terça-feira, 19 de maio de 2026

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (II): Concílios de Piacenza e Clermont Ferrand, sermão do Beato Papa Urbano II

Estátua de Urbano II, Châtillon sur Marne
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






* Urbano II convoca o Concílio de Piacenza

“Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expôr os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

“No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

“Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza. Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

* Um novo Concílio: Clermont-Ferrand

“O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa. O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Plaisance; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

Pedro o Eremita pregando“O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme. Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; ao seu lado estava Pedro, o Eremita, com o bordão de peregrino e a capa de lã. (...)

"O apóstolo da guerra santa falou primeiro dos ultrajes feitos à Fé de Cristo: (...) Ele tinha visto cristãos carregados de grilhões, levados à escravidão, atrelados ao jugo, como animais de carga; ele tinha visto os opressores de Jerusalém vender aos filhos de Cristo a licença de saudar o túmulo de seu Deus, arrancar-lhes até o mesmo pão da miséria e atormentar a mesma pobreza, para conseguir tributos; ele tinha visto os ministros do Todo-Poderoso tirados do Santuário, vergastados, e condenados a uma morte ignominiosa. (...)

* A exortação de Urbano II

“Urbano II falou depois de Pedro, o Eremita, e fê-lo nestes têrmos:

“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente. Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos; de como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para “servir de palha ao fogo eterno”.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da Ásia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos. Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo, digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exacções mais vergonhosas. A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus; os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; “o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos”. Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades! Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo? Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja “mais forte que a mesma morte”, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, prosseguia o eloqüente Pontífice, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima: chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender “a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos”. Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bençãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna.”

* Um brado unânime: “Deus o quer”

“Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...) A assembléia dos fiéis -- levados por um entusiasmo que jamais a eloqüência humana tinha inspirado -- ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras: Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

Beato Urbano II prega a primeira Cruzada“Vêdes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: “Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles; sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir. Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos.” (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz; ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes; ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele.”

“Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão.”

Autor: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.


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A conversão do príncipe muçulmano

Iguzquiza

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Nos dias de Garcia o Temerário, Rei de Navarra, aconteceu que Abderramán entrou em Navarra com seu exército, chegando até a terra de Estela.

Quando o monarca soube que o Rei de Córdoba viera ao seu reino com tão grande exército, pediu socorro a seu irmão, o Rei das Astúrias.

Abderramán ficou na vila de Logroño com o grosso de seu exército e enviou a Navarra um príncipe mouro, muito poderoso.

Este príncipe era secretamente devoto de Nossa Senhora, e tinha por costume rezar a Ave Maria.

Aconteceu que o demônio teve grande ira por ver isto, e fazendo-se homem, pôs-se a serviço do príncipe como mordomo, durante 14 anos.

Chegando o nobre senhor mouro às terras de Estela, a um lugar que hoje chama-se Igusquiza, andava, uma manhã, o cavaleiro passeando por um corredor, rezando a Ave Maria e tendo diante de si o mordomo, quando subitamente veio voando um astor (velaz, no dialeto vasconço), trazendo no bico a saudação de Nossa Senhora, escrita com letras divinas. Pousou o pássaro na mão do príncipe.

Inflamado pelo calor do Espírito Santo, e encomendando-se a Maria, viu logo entrar pela porta o Apóstolo Santo André, enviado por Deus para o converter.

Santo André, Santa Maria de los Reyes, Álava, Espanha

O diabo, quando viu isto, quis logo fugir, mas Santo André não consentiu, obrigando-o a declarar suas intenções. Depois disto desapareceu, deixando o local cheio de maus odores, em meio a um barulho infernal.

O cavaleiro, ajoelhado aos pés do glorioso apóstolo, recebeu o batismo, foi armado cavaleiro por Santo André e se chamou Andrés Medrano Velaz.

Tomou por armas o astor na mão com a Ave Maria no bico, em um campo colorido, e as aspas de Santo André por orla. Assim esse nobre cavaleiro foi feito defensor dos cristãos e defensor da Igreja.

Tal conversão foi tão grande derrota para os muçulmanos, que maior não poderia ter recebido o Rei Abderramán. O nobre Dom Andrés Velaz perseguia os muçulmanos e fazia coisas tão heróicas, que o Rei mouro perguntava:
— Medra o no?
Respondiam os seus:
— No Medra, no"

Esse tal cavaleiro tinha já grandes riquezas, era senhor de vassalos, cidades e vilas, e o Rei de Navarra lhe acrescentou só pequenas coisas. Por isso o chamaram "medrano", procedência dos Medranos de Navarra, até hoje Velaz. Depois ganharam a cruz oitavada branca em campo colorido.



(Fonte: José Maria Jimeno Jurio, "Leyendas del camino de Santiago" - Diputación Foral de Navarra, 1977, pp. 10-11)




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