terça-feira, 11 de agosto de 2026

O que é o islamismo e o Islã?
Ensinado por São João Bosco

Maomé no inferno (acima na direita). Giovanni di Pietro Falloppi, ou da Modena (1379 – 1455), Cappella Bolognini.
Maomé no inferno (acima na direita). Giovanni di Pietro Falloppi,
ou da Modena (1379 – 1455), Cappella Bolognini, Bolonha, Itália.
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs


São João Bosco, mestre da juventude, é famoso também por ser autor de numerosos livros de ilibada formação religiosa católica.

Entre esses está o livro “O católico educado em sua religião: Colóquios de um pai de família com seus filhos segundo as necessidades do tempo, com epílogo do Sacerdote João Bosco”.

Esse livro foi publicado por vez primeira em 1853 e teve incontáveis edições, sendo usado pelos sacerdotes da egrégia congregação salesiana na sua labor evangelizadora e educadora em todos os continentes.

Também foi muito usado pelos pais de família católicos que desejam dar uma boa formação aos filhos.

O texto completo, em italiano, tirado das obras completas do grande santo, pode ser descarregado em PDF clicando aqui: "O católico instruido em sua religião" ("Il cattolico istruito nella sua religione".

O livro está redigido em forma de diálogos entre um pai de família preocupado com a salvação da alma dos filhos, e o filho mais velho, que fala em nome de todos os outros irmãos.

Reproduzimos a continuação o diálogo nº13 sobre o Islamismo, ou maometanismo.



Diálogo XIII. O Maometanismo.



Pai – Sem dúvida, não há ciência mais importante para um católico do que aquela que o instrui na sua religião. Ciência importante e, ao mesmo tempo, muitíssimo consoladora, porque tem uma base tão certa e tão clara, que todos os seus relatos nos fazem reconhecer o concurso da Onipotência divina.

Esta religião de Jesus Cristo, que se conserva somente na Igreja Católica Romana, segundo as palavras do mesmo Salvador, vai ser perseguida de alguma forma, mas jamais vencida.

Em todos os tempos, em meio às perseguições mais sangrentas, Ela soube conservar-se qual imóvel coluna, sempre gloriosa, sempre visível, sempre vitoriosa, sem nunca utilizar outra arma senão a da caridade e da paciência.

Esta sua invariabilidade, conservada desde os tempos de Jesus Cristo até nós, não pode ser atribuída senão à Onipotência divina.

São João Bosco, mestre da mocidade católica.
São João Bosco, mestre da mocidade católica.
Estabelecidos assim os fundamentos da nossa Santa Religião Católica, quero entretê-los um pouco mais sobre alguns acontecimentos curiosos: refiro-me àquelas religiões que eram unidas à Igreja Católica e que depois de algum tempo se separaram.

Filho – Muito bem, muito bem. Desejo saber sobre isso há longo tempo. Quais são essas religiões que se separaram a certa altura da Igreja Católica?

Pai – Antes de lhe falar sobre as religiões que se separaram em certo momento da Igreja Católica Romana, quero fazer-lhe notar as religiões que não têm os caracteres da divindade, as quais nós chamamos de falsas religiões, que podem ser reduzidas ao judaísmo, à idolatria, ao maometanismo e às seitas cristãs professadas pelos gregos cismáticos, valdenses, anglicanos e protestantes.

Sobre a idolatria creio que não é o caso de falar, porque em nossos dias, com exceção de pouquíssimos países nos quais ainda não pôde penetrar a luz do Evangelho, ela não existe mais.

Sobre o judaísmo parece-me que já lhe falei suficientemente na primeira parte destes nossos colóquios. Se lhe aprouver, falarei das outras, começando pelo maometanismo.

Filho – Sim, sim, comece por dizer o que se entende por maometanismo.

Pai – Por maometanismo se entende uma coleção de máximas extraídas de várias religiões, que praticadas conduziram à destruição de todos os princípios da moralidade.

Filho – Como se iniciou o maometanismo?

Pai – O maometanismo iniciou-se com Maomé.

Filho – Oh! Daquele Maomé de quem sentíamos ouvir falar com muito comprazimento: diga tudo o que sabe sobre ele.

Pai – Seria muito longo referir tudo o que as histórias contam sobre este famoso impostor: procurarei apenas fazer conhecer quem foi ele e como fundou a sua religião.

Maomé nasceu em uma família pobre, de pai pagão e mãe judia, no ano de 570, em Meca, cidade da Arábia pouco distante do Mar Vermelho.

Ávido de glória e ansioso por melhorar sua condição, vagou por diversos países e conseguiu tornar-se agente de uma mercadora de Damasco, que mais tarde o desposou.

Ele era tão astuto, que soube aproveitar-se de sua doença e de sua ignorância para fundar uma religião.

Sofrendo de epilepsia, afirmava que aquelas suas frequentes quedas eram raptos durante seus colóquios com o Anjo Gabriel.

Maomé propagou a sua religião pela força das armas, e  favorecendo toda libertinagem, foi chefe de um formidável bando de salteadores.
Maomé propagou a sua religião pela força das armas, e
favorecendo toda sorte de libertinagem,
foi chefe de um formidável bando de salteadores.

Filho – Que impostor, enganar as pessoas dessa maneira! Ele também vai tentar fazer milagres que confirmem a sua pregação?

Pai – Maomé não poderia fazer nenhum milagre para confirmar a sua religião, porque ele não era enviado por Deus. Só Deus é autor dos milagres.

Como, no entanto, ele se julgava superior a Jesus Cristo, imediatamente lhe perguntaram se também não poderia fazer milagres. Ele respondeu com orgulho que já os tinha feito.

Contudo, gabava-se de ter operado um, e dizia que, tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele tinha sabido colá-la de novo; em memória desse milagre ridículo os maometanos tomaram como símbolo a meia-lua.

Vocês riem, ó meus filhos, e com razão, porque um homem assim devia antes ser considerado um charlatão, e não o pregador de uma nova religião.

Precisamente por isso se espalhou a fama de que ele era um impostor, um perturbador da tranquilidade pública, e seus compatriotas queriam prendê-lo e condená-lo à morte.

Após isso ele fugiu, retirando-se na cidade de Medina com alguns libertinos que o ajudaram a tornar-se mestre.

Filho – No que consiste propriamente a religião de Maomé?

Pai – A religião de Maomé consiste numa monstruosa mistura de judaísmo, paganismo e cristianismo.

O livro da lei muçulmana é chamado Alcorão [o Corão] , ou seja, libro por excelência.

Essa religião é também chamada de turca, porque é muito difundida na Turquia; ou muçulmana de Musul, nome que os maometanos dão ao dirigente da oração; ou islamismo, nome tomado de alguns de seus reformadores; mas é sempre a mesma religião fundada por Maomé.

Filho – Por que Maomé fez essa mistura de várias?

Pai – Como os povos da Arábia eram constituídos uma parte por judeus, outra parte por cristãos, e os outros pagãos, para induzir todos a segui-lo, ele tomou uma parte da religião professada por eles e deu preferência especialmente àqueles pontos que podem incentivar mais os prazeres sensuais.

Maomé envolvido em chamas liderando as orações de Abraão, Moisés, Jesus e outros. Iluminura persa. Ele se achava superior até de Jesus Cristo e de todos os profetas.
Maomé envolvido em chamas liderando as orações de Abraão, Moisés, Jesus e outros.
Iluminura persa. Ele se achava superior até de Jesus Cristo e de todos os profetas.
Filho – É verdade que Maomé fosse um homem douto?

Pai – De fato não, ele nem sequer sabia escrever; e para compor o seu Alcorão, foi ajudado por um judeu e por um monge apóstata.

Falando de coisas contidas na História Sagrada, ele confunde um fato com o outro; por exemplo, atribuiu a Maria, irmã de Moisés, mais fatos que os relativos a Maria, mãe de Jesus Cristo, com muitíssimos outros absurdos.

Filho – Isto me deixa curioso: se Maomé era ignorante e não fez nenhum milagre, como poderia propagar a sua religião?

Pai – Maomé propagou a sua religião não com milagres ou com a persuasão das palavras, mas pela força das armas.

Religião que, favorecendo toda sorte de libertinagem, em curto espaço de tempo tornou Maomé chefe de um formidável bando de salteadores.

Juntamente com esses ele percorria os países do Oriente, ganhando os povos não com a pregação da verdade, com milagres ou profecias, mas com o único argumento de erguer a espada sobre a cabeça dos vencidos, gritando: acreditar ou morrer.

Filho – Canalha, esses são argumentos a serem usados para converter as pessoas? Sem dúvida, sendo Maomé tão ignorante, terá disseminado muitos erros no Alcorão.

Pai – Pode-se dizer que o Alcorão é uma série de erros os mais gritantes contra a moral e o culto do verdadeiro Deus.

Por exemplo, escusa de pecado aquele que nega a Deus por temor da morte; permite a vingança; assegura aos seus sequazes um paraíso, mas cheio apenas de prazeres mundanos.

Em suma, a doutrina desse falso profeta permite coisas tão obscenas, que a alma cristã tem horror de nomear.

Maomé no inferno com as vísceras abertas. Ilustração de Gustave Doré (1832 – 1883) para a Divina Commedia de Dante Alighieri.
Maomé no inferno com as vísceras abertas.
Ilustração de Gustave Doré (1832 – 1883) para
a Divina Commedia de Dante Alighieri.
Filho – Que diferença existe entre a Igreja cristã e a muçulmana?

Pai – A diferença é enorme.

Maomé fundou a sua religião com a violência e com as armas: Jesus Cristo fundou a sua Igreja com palavras de paz, servindo-se de seus discípulos pobres.

Maomé fomentava as paixões, Jesus Cristo ordenava a negação de si mesmo.

Maomé não fez milagre algum, Jesus Cristo operou um número incontável à luz do dia e na presença de multidões inumeráveis.

As doutrinas de Maomé são ridículas, imorais e corruptoras; as de Jesus Cristo são augustas, sublimes e puríssimas.

Em Maomé não se cumpriu profecia alguma; em Jesus Cristo todas.

Em suma, a Religião Cristã, de alguma maneira torna feliz o homem neste mundo para conduzi-lo depois ao gozo do Céu; Maomé degrada e avilta a natureza humana,

E, fazendo consistir a felicidade em apenas os prazeres sensuais, rebaixa o homem ao nível do animais imundos.



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terça-feira, 2 de junho de 2026

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (III): sinais divinos e bençãos da Igreja

Núncio Apostólico Adhémar de Monteil na batalha da Antioquia leva a Santa Lança
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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* Os Barões e Cavaleiros juram combater os inimigos da Fé

“Os Barões e os Cavaleiros que tinham ouvido as exortações de Urbano fizeram o juramento de vingar a causa de Jesus Cristo; esqueceram-se de suas próprias questões e juraram combater juntos os inimigos da Fé cristã. Todos os fiéis prometeram respeitar as decisões do Concílio e ornaram suas vestes com uma cruz vermelha de pano ou de seda. (...)

“Os fiéis pediram a Urbano que se pusesse à sua frente, mas o Pontífice, que ainda não tinha triunfado sobre o antipapa Guiberto, e que perseguia com seus anátemas o Rei da França e o Imperador da Alemanha, não podia deixar a Europa sem comprometer o poder e a política da Santa Sé.

“Nomeou o Bispo de Puy, seu legado apostólico, junto do exército dos cristãos. Prometeu a todos os cruzados a remissão de seus pecados. Suas pessoas, suas famílias, seus bens, foram postos sob a proteção da Igreja e dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo. O concílio declarou que toda a violência feita contra os soldados de Jesus Cristo seria castigada com o anátema e entregou seus decretos, em favor dos cruzados à vigilância dos Padres e dos Bispos.

“Urbano percorreu ele mesmo várias províncias da França, para terminar sua obra tão felizmente começada. (...)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (II): Concílios de Piacenza e Clermont Ferrand, sermão do Beato Papa Urbano II

Estátua de Urbano II, Châtillon sur Marne
Luis Dufaur
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* Urbano II convoca o Concílio de Piacenza

“Para responder aos pedidos de Alexis e aos votos dos fiéis, o soberano Pontífice convocou em Piacenza um concílio, a fim de expôr os perigos da Igreja grega e da Igreja latina do Oriente. (...) mais de duzentos Bispos e Arcebispos, quatro mil eclesiásticos e trinta mil leigos obedeceram ao convite da Santa Sé. (...)

“No entretanto, o Concílio de Piacenza não tomou resolução alguma sobre a guerra contra os infiéis. (...)

“Outras razões explicariam o pouco efeito que produziu a pregação de Urbano no concílio de Piacenza. Os povos da Itália, aos quais o soberano Pontífice se dirigia, estavam entregues ao espírito de comércio, e as preocupações mercantis não vão de acordo com o entusiasmo religioso; além disso, a Itália estava fortemente dominada por um espírito de liberdade, que produzia perturbações e levava a negligência aos interesses da religião. (...)

* Um novo Concílio: Clermont-Ferrand

“O prudente Urbano (...) para tomar um partido decisivo sobre a guerra santa e para interessar todos os povos ao seu feliz êxito, resolveu reunir um segundo sínodo, numa nação belicosa e, desde aqueles tempos remotos, acostumada a dar impulso à Europa. O novo concílio, reunido em Clermont, no Auvergne, não foi nem menos numeroso nem menos respeitável que o de Plaisance; os santos e os doutores mais célebres vieram honrá-lo com sua presença e ilustrá-lo com seus conselhos. (...)

Pedro o Eremita pregando“O concílio teve sua décima reunião na grande praça de Clermont que logo se encheu de uma multidão enorme. Seguido por seus Cardeais, o Papa subiu a uma espécie de trono, que haviam erguido para ele; ao seu lado estava Pedro, o Eremita, com o bordão de peregrino e a capa de lã. (...)

"O apóstolo da guerra santa falou primeiro dos ultrajes feitos à Fé de Cristo: (...) Ele tinha visto cristãos carregados de grilhões, levados à escravidão, atrelados ao jugo, como animais de carga; ele tinha visto os opressores de Jerusalém vender aos filhos de Cristo a licença de saudar o túmulo de seu Deus, arrancar-lhes até o mesmo pão da miséria e atormentar a mesma pobreza, para conseguir tributos; ele tinha visto os ministros do Todo-Poderoso tirados do Santuário, vergastados, e condenados a uma morte ignominiosa. (...)

* A exortação de Urbano II

“Urbano II falou depois de Pedro, o Eremita, e fê-lo nestes têrmos:

“Acabais de ouvir o enviado dos cristãos do Oriente. Ele vos disse da sorte lamentável de Jerusalém e do povo de Deus; ele vos disse de como a cidade do Rei dos Reis, que transmite aos outros os preceitos de uma Fé pura, foi obrigada a servir às superstições dos pagãos; de como o túmulo milagroso, onde a morte não pôde conservar sua presa, esse túmulo, fonte da vida futura, sobre o qual surgiu o sol da ressurreição, foi manchado por aqueles que não devem ressuscitar, senão para “servir de palha ao fogo eterno”.

“A impiedade vitoriosa espalhou suas trevas nas mais ricas regiões da Ásia; (...) as hordas bárbaras dos turcos (...) ameaçam todos os países cristãos. Se Deus mesmo, armando contra elas seus filhos, não as detiver em sua marcha triunfante, que nação, que reino, poderá fechar-lhes as portas do Ocidente? (...)

“O povo, digno de elogios, esse povo que o Senhor, nosso Deus, abençoou, geme e sucumbe sob o peso dos ultrajes e das exacções mais vergonhosas. A raça dos eleitos sofre indignas perseguições; a raiva ímpia dos sarracenos não respeitou nem as virgens do Senhor, nem o colégio real dos Sacerdotes.

“Eles carregaram de ferros as mãos dos enfermos e dos velhos; crianças arrancadas aos braços maternos esquecem agora entre os bárbaros o nome do verdadeiro Deus; os asilos que esperavam os viajantes pobres na estrada dos santos lugares receberam sob seu teto profanado uma nação perversa; “o templo do Senhor foi tratado como um homem infame e os ornamentos do santuário foram arrebatados como escravos”. Que vos direi mais? (...)

“Ai! de nós, meus filhos e meus irmãos, que vivemos nestes dias de calamidades! Viemos então a este século reprovado pelo céu para ver a desolação da cidade santa e para vivermos em paz, quando ela está entregue nas mãos de seus inimigos?

“Não é preferível morrer na guerra do que suportar por mais tempo esse horrível espetáculo? Choremos todos juntos nossas faltas que armaram a cólera divina; choremos, mas que nossas lágrimas não sejam como a semente lançada sobre a areia e a guerra santa se acenda ao fogo de nosso arrependimento; e o amor de nossos irmãos nos anime ao combate e seja “mais forte que a mesma morte”, contra os inimigos do povo cristão.

“Guerreiros que me escutais, prosseguia o eloqüente Pontífice, vós que procurais sem cessar vãos pretextos de guerra, alegrai-vos pois eis aqui uma guerra legítima: chegou o momento de mostrar se estais animados por uma verdadeira coragem; chegou o momento de expiar tantas violências cometidas no seio da paz, tantas vitórias manchadas pela injustiça.

“Vós que fostes tantas vezes o terror de vossos concidadãos e que vendíeis por um vil salário vossos braços ao furor de outrem, armados pela espada dos Macabeus, ide defender “a casa de Israel, que é a vinha do Senhor dos exércitos”. Não se trata mais de vingar as injúrias dos homens, mas as da Divindade; não se trata mais do ataque de uma cidade ou de um castelo, mas da conquista dos santos lugares.

“Se triunfardes, as bençãos do céu e os reinos da Ásia serão vosso prêmio; se sucumbirdes, tereis a glória de morrer nos mesmo lugares onde Jesus Cristo morreu e Deus não se esquecerá de que vos viu em sua santa milícia. Que afeições fracas e covardes, sentimentos profanos não vos prendam em vossos lares; soldados do Deus vivo, escutai somente os gemidos de Sião; quebrai todos os liames da terra e lembrai-vos do que o Senhor disse: Aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; todo aquele que deixar sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua esposa, ou seus filhos, ou sua propriedade, por Meu nome, será recompensado com o cêntuplo e terá a vida eterna.”

* Um brado unânime: “Deus o quer”

“Estas palavras de Urbano penetravam e abrasavam todos os corações e assemelhavam-se à chama ardente descida do céu. (...) A assembléia dos fiéis -- levados por um entusiasmo que jamais a eloqüência humana tinha inspirado -- ergueu-se totalmente e fez ouvir estas palavras: Deus o quer! Esse brado (...) ecoou até nas montanhas da vizinhança. (...)

Beato Urbano II prega a primeira Cruzada“Vêdes aqui, continuou o Pontífice, a realização da promessa divina: “Jesus Cristo declarou, que quando seus discípulos se reunissem em seu nome, Ele estaria no meio deles; sim, o Salvador do mundo está agora em nosso meio e é Ele mesmo que vos inspira os brados que acabo de ouvir. Que essas palavras: Deus o quer! sejam para o futuro vosso grito de guerra e anunciem por toda a parte a presença do Deus dos exércitos.” (...)

“É o próprio Jesus Cristo que sai de Seu túmulo e que vos apresenta sua Cruz; ela será o sinal, erguido entre as nações, que deve reunir os filhos dispersos de Israel; levai-a em vossos ombros ou sobre o vosso peito; que ela brilhe sobre as vossas armas e sobre os vossos estandartes; ela será para vós o penhor da vitória ou a palma do martírio; ela vos há-de lembrar continuamente que Jesus Cristo morreu por vós e que deveis morrer por Ele.”

“Depois que Urbano acabou de falar, só se ouviam estes brados: Deus o quer! Deus o quer!, que era como a voz de todo o povo cristão.”

Autor: Joseph-François Michaud, História das Cruzadas, Vol. I, Editora das Américas, São Paulo, pp. 78 a 109.


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A conversão do príncipe muçulmano

Iguzquiza

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Nos dias de Garcia o Temerário, Rei de Navarra, aconteceu que Abderramán entrou em Navarra com seu exército, chegando até a terra de Estela.

Quando o monarca soube que o Rei de Córdoba viera ao seu reino com tão grande exército, pediu socorro a seu irmão, o Rei das Astúrias.

Abderramán ficou na vila de Logroño com o grosso de seu exército e enviou a Navarra um príncipe mouro, muito poderoso.

Este príncipe era secretamente devoto de Nossa Senhora, e tinha por costume rezar a Ave Maria.

Aconteceu que o demônio teve grande ira por ver isto, e fazendo-se homem, pôs-se a serviço do príncipe como mordomo, durante 14 anos.

Chegando o nobre senhor mouro às terras de Estela, a um lugar que hoje chama-se Igusquiza, andava, uma manhã, o cavaleiro passeando por um corredor, rezando a Ave Maria e tendo diante de si o mordomo, quando subitamente veio voando um astor (velaz, no dialeto vasconço), trazendo no bico a saudação de Nossa Senhora, escrita com letras divinas. Pousou o pássaro na mão do príncipe.

Inflamado pelo calor do Espírito Santo, e encomendando-se a Maria, viu logo entrar pela porta o Apóstolo Santo André, enviado por Deus para o converter.

Santo André, Santa Maria de los Reyes, Álava, Espanha

O diabo, quando viu isto, quis logo fugir, mas Santo André não consentiu, obrigando-o a declarar suas intenções. Depois disto desapareceu, deixando o local cheio de maus odores, em meio a um barulho infernal.

O cavaleiro, ajoelhado aos pés do glorioso apóstolo, recebeu o batismo, foi armado cavaleiro por Santo André e se chamou Andrés Medrano Velaz.

Tomou por armas o astor na mão com a Ave Maria no bico, em um campo colorido, e as aspas de Santo André por orla. Assim esse nobre cavaleiro foi feito defensor dos cristãos e defensor da Igreja.

Tal conversão foi tão grande derrota para os muçulmanos, que maior não poderia ter recebido o Rei Abderramán. O nobre Dom Andrés Velaz perseguia os muçulmanos e fazia coisas tão heróicas, que o Rei mouro perguntava:
— Medra o no?
Respondiam os seus:
— No Medra, no"

Esse tal cavaleiro tinha já grandes riquezas, era senhor de vassalos, cidades e vilas, e o Rei de Navarra lhe acrescentou só pequenas coisas. Por isso o chamaram "medrano", procedência dos Medranos de Navarra, até hoje Velaz. Depois ganharam a cruz oitavada branca em campo colorido.



(Fonte: José Maria Jimeno Jurio, "Leyendas del camino de Santiago" - Diputación Foral de Navarra, 1977, pp. 10-11)




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terça-feira, 21 de abril de 2026

Fatos que antecederam a Iª Cruzada (I)

Portaestandartes do Califa de Bagdã
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Situação geral, à época das Cruzadas

A causa inicial das Cruzadas foi a invasão da Terra Santa pelos Turcos seldjucidas.

Este povo originário do Turquestão, região ao Norte da Pérsia, aderiu ao islmamismo e através da "guerra santa" destruiu o império árabe de Bagdad e conquistou a parte asiática do Império Bizantino.

Em 1076 chegaram a ameaçar Constantinopla mas desviaram o objetivo e dois anos depois conquistaram Jerusalém, que estava em poder de muçulmanos árabes desde 636.

Fanáticos e cruéis, os turcos perseguiam os peregrinos: infringiam-lhes mil vexames e até os torturavam. A Terra Santa foi a partir de então fechada para os cristãos.

Cluny e a Reforma Gregoriana

Governava então a Igreja um dos maiores Papas da História: São Gregório VII. Sob seu governo, a Cristandade recebeu um impulso decisivo: a luta que os monges de Cluny travaram, desde o século X contra as desordens (que a partir da desagregação da obra de Carlos Magno assolaram a Igreja e a Sociedade), chegou então a seu período mais épico.

Essa luta gloriosa, sob um Papa admirável, explica o fervor que então se manifestava na Cristandade.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Roger, príncipe de Antioquia,
entrou até nas lendas dos muçulmanos

Roberto de Normandia no sitio de Antioquia.
Jean-Joseph Dassy (1796–1865), in "Croisades, origines et consequences", Paris, 1850.
Luis Dufaur
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Em 1113, o sultão seljúcida da Pérsia e o califa de Bagdá empreenderam mais uma contra-cruzada.

Dois exércitos turcos convergiram no sul do lago Tiberíades.

Balduíno I lançou um premente apelo aos príncipes francos. Mas, as devastações das bandas turcas tinham-no exasperado.

Ele não aguardou os outros príncipes. Apenas com 700 cavaleiros e 4.000 infantes caiu como um raio sobre os turcos em Sinn en-Nabra, a 20 de junho de 1113.

Os turcos, porém, tinham montado uma emboscada que Balduíno I não percebeu.

Ele viu-se subitamente envolto pela cavalaria de elite turca esmagadora em número. Pegando a bandeira do reino nas próprias mãos ele lutou até o ultimo momento congregando os seus.

No fim, deixou o campo de batalha com a maioria dos cavaleiros e se refugiou na cidade de Tiberíades.

Ali recebeu os reforços de Tancredo, príncipe de Antioquia, e Pons conde de Trípoli que chegaram com bela cavalaria.

Lealmente, o rei acusou-se diante deles pela sua falta, e depois reuniu o conselho. O exército franco foi reconstituído, mas a superioridade numérica turca ficava sempre imensa.

As bandas turcas e árabes começaram a saquear as aldeias vizinhas de Tiberíades.

Mas, Balduíno I, agora mais prudente teve a energia de não cair nas provocações. Após um mês o chefe turco compreendeu que tinha fracassado e empreendeu a retirada para Damasco.

Em 1115, o sultão da Pérsia enviou mais um exército numa nova contra-cruzada, desta vez sob o comando do emir de Boursouq, com ordens de reconquistar a Síria.

Mas os chefes francos voltaram a reafirmar sua unidade.

Vendo a formidável coesão cristã, os emires locais preferiram se unir a eles antes de que aos turcos. Boursouq percebeu que seria impossível romper esse frente.

Então, ele fingiu que tinha renunciado à empresa e se encaminhou para Djéziré.

A coalizão não desconfiou e cada um voltou para seu feudo.

Assim que os francos se dispersaram, Boursouq deu meia volta e invadiu a Síria.

Roger de Antioquia, sucessor de Tancredo correu às armas. Não havia mais tempo para aguardar pelo retorno do rei Balduíno I.

Apelou para os príncipes vizinhos e correu ao encontro dos turcos, dissimulando sua marcha pelo maciço florestado de Feiloun.

Roger enviou em missão de reconhecimento um dos seus melhores cavaleiros: Teodoro de Barneville.

Teodoro voltou quase se alastrando. Os turcos estavam muito perto, do outro lado do bosque montando suas tendas.

Gautier nos relata a alegria épica do exército católico normando quando soube da surpresa que se preparava.

Roger deu o sinal de montar:
“Em nome de nosso Deus, às armas, cavaleiros!”

A relíquia do Santo Lenho foi exposta aos esquadrões que partiam em tromba rumo a Tell-Danith naquela madrugada de 14 de setembro do ano do Senhor de 1115.

Roger galopava à testa do centro, Balduíno du Bourg, conde de Edessa, comandava a ala esquerda. Na direita ia a cavalaria indígena dos turcopoles, recrutados na Síria franca.

Toda essa cavalaria caiu em cima dos turcos como um furacão. De início, o acampamento turco desguarnecido foi conquistado num instante.

Logo a seguir, os francos lançaram-se sobre as divisões turcas que chegavam dispersas e foram pegas de surpresa.

Boursouq com 800 cavaleiros tentou reagrupar os seus no morro de Tell Danith, mas a elevação foi tomada de assalto por Balduíno du Bourg e ao chefe turco só restou fugir.

Boursouq morreu de desgosto voltando para Hamadã.

O reino turco-árabe de Alepo caiu logo sob o protetorado de Roger.

Esta brilhante vitória valeu ao príncipe de Antioquia um prestígio inaudito no mundo muçulmano.

Sob o nome de Sirodjal (Senhor Roger) ele iria se imortalizar na legenda muçulmana do mesmo modo que Ricardo Coração de Leão.


(Autor: René Grousset, “L’epopée des croisades”, Perrin, Paris, 2002, cap. IV)


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