e outra, que a casa de Deus será recuperada: Domus Dei recuperabitur.

Nem devo fazer dúvida que a latinidade deste papel é mais limada do que naquele tempo se usava em Portugal, porque o santo estudou em Paris, onde se abalizou em letras, e teve pacto com o demônio para aprender as ciências facilmente, e depois foi sua conversão maravilhosa, e teve notáveis e freqüentes êxtases e revelações, cuja qualificação deixamos, com ânimo rendido, ao juízo da Santa Sé Apostólica, a quem privativamente toca.

São Miguel Arcanjo, Très Riches Heures du duc de Berry, Folio 195rEspada com asa, a que o magnânimo rei D. Afonso Henriques viu pelejar, junto a si, na célebre batalha que venceu, nos campos de Santarém, contra Albar, rei mouro de Sevilha.

Depôs o mesmo rei D. Afonso (e o mesmo afirmaram muitos mouros que ficaram cativos) que vira, a par do seu braço direito, outro, armado, que se rematava junto ao ombro com uma asa de cor purpúrea, o qual o ajudava, de sorte que matou e feriu a inumeráveis e ninguém o feriu a ele.

Por onde entendeu ser do seu anjo custódio, ou do arcanjo S. Miguel, aos quais tinha pedido auxílio antes de entrar na batalha.

Para memória do benefício, instituiu no ano de Cristo de 1167 a Ordem dos Cavaleiros da Ala, com particulares estatutos, os quais traziam ao peito a insígnia da Ala, de cor purpúrea com raios de ouro.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Papa São Pio V convoca reis católicos à guerra contra os turcos

Carta de São Pio V aos reis cristãos pedindo ajuda militar para a Ordem de Malta sitiada pelos turcos em sua ilha (8-12-1567):

"Eis o que foi bem estabelecido e é bem certo: nosso poderoso inimigo, o Sultão dos Turcos, prepara com os mais minuciosos cuidados uma frota considerável, sem precedente, uma armada e exército importantíssimos.

Visão de São Pio V da vitória cruzada de Lepanto (basílica de Fourvières, Lyon)

"Ele completa todos os preparativos que se fazem necessários, com o único fim de se precipitar o mais cedo possível contra Malta, para abater a Ordem Militar de São João, por ele particularmente odiada, e submeter essa ilha.

"Diz-se que dela deseja se apoderar, não só pelas grandes vantagens que oferece sob o ponto de vista estratégico, mas também, e mais ainda, em razão da humilhação por ele sofrida no sítio precedente.

Malta

"Como a tais forças a Ordem não pode de forma alguma resistir, nosso caro filho Jean de la Valette, seu Grão-Mestre, é obrigado a implorar o socorro dos príncipes cristãos contra o inimigo comum, o inimigo do Cristianismo.

"Não duvidamos que Vossa Majestade e seu povo venham em nosso socorro, tanto mais espontaneamente aliás, pois é de seu maior interesse que uma ilha assim próxima da Sicília e da Itália não caia em mãos inimigas.

* * *

A nosso caríssimo filho em Cristo, Carlos, Rei cristianíssimo da França:

Jean de la Valette vê-se na obrigação de apelar para todos os príncipes cristãos contra o inimigo comum do Cristianismo.

A defesa da ilha de Malta parece, no momento, ser mais importante para alguns povos do que para outros. Entretanto, trata-se incontestavelmente da salvação de todos os príncipes cristãos e de toda a Cristandade. Não ignoramos, filho cristianíssimo, quais dificuldades deveis enfrentar... (12-12-1567).

* * *

A nosso filho caríssimo, o nobilíssimo Pedro Loredano, Doge de Veneza:

Palácio da Ordem de Malta, Malta.

Os cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém são obrigados a socorrer-se de todos os príncipes cristãos.

Eles têm mais coragem que recursos para fazer face a um inimigo assim poderoso e pérfido, para contê-lo e expulsá-lo.

Essa ilha é a cidade da Cristandade inteira. Se (Deus não o permita!) ela vier a cair em poder do inimigo, pela negligência dos príncipes cristãos, não haveria mais tempo para gemer e arrepender-se (19-1-1567).

(Fonte: Léon Garnier, "Lepanto" - p. 41)

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quinta-feira, 7 de maio de 2009

As armas portuguesas contra os maometanos

Dom Afonso Henriques
Desde os berços desta monarquia abonaram os efeitos essa verdade. Só o Conde D. Henrique, nobilíssimo tronco da real árvore dos monarcas portugueses, venceu contra mouros 17 batalhas campais.

Na célebre do campo de Ourique, venceu e destroçou el-rei D. Afonso Henriques, com 10.000 infantes e 1.000 cavalos, a 400.000 maometanos, isto pelo cômputo de quem mais abate este número, que outros o sobem a 600.000, e outros dizem que havia para cada cristão cem infiéis.

Na tomada de Lisboa (que foi no ano de Cristo 1148, a 25 de outubro), morreram 200.000 mouros. O mesmo rei desbaratou um exército de 40.000 cavalos e 60.000 infantes, com que el-rei mouro de Badajoz vinha socorrer Sesimbra.

E em diversas ocasiões ele a 30 reis venceu (para que não fosse singular nesta glória o famoso Josué, capitão do povo de Deus). Nem podemos atribuir estas vitórias à pouca gente dos exércitos contrários, porque, compensando uns com outros, lhe tocam a cada um 50.000 homens.

Para que mais particularmente conste que parece que Deus criou a nação portuguesa para estrago, desprezo e ralé da sarracena, quero referir aqui alguns casos que dentro das mesmas ferocidades de Marte descobrem um não sei quê de cômica graciosidade.

Milagre de OuriqueNa batalha que D. Francisco de Menses, capitão de Baçaim, venceu contra um poderoso campo do Nizamora, um certo Trancoso, depois de haver bem pelejado, pôde alcançar com um braço a um mouro pela petrina (que era um cinto que usavam, de muitas voltas). Como era agigantado de membros e fiava de suas forças, levantou-o no ar como escudo, e se lançou entre os mouros, matando muitos a seu salvo.

Os golpes que lhe atiravam, recebia com destreza no miserável corpo do agarrado, o qual era juntamente seu inimigo de vontade e seu protetor contra vontade, porque o braço a que servia de escudo lhe dava tantas cutiladas quantas fazia que aparasse.

Com o que assim este mouro, como os mais que se chegaram, eram todos em ajuda de Trancoso: este, porque o defendia dos mais; e os mais porque, dando neste, lhe escusavam este trabalho. Raro modo de fazer do couro alheio couraça própria!

Lá dizia uma valorosa matrona lacena, embraçando o escudo a seu filho que partia para a guerra: "Vede que ou haveis de tornar vivo com este, ou morto sobre ele". No nosso caso, pouco se lhe dava ao Trancoso de deixar na refrega o escudo; antes, quanto mais lho rachassem, tanto mais folgado e contente se recolheria.
Conquista de CeutaEm Ceuta, indo D. Afonso da Cunha, em certo recontro, atrás de um mouro, ao atirar-lhe uma cutilada, lhe resvalou a espada e saltou fora da mão; mas, em vez de assustar-se com o caso, tomou maior cólera e gritou ao mouro: "Ó cão, levanta e traze aqui logo".

E o mouro, temendo que, se não obedecesse, tinha a morte mais certa, voltou humilde, levantou do chão a espada e lha entregou. E o Cunha então, compadecido, o deixou ir livre. De sorte que este português usava daquele mouro como de inimigo para o recontro belicoso, como de escravo para o mando senhoril, e como de liberto para a manumissão fácil. Ou fazia conta que aquele infiel era juntamente caça e cão: caça para correr perseguindo-a, e cão para lhe trazer o que caísse.

Ao cão chamou S. Gregório Nisseno espada viva do homem — Hominis gladium vivum. Como aqui o cristão era o homem e o mouro o cão, no cão achou o homem à mão uma espada viva que lhe trouxesse a sua inanimada.

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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quinta-feira, 23 de abril de 2009

Bem-aventurado Papa Urbano II: “Popolo dei Franchi” (Sermão da Cruzada)

Virgem das Cruzadas, Thuret(Puy-de-Dome)
Do famoso sermão do Bem-aventurado Papa Urbano II convocando à I Cruzada em Clermont-Ferrand (França, 27 de novembro de 1095) existem diversos registros de também diversas testemunhas. Já tivemos ocasião de postar um. Eis um outro traduzido do italiano e disponível no site Documenta Catholica:

Povo dos Francos, povo de além Alpes, povo – como reluz em muitas de vossas ações ‒ eleito e amado por Deus, distinguido entre todas as nações pela posição de vosso país, pela observância da fé católica e pela honra que presta à Santa Igreja, a vós se dirige nosso discurso e nossa exortação.

Queremos que vós saibais do lúgubre motivo que nos conduziu até vossas terras; da necessidade ‒ para vós e para todos os fiéis ‒ de conhecerem o motivo que nos impeliu até aqui.

Desde Jerusalém e desde Constantinopla chegou até nós, mais de uma vez, uma dolorosa notícia: os turcos, povo muito diverso do nosso, povo de fato afastado de Deus, estirpe de coração inconstante e cujo espírito não foi fiel ao Senhor, invadiu as terras daqueles cristãos, as devastou com o ferro, a rapina e o fogo. Levou parte dos habitantes como prisioneiros até seu país, outra parte matou com infames estragos, e as igrejas de Deus ou as destruiu até os fundamentos ou as entregou ao culto da religião deles.

Estátua de Urbano II, Châtillon sur MarneDerrubam os altares após profaná-los imundamente, circuncidam os cristãos e espalham o sangue da circuncisão sobre os altares ou jogam-no nas pias batismais; e àqueles que querem condenar a uma morte vergonhosa perfuram o umbigo, arrancam os genitais, os amarram a um pau e, chicoteando-os, levam-nos pelas ruas, para que com as vísceras de fora, acabem caindo mortos prostrados por terra.

Outros se servem deles como alvo de flechas após amarrá-los a um pelourinho; a outros, após obrigá-los a dobrar a cabeça, os atacam com espadas e tentam decapitá-los de um só golpe.

O que dizer da violência nefanda praticada com as mulheres, sobre a qual é pior falar do que calar?

O reino dos gregos já foi atingido tão gravemente por eles e tão perturbado na sua vida diária que não pode ser atravessado sequer numa viagem de dois meses.

A quem, pois, cabe o ônus de vingá-lo e de reconquistá-lo se não a vós a quem Deus, mais de que aos outros povos, concedeu a insigne glória das armas, grandeza de alma, agilidade de corpo, força para humilhar a fundo aqueles que a vós resistem?

Que a gesta de vossos antepassados vos mova, que excite vossas almas a atos dignos dela, a probidade e a grandeza de vosso rei Carlos Magno e de Luis seu filho e de outros soberanos vossos que destruíram o reino dos pagãos e até eles estenderam os confines da Igreja.

Clermont-Ferrand, catedral, pórtico norteSobretudo que vos incite o Santo Sepulcro do Senhor, nosso Salvador, que está nas mãos de gentes imundas, e os lugares santos, que agora estão por eles vergonhosamente possuídos e irreverentemente profanados com sua imundícia.

Ó soldados fortíssimos, filhos de pais invictos, não vos mostreis decadentes, mas lembrai-vos da coragem de vossos predecessores; e se vos segura o doce afeto dos filhos, dos pais e das consortes, atentai para o que diz o Senhor no Evangelho: “quem ama o pai ou a mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Todo aquele que deixar seu pai ou sua mãe, ou a mulher ou os filhos ou as terras por amor de meu nome receberá o cêntuplo nesta terra e terá a vida eterna”.

Não vos detenha o pensamento de alguma propriedade, nenhuma preocupação pelas coisas domésticas, pois esta terra que vós habitais, circundada por todo lado pelo mar ou pelas montanhas, ficou estreita para vossa multidão, não é exuberante de riqueza e apenas fornece do que viver a quem a cultiva. Por isso vós vos ofendeis e vos hostilizais reciprocamente, vós vos fazeis guerra e com freqüência vos matais entre vós mesmos.

Cessem, pois os ódios intestinos, apaguem-se os contenciosos, aplaquem-se as guerras e sossegue toda discórdia e inimizade.

Empreendei o caminho do Santo Sepulcro, arrancai aquela terra àquele povo celerado e submetei-la a vós: ela foi dada por Deus em propriedade aos filhos de Israel; como diz a Escritura, nela correm rios de leite e mel.

Jerusalém é o centro do mundo, terra feraz por cima de qualquer outra quase como um paraíso de delícias; o Redentor do gênero humano a tornou ilustre com sua vinda, a honrou com sua passagem, a consagrou com sua Paixão, a redimiu com sua morte, e a tornou insigne com sua sepultura.

Exatamente esta cidade real posta no centro do mundo agora é tida em sujeição pelos próprios inimigos e pelos infiéis, feita serva do rito pagão. Ela eleva sua lamentação e anela ser liberada e não cessa de implorar que vós andeis no seu socorro.

De vós mais do que qualquer outro povo ela exige ajuda, pois vos tem sido concedida por Deus, por sobre todas as estirpes, a glória das armas. Empreendei, pois este caminho em remissão de vossos pecados, certos da imarcescível glória do reino dos Céus.

Ó irmãos amadíssimos, hoje em nós manifestou-se o que o Senhor diz no Evangelho: “Onde dois ou três estarão reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles”.

Se o Senhor Deus não tivesse inspirado vossos pensamentos, vossa voz não teria sido unânime; e ainda que tenha ressoado com timbres diversos, foi única, entretanto a sua origem: foi Deus que a suscitou, foi Deus que a inspirou em vossos corações.

Seja, pois, esta vossa voz, o vosso grito de guerra, posto que ele vem de Deus. Quando fores ao ataque dos belicosos inimigos, seja este o grito unânime de todos os soldados de Deus: “Deus o quer! Deus o quer!”

Nós não convidamos a empreender este caminho aos velhos ou àqueles que não são aptos para portar armas, nem as mulheres; que as mulheres não partam sem seus maridos ou sem irmãos ou sem representantes legítimos: todos estes são mais um impedimento do que uma ajuda, mais um peso do que uma vantagem.

Que os ricos sustentem os pobres e levem a seu custo homens prestes para combater.

Aos sacerdotes e clérigos de qualquer ordem não seja lícito partir sem licença de seu bispo, porque esta viagem lhes seria inútil sem esse assentimento; e nem sequer aos leigos seja permitido partir sem a bênção de seu sacerdote.

Todo aquele que queira cumprir esta santa peregrinação e que faça promessa a Deus e a Ele se tenha consagrado como vítima viva, santa e aceitável, leve sobre seu peito o sinal da Cruz do Senhor. Aquele que, após ter cumprido seu voto queira retornar, dê meia-volta.

Cumprirão assim o preceito que o Senhor dá no Evangelho: “Quem não carrega sua cruz e não vem detrás de Mim não é digno de Mim”.

Clermont, 27 de novembro de 1095.


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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Proezas portuguesas contra os mouros

Dom Afonso II, rei de Portugal
No tempo de el-rei Afonso II foram vencidos em Salácia (Alcácer do Sal) mais de 60.000 mouros.

E na célebre batalha do Salado, em que el-rei D. Afonso IV de Portugal ajudou nervosamente a el-rei de Castela, morreram 200.000, pelo cômputo mais escasso.

Reinando D. Afonso V, cercou el-rei de Fez a Alcácer Ceguere, com 30.000 cavalos e inumeráveis de pé, mas saindo de dentro pouco mais de 30 cavaleiros portugueses, mataram tantos que os outros, com medo, levantaram o cerco.

A mesma felicidade se viu na tomada de Ceuta em tempo de el-rei Dom João I, e nas de Arzila e Tânger em tempo do dito D. Afonso V, e nos famosos sítios que sustentaram nossos capitães nestas praças, e na de Mozagão, e nas de Diu, Calecute, Chaul, Columbo, Cananor, Cochim, Malaca, contra mui poderosos inimigos.

No cerco de Diu, que sustentou o grande capitão Antônio da Silveira, sendo Fernão Penteado ferido gravemente na cabeça, foi ao cirurgião para que o curasse. E achando-o ocupado na cura de outros, enquanto aguardava a sua vez, ouviu estrondo de um rebate que os turcos davam.

Não lhe sofrendo o coração não se achar nele, correu àquela parte onde, envolvido na refrega, ganhou segunda ferida grave na cabeça. Com que apertado, tornou ao cirurgião, a quem achou ainda mais ocupado que antes.

Dom Afonso IV, rei de PortugalE como neste tempo os turcos apertassem muito com os nossos, ele tornou a acudir com grande alvoroço, onde recebeu terceira cutilada no braço direito; e veio curar-se de todas três.

De sorte que assim ia este soldado buscar mais feridas, como se, achando o cirurgião ocioso, quisesse dar-lhe em que se ocupar, e mais falta fazia ao seu natural a briga do que à sua cabeça o sangue, querendo antes ferir-se depressa do que curar-se devagar.

A tarântula, ainda depois de esmagada, salta, se lhe tangem; este animoso guerreiro, ainda rota a cabeça, pulava se ouvia estrondos militares, porque eram música para ele.

No mesmo cerco, outro português, cujo nome se lhe não sabe, acabando-se-lhe as balas e não tendo à mão com que carregar o mosquete, abalou e arrancou um dente.

Usando-o como bala, fez o tiro e acertou em um turco, para o qual não foi favo doce, senão bocado amargoso, isto que saiu da boca deste leão. Adaptara na boca do mosquete o dente da sua, mandando-lhe que mordesse ao longe, já que não podia de perto.

Outros muitos casos semelhantes omito, porque ao meu intuito bastam os referidos. Agora o que esperamos é que a última e total ruína do império otomano se deva também, por eleição divina, às armas portuguesas, conforme os mesmos mouros temem e se diz terem disso tradição antiga (Veja-se Sebastião de Paiva, na sua "Monarquia").

(Fonte: Padre Manuel Bernardes, "Nova Floresta" - Lello & Irmão, Porto, 1949)

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segunda-feira, 23 de março de 2009

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (III): sinais divinos e bençãos da Igreja

Núncio Apostólico Adhémar de Monteil na batalha da Antioquia leva a Santa Lança
* Os Barões e Cavaleiros juram combater os inimigos da Fé

“Os Barões e os Cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano fizeram o juramento de vingar a causa de Jesus Cristo; esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da Fé cristã. Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do Concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha de pano ou de seda. (...)

“Os fiéis pediram a Urbano que se pusesse à sua frente, mas o Pontífice, que ainda não tinha triunfado sobre o antipapa Guiberto, e que perseguia com seus anátemas o Rei da França e o Imperador da Alemanha, não podia deixar a Europa sem comprometer o poder e a política da Santa Sé.

“Nomeou o Bispo de Puy, seu legado apostólico, junto do exército dos cristãos. Prometeu a todos os cruzados a remissão de seus pecados. Suas pessoas, suas famílias, seus bens, foram postos sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo. O concílio declarou que toda a violência feita contra os soldados de Jesus Cristo seria castigada com o anátema e entregou seus decretos, em favor dos cruzados à vigilância dos Padres e dos Bispos.

“Urbano percorreu ele mesmo várias províncias da França, para terminar sua obra tão felizmente começada. (...)

* A benção das Cruzes

“Os Bispos e os simples pastores, não paravam de benzer cruzes para os fiéis que prometiam armar-se para a libertação da Terra Santa.

Benção da Igreja aos cruzados“A Igreja conservou em seus anais as fórmulas de orações rezadas nessa cerimônia.

“O padre, depois de ter invocado o auxílio de Deus, que fez o Céu e a Terra, rogava ao Senhor que abençoasse, em sua bondade paterna, a cruz dos peregrinos, como tinha outrora abençoado a vara de Aarão; rogava à misericórdia divina que não abandonasse nos perigos os que iam combater por Jesus Cristo e que lhes enviasse o anjo Rafael que outrora tinha sido o fiel companheiro de Tobias.

“O padre dizia, depois de ter prendido a cruz ao peito: Recebe este sinal, imagem da Paixão e da Morte do Salvador do mundo, a fim de que em tua viagem nem a infelicidade nem o pecado te possam ferir e voltes mais feliz e sobretudo, melhor, para junto dos teus.” (...)

“Tal o ascendente da religião ultrajada pelos infiéis, que todas as nações cristãs logo esqueceram o que era objeto de sua ambição ou de seus temores e forneceram à cruzada os soldados de que precisavam para se defenderem. Todo o Ocidente reobava com estas palavras: Aquele que não traz sua cruz e não vem comigo, não é digno de Mim.

* Vários milagres incentivam à “sublime epopéia”

“Que se julgue o que se deveu operar nos espíritos, quando a Igreja tocou a trombeta guerreira e apresentou como agradável a Deus o amor das conquistas, a glória de vencer, o ardor pelos perigos. (...)

“O clero mesmo deu o exemplo. A maior parte dos Bispos, que tinham o título de Conde ou de Barão (...) julgou dever armar-se para a causa de Jesus Cristo.

Clermont-Ferrand, Praça onde o santo Urbano II pregou a Primeira Cruzada“Os autores contemporâneos contam vários milagres que contribuíram para inflamar o espírito da multidão. Haviam-se visto estrelas destacarem-se do firmamento e caírem sobre a terra; mil fogos desconhecidos corriam pelo ar e davam à noite a claridade do dia; nuvens cor de sangue levantavam-se de repente no horizonte, e no ocidente um cometa ameaçador apareceu ao meio-dia; sua forma era a de uma espada.

“Viram-se nas altas esferas do céu cidades com suas torres e defesas, armadas, prestes a combater, seguindo o estandarte da cruz. O monge Roberto refere que, no mesmo dia em que no concílio de Clermont, se decidiu a cruzada, aquela deliberação foi proclamada além dos mares.

“Essa notícia, diz ele, tinha reerguido a coragem dos cristãos no Oriente e levado de repente o desespêro aos povos da Arábia.” Para cúmulo de prodígios, os Santos e os Reis das idades precedentes saíam de seus túmulos e vários franceses haviam visto a sombra de Carlos Magno exortando os cristãos a combater contra os infiéis.

* A benção das armas e dos estandartes

“O concílio de Clermont, que se havia reunido no mês de novembro de 1095, tinha marcado a partida dos cruzados para a festa da Assunção, do ano seguinte. (...)

“No meio da efervescência geral, a religião, que animava todos os corações velava pela ordem pública. Não se ouvia mais falar de roubos, de assaltos. (...)

Mapa medieval de Londres a Jerusalem“Entre os preparativos da cruzada, não devemos esquecer do cuidado que os cruzados tomavam em mandar abençoar suas armas e suas bandeiras. Em cada paróquia, o Pontífice ou o pastor, depois de ter aspergido a água benta sobre as armas colocadas diante dele, rogava a Deus Todo Poderoso, que concedesse aquele ou aos que as deviam usar nos combates, a coragem e a força que outrora Ele havia dado a Davi, vencedor do infiel Golias.

“Entregando ao cavaleiro sua espada, que ele tinha abençoado, o padre dizia: Recebei esta espada em nome do Padre, e do Filho e do Espírito Santo. Serví-vos dela para o triunfo da Fé; que jamais ela derrame o sangue inocente.

“A benção dos estandartes fazia-se com a mesma solenidade: o ministro do Deus dos exércitos pedia ao céu que aquele sinal da guerra fosse para os inimigos do povo cristão um motivo de terror e para todos os que esperavam em Jesus Cristo, um penhor de sua vitória. O estandarte, entregava-o aos guerreiros, de joelhos diante dele, dizendo: “Ide combater pela glória de Deus e que esse sinal vos faça triunfar de todos os perigos.”

* A partida para a Terra Santa

“A maior parte ia a pé; havia alguns cavaleiros no meio da multidão, outros viajavam em carros puxados por bois ferrados, outros costeavam o mar, desciam os rios, em barcas. Estavam vestidos de diversas maneiras, armados de lanças, de espadas, de dardos, de ferros, etc. (...)

Cavaleiros“Perto das cidades, perto das fortalezas, nas planícies, nas montanhas, erguiam-se tendas, pavilhões para todos os cavaleiros, altares, levantados às pressas, para o ofício divino. Por toda a parte exibia-se um aparato guerreiro e de festa solene.

“De um lado um chefe militar exercitava seus soldados; de outro, um pregador chamava a atenção de seus ouvintes sobre as verdades eternas; aqui, o ruído de clarins, de trombetas, mais além o canto dos salmos e de outras melodias.

“Desde o Tibre até o Oceano e desde o Reno até além dos Pirinéus só se viam grupos de homens marcados com a cruz, jurando exterminar os sarracenos e antecipadamente celebrando suas conquistas. De todos os lados ressoava o grito de guerra dos cruzados: Deus o quer! Deus o quer!

Fonte: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.

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quarta-feira, 18 de março de 2009

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (II): Concílios de Piacenza e Clermont Ferrand, sermão do Beato Papa Urbano II

Estátua de Urbano II, Châtillon sur Marne* Urbano II convoca o Concílio de Piacenza

“Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expôr os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

“No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

“Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza. Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

* Um novo Concílio: Clermont-Ferrand

“O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa. O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Plaisance; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

Pedro o Eremita pregando“O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme. Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; ao seu lado estava Pedro, o Eremita, com o bordão de peregrino e a capa de lã. (...)

"O apóstolo da guerra santa falou primeiro dos ultrajes feitos à Fé de Cristo: (...) Ele tinha visto cristãos carregados de grilhões, levados à escravidão, atrelados ao jugo, como animais de carga; ele tinha visto os opressores de Jerusalém vender aos filhos de Cristo a licença de saudar o túmulo de seu Deus, arrancar-lhes até o mesmo pão da miséria e atormentar a mesma pobreza, para conseguir tributos; ele tinha visto os ministros do Todo-Poderoso tirados do Santuário, vergastados, e condenados a uma morte ignominiosa. (...)

* A exortação de Urbano II

“Urbano II falou depois de Pedro, o Eremita, e fê-lo nestes têrmos:

“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente. Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos; de como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para “servir de palha ao fogo eterno”.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da Ásia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos. Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo, digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exacções mais vergonhosas. A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus; os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; “o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos”. Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades! Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo? Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja “mais forte que a mesma morte”, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, prosseguia o eloqüente Pontífice, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima: chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender “a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos”. Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bençãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna.”

* Um brado unânime: “Deus o quer”

“Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...) A assembléia dos fiéis -- levados por um entusiasmo que jamais a eloqüência humana tinha inspirado -- ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras: Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

Beato Urbano II prega a primeira Cruzada“Vêdes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: “Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles; sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir. Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos.” (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz; ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes; ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele.”

“Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão.”

Fonte: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.

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