quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fernán González, conde de Castela, herói de legenda

Don Fernán González, conde de Castela
Don Fernán González, conde de Castela
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Estava o conde Fernán González caçando com os seus cavaleiros na vila de Lara. De repente, um feroz javali saiu disparado de um matagal.

O conde, desejoso de caçar tão boa presa, sem esperar por seus companheiros, saiu a cavalo em perseguição ao animal, que corria velozmente.

Por fim chegou a uma ermida desconhecida, onde o javali se meteu pela porta.

Então o conde, pegando a espada, se dirigiu à ermida, onde a fera tinha entrado.

O javali havia se refugiado atrás do altar. O conde se ajoelhou diante do altar e começou a rezar.

Neste momento saiu da sacristia um monge de venerável aspecto e avançada idade, apoiado num rude e retorcido cajado.

Aproximou-se do conde e saudou-o, dizendo:

“E ainda te digo que antes de começar a batalha terás um sinal, que te fará arrepiar a barba e aterrorizará a todos os teus cavaleiros. Agora vai, vai lutar, que hás de alcançar a vitória”.
Túmulo de Don Fernán Gonzalez, Covarrubias, cruzadas, 1º conde de Castela
Túmulo do conde Fernán Gonzalez,
San Cosmas, Covarubias

O conde agradeceu ao monge por suas palavras e saiu da ermida.

Montou a cavalo e galopou através da mata, até encontrar seus cavaleiros, já impacientes pela tardança de seu senhor.

O conde ordenou seu batalhão e se dirigiu ao encontro de Almanzor, que vinha correndo para o ataque.

Quando viram o exército mouro, prepararam-se para o combate.

O conde viu, entretanto, que tinha poucos soldados.

Nisto um cavaleiro cristão se adiantou, passando velozmente diante do exército dos infiéis.

Apenas galopou um pouco, e a terra se abriu, tragando o cavaleiro.

Depois se fechou, e tudo ficou como antes.

Grande terror se difundiu pelo exército cristão, mas Fernán González, que sabia que esse era o temeroso sinal anunciado pelo monge da ermida, disse em alta voz a seus cavaleiros:

“Não temais! Se a terra não é capaz de suportar-nos, quem poderá conosco? Vamos para o ataque!”

E se lançaram contra os mouros, que já galopavam também, prontos para o encontro.

O choque dos exércitos foi terrível.

Os cristãos, apesar de serem poucos, conseguiram resistir ao primeiro ataque dos mouros, e logo estes começaram a retroceder.

O conde, que havia sido quem dera as primeiras baixas no adversário, animava seus guerreiros, e era o mais valente de todos.

Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Mosteiro de São Pedro de Arlanza
Ao cabo de algumas horas os mouros fugiram, deixando todos os despojos em poder das hostes do conde.

Grande vitória para os cristãos, que retornaram cheios de alegria.

O conde separou uma parte dos despojos e foi à ermida, para entregá-la ao monge que lhe profetizara a vitória.

E o encarregou de erguer uma igreja, que foi logo o famoso Mosteiro de São Pedro de Arlanza.

O califa Abderramán recebia dos cristãos um tributo a cada ano.

Mas em determinada ocasião os reis D. Ramiro de Castela e D. Garcia de Navarra, e Fernán González, que era o conde tributário de Castela, se negaram a pagar o vergonhoso tributo.

E não só se negaram a pagar, mas mataram os insolentes mensageiros que o califa mouro enviara para reclamar o tributo.

Quando isto chegou aos ouvidos de Abderramán, este se enfureceu, e com seu exército entrou no território dos castelhanos, destruindo os campos e fazendo cruel vingança contra os habitantes daquelas terras.

Túmulo do conde Fernán González, San Cosmas, Covarrubias
O Rei D. Ramiro, recebendo o aviso da proximidade do exército mouro, preparou seus guerreiros, que esforçadamente saíram ao encontro do inimigo.

Disseram-lhe que os muçulmanos vinham em grande número, mas ele não deu muito crédito.

Mas quando viu chegar a enorme hoste sarracena, voltou até Simancas, e dali enviou cartas a Fernán González e ao Rei Garcia.

Acudiram os dois ao mesmo tempo. Mas todo o exército cristão não chegava a alcançar nem a metade dos muçulmanos. Então o Rei Ramiro disse:

“Não tenho nenhum conselho que possa servir-nos. Grande é a hoste dos infiéis mouros e minguada a nossa.

“Mas temos a proteção de São Tiago, que está enterrado em terras galegas.

“Por ele obra Nosso Senhor grandes milagres, e a ele quero me encomendar, e prometo dar-lhe meu reino se nos ajudar nesse apuro”.

São Millán (ou Emiliano) na batalha de Simancas, padroeiro de Castela
Fernán González e D. Garcia responderam:

“Em nossa terra há o corpo de São Millán, que também opera grandes milagres. A ele nos entregamos, e juramos dar-lhe tributo”.

No outro dia de manhã saíram da fortaleza e se dispuseram para o combate. Antes de começar, todos os cristãos se ajoelharam para rezar.

Os mouros, vendo seus inimigos nesta posição, pensaram que estes, aterrorizados, queriam se entregar.

Lançaram-se contra eles, mas os fiéis de Cristo montaram em seus corcéis rapidamente e detiveram o ímpeto de seus inimigos. Grande fúria foi a dos castelhanos, leoneses e navarros.

E ainda aumentaram seu valor quando, em meio ao combate, viram aparecer dois desconhecidos cavaleiros que, montados em formosos corcéis brancos, se puseram à frente dos exércitos cristãos.

E destroçaram os mouros de tal modo, que eles acreditavam que, em vez de dois, havia dois mil cavaleiros sobre os corcéis.

Atrás dos dois avançavam os cristãos, e desde Simancas até Aza perseguiram os mouros, que fugiram vencidos.

Grande foi a alegria dos católicos.

Quando procuraram os dois cavaleiros, que tanto contribuíram para a vitória, não puderam encontrá-los, e compreenderam que eram os dois santos a quem haviam prometido pagar tributo, se os ajudassem.

E desde então esse tributo foi pago.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 27)





GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS

Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Papa São Gregório VII: alma inspiradora das Cruzadas

São Gregório VII
São Gregório VII
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Coube ao Papa São Gregório VII (1020-1085) a honra de inspirar o movimento das cruzadas.

Seu plano resulta claro na carta de 1074 reproduzida embaixo, mas que no seu tempo não chegou a ser enviada.

Aconteceu que São Gregório VII teve que enfrentar a revolta do imperador Henrique IV e não pôde completar seu determinado projeto.

Entre seus assessores mais próximos estava o futuro Urbano II.

São Gregório VII externou o desejo que ele fosse eleito para sucedê-lo.

Por sua vez, Urbano deixou bem claro aos Cardeais que de ser eleito continuaria a pastoral intransigente de São Gregório VII face à baixa moralidade de certo clero mundanizado, a simonia, a nomeação de bispos pelo poder temporal e a luta contra os inimigos da Cristandade sobre tudo o Islã.

Os Cardeais, entretanto, temeram continuar na linha do Santo Gregório VII e escolheram um pontífice conciliante.

Após poucos anos de pontificado, os purpurados bem perceberam a insuficiência da escolha.

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Malta: a muralha contra à impiedade islâmica demolida pela Revolução Francesa

Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Continuação do post anterior: Malta: uma ordem religiosa e militar hierárquica e sacral




Em 1312 foi extinta a Ordem dos Templários, e grande parte dos seus bens reverteu em benefício da Ordem dos Hospitalários.

O mesmo se deu quando Inocêncio VIII decretou, em 1489, a supressão da Ordem do Santo Sepulcro.

Assim, os Grão-Mestres dos Cavaleiros de São João passaram a ter também a dignidade de Mestres da Ordem do Santo Sepulcro, intitulando-se

“Dei gratia Sacrae Domus Hospitalis Sancti Johannis Hierosolymitani et Militaris Ordinis Sancti Sepulchri Dominici Magister humilis, pauperunque Jesu Christi custos” — Por graça de Deus, humilde Mestre da Santa Casa do Hospital de São João de Jerusalém e da ordem Militar do Santo Sepulcro do Senhor e defensor dos pobres de Jesus Cristo.

Em 1309, o Grão-Mestre Foulques de Villaret conduziu os seus cavaleiros diante da ilha de Rhodes e apoderou-se dela. Desde então foram chamados Cavaleiros de Rhodes.

Inspiraram em breve grande terror aos turcos e aos povos árabes, que, estabelecidos sobre a costa da África, só deviam sua prosperidade à pirataria.

Os novos possuidores da ilha, enriquecidos pouco mais ou menos na mesma época de uma parte dos despojos dos Templários, não tardaram em ser cercados, mas sem sucesso, pelos sarracenos.

Grão Mestre Philippe Villiers de L'Isle-Adam,
quadro no castelo de Rodas
Tendo Rhodes como base de operações, os cavaleiros de São João empreenderam diversas expedições à Ásia, infligindo muitas derrotas aos turcos.

Após a queda de Constantinopla, em 1453, os infiéis avançaram rumo ao Ocidente, e o único baluarte da Cristandade ficou sendo Rhodes.

Os turcos não podiam suportar esta situação. Em 1522, atacaram a ilha com um acúmulo tremendo de forças: 700 naus de guerra e 200.000 homens.

A defesa de Rhodes foi feita com 300 cavaleiros, 300 escudeiros, 5.000 soldados regulares e alguns milhares de homens.

Constituiu uma das maiores batalhas navais dos tempos modernos.

A resistência durou cinco meses, findos os quais os cavaleiros, numericamente inferiores e cobertos de glória, capitularam honrosamente.

A Ordem em Malta

Em 1530, Carlos V doou aos Hospitalários a ilha de Malta, onde os aguardavam feitos mais gloriosos que no passado.

Com a eleição de La Vallete como Grão-Mestre em 1557, a situação da ilha foi estudada atentamente por ele, e um sistemático esquema de defesa foi preparado, com reformas e construções.

Das páginas mais gloriosas da história da Ordem foi a defesa da ilha contra as forças de Solimão, o Magnífico.

Orgulhoso de inúmeras vitórias em terra, e preocupado com os reveses que a armada dos Cavaleiros de Malta frequentemente lhe impunham, resolveu liquidar de uma vez por todas com o seu poderio.

O assalto dos maometanos começou em maio de 1565.

Foram lançados contra a ilha mais de 200 navios e 50.000 homens, sendo as forças da Ordem constituídas por 600 cavaleiros e ajudantes de armas e 8.000 soldados.

Jean Parisot de La Valette, Grão Mestre da Ordem de Malta
no Grande Cerco turco. Antoine de Favray (1706 – 1798)
Depois de quase quatro meses de luta, o inimigo, que perdera 20.000 homens, levantou o cerco e bateu em retirada.

Em homenagem ao heroico e valoroso Grão-Mestre, João de La Valette, foi construída a cidade que leva o seu nome e até hoje é a capital da ilha.

Não cessaram os Cavaleiros de castigar os turcos, até que no século XVIII, com o declínio da potência muçulmana, se empenharam principalmente na repressão dos piratas que infestavam o Mediterrâneo.

O desmoronamento maltês

No século XVIII a Ordem entrou num período de decadência. E como a expansão revolucionária esfacelava a Ordem por toda parte onde os franceses avançavam, na Itália e na Alemanha, esta foi arruinada.

Apesar disto, as forças militares permaneciam aparentemente respeitáveis: no mar, dois navios, uma fragata e quatro galeras; em terra, em Malta, 362 cavaleiros, dos quais 282 aptos para a guerra, 1.200 mercenários, 1.200 marinheiros e 13.000 militares autóctones.

Na Europa todas as potências estimavam que Malta poderia se manter sem dificuldade durante três meses, o que permitiria operações de libertação.

Em abril de 1798 o Diretório decide tomar Malta, e pouco depois todas as potências são informadas. A informação é de tal maneira espalhada, que ninguém acredita, ninguém toma precauções…

Entre 7 e 26 de maio, quatro comboios franceses se aparelham. Totalizam 364 navios, dos quais 34 armados para a guerra, que portam 38.000 homens, 171 canhões, 600 cavalos e 630 arreamentos.

Os comboios franceses fizeram sua junção perto de La Valette, de 7 a 9 de junho, colocando em terra 15.000 homens apoiados por cinco peças.

No dia 10 há algumas escaramuças, no dia 11 se negocia, e no 12 a praça capitula.

A Ordem havia perdido 12 cavaleiros, pelo simples fato da população insurreta, e 150 prisioneiros; os franceses perderam nove homens.

A defesa fora paralisada pela insurreição das milícias locais, traição interior e recusa de combate da parte dos cavaleiros espanhóis e alguns franceses.

As ordens desconexas de Hompesch desencorajaram os melhores. Chorando, ele não fez senão suspirar: “É muito tarde!”

O ato de capitulação entrega aos franceses todos os meios militares e o tesouro, que completa uma batida geral contra todos os ornamentos preciosos das igrejas.

Hompesch não poderá carregar senão três réplicas da Ordem, despojadas de antemão de seu ouro e pedrarias. Os membros da Ordem têm o direito de partir para onde queiram.

Se Malta tivesse resistido quatorze dias, de 10 a 23 de junho, Nelson teria surpreendido o comboio francês perto de La Valette, e a história do mundo teria mudado.

A partir desta funesta data as Ordens de Cavalaria e de Cruzada dão lugar às Ordens honoríficas e nobilitárias.

Já não se vêem atos de bravura em que a despretensão é levada ao mais alto grau. Os nomes dos grandes cavaleiros já não povoam as páginas da História.




GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Malta: uma ordem religiosa e militar hierárquica e sacral

Krak dos Cavaleiros (Síria) hoje.
Foi uma das peças chaves da segurança da Terra Santa
na mão dos cavaleiros hospitalários
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Continuação do post anterior: Os Cavaleiros Hospitalários: ordem militar suscitada por Deus



A Ordem comporta vários graus:

a) Os cavaleiros professos, que tinham feito, na idade de 26 anos, os votos de pobreza, castidade e obediência.

Além da cruz ligada à botoeira com uma fita negra de brilho ondeado, traziam uma cruz de tecido branco de oito pontas sobre o lado esquerdo do hábito. Os grã-cruzes tinham a mais um plastrão (camisa) preto, com uma cruz branca sobre o peito.

b) Os afiliados por tempo, que eram cavaleiros e sargentos leigos e capelães de obediência.

c) Os auxiliares pagos, que eram milicianos, soldados, marinheiros e artesãos.

O Grão-Mestre

A Ordem é comandada por um cavaleiro professo eleito, que deve ser de justiça, quer dizer, de condição nobre.

Por votos sucessivos acumulados, o capítulo geral — que se reúne em princípio a cada 5 anos, para negócios gerais e reforma dos estatutos — elege um colégio de treze membros representativos das províncias da Ordem, e das três condições (oito cavaleiros, quatro servos, um capelão).

A portas fechadas, esse colégio elege o mestre, que é aceito por aclamação pelo capítulo.

Os grão-mestres não são soberanos absolutos. Outrora eles usavam barba e cabelos longos.

Tinham um hábito negro em pano, fechado com uma cintura da qual pendia uma escarcela (parte da armadura, da cinta ao joelho).

Na parte de cima, portavam um hábito de veludo preto com grandes mangas, aberto adiante sobre o peito.

A Grande Sala dos Pobres, do Hospital (Hôtel-Dieu) de Beaune
nos dá uma ideia de como pode ter sido o Hospital de Jerusalém
Sobre a espádua esquerda deste hábito de veludo estava a grande cruz da Ordem em tela branca, com oito pontas. Cobriam-se com um gorro redondo de veludo ou de tafetá preto, com seis borlas de seda branca e negra.

O manto de Gérard de Tunc era de lã preta com uma cruz em tecido branco.

Mais tarde os grão-mestres tomaram o manto de tafetá preto, onde eram representados, em bordado de sede branca e azul, os quinze mistérios da Paixão, e ligados com cordões de borlas em seda branca e preta.

O bastão de comando era semeado de pequenas cruzes da Ordem.

A articulação dos Hospitalários

A articulação da Ordem do Hospital é simples. Cada Língua é presidida por um magistrado conventual, titular de um alto cargo:

— O Grande Comendador, pilar da Provença, de quem os poderes atingem as finanças, o aprovisionamento e a substituição interina eventual do Grão-Mestre.

— O Grande Marechal, pilar do Auvergne, que comanda os militares em terra e mar, salvo os magistrados conventuais.

— O Grande Hospitalário, pilar da França, responsável pelos hospitais conventuais.

— O Grande Almirante, pilar da Itália, que comanda a armada naval a partir de 1299.

— O Grande Conservador, pilar do Aragão, que provê a vestimenta.

— O “Turcopolier”, pilar da Inglaterra, que comanda inicialmente as tropas indígenas e depois os guardas marinhos.

— O Grande Magistrado, pilar da Alemanha, encarregado da inspeção das fortificações e de suas guarnições.

— O Grande Chanceler, pilar de Castela e Portugal, que controla o selo das atas.

Além de seus encargos, os magistrados conventuais são responsáveis pela hospedagem de sua Língua, Missa e lugar de reunião dos professos.

A evolução da Ordem

Capítulo Geral da Ordem dos Hospitalários em Rhodes. Museu de Versailles.
Capítulo Geral da Ordem dos Hospitalários em Rhodes. Museu de Versailles.
As Ordens de Cruzada conheceram três grandes períodos:

1) O da Terra Santa (1091-1312);

2) O que corresponde à presença dos Hospitalários em Rhodes (1312-1530);

3) O que coincide com a presença da Ordem em Malta (1530-1798).

Na Terra Santa a participação destes monges-guerreiros foi constante e de grande valor, em algumas ocasiões decisivas.

Fizeram as suas primeiras façanhas em 1122, em defesa do rei de Jerusalém. Assinalaram-se nos cercos de Tiro e de Ascalon, dentre outros, e venceram em 1126 o sultão de Damasco.

Caídos novamente os Lugares Santos sob o domínio completo dos infiéis em 1187, os Cavaleiros de São João se estabeleceram na ilha de Chipre, onde se dedicaram a organizar uma poderosa frota, na esperança de reconquistar a Palestina.

No começo do século XIV transferiram-se para Rodes, que oferecia melhores condições estratégicas.

Aí adquiriu a Ordem um novo traço característico, o de verdadeiro Estado soberano, regido por leis próprias, dotado de exército e armada, sem reconhecer dependência senão à Santa Sé.


Continua no próximo post: Malta: a muralha contra à impiedade islâmica demolida pela Revolução Francesa



GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Os Cavaleiros Hospitalários, ou de Malta: ordem militar suscitada por Deus

Fundo: ruínas do Hospital de Jerusalém.
Frente: brasão de feitio moderno dos hospitalários
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Os Hospitalários foram os primeiros, como Ordem religiosa e caritativa, a se fixarem na Terra Santa, tornando-se Ordem de Cavalaria somente algumas décadas depois.

Os seus estatutos de Ordem de Cavalaria foram inspirados em grande parte no dos Templários.

O grande feito pelo qual a Ordem ficou famosa foi a defesa de Malta, daí o nome pelo qual são mais conhecidos.

Origem e ideal da Ordem

Em 1048, alguns ricos mercadores de Amalfi compraram a permissão de construir em Jerusalém, perto do Santo Sepulcro, um mosteiro do rito latino e um hospital para acolher os peregrinos pobres e doentes.

A eles ajuntaram uma igreja sob o nome de Santa Maria, a Latina.

Pelo ano de 1100, Gérard de Tunc e seus confrades tomaram o hábito religioso. O papa Pascal II aprovou a ordem em 1113.

Foi a princípio confiada aos beneditinos, que velaram pelo serviço religioso e pelo culto. O Hospital era dedicado a São João Batista.

Foram construídos bem próximos dois hospitais: um para os homens peregrinos, dedicado a São João Batista; e outro em honra de Santa Maria Madalena, para as mulheres que vinham visitar os Santos Lugares.

O Bem-aventurado Gérard era diretor do hospital de São João, quando os cristãos se tornaram senhores da Cidade Santa.

Godofredo de Bouillon favoreceu muito o hospital, encantado com a piedade daqueles que, sob a direção de Gérard, se tinham dedicado ao serviço dos doentes e dos peregrinos.

Vários cruzados, edificados com a caridade dos que serviam no hospital, se consagraram ao mesmo exercício de piedade, dedicando a isso também os seus bens.

Os irmãos hospitalários ficaram então em condições, não somente de alojar os peregrinos, mas ainda de os escoltar e defender contra as afrontas dos sarracenos.

Eram bravos guerreiros, a quem a piedade e a causa pela qual combatiam inspiravam um novo valor.

Altivos e temíveis adversários dos sarracenos fora de Jerusalém, eles eram, no interior do hospital, humildes servidores dos doentes.

Um aspecto do Hospital de Jerusalém após desentulhar o local
Austeros para consigo mesmos e cheios de generosa caridade para com os outros, não comiam senão pão feito de farelo e da farinha mais grosseira, reservando a mais pura para a alimentação dos doentes e dos peregrinos.

Para perpetuar esse piedoso estabelecimento, Gérard achou que era necessário manter os irmãos hospitalários através de votos.

Como o Patriarca de Jerusalém gostou muito desta proposta, Gérard e os seus companheiros fizeram, nas mãos deste prelado, os três votos de religião.

O Papa Pascual II aprovou o instituto por uma bula, onde ressaltava que colocava sob a proteção especial da Sé Apostólica e de São Pedro o hospital de São João Batista de Jerusalém.

Para o Hospitalário, a perspectiva é a mais larga e as obrigações as mais imediatas.

Não se trata somente de combater por Cristo e pela Igreja, mas também pela justiça; de servir aos pobres, doentes e oprimidos.

É claro que esses fins são condicionados pela ação militar, e em consequência disso a disciplina absoluta é de rigor.

A história dos cavaleiros pode se resumir num triplo papel, cumprido sucessivamente na glória:

“Defenderam o Santo Sepulcro e constituíram um dos braços da Cruzada permanente na Palestina; combateram e retardaram a invasão marítima dos turcos; e em último lugar, continuaram encarregados da vigilância do Mediterrâneo, vendo a sua situação decrescer à medida que os perigos diminuíam para a Cristandade”.

A Ordem de Malta era ao mesmo tempo hospitalar, religiosa, militar, aristocrática e monárquica:

Hospitalar, tendo fundado hospitais abertos aos doentes de todos os países, sem distinção de culto e servidos por eles;

religiosa, pois os seus membros faziam os três votos de castidade, obediência e pobreza;

militar, pois duas de suas classes estavam sempre armadas, em guerra habitual contra os infiéis, para proteger os cristãos;

monárquica, tendo à sua cabeça um chefe inamovível, investido dos direitos de soberania sobre os súditos da ilha de Malta e de suas dependências;

aristocrática, pois apenas os cavaleiros partilhavam com o grão-mestre o poder legislativo e executivo, as três classes da Ordem escolhiam os seus chefes no seu seio, estes concorrendo com os grão-mestres, nos capítulos gerais, na confecção e na execução das leis, o que fez considerar também o governo da Ordem como republicano por certos historiadores.

O hábito e as Regras

Os hospitalários tomaram o hábito negro com uma cruz branca de linho, terminada por oito pontas.

Traziam uma cruz de ouro de oito pontas, esmaltada de branco, suspensa a uma fita negra de brilho ondeado.

Os franceses acrescentavam uma flor de lis de ouro em cada ângulo da cruz.

O estandarte era de goles (esmalte vermelho, figurado no desenho por traços verticais) na cruz de prata. Algumas vezes, a outra face apresentava as armas do grão-mestre bordadas.

Por volta de 1118, Raimundo du Puy, tendo sido eleito Grão-Mestre, fez os estatutos:

Detalhe de Capítulo da Ordem de Malta, na ilha de Rhodes. Museu de Versailles.
Detalhe de Capítulo da Ordem de Malta, na ilha de Rhodes.
Museu de Versailles.
“Em nome do Senhor, assim seja! Eu, Raimundo, servidor dos pobres de Jesus Cristo e superior do hospital de Jerusalém,… ordeno antes de tudo que todos os irmãos que se dedicam ao serviço dos pobres observem os três votos que fizeram a Deus, ou seja: a castidade, a obediência e a pobreza.

“Quando algum dos irmãos cometa alguma falta contra a pureza,… se o pecado foi público, será punido no lugar onde pecou; e no domingo, quando o povo saia da Missa, será despojado dos seus trajes, e, à vista de todo o mundo, será açoitado.

“Se ele prometer corrigir-se, será recebido na casa; mas será tratado como um estranho durante um ano, após o qual os irmãos farão o que julguem conveniente.

“Para as outras faltas menos graves, será ordenado jejuar a pão e água e comer no chão durante quarenta dias.

“Guardar-se-á o silêncio à mesa. Se se descobre que algum dos irmãos tem qualquer dinheiro seu, que tenha escondido ao Grão-Mestre, ser-lhe-á preso esse dinheiro ao pescoço, e o Grão-Mestre o fará açoitar rudemente na presença de todos os irmãos.

“Além disso, ele o condenará a quarenta dias de penitência, durante os quais jejuará, nas Quartas e Sextas-feiras, a pão e água.

“Todos os irmãos, em honra de Deus e da Santa Cruz, portarão cruzes sobre a sua capa e o seu manto, para que Deus, pela virtude deste estandarte, nos livre das emboscadas do demônio”.

Esses foram os primeiros estatutos da Ordem Militar dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, chamados depois Cavaleiros de Rodes, e por fim Cavaleiros de Malta.


Continua no próximo post: Malta: uma ordem religiosa e militar hierárquica e sacral



GLÓRIA CASTELOS CATEDRAIS ORAÇÕES HEROIS CONTOS CIDADE SIMBOLOS
Voltar a 'Glória da Idade MédiaCASTELOS MEDIEVAISCATEDRAIS MEDIEVAISORAÇÕES E MILAGRES MEDIEVAISHERÓIS MEDIEVAISCONTOS E LENDAS DA ERA MEDIEVALA CIDADE MEDIEVALJOIAS E SIMBOLOS MEDIEVAIS