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terça-feira, 14 de maio de 2013

Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Roland

Fonte de Roland, Bremen, Alemanha
Roland, Bremen, Alemanha.
Ouça o início

Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Rolando


(continuação) O combate é tremendo. Os francos lutam muito unidos e causam imensas perdas aos muçulmanos.

Mas, um a um vão caindo.

Fica só um punhado de heróis. Eles vão morrer.

Entrementes, simbólicos sinais da tragédia aparecem no céu da França.

Clique para ouvir :

II

Le combat est merveilleux et pesant.
A batalha é maravilhosa e pesada,

Moult bien y frappent, Olivier et Roland,
Muito bem golpeiam Olivier e Roland,

Le douze pairs ne retardent néant,
Os Doze Pares não perdem tempo,

Et les Français frappent communement,
E os franceses golpeiam todos juntos;

Meurent païens, milliers et cents !
Morrem os pagãos aos milhares e centenas:

Qui ne s’enfuit n’a pas d’autre garant,
Quem não foge não tem quem o salve.

Qu’ils veuillent ou non, Ils y laissent son temps.
Bom grado, mau grado, aí terminam seus dias.

Français y perdent leur meilleur gardements,
Mas os francos perdem seus melhores defensores.

Ne reverront ni pairs ni parents,
Eles não voltarão a ver nem os pais, nem os parentes,

Ni Charlemagne, qui au col les attend.
Nem Carlos Magno, que nas montanhas os aguarda.


Estátua de Roland, portal da catedral de Chartres, França
Roland, catedral de Chartres
III

En France il y a moult merveilleux tourments,
Na França há muitas espantosas tormentas;

Voici qu’il y a du tonnerre et du vent,
Eis que há trovão e ventania,

Pluie et grésier, tout démésurément,
Chuvas e granizos, caem todos desmedidamente;

>Foudre tombant est menu souvent.
Caem os raios em grande intensidade.

Et tremblement de terre, voirement,
E tremores de terra os há verdadeiramente.

Du Saint Michel du Péril jusqu’aux Saints,
De Saint Michel du Peril até Saints,

De Besançon jusqu’au port de Wissant.
De Besançon até o porto de Wissant,

Nulle maison de ses murs ne crevant,
Não há casa que por algum lado não desabe.

En plein Midi, tenèbres y a grand,
Até no extremo sul da França há grandes trevas,

Nulle clarté sauf du ciel qui se fend,
Não há claridade, salvo quando o céu fulmina seus raios.

Nul ne le voit que moult ne s’épouvant,
Ninguém vê isso sem ficar muito apavorado.

Disent plusieurs : C’est le finissement,
Muitos dizem: "É o fim de tudo,

La fin du siècle qui nous est à présent.
O fim do mundo que se nos apresenta".

Ils ne le savent ni disent vrai néant,
Eles não sabem nem dizem a verdade:

C’est le grand deuil pour la mort de Roland !
É o grande luto pela morte de Roland!

Continua em 3º : Os francos lutam epicamente mas vão sendo massacrados



domingo, 21 de abril de 2013

A "Canção de Rolando", resumo das virtudes de um cruzado

Batalha de Roncesvales. Vitral da Catedral de Chartres.
Batalha de Roncesvales. Vitral da Catedral de Chartres.

No ano de 778, Carlos Magno fez uma incursão em terras da Espanha então invadidas pelos muçulmanos.

Entrementes, os saxões que ainda estavam em vias de se converter ao cristianismo, invadiram o outro lado do reino dos Francos, i. é pelo Reno.

Carlos Magno teve que voltar às pressas para defender a fronteira oriental da Cristandade.

Foi nessa ocasião que a retaguarda do seu exército sofreu uma emboscada e foi massacrada em Roncesvalles (Pirineus).

Na batalha pereceram Roland e os Doze Pares de França.

A épica tragédia e os heróicos lances de armas atribuídos aos Doze Pares chefiados por Roland e Olivier, empolgaram o ânimo dos medievais.

A batalha com suas façanhas era cantada nas praças por bardos.

Supõe-se que um monge anônimo de Cluny deu forma acabada a essas versões. Nasceu então a "Canção de Rolando", ou "Canção de Roldão".

Esta é vista pelos especialistas como uma espécie de manual das qualidades e das virtudes que um cavaleiro cristão devia pôr em prática.
No poema épico, a única referência de autoria fala de um certo "Turoldus" de quem nada se sabe.

Batalha de Roncesvales. Grandes Crônicas da França
Batalha de Roncesvales. Grandes Crônicas da França.
Os cavaleiros católicos por vezes, como na batalha de Hastings, entravam em combate cantando-a. Nela encontramos rasgos essenciais do espírito dos cruzados.

A versão escrita mais antiga da Chanson de Roland foi encontrada em Oxford, Inglaterra. Está transcrita em dialeto normando e data do século XI.

Como soaria essa canção em lábios medievais? Difícil dizé-lo. Mas, eis uma interpretação que nos dá margem para refletir.

O texto arcaico está adaptado ao francês hodierno e é acompanhado de uma tradução necessariamente livre.


Excerto nº1 : Roland cavalga pelo campo de batalha

Clique para ouvir :


Roland chevauche par le champ de bataille,
Roland cavalga pelo campo de batalha,

Il tient Durendal qui bien tranche et bien taille,
Levando Durendal, que bem corta e bem talha,

Des Sarraisins, il fait moult grand dommage,
Nos sarracenos, ele faz um grande estrago,

Vous l’auriez vu jeter mort l’un sur l’altre,
Se vós tivésseis visto, lancar morto um sobre o outro,

Leur sang tout clair glisser sur cette place,
Seu sangue jorrar abertamente neste lugar,

Couvert de sang le haubert et ses membres,
Com o elmo e seus membros cobertos de sangue,

Et du cheval, col et les épales,
E no cavalo, do pescoço aos ombros,

Et Olivier de férir ne retarde,
E Olivier não tarda para ferir,

Les douze pairs non doivent avoir blâme,
Os doze pares não merecem repreensão,

Et les Français se lancent et se frappent,
E os franceses lançam-se e se chocam,

Meurent païens ! Et bien d’autres se pâment.
Morrem os pagãos ! E muitos desfalecem !

Continua em 2º : O grande luto pela morte de Rolando




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domingo, 7 de abril de 2013

Sermão do Beato Urbano II convocando a Primeira Cruzada

Catedral de Clermont-Ferrand
Clermont-Ferrand
Em Clermont-Ferrand, no coração da França, o 27 de novembro de 1095, diante de um Concílio de 13 arcebispos e 225 bispos, o Bem-aventurado Papa Urbano II pregou a primeira cruzada.

O espetáculo era comovedor.

Um Concílio, sob a presidência de um Papa sentado na Sede de São Pedro: a luz colocada num candelabro para iluminar todos os povos.

Aquele que é o foco de irradiação da virtude, na cátedra que ensina a verdade e o bem, se dirige às falanges de Nosso Senhor e de Nossa Senhora para a luta contra o mal.

Este homem, como um novo anjo, na cátedra de São Pedro se toma de zelo pela desventura dos lugares Santos.

Ele não pode tolerar que os lugares Santos estejam de posse de infiéis.

Ele não pode suportar que seja tão difícil chegar até os lugares Santos, para ali prestar culto a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele, em nome de Nosso Senhor, agindo como seu vigário na Terra, convoca a primeira Cruzada.
Estátua de Urbano II, Châtillon sur Marne
Monumento ao Beato Urbano II

Eis suas palavras que ficaram registradas para a História:

“Ó Francos, de quantas maneiras Nosso Senhor vos abençoou? Vede quão férteis são vossas terras. Quão verdadeira é vossa fé. Quão indisputável é vossa coragem.

"A vós, abençoados homens de Deus, dirijo estas palavras. E que não sejam levadas levianamente, pois são expressas pela Santa Igreja, que, pelo sagrado pacto com Nosso Senhor, é sua santíssima voz na terra.

“Vós que sois justos e bons, vós que brilhais na santa fé escutai. Sabei da justa e grave causa que nos reúne hoje aqui, sob o mesmo teto, na piedade de Nosso Senhor.

“Relataremos fatos horríveis que ouvimos sobre uma raça de homens completamente afastados de Deus e desprovidos de fé. Turcos, Persas, Árabes, amaldiçoados, estranhos a nosso Deus, que devastam por fogo ou espada as muralhas de Constantinopla, o Braço de São Jorge.

“Até hoje, por misericórdia do Supremo, Constantinopla foi nossa pedra, nosso bastião da fé em território infiel. Agora essa sagrada cidade encontra-se desfigurada, ameaçada.

“Quantas igrejas esses inimigos de Deus conspurcaram e destruíram? Ouvimos de altares e relíquias sendo profanados por sujeira produzida por corpos Turcos. Ouvimos sobre verdadeiros crentes sendo circuncidados e o sangue desse ato sendo vertido em pias batismais.

“O que podemos vos dizer? Turcos transformam solo sagrado em estábulo e chiqueiro, expelem o conteúdo de seus fétidos e putrefatos corpos em vestimentas dos emissários do Evangelho de Nosso Senhor.

“Os descrentes forçam Cristãos a ajoelhar sobre essas roupas imundas, curvar as cabeças e esperar o golpe da espada.

“Essas vestes, que através da imundície e sangue são testemunhas das aberrações fruto da falta da verdadeira fé, são exibidas junto com corpos dos mártires.

“O que mais devemos lhes dizer, ó fieis? Turcos abusam de mulheres cristãs. Turcos abusam de crianças cristãs.

“Pensai nos peregrinos da fé que cruzam o mar, obrigados a pagar passagem em todos os portões e igrejas de todas as cidades. Quão freqüentemente esses irmãos no sangue de Cristo passam por humilhações e falsas acusações?

“Aqueles que viajam na pobreza, como são recebidos nesses lugares de nenhuma fé? São vasculhados em busca de moedas escondidas. As calosidades em seus joelhos, causadas pelo ato de fé ao Nosso Senhor, são abertas por lâminas. Aos fiéis são dadas bebidas vomitórias para que sejam vasculhadas suas emissões estomacais.

“Após isso são ainda obrigados a sorver excremento liquefeito de bodes e cabras de forma a esvaziar suas entranhas. Se nada for encontrado que satisfaça essas filhos do inferno, ó fieis, escutai.

“Turcos abrem com lâmina da espada as barrigas dos verdadeiros seguidores, de Jesus Cristo em busca de peças de ouro ingeridas e assim escondidas.

“Espalham e retalham entranhas mostrando assim o que a natureza manteria secreto. Tudo a procura de riquezas ou por prazer insano.

“Turcos perfuram os umbigos dos fiéis, amarram suas tripas a estacas e afastam os cristãos, prendendo-os com cordas a outro poste, de forma a que vejam suas próprias entranhas endurecendo ao sol, apodrecendo e sendo consumidas por corvos e vermes.

“Os Turcos perfuram irmãos na fé com setas, fazem dos mais velhos alvos móveis para seus malditos arcos. Queimam os braços e pernas dos mártires até carbonizá-los e soltam cães famintos para os devorar ainda vivos.

“Ó Francos, o que dizer? O que mais deve ser dito?

“A quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão santa quanto a espada de São Miguel?

“A quem Nosso Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis filhos?

“Ó Francos, vós não sedes habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros ao serviço da palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela espada?

Clermont-Ferrand, Praça onde o santo Urbano II pregou a Primeira Cruzada“Dêem um passo a frente!

“Não mais levantarão as espadas entre si, ceifando vidas e pecando contra o Evangelho. Aproximem-se guerreiros abençoados.

“Os que dentre vocês roubaram tornem-se agora soldados, pois a causa é suprema. Aqueles que cultivam mágoas juntem-se aos seus causadores, pois a irmandade é essencial ao objetivo.

“Aproximem-se os que desejam vida eterna, aproximem-se os que desejam absolvição no sagrado.

“Sabei que Nosso Senhor espera seus filhos em lugar abençoado. Na palavra do Santíssimo seguirão e combaterão, não deixem que obstáculos os parem, creiam na palavra de Deus e nada os deterá.

“Deixai todas as controvérsias para trás! Uni-vos e acreditai! Não permitais que posses ou família vos detenham.

“Lembrai-vos das palavras de Nosso Salvador, “Aquele que abandonar sua morada, família, riqueza, títulos, pai ou mãe pelo meu nome, receberá mil vezes mais e herdará a vida eterna”.

“Se os Macabeus dos tempos de outrora conquistaram glória pela sua luta de fé, da mesma forma a chance é ofertada a vós.

“Resgatai a Cruz, o Sangue e a Tumba de Nosso Senhor. Resgatai o Gólgota e santificai o local.

“No passado vós não lutastes vos pondo em risco de perdição? Não levantastes aço contra iguais? Orgulho, avareza e ganância não foram vossas diretivas? Por isso vós merecestes a danação, o fogo e a morte perpétua.

“Nosso Senhor em sua infinita sabedoria e bondade oferece aos seus bravos, porém desvirtuados filhos, a chance de redenção. A recompensa do sagrado martírio.

“Ó Francos, ouvi! Deixai a chama sagrada arder nos vossos corações! Sede instrumentos da justiça em nome do Supremo!

“Francos! A Palestina é lugar de leite e mel fluindo, território precioso aos olhos de Deus. Um lugar a ser conquistado e mantido apenas pela fé.

“Nós apelamos às vossas espadas!

“Lutai contra a amaldiçoada raça que avilta a terra sagrada, Jerusalém, fértil acima de todas outras.

“Glorificai as peregrinações para o centro do mundo, consagrai-vos à Paixão de Jesus Cristo!

“Tornai-vos dignos da Redenção pela Sua morte! Glorificai seu túmulo!

“O caminho será longo, a fé no Onipotente torná-lo-á possível e frutífero.

“Não temais Francos! Não temais a tortura, pois nela reside a glória do martírio!

“Não temais a morte, pois nela reside a vida eterna!

“Não temais dor, pois a recebereis com resignação!

“Os anjos apresentarão vossas almas a Deus.

“O Santíssimo será glorificado pelos atos de seus filhos!

“Vede à vossa frente aquele que é a voz de Nosso Senhor! Segui Sua exemplo e palavras eternas!

“Marchai certos da expiação de vossos pecados, na certeza da glória imortal.

“Deixai as legiões de Cristo Rei se atracar com o inimigo!

"Os anjos cantarão vossas vitórias!

“Que os servidores do Evangelho entrem em Jerusalém portando o estandarte de Nosso Senhor e Salvador!

“Que o símbolo da fé seja mostrado em vermelho sobre o imaculado branco, pureza e sofrimento expressados!

“E que sua palavra seja ouvida como retumbante trovão, trazendo medo e luz para os infiéis!

“Que agora o exército do Deus único brade em glória sobre os Seus inimigos!”

A multidão dos cavaleiros convocados de toda a Europa respondeu “Deus vult”, “Deus o quer”! Esse brado ecoou pela Europa toda. O Islã estava perdido. Jerusalém voltaria em breve a mãos cristãs.

A bem dizer esse brado ressoa até hoje. Pois, ele é um eco sagrado de aquele outro brado que São Miguel Arcanjo lançou no Céu contra a revolta de Satanás: "Quis ut Deus?", "Quem como Deus?!"





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segunda-feira, 18 de março de 2013

Os 800 Mártires de Otranto resistindo aos turcos invasores

Nossa Senhora na capela dos mártires, igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
Nossa Senhora na capela dos mártires,
igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto

Em 1480, a Itália celebrava a festa da Assunção com liturgias espetaculares, procissões e, claro, banquetes.

Com a exceção de Otranto, uma pequena cidade da Puglia, na costa do Adriático, onde 800 homens ofereceram suas vidas a Cristo.

Eles foram os Mártires de Otranto.

Poucas semanas antes, a frota turca atracara em Otranto. Sua chegada era temida há muitos anos.

Desde a queda de Constantinopla, em 1454, era apenas uma questão de tempo até que os turcos otomanos invadissem a Europa.

Otranto está mais próxima do lado leste do Adriático controlado pelos otomanos.

São Francisco de Paula reconheceu o perigo iminente para a cidade e seus cidadãos cristãos e pediu reforços para proteger Otranto.

Ele predisse: “Ó, cidadãos infelizes, quantos cadáveres vejo cobrindo as ruas? Quanto sangue cristão vejo entre vocês?”

A 28 de julho de 1480, 18.000 soldados turcos invadiram o porto de Otranto. Eles ofereceram condições de rendição aos cidadãos, na esperança de ganhar sem resistência este primeiro ponto de apoio na Itália e completar a conquista da costa adriática.

Monumento aos heróis e muralhas de Otranto
Monumento aos heróis e muralhas de Otranto
O sultão Mehmed II havia dito ao Papa Sisto IV que levaria seu cavalo para comer sobre o túmulo de São Pedro.

O Papa Sisto, reconhecendo a gravidade da ameaça, exclamou: “pessoas da Itália, se quiserem continuar se chamando de cristãos, defendam-se!”

Apesar de suas advertências terem-se esquecido nos ouvidos da maioria das cabeças coroadas da península –estavam muito ocupadas brigando entre si– o povo de Otranto escutou.

Pescadores, não soldados; eles não tinham artilharia. Eram menos de 15 mil, incluindo mulheres, crianças e idosos. Mas, por comum acordo, eles decidiram guardar a cidade, lançando-se ao combate das forças turcas.

A sofisticada artilharia turca danificava as muralhas de defesa, mas os cidadãos consertavam rapidamente os estragos.

Detrás dos muros, os turcos encontraram cidadãos impávidos, determinados a defender as muralhas com óleo fervendo, sem armas, e às vezes usando as próprias mãos.

Os cidadãos de Otranto frustraram o plano do Sultão de um ataque surpresa e deram à Itália duas semanas de tempo precioso para organizar e preparar suas defesas para repelir os invasores. Mas a 11 de agosto os turcos venceram os muros e açoitaram a cidade.

O exército turco foi de casa em casa, promovendo saques, pilhagens e, em seguida, ateando fogo. Os poucos sobreviventes refugiaram-se na catedral.

O arcebispo Stefano, heroicamente calmo, distribuiu a Eucaristia e sentou-se entre as mulheres e crianças de Otranto, enquanto um frade dominicano conduzia os fiéis em oração.

Capela com as relíquias dos 813 mártires na igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
Capela com as relíquias dos 813 mártires na igreja de Santa Caterina a Formiello, Otranto
O exército de invasores arrombou a porta da catedral e a posterior violência contra mulheres, crianças e o arcebispo –que foi decapitado no altar– chocou a península italiana.

Os turcos tinham tomado a cidade, destruído casas, escravizado o povo e transformado a catedral em mesquita.

Cerca de 14.000 pessoas morreram na tomada de Otranto, na maior parte seus próprios cidadãos, mas um pequeno grupo de 800 sobrevivera, então os turcos tentaram o domínio completo, forçando a conversão.

A opção era o Islã ou a morte. Oito centenas de homens, acorrentados, sem casa e família, pareciam totalmente subjugados aos turcos vitoriosos.

Um dos 800, um trabalhador têxtil chamado Antonio Primaldo Pezzula, passou de artesão humilde a líder heróico nesse dia.

Antonio voltou-se para seus companheiros de Otranto e declarou: “Vocês ouviram o que vai custar salvar o que resta de nossas vidas! Meus irmãos, lutamos para salvar nossa cidade, agora é tempo de lutar por nossas almas!”

Os 800 homens com idades acima dos 15, de forma unânime, decidiram seguir o exemplo de Antonio e ofereceram suas vidas a Cristo.

Os turcos, que esperavam por um momento de propaganda triunfante, tentaram evitar o massacre. Eles ofereceram o retorno das mulheres e crianças que estavam prestes a ser vendidas como escravos, em troca da conversão dos homens, e eles ameaçaram com a decapitação em massa se isso não fosse aceito. Antonio recusou, seguido pelo resto dos homens.

Altar representando o martírio e o milagre, Santa Caterina a Formiello
Altar representando o martírio e o milagre, Santa Caterina a Formiello
Na vigília da Assunção, os 800 foram levados para fora da cidade e decapitados.

A tradição conta que Antonio Pezzula foi decapitado em primeiro lugar, mas seu corpo sem cabeça permaneceu de pé até que o último otrantino estivesse morto.

Um dos carrascos, um turco chamado Barlabei, ficou tão impressionado com esse prodígio que se converteu ao cristianismo, e também foi martirizado.

Os restos foram cuidadosamente recolhidos, e são mantidos até hoje na Catedral de Otranto. No aniversário de 500 anos de sacrifício dos otrantinos, o Papa João Paulo II visitou a cidade e prestou homenagem aos mártires.

Bento XVI reconheceu oficialmente o martírio em 2007, trazendo Antonio Pezzula e seus companheiros um passo mais perto da canonização.

Esta “hora dos leigos” em Otranto, separados de nós por meio milênio, ainda ressoa como exemplo de testemunho do amor a Cristo.

Poucos de nós serão chamados ao mesmo sacrifício de Antonio Pezzuli e seus companheiros, mas como poderíamos responder a sua exortação: “Permanecei fortes e constantes na fé: com esta morte temporal nós ganharemos a vida eterna”.
Professora Elizabeth Lev
Professora Elizabeth Lev



(Autor: Dra. Elizabeth Lev, professora de Arte e Arquitetura Cristã no campus italiano da Universidade de Duquesne, de Pittsburgh, EUA e da Universidade São Tomás, de Saint Paul, Minnesota, EUA. Apud ZENIT







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segunda-feira, 4 de março de 2013

A fidelidade do leão de Godofredo de Tours


Entre os nobres cavaleiros de Provença que partiram para as Cruzadas contra os infiéis, havia um senhor chamado Godofredo de Tours, de grande valor, guerreiro tão heroico como jamais se conheceu.

Nos combates era o primeiro a se lançar sem se preocupar em cobrir seu corpo contra os dardos e as pedras. Galopava até os esquadrões árabes invocando a proteção do Senhor. Tal era sua fama que em todos os exércitos era conhecido e admirado o seu heroísmo!

Um dia cavalgava ele numa clareira, com outros cavaleiros, seguido de numerosos pajens.

De repente ouviram uns terríveis rugidos de leão. Todos, exceto Godofredo, tomados de pânico, fugiram com medo de cair nas garras da fera.

Mas Godofredo, vendo que seu cavalo não lhe obedecia, pegou sua espada, desceu do cavalo e dirigiu-se à floresta onde estava o leão.

Avançou disposto a lutar contra a fera, mas quando penetrou na mata, viu assombrado um terrível espetáculo.

Não eram rugidos de cólera do leão, senão de muita dor.

Uma serpente havia habilmente aprisionado o leão enquanto este dormia, de maneira tal que ele não podia esboçar nenhuma reação.

A serpente apertava-o com o propósito de matá-lo a fim de enguli-lo depois.

O leão, não só sofria pela dor do estrangulamento, senão rugia também de cólera por morrer tão ignominiosamente.

Assim quando viu chegar Godofredo, com a espada em punho, lançou-lhe um olhar de agradecimento, pois preferia morrer pelas mãos de um cavaleiro.

Com cuidado, Godofredo se aproximou com sua espada e cortou a cabeça da serpente.

O leão respirou, livre. Godofredo, deu então um passo para trás para preparar-se para lutar contra o leão.

Mas este, reconhecido, veio humildemente prostrar-se aos pés do cavaleiro que lhe havia salvo a vida e a partir daquele momento se considerou como um vassalo do cavaleiro e o seguia em todas as partes como um amigo fiel.

A todos, grande surpresa causou, nos primeiros dias, ver Godofredo seguido pelo leão.

Muitos fugiam e os pagens estavam temerosos.

Mas tiveram que reconhecer que o leão era o melhor servo de seu amo.

E não só lhe servia nos dias de paz, como também nas batalhas se lançava contra os inimigos, destroçando-os ou fazendo-os fugir.

Quando a Cruzada terminou depois da conquista dos Santos Lugares, os cavaleiros voltavam para Provença.

Iam alegres, cantando e desejando chegar ao país do col.

Godofredo chegou ao navio, acompanhado de seu leão, mas o capitão não quis admitir no navio a fera.

Todos os pedidos foram inúteis, e por fim o cavaleiro teve que deixar na Terra Santa o seu fiel acompanhante.

O leão, quando viu partir a seu senhor, ficou tão triste que se jogou no mar para seguir o navio.

Nadou, nadou até seu último hausto, e então morreu afogado, ante as lágrimas de Godofredo e seus cavaleiros, que viam quão fiel havia sido o coração daquela fera!...

(Fonte: V. Garcia de Diego, Antologia de Leyendas de la Literatura Universal, Editorial Labor S.A., Madrid-Espanha, 1ª edição, 1953).

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