terça-feira, 10 de maio de 2022

Godofredo de Bouillon descreve ao Papa Pascoal II a Primeira Cruzada (1099) ‒ II

Godofredo de Bouillon, Bruxelas
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






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Eles ordenaram que todos marchassem com pés descalços ao redor das muralhas da cidade, a fim de que Ele, que nela entrou humildemente por amor a nós, seja movido por nossa humildade a fim de abrir-nos as portas da cidade e julgar seus inimigos.

Aplacou-Se Deus com essa humildade e no oitavo dia depois da penitência entregou-nos a cidade e os seus inimigos.

Era de fato o dia em que a igreja primitiva fora dali expulsa e em que se comemora a dispersão dos Apóstolos. E se vós desejais saber o que foi feito com os inimigos que lá se encontravam, saibais que no Portal de Salomão e do seu templo nossos homens cavalgavam no sangue dos sarracenos até os joelhos dos cavalos.

Tomada de Jerusalém
Então, quando estudávamos quem deveria defender a cidade, e alguns, movidos pela saudade de seu país e de seus parentes queriam voltar para casa, foi-nos anunciado que o rei de Babilônia chegara a Ascalon com uma incontável multidão de soldados.

Seu propósito, como ele mesmo disse, era levar os francos que estavam em Jerusalém para o cativeiro e tomar Antioquia de assalto.

Mas Deus tinha outros planos para nós. Assim, soubemos que o exército dos babilônios estava em pé de guerra para nos atacar, porém eles não tinham armas confiáveis.

Não pode haver dúvida de quão grandes foram seus despojos, pois os tesouros do rei da Babilônia foram capturados. Mais de 100 mil mouros ali morreram a fio de espada.

Além disso, seu pânico foi tão grande que cerca de 2.000 foram sufocados na entrada da cidade. Inúmeros morreram no mar. Muitos pereceram enredados nas moitas.

Todos os elementos certamente lutaram por nós, e se muitos de nós não tivéssemos parado para saquear o acampamento, uma grande multidão de inimigos não teria escapado.

E embora possa ser entediante, o seguinte não deve ser omitido: no dia anterior a batalha o exército capturou milhares de camelos, bois e ovelhas.

Por ordem dos príncipes, foram eles divididos entre as pessoas. Ao avançarmos para a batalha, deu-se um fato maravilhoso: os camelos formaram-se em vários esquadrões e as ovelhas e bois fizeram o mesmo.

Todos esses animais nos acompanhavam, parando quando parávamos, avançando quando avançávamos, e atacando quando atacávamos. As nuvens nos protegiam do calor do sol e nos refrigeravam.

Assim, após celebrar a vitória, o exército voltou a Jerusalém. O duque Godofredo lá ficou; o conde de Saint Gilles, Roberto, conde da Normandia, e Roberto, conde de Flandres, voltaram a Laodicéia. Ali encontraram a frota dos pisanos e de Boemundo.

Bronze de Godofredo de Bouillon. Fundo: igreja do Santo Sepulcro
Tendo o arcebispo de Pisa obtido um acordo de paz entre Boemundo e nossos chefes, Raimundo preparou-se para voltar a Jerusalém pelo amor de Deus e dos irmãos.

Assim, conclamamos a todos os senhores da Igreja Católica de Cristo e de toda a Igreja latina a exultaram com a admirável bravura e devoção de vossos irmãos.

Com a gloriosa e tão desejável recompensa de Deus onipotente, e com a muito e devotamente esperada remissão de nossos pecados pela graça de Deus.

E rogamos que Ele faça com que todos vós –bispos, clero e monges de vida devota, e todo o laicato – se sentem à mão direita de Deus, que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

E vos pedimos e rogamos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que permanece sempre conosco e nos livra de todas as tribulações, que cuidem bem de nossos irmãos que a vós retornam, fazendo-lhes gentilezas e pagando suas dívidas, para que Deus os recompense e absolva de todos os vossos pecados e vos conceda uma participação nas bênçãos que nós e eles temos merecido diante do Senhor. Amém.

Laodicéia, Setembro de 1099




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terça-feira, 26 de abril de 2022

Godofredo de Bouillon descreve ao Papa Pascoal II a tomada de Jerusalém (1099) ‒ I

Godofredo de Bouillon. Fundo: igreja do Santo Sepulcro
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Godofredo e Raimundo Daimbert ao senhor Pascoal, Papa da Igreja Romana, a todos os bispos e a todo o povo cristão, ao arcebispo de Pisa, o duque Godofredo, agora, pela graça de Deus, Defensor da Igreja do Santo Sepulcro; Raimundo, conde de Saint Gilles, e todo o exército de Deus, que está na terra de Israel, saudação.

Multiplicai vossas súplicas e orações diante de Deus com alegria e ação de graças, pois Deus manifestou sua misericórdia em nossas mãos cumprindo o que prometeu em tempos antigos.

De fato, após a captura de Nicéia, todo o exército, composto por mais de trezentos mil soldados, dali partiu. E, embora esse exército fosse tão grande que ainda que tivesse tomado a Romania toda em um só dia, teria bebido a água de todos os rios e comido tudo aquilo que cresce. Mas, o Senhor o conduziu em meio a tão grande abundância que um carneiro se vendia por um centavo e um boi por doze centavos ou menos.

Além disso, embora os príncipes e reis dos sarracenos tenham se levantado contra nós, pela vontade de Deus foram facilmente vencidos e dominados.

E como alguns se orgulhavam desses sucessos, Deus levantou contra nós Antioquia, inexpugnável à força humana. Ele ali nos deteve por nove meses e de tal maneira fomos humilhados no cerco que apenas uma centena de bons cavalos sobrou em nosso exército inteiro.
Godofredo de Bouillon, afresco, Palazzo Trinci, Foligno, Itália

Deus, entretanto, abriu para nós a abundância de sua bênção e misericórdia e nos levou para a cidade, entregando em nossas mãos os turcos e todos os seus bens.

Na medida em que pensávamos que estes foram adquiridos por nossa própria força e não por um auxílio de Deus, a fim de louvá-lO dignamente pelo feito, fomos cercados por tão grande multidão de turcos que ninguém atrevia aventurar-se em qualquer ponto da cidade.

Por outro lado, ficamos tão enfraquecidos pela fome que dificilmente alguns puderam abster-se de comer carne humana. Seria fastidioso narrar todas as desgraças que sofremos naquela cidade.

Mas Deus deitou os olhos sobre o Seu povo a quem tinha tanto castigado e misericordiosamente consolou-o.

Assim, primeiramente revelou-nos, como recompensa por nossa tribulação e como penhor de vitória, Sua lança que tinha ficado escondida desde os tempos dos Apóstolos.

Em seguida, fortificou de tal modo os corações dos homens, que os que não conseguiam andar por causa de fome ou doença foram dotados de força para tomar armas e lugar corajosamente contra o inimigo.

Godofredo de Bouillon. Fundo: viela de Jerusalém
Depois de triunfar sobre o inimigo, como o nosso exército estava se desfazendo em Antioquia por doença e cansaço e foi especialmente prejudicado por dissensões entre seus líderes, seguimos para a Síria, onde atacamos Barra e Marra, cidades dos sarracenos, e conquistamos as fortalezas daquele país.

E enquanto lá nos atrasávamos, foi tão grande a fome no exército que o povo cristão passou a comer os corpos já podres dos sarracenos.

Finalmente, por divina admoestação, entramos no interior da Hispania (região à margem direita do rio Orontes, que se estende em direção ao leste, perto da antiga Apaméia), e a mão abundante, misericordiosa e vitoriosa do Pai onipotente estava conosco.

As cidades e fortalezas do país pelas quais passávamos enviaram-nos embaixadores com muitos presentes e se ofereceram para ajudar-nos e entregar-nos suas fortalezas.

Mas nosso exército não sendo grande e havendo um desejo unânime de apressar a ida a Jerusalém, aceitamos as suas promessas e os fizemos nossos tributários.

Uma dessas cidades, situada no litoral, tinha mais homens do que todo nosso exército. E quando os que se encontravam em Antioquia, Laodicéia e Archas souberam como a mão do Senhor estava conosco, muitos do exército que haviam permanecido nas cidades seguiram-nos a Tiro.

Assim, protegidos e ajudados pelo Senhor, continuamos até Jerusalém.




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quarta-feira, 13 de abril de 2022

A tomada de Trípoli e a destruição da biblioteca máxima das crendices islâmicas

Porta da Ponte, Sébastien Mamerot, Les Passages d’Outremer, Fr 5594, BnF
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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O historiador Ibn abi Tayyî (1160 – 1235 aprox.), da seita xiita, deixou um escrito sobre o impacto da tomada de Trípoli pelos Cruzados, liderados pelo rei Balduíno e os heróis Tancredo e Saint-Gilles.

A cidade, e, sobretudo, a sua biblioteca, eram o grande polo dos erros e superstições islâmicos, aonde acorriam ulemás (doutores) e sufis (curandeiros-bruxos) para se aprofundarem em seus sofismas e nas artes mágicas.

“Havia em Trípoli – escreveu Ibn abi Tayyî – um palácio da Ciência que não havia igual em país algum pela sua riqueza, beleza ou valor.

“Meu pai me contou que um sheik de Trípoli disse ter estado com Frakhr al-Mulk b'Ammar em Shayzar e que ele desmaiou quando soube da queda Trípoli.

“Recuperando-se, chorava copiosamente. ‘Nada me aflige tanto, dizia ele, quanto a perda do palácio da Ciência. Lá havia três milhões (sic) de livros, todos de teologia, ciência corânica, hadiths, de adabs e ainda outros cinquenta mil exemplares do Corão e vinte mil comentários sobre o Corão feito por Alá todo-poderoso’.

“Meu pai acrescentava que esse palácio da Ciência era uma das maravilhas do mundo.

“Os Banu'Ammâr haviam investido nele enormes riquezas; ali trabalhavam cento e oitenta copistas dia e noite. Os Banu'Ammâr tinham agentes em todos os países que compravam para eles livros seletos.

“Em verdade, naquele tempo Trípoli inteira era o palácio da Ciência. Os grandes espíritos de todos os países iam à cidade, todas as ciências eram cultivadas e protegidas pelos príncipes. Por isso, lá iam os adeptos da ciência corânica.

“Quando os francos entraram em Trípoli e a conquistaram, eles queimaram o palácio da Ciência porque um de seus padres malditos tendo visto esses livros ficou horrorizado.

“Ele julgou ter achado o Tesouro dos Alcorões. Ele estendeu uma mão para pegar um volume: era um Corão; estendeu a mão para outro lado e era ainda um Corão, em direção a um terceiro e era ainda a mesma coisa.

“De onde ele concluiu: ‘não há senão exemplares do Corão dos muçulmanos nesta casa’. Quando ele disse isso os francos queimaram-na.

“Entretanto, conseguiu-se salvar alguns livros que foram levados a países muçulmanos.

“Eles destruíram todas as mesquitas e estiveram a ponto de massacrar todos os habitantes muçulmanos. (...)

“Quanto ao governador e algumas de suas tropas, eles se refugiaram no palácio do Emir, e se defenderam durante alguns dias. Depois pediram um armistício, obtiveram-no, foram expulsos da cidade, e foram para Damasco.

“Depois os francos reuniram os notáveis que depois de se confessarem ricos foram golpeados até que todos entregassem suas fortunas. Muitos morreram torturados.

“A cidade foi dividida em três partes, uma para os genoveses, outra para Balduíno, rei dos Francos em Jerusalém, e outra para Saint-Gilles, o maldito.

“A tomada de Trípoli e o acontecido à sua população consternaram todo o mundo islâmico.

Vento desvia frota egípcia (1105)
Vento desvia frota egípcia (1105)
“Houve reuniões nas mesquitas em duelo pelos mortos. Todo o mundo ficou tomado de medo e persuadido da conveniência de migrar.

“Um grande número de muçulmanos partiu para o Iraque e para a Djéziré. Alá sabe melhor (...).

“Quando a frota egípcia chegou a Tiro oito dias depois, soube da queda de Trípoli por um golpe da sorte.

“Jamais partira do Egito frota semelhante. Ela levava reforços, víveres, dinheiro, para aprovisionar Trípoli pelo espaço de um ano.

“Quando o comandante da frota soube da queda de Trípoli repartiu as provisões e o dinheiro que tinha trazido entre Tiro, Saïda, Beirute e as outras praças fortes muçulmanas, e levou a frota de volta para o Egito.

“Fakir al-Mulk b.'Ammâr, senhor de Trípoli, durante a queda da cidade se reuniu com o emir Ibn Munqidh, que lhe oferecia hospitalidade. Ele foi até Djabala e se estabeleceu ali após trazer provisões e armas.

“Tancredo foi atacá-lo e lhe deu duros combates. O cadí Fakhr al-Mulk pediu socorro aos príncipes vizinhos, fazendo-lhes sentir a perfídia dos Francos, e que se eles ocupassem essa cidade, eles iriam à procura de outra, e que seu poder cresceria a ponto de poder conquistar toda a Síria e expulsar os muçulmanos.

“A carta era extensa, ela fez sangrar os corações e chorar os olhos, mas ninguém lhe respondeu. (...)”.

 (Fonte: “Orient et Occident au temps des Croisades” de Claude Gahen, “Collection historique” dirigée par Maurice Agulhon et Paul Lemerle, éditions Aubier Montaigne, Paris, 1992, rubrique Documents, pages 219 à 223 apud Internet Medieval Sourcebook.




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terça-feira, 29 de março de 2022

São João Damasceno, Doutor da Igreja:
Maomé, falso profeta, excogitou nova heresia,
eriçada de coisas ridículas

Luis Dufaur
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“Até o momento a superstição dos ismaelitas, arautos do Anticristo, continua a enganar os povos.

“São descendentes de Ismael, filho de Abraão e de Agar; os ismaelitas são também chamados comumente de agarianos.

“Eram idólatras, adoravam a estrela Lúcifer e Vênus, que chamavam, Chabar ou grande, até o tempo de Heráclio.

“Então levantou-se entre eles um falso profeta, chamado Maomé, que havendo encontrado os livros dos Antigo e Novo Testamentos, e tido contato com um monge ariano, formulou uma heresia nova.

“Conseguido o favor de seu povo por uma aparência de piedade, difundiu o rumor que os escritos lhe vinham do céu.

“Escreveu um livro eriçado de coisas ridículas, onde expõe a sua religião.

“Estabelece um Deus do universo, que não foi engendrado, nem engendrou nada.

“Diz que Cristo é o Verbo de Deus e seu Espírito, mas criado e servidor que nasceu sem cooperação humana, de Maria, irmã de Moisés e de Aarão, por operação do Verbo de Deus, que nela entrou; que os judeus, havendo querido, por um crime detestável, pregá-lo numa cruz, apoderaram-se dele, mas não crucificaram senão sua sombra: de sorte que Jesus Cristo não sofreu nem a cruz nem a morte, tendo Deus, a quem era todo querido, arrebatado o Verbo aos céus”.


(Autor: São João Damasceno, apud “Fount of Knowledge, part two entitled Heresies in Epitome: How They Began and Whence They Drew Their Origin”, The Fathers of the Church, vol. 37 (Washington, DC: Catholic University of America Press, 1958), pp. 153-160).


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