terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A Primeira Comunhão de Vivien no campo de batalha e morte


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs








Todo o poema “La Chanson de Guillaume” gira em torno de uma batalha desenvolvida por Guilherme do Nariz Curvo contra os sarracenos de Deramé, na planície de Larchamp.

Vivien atira-se à luta acompanhado de seu primo Girart. A batalha é calorosa e os franceses são dizimados. Ao cair da tarde, Vivien envia Girart a pedir ajuda a Guilherme.

O conde Vivien perdeu 10 homens, dos 20 que lhe restavam. Os outros perguntaram:

— Que faremos na batalha, amigos?

Disse Vivien:

— Em nome de Deus, senhores, escutai-me. Enviei Girart levando uma mensagem. Hoje mesmo vereis Guilherme ou Luís, o piedoso. Com um ou outro venceremos os árabes.

— Avante, pois, valoroso marquês — responderam eles.

E ei-los que marcham contra o inimigo.

Os pagãos colocaram Vivien em grande perigo. De seus 10 homens, não deixam um só vivo. É segunda-feira à noite, e ele fica só na peleja. Tendo permanecido só, com seu escudo, ele os atormenta com cutiladas repetidas. Com sua espada, ele abate uma centena.

— Não chegaremos ao final — diziam os pagãos — enquanto deixarmos seu cavalo vivo debaixo dele.

Eles o perseguem através dos montes e vales, como o caçador acua um animal selvagem.

Um grupo o surpreende no meio de um pequeno vale.

Atiram sobre ele flechas e dardos agudos, que se enterram no corpo de seu cavalo.

Um bárbaro, montado em rápido cavalo, avança pelo meio do vale. Três vezes ele brandiu a lança que tem na mão direita, e numa quarta vez a lançou.

O projétil se enterra no lado esquerdo da cota de malhas, fazendo saltar 30 escamas.

Vivien recebe no corpo uma grave ferida, e sua insígnia branca lhe escapa das mãos. Jamais ele a reerguerá.

Ele coloca a mão atrás de si, sente a haste e extrai o dardo de seu corpo. Ele atinge o pagão nas costas e lhe enterra o ferro nos rins. De um só golpe ele o faz cair morto.

— Adeus, patife! Bérbere perverso! — brada o jovem Vivien — Não retornarás mais a teu país, e jamais te vangloriarás de ter matado um nobre de Luís.

Depois ele tira sua espada e retorna a combater. Quando ele golpeia as cotas de malha e os elmos, seus golpes os abatem até o chão.

— Santa Maria, Virgem Mãe e Donzela, enviai-me Luís ou Guilherme.

Deus, Rei da glória, a quem devo a vida, vós que nascestes da Virgem Maria e cujo corpo foi criado em união com as Três Pessoas;

vós que pelos pecadores sofrestes sobre a Cruz;

que fizestes o céu e as estrelas, a terra e o mar, o sol e a lua, Eva e Adão para povoar o mundo, tão verdadeiramente como sois o verdadeiro Deus, impedi-me de ser tentado a recuar um só passo. Antes, que eu perca a vida.

Fazei que eu observe meu voto até a morte, e que, graças à vossa bondade, não o atraiçoe.

Santa Maria, Mãe de Deus, tão verdadeiramente que carregais Deus como vosso filho, protegei-me, por vossa santa piedade, para que os vilões sarracenos não me matem.

Logo que pronunciou essas palavras, se arrependeu:

— Tive um pensamento tolo, querendo evitar a morte. Nosso Senhor não agiu assim, Ele que sofreu, por nossa Redenção, a morte dos crucificados.

Não devo, Senhor, pedir um adiamento da morte, posto que Vós mesmo não quisestes isso. Enviai-me Guilherme de Nariz Curvo ou Luís, que governa a França. Graças a ele nós obteremos a vitória.

O calor era forte, como em maio, durante o outono. Os dias eram longos, e ele jejuava havia três dias. Sofria os tormentos da fome e da sede. O sangue claro escorria de sua boca e da chaga que tinha ao lado esquerdo.

Não havia água nas proximidades; a menos de quinze léguas, não conseguiria encontrar nem riacho nem fonte; não havia senão água salgada, das ondas marinhas.

No entanto, no meio da planície corre um vale com água lamacenta, brotada de uma rocha à beira-mar, que os sarracenos turvaram com seus cavalos. Está suja de sangue e de miolos.

O bravo Vivien corre para lá e, inclinando-se, toma a contragosto aquela água salobra.

Os inimigos fazem chover sobre ele os golpes de lança, mas a cota é sólida e lhe protege o busto. Somente suas pernas e seus braços recebem mais de vinte ferimentos.

Ele então se reergue, como um javali feroz, e tira a espada que lhe pende ao lado. Defende-se com coragem, mas os outros o atormentam como os cães a um javali.

A água salobra que ele bebeu, e que não pode reter, lhe sai pela boca e pelo nariz. Ele sofre tanto, que sua vista se turva e ele perde a direção.

Para acabar com sua bravura, os pagãos o cercam mais de perto.

Os inimigos o cobrem de golpes de lança e flechas de aço, por todas as partes. Elas se cravam em seu escudo, tão numerosas que o conde não o pode manter à altura de sua cabeça, e o deixa escorregar para os pés.

Lançando setas agudas, dardos e ferros, os inimigos despedaçam a cota do conde.

O aço cortante fende o ferro leve de seu peito coberto de malha. Suas entranhas saem para fora.

Como ele sente que seu fim está próximo, roga a Deus misericórdia.

Vivien caminha através da planície, arrastando suas entranhas entre seus pés e segurando-as com a mão esquerda.

Seu elmo afunda até a altura do nariz. Em sua mão direita ele segura uma lâmina de aço, vermelha da copa à ponta e até à bainha ensanguentada.

Já atormentado pela agonia da morte, ele caminha sustentado por sua espada.

Pede com fervor a Jesus Todo-Poderoso de lhe enviar Guilherme, o bom francês, ou o Rei Luís, valente guerreiro.

— Verdadeiro Deus de glória, unido em Trindade,

Tu que nasceste da Virgem Maria e foste criado em união com as Três Pessoas,

Tu que foste crucificado pelos pecadores, defende-me, ó Pai!

Por tua santa bondade, para que eu não seja tentado a recuar um passo sequer na batalha, envia-me, Senhor, Guilherme do Nariz Curvo, porque ele sabe dirigir uma batalha.

Deus, nosso Pai, Rei glorioso e forte, que jamais me venha a idéia de recuar um passo por medo da morte.

Um bérbere, vindo pelo pequeno vale e dando galope a seu cavalo rápido, fere na cabeça o nobre barão, com uma lança de aço que leva na mão direita, e seus miolos se espalham pela grama.

Vivien cai de joelhos. É uma grande perda a morte de um tal homem!

Os pagãos, surgindo de todas as partes, fazem em pedaços o seu cadáver. Eles o levam e o colocam sob uma árvore, ao longo do caminho, para que os cristãos não o achem mais.

No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange — Guilherme do Nariz Curvo — tinha sido derrotado pelos sarracenos.

Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes. Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino, que apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado.

Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha, Guilherme reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

— Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico? — e lhe mostrou uma Hóstia consagrada.

— Porém é preciso que faças tua confissão.

— Eu quero muito — responde uma voz fraca — mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste Pão.

Eis minha confissão:

Não me recordo de uma só falta, a não ser que eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito, e a aproxima dos lábios entreabertos de Vivien, cujos olhos se iluminam.

A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.


(Fonte : “La Chanson de Guillaume”; “Extraits des Chansons de Geste” - Larousse, 1960, pp. 53; Funck-Brentano, “Féodalité et Chevalerie”)


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domingo, 22 de dezembro de 2019

Feliz Natal e bom Ano Novo!

Veja vídeo

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Dois natais: um cheio de comércio, mas vazio,
e outro cheio de alma porque repleto de bênçãos

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
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Dom Prosper Guéranger O.S.B. (1805 – 1875) foi o restaurador e abade beneditino de Solesmes, e fundador da Congregação da França da Ordem de São Bento.

Da sua consagrada obra “L’Année Liturgique” , extraemos a respeito do Santo Natal:


Dom Prosper Guéranger (1805-1875)
Dom Prosper Guéranger (1805-1875)
“A fim de gravar mais profundamente a importância de um dia sagrado na memória dos povos cristãos da Europa, quis que o reino dos Francos nascesse num dia de Natal de 496, quando no batistério de Reims, no meio das pompas e das solenidades, Clóvis, “o duro cicambro”, tornando-se doce com um cordeiro, foi mergulhado por São Remígio na fonte da salvação, da qual saiu para inaugurar a primeira monarquia católica entre as monarquias novas.

“Em 567, 101 anos depois, foi a vez da raça anglo-saxônica. O apóstolo da ilha dos bretões, Santo Agostinho, após ter convertido o rei Etelberto, em York o povo inteiro pediu o batismo. O dia do Natal, Cristo conta mais uma nação sob o seu império.

Em Roma, nas solenidades do Natal do ano 800, nascia o Sacro Império Romano. Neste dia, São Leão III colocava a coroa imperial sobre a cabeça de Carlos Magno, e a terra surpresa revia o reino de César-Augusto, não mais sucessor dos Césares da Roma pagã, mas para vigário do Rei dos Reis e do Senhor dos Senhores”.


O abade mostra que Nosso Senhor quis marcar na memória dos povos o dia do Santo Natal com fatos infinitamente menores que o nascimento do Filho de Deus, mas que são enormes na proporção humana.

Ele acentua três fundações de três grandes monarquias, das quais a maior delas é, sem dúvida, a de Carlos Magno. Quer dizer, o Império Romano do Ocidente.

A Providência quis que elas fossem fundadas no dia de Natal.

Fazer nascer coisas no dia do Natal é algo muito profundo.

Porque Nosso Senhor é o “caminho, a verdade e a vida”.

Todo caminho que não tenda para Ele é um desvio.

Toda verdade que não se harmonize com Ele é um erro.

Toda a vida que não nasça da vida dEle é morte.

Então é natural que todo caminho novo tomado por um povo, toda verdade por ele aceita como um patrimônio novo, que toda vida sobrenatural comece num dia de Natal.

O Reino que era pagão nasce adotando a Verdade de Jesus Cristo.

O reino que errava pela barbárie entra na via da civilização seguindo a Jesus Cristo que é o Caminho.

Um reino que vivia no pecado, pelo batismo nasce para a vida sobrenatural de Nosso Senhor Jesus Cristo que é a Vida.

Então é belíssimo que esse povo ingresse na Verdade, no Caminho e na Vida num dia de Natal.

O pensamento e a religião dos homens de outrora não era das religiõeszinhas superficiais, feitas de pequenas práticas e adeuzinhos para os Santos; de umas genuflexões meio engatilhadas e encorujadas diante do Santíssimo Sacramento; um ar abobado.

Não era apenas um sulco de sentimentos. O sentimento entrava mas o fator principal é o aprofundamento da fé pela meditação, pela oração.

Missa de Galo, Oratório de Londres
Missa de Galo, Oratório de Londres
Eles faziam da articulação racional com a fé um edifício intelectual mental sólido, estruturado, durável, que ia até as últimas consequências.

Era uma religião varonil, era verdadeiramente formação religiosa.

E Dom Guéranger nos apresenta uma concepção profunda de Jesus Cristo como ponto de partida de tudo e, portanto, da vida dos reinos e das nações.

O batismo da nação, o começo da nação, a regeneração da nação se dará na noite sacrossanta de Natal.

Agora, meus caros, quando nós passamos disto para o Natal que nós vamos assistir!

Quando nós pensamos da pequena cidade de Reims medieval, com suas ruas tortuosas e sinuosas, com sua população, casinhas pequenas perto da Catedral que já tem algum tamanho.

Não é ainda a Catedral gótica, mas um dia será substituída pela Catedral gótica.

Quando nós vemos os povos acostumados a dormir cedo que se levantam numa espécie de epopeia de meia-noite, para ir para a igreja...

Quando nós pensamos nos francos recém-convertidos que vão para a Igreja pelas ruas rezando, cantando, para celebrar o Natal.

Quando nós pensamos no Natal inglês de cem anos depois.

Ou no Natal do povo romano de cem ou duzentos anos depois, afluindo para a Basílica de Latrão e ali o Papa coroar o Imperador Carlos Magno.

Quando nós pensamos no Papa São Leão III que o corou.

Quando nós vemos o Papa conduzir Carlos Magno pela mão a um balcão e ali o povo começar a gritar: “Salve Carole Auguste et imperator noster, vitae bene aeternum”, etc..

Como é diferente do Natal que nós vemos nestes dias!

Este Natal completamente comercializado que é uma oportunidade para promoção de vendas, em que há cruzar febril de presentes.

Há lojas que já tem sistema de créditos e telefonam para qualquer um dizendo: “Dr. Fulano, aqui tem três caixas de whisky para o senhor. Quer que eu mande para a sua casa?”

– “Não, mande para Beltrano ou Sicrano”.

Aquele whisky sem sair do lugar circula como um produto telefônico, whisky de marketing; que termina na loja, se não terminar no ventre de um bêbado.

Neste Natal laico, em que as manifestações religiosas são empurradas para o lado, os carrilhões são digitais, há uma atmosfera adocicada, protestantizada nas igrejas onde não se sente o surto de fé da Idade Média.

É um Natal de sonegação, sem apetência do Céu, do sobrenatural.

Há um verdadeiro abismo entre um Natal e outro!

E nós devemos ter isto em mente para criar em nosso espírito a atmosfera profundamente oposta a esse Natal laico e sem fé.

Qual é esta atmosfera oposta?

É uma atmosfera de alegria porque o Menino Jesus nasceu.

Mas é uma atmosfera de tristeza porque tudo se passa como se quisessem matar o Menino Jesus.

Os senhores conhecem bem os acontecimentos recentes de Roma.

Natal com ternura e combatividade pelo Menino Jesus
Natal com ternura e
combatividade pelo Menino Jesus
Os senhores conhecem bem este último alento da civilização cristã que nós estamos vivendo.

Neste Natal nós temos que levar conosco, dentro da alma, o Natal de Carlos Magno, o Natal de Clóvis, o Natal de São Remígio, de São Leão III. É este o Natal que nós temos que levar dentro da nossa alma.

E qual é este Natal?

É uma consideração séria do mistério do Santo Natal; a compreensão da graça enorme que nos foi dada, dos deveres que esta graça traz consigo inclusive o propósito de combater.

Porque eu não acredito ser meu amigo um homem que me veja injuriado, baba de ternura para comigo e não pula contra aquele que me injuriou.

Nosso Senhor não tem razão para tomar como séria a nossa ternura se nosso coração não estiver cheio de tristeza por aquilo que se faz contra Ele e que se faz contra o Reino de Maria.

E é com esta deliberação de combate, esta seriedade, esta tristeza que nós devemos pedir ao Menino Jesus, por meio de Nossa Senhora, na missa de Natal.

Para nós termos um Natal de Cruzado e não um Natal daquele que entre aspas e caricatamente se tem chamado “Homem de boa vontade”.

Ai sim podemos imaginar todas as noites natalinas com as harmonias da sublime canção alemã “Stille Nacht, heilige Nacht, alles schläft, einsam wacht, nur das traute, hochheilige Paar”

(Noite silenciosa, noite Santa, todos dormem. Só está desperto, apenas o fiel e santíssimo casal).

Outrora a noite de Natal tinha um néctar, uma poesia, um encanto.

Todo mundo como que sentia e conhecia a graça propiciada pelo Menino Jesus, que do mais alto do Céu desce até nós como um orvalho para essas almas sérias.

Do claustro sacratíssimo de Nossa Senhora, e sem transgredir a virgindade intacta da mãe, Ele vem à Terra.

A Virgem teve um Filho, e a Terra se extasia. É realmente uma maravilha!




"Stille Nacht, Heilige Nacht" (Noite silenciosa, noite santa), Alemanha




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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fernán González, conde de Castela, herói de legenda

Don Fernán González, conde de Castela
Don Fernán González, conde de Castela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Estava o conde Fernán González caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal.

O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta.

Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar.

Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado.

Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

“E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória”.
Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzalez,
San Cosmas, Covarubias

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida.

Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque.

Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate.

O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados.

Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro.

Depois se fechou, e tudo ficou como antes.

Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán González, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:

“Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!”

E se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro.

O choque dos exércitos foi terrível.

Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos.

Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde.

Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória.

E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano.

Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán González, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo.

E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

Túmulo do conde Fernán González, San Cosmas, Covarrubias
O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo.

Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito.

Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán González e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:

“Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa.

“Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas.

“Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro”.

São Millán (ou Emiliano) na batalha de Simancas, padroeiro de Castela
Fernán González e D. Garcia responderam:

“Em nossa terra há o corpo de São Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo”.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar.

Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis.

Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos.

Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)





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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Papa São Gregório VII: alma inspiradora das Cruzadas

São Gregório VII
São Gregório VII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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Coube ao Papa São Gregório VII (1020-1085) a honra de inspirar o movimento das cruzadas.

Seu plano resulta claro na carta de 1074 reproduzida embaixo, mas que no seu tempo não chegou a ser enviada.

Aconteceu que São Gregório VII teve que enfrentar a revolta do imperador Henrique IV e não pôde completar seu determinado projeto.

Entre seus assessores mais próximos estava o futuro Urbano II.

São Gregório VII externou o desejo que ele fosse eleito para sucedê-lo.

Por sua vez, Urbano deixou bem claro aos Cardeais que de ser eleito continuaria a pastoral intransigente de São Gregório VII face à baixa moralidade de certo clero mundanizado, a simonia, a nomeação de bispos pelo poder temporal e a luta contra os inimigos da Cristandade sobre tudo o Islã.

Os Cardeais, entretanto, temeram continuar na linha do Santo Gregório VII e escolheram um pontífice conciliante.

Após poucos anos de pontificado, os purpurados bem perceberam a insuficiência da escolha.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Malta: a muralha contra à impiedade islâmica demolida pela Revolução Francesa

Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Luis Dufaur
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Continuação do post anterior: Malta: uma ordem religiosa e militar hierárquica e sacral




Em 1312 foi extinta a Ordem dos Templários, e grande parte dos seus bens reverteu em benefício da Ordem dos Hospitalários.

O mesmo se deu quando Inocêncio VIII decretou, em 1489, a supressão da Ordem do Santo Sepulcro.

Assim, os Grão-Mestres dos Cavaleiros de São João passaram a ter também a dignidade de Mestres da Ordem do Santo Sepulcro, intitulando-se

“Dei gratia Sacrae Domus Hospitalis Sancti Johannis Hierosolymitani et Militaris Ordinis Sancti Sepulchri Dominici Magister humilis, pauperunque Jesu Christi custos” — Por graça de Deus, humilde Mestre da Santa Casa do Hospital de São João de Jerusalém e da ordem Militar do Santo Sepulcro do Senhor e defensor dos pobres de Jesus Cristo.

Em 1309, o Grão-Mestre Foulques de Villaret conduziu os seus cavaleiros diante da ilha de Rhodes e apoderou-se dela. Desde então foram chamados Cavaleiros de Rhodes.

Inspiraram em breve grande terror aos turcos e aos povos árabes, que, estabelecidos sobre a costa da África, só deviam sua prosperidade à pirataria.