CANÇÕES DE GESTA

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs












A "Canção

de Rolando"











A "Canção de Rolando", resumo das virtudes de um cruzado

No ano de 778, Carlos Magno fez uma incursão em terras da Espanha então invadidas pelos muçulmanos.

Entrementes, os saxões que ainda estavam em vias de se converter ao cristianismo, invadiram o outro lado do reino dos Francos, i. é pelo Reno. Carlos Magno teve que voltar às pressas para defender a fronteira oriental da Cristandade.

Foi nessa ocasião que a retaguarda do seu exército sofreu uma emboscada e foi massacrada em Roncesvalles (Pireneus). Na batalha pereceram Roland e os Doze Pares de França.

A épica tragédia e os heroicos lances de armas atribuídos aos Doze Pares chefiados por Roland e Olivier, empolgaram o ânimo dos medievais.

A batalha com suas façanhas era cantada nas praças por bardos.

Supõe-se que um monge anônimo de Cluny deu forma acabada a essas versões. Nasceu então a "Canção de Rolando", ou "Canção de Roldão". No poema épico, a única referência de autoria fala de um certo "Turoldus" de quem nada se sabe.

Esta é vista pelos especialistas como uma espécie de manual das qualidades e das virtudes que um cavaleiro cristão devia pôr em prática.

Os cavaleiros católicos por vezes, como na batalha de Hastings, entravam em combate cantando-a. Nela encontramos rasgos essenciais do espírito dos cruzados.

A versão escrita mais antiga da Chanson de Roland foi encontrada em Oxford, Inglaterra. Está transcrita em dialeto normando e data do século XI.

Como soaria essa canção em lábios medievais? Difícil dizé-lo. Mas, eis uma interpretação que nos dá margem para refletir.

O texto arcaico está adaptado ao francês hodierno e é acompanhado de uma tradução necessariamente livre.


Excerto nº1 : Roland cavalga pelo campo de batalha

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Roland chevauche par le champ de bataille,
Roland cavalga pelo campo de batalha,

Il tient Durendal qui bien tranche et bien taille,
Levando Durendal, que bem corta e bem talha,

Des Sarraisins, il fait moult grand dommage,
Nos sarracenos, ele faz um grande estrago,

Vous l’auriez vu jeter mort l’un sur l’altre,
Se vós tivésseis visto, lancar morto um sobre o outro,

Leur sang tout clair glisser sur cette place,
Seu sangue jorrar abertamente neste lugar,

Couvert de sang le haubert et ses membres,
Com o elmo e seus membros cobertos de sangue,

Et du cheval, col et les épales,
E no cavalo, do pescoço aos ombros,

Et Olivier de férir ne retarde,
E Olivier não tarda para ferir,

Les douze pairs non doivent avoir blâme,
Os doze pares não merecem repreensão,

Et les Français se lancent et se frappent,
E os franceses lançam-se e se chocam,

Meurent païens ! Et bien d’autres se pâment.
Morrem os pagãos ! E muitos desfalecem !




Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Rolando

O combate é tremendo. Os francos lutam muito unidos e causam imensas perdas aos muçulmanos. Mas, um a um vão caindo. Fica só um punhado de heróis. Eles vão morrer. Entrementes, simbólicos sinais da tragédia aparecem no céu da França.

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II

Le combat est merveilleux et pesant.
A batalha é maravilhosa e pesada,

Fonte de Roland, Bremen, AlemanhaMoult bien y frappent, Olivier et Roland,
Muito bem golpeiam Olivier e Roland,

Le douze pairs ne retardent néant,
Os Doze Pares não perdem tempo,

Et les Français frappent communement,
E os franceses golpeiam todos juntos;

Meurent païens, milliers et cents !
Morrem os pagãos aos milhares e centenas:

Qui ne s’enfuit n’a pas d’autre garant,
Quem não foge não tem quem o salve.

Qu’ils veuillent ou non, Ils y laissent son temps.
Bom grado, mau grado, aí terminam seus dias.

Français y perdent leur meilleur gardements,
Mas os francos perdem seus melhores defensores.

Ne reverront ni pairs ni parents,
Eles não voltarão a ver nem os pais, nem os parentes,

Ni Charlemagne, qui au col les attend.
Nem Carlos Magno, que nas montanhas os aguarda.


III

En France il y a moult merveilleux tourments,
Na França há muitas espantosas tormentas;

Voici qu’il y a du tonnerre et du vent,
Eis que há trovão e ventania,

Pluie et grésier, tout démésurément,
Chuvas e granizos, caem todos desmedidamente;

Estátua de Roland, portal da catedral de Chartres, FrançaFoudre tombant est menu souvent.
Caem os raios em grande intensidade.

Et tremblement de terre, voirement,
E tremores de terra os há verdadeiramente.

Du Saint Michel du Péril jusqu’aux Saints,
De Saint Michel du Peril até Saints,

De Besançon jusqu’au port de Wissant.
De Besançon até o porto de Wissant,

Nulle maison de ses murs ne crevant,
Não há casa que por algum lado não desabe.

En plein Midi, tenèbres y a grand,
Até no extremo sul da França há grandes trevas,

Nulle clarté sauf du ciel qui se fend,
Não há claridade, salvo quando o céu fulmina seus raios.

Nul ne le voit que moult ne s’épouvant,
Ninguém vê isso sem ficar muito apavorado.

Disent plusieurs : C’est le finissement,
Muitos dizem: "É o fim de tudo,

La fin du siècle qui nous est à présent.
O fim do mundo que se nos apresenta".

Ils ne le savent ni disent vrai néant,
Eles não sabem nem dizem a verdade:

C’est le grand deuil pour la mort de Roland !
É o grande luto pela morte de Roland!




Excerto nº 3 : Os francos lutam epicamente mas vão sendo massacrados

Os barões católicos resistem epicamente. O último ataque maometano é demoledor. Só ficam 60 francos. Roland e Olivier debatem: o quê fazer? Para Olivier a morte é preferível à desonra.

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VI
Vous auriez vu Roland et Oliver,
Vós tivesses visto Roland e Olivier

De leurs épées, férir et frapper,
Com suas espadas ferindo e golpeando,

Ce qui sont morts, on peut les estimer,
Aqueles que foram mortos podem-se bem os contar,

Il est écrit en chartes et en brefs,
Está escrito nas cartas e nos breves,

La Geste dit, plus de quatre milliers,
A gesta diz: mais de quatro mil.

A quatre assaults leur est venu bien,
Quatro ataques repeliram com sucesso,

Le quint après, leur est pésant et grief.
Mas o quinto lhes é pesado e devastador.

Tous sont occis les Français chevaliers,
Todos os cavaleiros francos estão mortos,

Hormis soixante que Dieu a épargnés,
Restam sessenta que Deus poupou.

Avant qu'ils meurent, ils se vendront moult cher !
Antes que morram, vender-se-ão muito caro!



V
Le preux Roland des siens voie grand des pertes!
Roland, o prócer, vê a grande perda dos seus.

Son compagnon Olivier en appelle:
Chama o seu companheiro Olivier:

« Beau compagnon, que Dieu vous est en aide,
“Nobre companheiro, que Deus vos ajude,

Tant bons vassaux voyez gésir par terre,
Tantos bons guerreiros vedes jazendo em terra!

Plains d’épouvant France douce la belle,
Lamenta de espanto que a doce França, a bela!

De tels barons qui demeure déserte,
De tais barões ficará deserta!

Le roi notre ami, ici, puissiez-vous être.
Ô rei, nosso amigo, se aqui pudesses estar!

Frère Olivier, comment pourrons nous faire?
Irmão Olivier, o que poderemos fazer?

De quel moyen lui manderons nouvelles? »
De que maneira lhe enviaremos notícias?”

Dit Olivier: « Je ne sais comment quère,
Diz Olivier: “Eu não sei absolutamente como chamá-lo.

Mieux vaut mourir que honte nous soit faîte! »

Melhor é morrer do que a desonra”!



Excerto nº 4 : A traicão

 
Roland toca o olifante e Carlos Magno o ouve. Ganelão, o traidor, finge que nada acontece, diz se tratar de brincadeira. O duque Nimes percebe e denuncia a traição. O heroicos francos estão morrendo em batalha! É preciso ir socorré-los!

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VI


Lors dit Roland: « Cornerai l'olifant,
E Roland responde: “Eu tocarei o olifante,


L'entendra Charles qui au col est passant
“Ouví-lo-á Carlos que está atravessando as montanhas.


Je garanti: retourneront les Francs ! »
“Eu vos garanto: os francos retornarão”!




VII


Le preux Roland, par peine et par ahants,
O conde Roland, com grande esforço e aos haustos


Par grand douleur sonne son olifant,
Com grande dor, toca seu olifante.


Parmi sa bouche en jaillit le clair sang,
De sua boca escorre o sangue brilhante,


De son cervelle la tempe en est rompant
De sua cabeça a têmpora está se rachando.


Du cor qu'il tient le son est moult grand,
Do chifre que ele segura, o sonido sai muito forte,


A trente lieues son écho se répand.
Seu eco se espalha trinta léguas em redor.


Charles l'entend, qui au col est passant.
Carlos, que está atravessando as montanhas, o escuta.


Lors dit le roi: « J'ouïe le cor de Roland,
O Rei diz: “Ouço o olifante de Roland,


N’en sonnerait s'il n'était combatant.
“Jamais ele tocaria, senão em combate”.


Dit Ganelon: De bataille est néant.
Ganelon responde: “Não tem nada de batalha.


Vous êtes dejà vieux et fleuri et blanc.
“Vós já estais velho, e todo encanecido e branco;


Par tels propos vous semblez un enfant.
“Por tais palavras vós pareceis uma criança.


Savez assez tout l'orgueil de Roland.
“Vós bem conheceis o grande orgulho de Roland.


Pour un seul lièvre il corne un jour durant.
“Por uma só lebre ele tocaria o dia todo.


Devant ses paires, sans doute, il va gabant.
“Nesta hora ele vai se gabando diante de seus pares.


Qui sous le ciel, l'oserait guerre en champ?
“Não há quem sob o céu ouse atacá-lo.


Donc chevauchez non plus vous arretant!
“Cavalgai, pois. Não vos detenhais mais!


Terre d'ailleux moult et loin ça devant! »
“Aliás, há muito caminho à nossa frente!”.




VIII


Le preux Roland a la bouche sanglante,
O prócer Roland tem a boca ensangüentada,


De son cervelle rompu on est la tempe.
De seu cérebro está rompida a têmpora.


Olifante, dito de Rolando, Santiago de CompostelaL'olifant sonne à douleur et à peine.
Toca o olifante com grande dor e dificuldade.


Charles l'ouïe et les Francs le comprennent.
Carlos o ouve, e seus francos o escutam.


Lors dit le roi: Ce cor a longue haleine.
E o rei diz: “Esta trompa tem longo alento”.


Répond duc Naimes: Un baron a grand peine.
O duque de Naimes responde: “Um nobre ali está sofrendo,


Bataille il y a, c'est la chose certaine.
“Há batalha. Isso é coisa certa!


Il a trahi celui qui vous conseille!
“Aquele que vos aconselha vos traiu.


Adubez vous et criez votre enseigne!
“Armai-vos, pois, erguei vosso estandarte insígnia,


Portez secours à votre maison gente,
“Socorrei vossa valente guarda;


Puisque entendez que Roland se lamente!
“Vós bem ouvis que Roland se lamenta!”







Excerto nº 5 : Carlos Magno e o exército católico galopam para salvar Rolando

Por vales e montanhas o exército cristão com Carlos Magno à testa acorre para salvar os heróis. Eles rezam para encontrar Rolando com vida e junto com ele extinguir o inimigo da Cristandade. Mas estão muito longe! A tragédia vai atingido o climax.


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XI

Carlos Magno em cetro de Carles VI, s XIV, As CruzadasHauts sont les puys et ténebreux et grands,
Altos são os montes, tenebrosos e grandes,


Les vals profonds et les gaves courrants.
Os vales profundos e os rios caudalosos.


Sonnent les cors et derrière et devant,
Tocam os clarins da frente e os de trás,


Et tout se répond d'encontre à l'olifant.
E todos se apressam em responder ao olifante.


Mais l'empereur chevauche irritement,
O Imperador cavalga com cólera,


Et les Français courroucés et dolents,
E os franceses irados e dolentes,


Il n'y a nul sans pleure et sans tourmente.
Não há um entre eles que não chore e lamente.


Ils prient à Dieu qu'il guérisse Roland,
Pedem a Deus que Ele proteja Rolando,


Jusqu'ils arrivent au champ comunement.
Até que estejam juntos no campo.


Ensemble à lui ils feront voirement.
Com ele combaterão verdadeiramente.






X

De ça à quoi bon! Tout ne leur vaut néant!
Mas para quê? Isso não lhes serve de nada;


Demeurent trop, ni peuvent être à temps!
Estão muito longe! Não podem chegar lá a tempo!












Excerto 6º : O conde Olivier entrega sua alma a Deus

Enquanto Carlos Magno com o excército cruzado corre para salvar os cavaleiros, Olivier, o amigo íntimo de Rolando, perece. Rolando faz o elogio fúnebre do herói.


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XI
Urna de Carlos Magno, Aix-la-Chapelle
Olivier sent que la mort moult l'angoisse.

Olivier sente que a morte muito o angustia,


Tous ses deux yeux dans la tête lui tournent.
Os dois olhos lhe giram na cabeça,


L'ouïe il pert et la vue est très toute.
E perde o ouvido e a vista inteiramente.


Descent à pied, à la terre se couche,
A pé, deita-se no solo.


D’une heure en autre, il réclame sa coulpe,
Uma e outra vez, ele confessa seus pecados,


Contre le ciel il a ses deux mains jointes,
E com as duas mãos juntas em direção ao Céu


S’il prie Dieu qui Paradis lui ouvre,
Ele pede a Deus lhe abra o Paraíso.


Et qu'il bénisse Charles et France la douce,
Que abençoe Carlos e a doce França,


Son compagnon Roland, entre tous hommes.
E seu amigo Roland sobre todos os homens.


Le coeur lui faut, son heaume s'y s’enfonce,
O coração falha, seu elmo cai sobre o rosto


Très tout le corps sur la terre retombe.
Todo o corpo volta a cair por terra,


O conde Olivier entrega su alma a Deus, Canção de RolandMort est le comte. Rien de lui ne démours.
O conde está morto. Nada dele resta.




XII


Le preux Roland le pleure et se doulouse
Rolando, o prócer, chora e se lamenta:


Jamais en terre n'ouïrez plus dolent homme!
Jamais sobre a terra se ouvirá homem com maior dor.





Excerto 7º : Rolando fica só no campo de batalha

Rolando ficou sozinho e sem que a perde a vida. Faz, então, um esforço supremo: ele toca derradeiramente o olifante. Lá longe, nas montanhas Carlos Magno o ouve e manda soar todas as trompetes do exército. 
Os muçulmanos ouvem a fanfarra do imperador Carlos. O pânico toma conta deles.
Eles decidem massacrar Rolando e fugir apressadamente.


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XIII
Le preux Roland gentement se combat.
O prócer Roland luta nobremente,

Fonte de Roland, Bremen, AlemanhaMais le corps a moult chaud et très brulant.
Mas seu corpo arde de febre.

En la tête a, douleur et grand mal,
Na cabeça ele tem uma grande dor e passa mal:

Rompu la tempe pour ce qu'il corna.
Sua têmpora está fendida, por ter soado o olifante.

Mais savoir veux si Charles y viendra.
Mas ele quer ter certeza de que Carlos retornará:

Prend l'olifant. Le sonne, faiblement.
Toma o olifante, e toca... fracamente.

Et l'empereur s'arrête et l'écoutant
O Imperador se detém para escutá-lo:

« Seigneurs, dit-il, pour nous malement va.
“Senhores — diz ele — as coisas vão mal para nós.

En ce jourd'hui, Roland mon neveu falte.
Roland, meu sobrinho, falece;

J'entends au cor que guère ne vivra.
Pelo som do olifante eu percebo que não viverá muito mais.

Qui y être veut doit presser son cheval!
Quem quiser estar lá, que cavalgue rapidamente!

Sonnez vos cors, tant qu'à l'armée il y a! »
Tocai todos os clarins, quantos haja nesta armada!”

Soixante mille cors sonnent si halt,
Sessenta mil trombetas tocam tão forte,

Résonnent les monts et répondent les vals!
Que ecoam as montanhas e respondem os vales.

Païens l'entendent et d’en rire n'ont garde!
Os pagãos ouvem e perdem a vontade de rir.

Dit l'un à l'autre: « Ja sur nous viendra Charles! »
Dizem uns aos outros: “Já sobre nós virá Carlos”.


XIV

Disent païens: « Car maudit sommes nés!
Os pagãos dizem: “Em verdade, nós nascemos malditos!

Roland toca o olifante pela última vezQuel pire jour pour nous s'est ajourné.
Que péssimo dia amanheceu para nós.

Perdu avons nos seigneurs et nos paires.
Perdemos nossos suseranos e pares;

Avec son hoste revient Charles, le fier!
Com seu exército volta Carlos, o fero.

De ceux de France oyons le sonneur clair.
Dos de França ouvimos o som claro das trombetas,

Grand est le bruit Monjoie très clair ! ».
E é grande o clamor “montjoie”, seu brado de guerra.

Le preux Roland est d'une si grand fierté
O heroico Roland é tão corajoso,

Que ne sera vaincu par nul mortel.
que não o vencerá nenhum mortal.

Lançons fers à lui, puis le laissons à terre!"
Lancemos contra ele nossas flechas, e prostremo-lo por terra”.




XV


Ainsi font-ils, dards, et wigres assez,
E assim fazem eles com dardos, flechas, varapaus,

Epieux, lances, javelots empennés.
Lanças jabalinas e lancetes.

Du preux Roland l’écu est moult
O escudo do heróico Roland está muito perfurado,

Roué et son haubert rompu et désavré,
E a sua cota de malha rompida e desfeita,

Mais en son corps ne l’ont mis à touché,
Mas eles não atingiram o seu corpo.

Son cheval est en trente lieux percé,
Feriram o seu cavalo em trinta lugares,

Dessous le conte à mort l’ont jeté
E o abateram morto debaixo do conde.

Païens s’enfuient, et le laissent à pied,
Os pagãos fogem e o deixam a pé.

Le preux Roland à terre est demeuré.
O herói Roland ficou por terra.



Excerto 8º: Rolando sente a morte chegar
 

Os muçulmanos fogem após cribar de setas o herói. Sozinho no campo procura os restos de seus companheiros de armas. Logo compreende que ele também vai morrer. E procura um local simbólico.

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XVI

Roland s’en tourne, en le champs, va chercher,
Roland se volta, pelo campo de batalha vai procurar,

Son compagnon a trouvé, Olivier,
E encontra seu companheiro Olivier.

Contre son sein étroit l’a embrassé,
Abraça-o forte contra seu peito,

Sur un écu ensuite il l’a couché,
e depois deita-o sobre um escudo.

A donc, agrave le deuil et la pitié,
E então redobra o luto e a dor.

Lors dit Roland : « Bel ami, Olivier,
E diz: "Belo amigo Olivier,

Vous fûtes fils du riche duc Renier,
éreis filho do rico duque Renier,

Qui tent la marche de Gênes de Runers,
Que defende a marca de Gênova de Runers.

Pour lances rompre et écus percer,
Para quebrar lanças e partir escudos,

Pour orgueilleux vaincre et décourager,
Para vencer e desencorajar o orgulhoso,

Et pour prud’hommes, tenir et conseiller,
Para sustentar e aconselhar o sábio,

En nulle terre n’y eut meilleur chevalier !
Em terra alguma houve melhor cavaleiro".




XVII

Lors sent Roland que la mort lui est près,
Então Roland sente que a morte está próxima,

Par les oreilles hors lui sort le cervelle,
Pelas orelhas lhe saem os miolos.

De ses pairs, prie à Dieu qu’Il les appelle,
Pede a Deus que chame os seus pares,

Et puis de lui, à l’ange Gabriel,
E pede o mesmo para si ao Anjo Gabriel.

Prend l’olifant, pour que reproche il n’ait,
Toma o olifante, para não lhe recair nenhuma desonra,

Thierry d'Ardènes, escudeiro de Roland vinga a traicao de Ganelão, As CruzadasEt Durandal, son épée, d’autre main,
E Durindana, sua espada, com a outra mão.

Plus qu’arbalète ne peut tirer un trait,
A distância maior que um tiro de besta, em direção à Espanha,

Devers l’Espagne il va, en un guéret.
Ele se dirige a um outeiro.

Dessus un tertre, et dessous des arbres belles,
Sobre um outeiro, e debaixo de duas belas árvores,

Quatre perrons il y a, de marbre fait,
Onde há quatro degraus de mármore,

Sur l’herbe verte là il tombe à l’envers,
Sobre a erva verde ele cai de costas.

Ci s’est pâmé, car la mort lui est près.
Aí desmaia, pois a morte se aproxima.




Excerto 9º final: Os anjos levam a alma de Roland ao Paraíso
 

Roland prepara a liturgia de sua morte. Orações finais do herói. Os anjos descem a colher sua alma.

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XVIII

Lors sent Roland qu’il a perdu la vue,
Então Roland sente que perdeu a vista,

Se met sur pieds, tant qu’il peut s’évertue,
E põe-se de pé como sua força lhe permite.

En son visage, sa couleur est perdue,
Do seu rosto, a cor se esvaiu.

Tout devant lui il y a une pierre brûne,
Diante dele está uma pedra escura.

Dix coups il frappe, par deuil et par rancune,
Com a espada descarrega-lhe dez golpes, por luto e cólera.

Grince l’acier, ni rompt ni s’ésgruignent.
Range o aço, e não se parte nem se embota.

Lors dit le comte : « Sainte Marie, aiude !
Então diz o conde: "Santa Maria, ajudai-me!

« Et, Durandal, quel mauvais sort vous eûtes,
Eh! Durindana, que má sorte tiveste!

« Quand je me perd, de vous n’en est plus cure,
Com minha morte não poderei mais cuidar de ti.

« Tantes batailles en champs, en ai vaincues
Tantas batalhas em campo aberto venci.

Et tantes terres larges escumbatues,
Em tão grandes terras conquistadas eu combati,

Qui Charles tient, qui la barbe a chenue !
Que pertencem a Carlos, cuja barba já ficou branca.

Ne vous aie nul qui puisse prendre fuge,
Que não vos possua ninguém que possa fugir!

Trop bon vassal vous a longtemps tenue !
Um bom vassalo já te portou por muito tempo.

Plus n’en sera en France l’absolue !
Mas ele não estará na França, a absoluta!




XIX

Lors sent Roland que la mor le trespend,
Então Roland sente que a morte o assalta,

Et de la tête dans le cœur lui descend,
E que a vida lhe abandona da cabeça até o coração,

Dessous un pin il est allé courant,
Vai às pressas debaixo de um pinheiro,

Sur l’herbe verte est couché sur ses dents,
Sobre a erva verde, deita-se, face em terra.

Dessous lui, met l’épée et l’olifant,
Debaixo de si põe a espada e o olifante;

Tourne sa tête vers la païenne gent,
Volta a sua cabeça para a gente pagã,

Ainsi il a fait, car il veut voirement
Faz assim porque quer que Carlos diga,

Que Charles dise ainsi que tous ces gens,
Bem como todos os seus,

Le gentil comte est mort en conquérant.
Que o gentil conde morreu conquistando!





XX

Le preux Roland dessous un pin se gît.
O valente Roland deita-se debaixo de um pinheiro;

De plusieurs choses a remembrer lui prit
Põe-se a lembrar de muitas coisas:

De tantes terres qui valliement conquist.
De tantas terras que conquistou galhardamente,

De douce France, des hommes de son ligne,
Da doce França, dos homens de sua linhagem.

De Charlemagne, le roi qui li nourri.
De Carlos Magno, o Rei que o nutriu.

Ne peut cesser ses pleurs et ses soupirs.
Não pode cessar de chorar e suspirar.

Mais ne se veut non plus mettre en oubli.
Mas não querendo esquecer-se,

Clame sa coulpe et crie à Dieu merci.
Clama sua culpa e pede a Deus misericórdia:

« Beau Père vrai qui oncques ne mentis,
"Oh! Verdadeiro Pai que nunca mentis,

Qui Lazaron de mort resurrexis,
Que ressuscitastes Lázaro dentre os mortos,
Os anjos levam a alma de Roland, As Cruzadas
Et Daniel des lions guaresis,
E a Daniel preservastes dos leões,

Guaris de moi l’âme de tout péril,
Guardai minha alma de todo o perigo,

Pour les péchés qui dans ma vie je fis".
Pelos pecados que cometi em minha vida".

Son dextre gant au Seigneur Dieu l'offrit,
Sua luva direita ele ofereceu a Deus;

Saint Gabriel, de sa main lui a pris.
E São Gabriel de sua mão a recolheu.

Dessus son bras tenait le chef enclin.
Sobre o seu braço a cabeça inclinada,

Jointes ses mains est allé à sa fin.
Com as mãos postas, chegou ao seu fim.




XXI

Dieu lui transmit son ange Chérubin,
Deus enviou o seu Anjo Querubim,

Et avec lui Saint-Michel-du-Péril,
E com ele São Miguel do Monte Saint-Michel.

Ensemble à eux Saint-Gabriel y vint.
Junto com eles veio São Gabriel.

L'âme du comte portent en Paradis.
E levam a alma do conde ao Paraíso.






    † † † † † † † † † † † † † † †    




CHANSON DE ROLAND
(Canção de Roldão)
Todos os áudios


Excerto nº1 : Roland cavalga pelo campo de batalha
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Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Rolando



Excerto nº 3 : Os francos lutam epicamente mas vão sendo massacrados


Excerto nº 4 : A traicão


Excerto nº 5 : Carlos Magno e o exército católico galopam para salvar Rolando



Excerto 6º : O conde Olivier entrega sua alma a Deus



Excerto 7º : Só fica Rolando no campo de batalha



Excerto 8º: Rolando sente a morte chegar



Excerto 9º final: Os anjos levam a alma de Roland ao Paraíso












Godofredo de Bouillon.
No fundo, a igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém.






GESTA DEI

PER FRANCOS





“Gesta de Deus

pelos Francos”









Introdução

A Gesta Francorum (“Gesta dos Francos”) é uma crônica da Primeira Cruzada, escrita em latim em torno de 1100-1101 por um participante da épica empresa sagrada.

O nome completo é Gesta Francorum et aliorum Hierosolymytanorum (“Gesta dos Francos e os outros peregrinos para Jerusalém”).

Esta Crônica narra os acontecimentos da Primeira Cruzada a partir do lançamento, em novembro 1095 até a batalha de Ascalon, em agosto de 1099.

Ninguém sabe o nome do autor (que muitas vezes é referido como “Anônimo”), mas é sabido que fazia parte do exército cruzado recrutado por Boemundo de Taranto em 1096 no ducado de Apúlia, sul da Itália.

Quase certamente foi um normando ou italiano, e deve ter sido apenas um cavalheiro, e não um grande líder ou um clérigo.

O relato foi composto e redigido durante a Cruzada com a ajuda de um escriba que, ocasionalmente, acrescentou comentários pessoais.

A Gesta descreve o dia-a-dia da Cruzada (itinerário, operações táticas, logística) e aquilo que se passava no ânimo dos cruzados (mudanças de estados de espírito, disposições em relação aos gregos, etc.).

Enquanto depoimento de uma testemunha ocular dos acontecimentos, a Gesta tem um valor incomparável.

Para os contemporâneos cultivados da Idade Média, seu autor era um “rústico”.

Foi assim que Gilberto de Nogent escreveu sua Dei gesta per Francos (1108) com base no original, mas dizendo que ele “muitas vezes deixava o leitor atordoado pela sua vacuidade insípida.”

O monge Roberto de Reims foi contratado para reescrever o Gesta completa visando a beleza histórica e literária. Houve ainda outros embelezamentos.

Porém, o original ficou conservado até nossos dias, constituindo uma das mais prezadas fontes contemporânea da Primeira Cruzada.

Esse original foi escrito em latim. Grandes excertos dele foram vertidos para o inglês.

Nos post seguintes oferecemos uma tradução para o português.

Tal vez seja a primeira tradução a nossa língua, pelo menos disponível na Internet.



Gesta Dei per Francos [A Gesta de Deus por meio dos Francos]


O beato Papa Urbano II pregou a primeira Cruzada
1. Urbano II: O Discurso em Clermont

Ao chegar a hora de cumprir o que Nosso Senhor ensina aos fiéis diariamente, especialmente no Evangelho: “Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”, uma poderosa agitação tomou conta de toda a região da Gália.

A idéia era que, se alguém quisesse zelosamente seguir o Senhor, com coração e mente puros, e desejasse fielmente carregar sua cruz seguindo as Suas pegadas, não hesitaria em tomar o caminho do Santo Sepulcro.

E assim Urbano, Papa da Sé Romana, com seus arcebispos, bispos, abades e sacerdotes, tão logo puderam, puseram-se a caminho para além das montanhas e começaram a fazer sermões e a pregar com eloqüência, dizendo: “Aquele que quiser salvar sua alma não deve hesitar em pegar humildemente o caminho do Senhor, e se não tiver dinheiro suficiente, a misericórdia divina lhe dará o bastante”.

Então o senhor apostólico continuou: “Irmãos, devemos suportar muito sofrimento pelo Nome de Cristo ‒ miséria, pobreza, nudez, perseguição, necessidade, doença, fome, sede, e outros males deste tipo, como o Senhor disse a Seus discípulos: “Vós deveis sofrer muito por causa de Meu Nome” e “Não vos envergonheis de Me confessar diante dos homens; em verdade eu vos darei boca e sabedoria”, e, finalmente, “Grande será a vossa recompensa no Céu”.

E quando este discurso começava a repercutir fora, pouco a pouco, por todas as regiões da Gália, os Francos, após ouvirem tais relatos, imediatamente mandaram costurar cruzes sobre seu ombro direito, dizendo que seguiriam unanimemente os passos de Cristo, pelos quais tinham sido resgatados das garras do inferno.




O fim da Cruzada Popular

Encontro dos restos da "cruzada popular" de Pedro o Eremita
 Um dos episódios mais tristes e errados do tempo da Primeira Cruzada foi protagonizado pela “Cruzada Popular”, ou “dos camponeses”, convocada por um pregador de grande capacidade de atração popular: Pedro o Eremita.

Pedro agiu em desobediência às prudentes exortações do Beato Urbano II. O Papa, e com ele seus sucessores, exortavam à Cruzada com explícita exclusão daqueles que não tinham condições de combater ou habilidades para isso, como anciãos e mulheres.

Pedro com seus inflamados discursos congregou uma multidão de populares, incluindo crianças, incapacitados para uma campanha militar do fôlego da Cruzada, contra inimigos da força bélica e da ferocidade como os turcos seljúcidas.

A multidão de Pedro, sem preparo, sem planificação, sem chefes militares experientes, acabou sendo horrivelmente massacrada pelas hordas maometanas.

Assim narra aquele trágico fim, a Gesta Dei per Francos (A Gesta de Deus através dos Francos):
Pedro o Eremita, pregador popular, agiu sem obediência

Mas Pedro, acima mencionado, foi o primeiro a atingir Constantinopla, nas calendas de agosto, e com ele uma grande hoste de Alamanos.

Lá encontrou Lombardos, Longobardos e muitos outros reunidos. O imperador lhes disse: “Não cruzeis o Estreito até que o chefe da hoste dos Cristãos chegue, pois não sois suficientemente fortes para travardes batalha contra os Turcos”.

Os Cristãos se comportaram mal; derrubaram e queimaram edifícios da cidade, levaram o chumbo com o qual as igrejas foram construídas e venderam-no aos gregos.

O Imperador, enraivecido, ordenou-lhes atravessar o Estreito. Depois da travessia, continuaram a fazer todo tipo de mal, queimando e saqueando casas e igrejas.

Finalmente chegaram a Nicomédia, onde os Lombardos, Longobardos e Alamanos separaram-se dos Francos porque estes estavam constantemente inflados de arrogância.

Os Lombardos e Longobardos escolheram um líder cujo nome era Reinaldo. Os Alamanos fizeram o mesmo.

Entraram na Romênia (na Ásia Menor) e continuaram por quatro dias, para além da cidade de Nicéia.

Eles encontraram uma fortaleza chamada Xerogord, que estava vazia, e tomaram-na. Nela encontraram uma ampla reserva de cereais, vinho e carne, e uma abundância de todos os produtos.

Os Turcos, por conseguinte, crendo que os cristãos estavam na fortaleza, passaram a assediá-la. Havia uma cisterna diante do portão da fortaleza, e em sopé uma fonte de água corrente, perto da qual Reinaldo saiu para interceptar os Turcos.

Mas estes, que chegaram no dia da Dedicação de São Miguel, encontraram Reinaldo e aqueles que estavam com ele e mataram muitos deles.

Pedro o Eremita fez uma cruzada sem nobres e sem organização. Resultado: massacre.
Aqueles que permaneceram vivos fugiram para a fortaleza, que os Turcos logo sitiaram, privando-os de água.

Tal foi a aflição de nosso povo causada pela sede, que sangrou seus cavalos e jumentos e bebeu o sangue; outros jogavam seus cintos e lenços para dentro da cisterna e espremiam a água em suas bocas; alguns urinavam nas mãos uns dos outros e bebiam; outros cavavam o chão úmido e deitavam de costas e espalhavam terra sobre os seus peitos para aliviar a secura excessiva da sede.

Os bispos e sacerdotes, de fato, continuavam a confortar nosso povo, e a admoestá-los para que não sucumbissem: “Em toda a parte sede fortes na fé de Cristo, e não temais os que vos perseguem, assim como o Senhor disse: “Não temais os que matam o corpo, mas não são capazes de matar a alma”.

Esta angústia durou oito dias. Então, o senhor dos Alamanos fez um acordo com os turcos de entregar-lhes seus companheiros e, fingindo ir à luta, fugiu até eles, e muitos com ele.

Contudo, os que não estavam dispostos a negar o Senhor receberam sentença de morte; alguns, a quem levaram vivos, dividiram entre si como ovelhas; colocaram outros como alvos e os mataram com flechas; a outros venderam e doaram como animais.

Levaram alguns levaram cativos para suas próprias casas, outros para Chorosan, outros para Antioquia, outros para Aleppo ou onde quer que morassem. Estes foram os primeiros a receber um martírio feliz em nome do Senhor Jesus.

Em seguida, os turcos, ouvindo dizer que Pedro o Eremita e Walter Sans Avoir estavam em Civitote, localizada acima da cidade de Nicéia, lá foram com grande alegria para matá-los e os que estavam com eles.

E ao chegarem encontraram Walter com seus homens e logo os mataram a todos.

Mas Pedro o Eremita tinha ido a Constantinopla, um pouco antes, porque não conseguia conter as diversas hostes que não lhe davam ouvidos.

Apontou o caminho errado
De fato, os turcos precipitaram-se sobre estas pessoas e mataram muitas delas. Algumas encontraram dormindo, algumas deitadas, outras nuas – mataram a todas.

Com essas pessoas encontraram um certo padre celebrando Missa, a quem logo martirizaram sobre o altar.

Aqueles que conseguiram escapar fugiram para Civitote, outros atiraram-se de cabeça no mar, enquanto alguns se esconderam nas florestas e montanhas.

Mas os turcos, perseguindo-os até a fortaleza, colheram madeira para queimar o forte. Os cristãos que estavam no forte, portanto, atearam fogo à madeira que tinha sido colhida, e o fogo, virando em direção dos turcos, cremou alguns deles; mas o Senhor livrou nosso povo do fogo naquele momento.

No entanto, os turcos pegaram-nos vivos e dividiram-nos, assim como haviam feito aos outros, e os espalharam por todas estas regiões, alguns para Chorosan e outros para a Pérsia.

Isso tudo aconteceu no mês de outubro. O Imperador, ao ouvir que os turcos tinham dispersado nosso povo desta maneira, ficou extremamente feliz, mandou buscá-los e os fez cruzar o Estreito. E depois de o terem atravessado, comprou todas as suas armas.



Relato dos principais exércitos cruzados


Logo eles [N.R.: os excércitos francos que partiram da Gália] deixaram suas casas na Gália e, em seguida formaram três grupos.

Um grupo de Francos, a saber, Pedro, o Eremita, o Duque Godofredo, seu irmão Balduíno, e Balduíno, Conde do Monte entraram na região da Hungria. 

Estes poderosíssimos cavaleiros, e muitos outros que desconheço, foram pelo caminho que Carlos Magno, o milagroso rei da França, há muito tempo havia percorrido, até Constantinopla. ...

O segundo grupo ‒ a saber: Raimundo, Conde de São Gilles e o bispo de Puy ‒ entraram na região da Eslavônia.

Godofredo de Bouillon

A terceira divisão, contudo, passou pela antiga estrada de Roma. 

Nesta se encontravam estavam Boemundo, Ricardo dos Principados, Roberto Conde de Flandres, Roberto o Normando, Hugo o Grande, Everardo de Puiset, Achard de Montmerle, Ysooard de Mousson, e muitos outros. 

Em seguida foram para os portos de Brindisi, ou Bari, ou Otranto.

Então Hugo o Grande e Guilherme, filho de Marchisus, foram para o mar no porto de Bari e, atravessando o estreito, chegaram a Durazzo.

Mas o governador do lugar, com coração cheio de más intenções, imediatamente levou estes renomadíssimos homens para o cativeiro tão logo soube que tinham desembarcado ali, e ordenou que fossem cuidadosamente conduzidos ao Imperador em Constantinopla, onde deveriam prestar vassalagem a ele.




Como Boemundo de Taranto se fez cruzado



Supõe-se que o autor da “Gesta Dei per Francos” foi um clérigo, muito próximo, ou a serviço de Boemundo de Taranto, um dos heróis da I Cruzada.

A grande quantidade de pormenores a respeito deste chefe cruzado fundamenta essa suposição.
Mas Boemundo, poderoso na batalha, que estava envolvido no cerco de Amalfi no mar de Salerno, soube que uma hoste incontável de Cristãos de Francos havia chegado para ir ao Sepulcro do Senhor, e que estavam preparados para dar batalha contra a horda pagã.

Começou então a investigar de perto que armas de combate essas pessoas portavam, e que sinal de Cristo carregavam no caminho, ou que brado de guerra davam.

Em ordem, foram-lhe dadas as seguintes respostas:

‒ “Eles carregam armas adequadas para a batalha;

‒ no ombro direito, ou entre ambos os ombros, usam eles a Cruz de Cristo;

‒ o brado, “Deus o quer!, Deus o quer!, Deus o quer!” bradam eles, em verdade, a uma só voz”.

Movido diretamente pelo Espírito Santo, ordenou que a mais preciosa capa que trazia consigo fosse cortada em pedaços, e logo fez com que dela se fizessem cruzes.

Então, a maioria dos cavaleiros engajados naquele cerco correu ansiosamente até ele, de maneira que o Conde Rogério permaneceu praticamente sozinho.

Retornando à sua terra de origem, o Senhor Boemundo diligentemente se preparou para empreender, com seriedade, a viagem ao Santo Sepulcro.

Finalmente, cruzou ele o mar com seu exército. Com ele estavam Tancredo, filho de Marchisus, Ricardo de Principati e Rainulfo seu irmão, Roberto de Anse, Herman de Cannae, Roberto do Vale Surda, Roberto, filho de Tostanus, Hunfredo, filho de Raoul, Ricardo, filho do Conde Rainulfo, o Conde de Roscignolo com seus irmãos, Boellus de Chartres, Albered de Cagnano e Hunfredo do Monte Seaglioso.

Todos estes cruzaram o mar para prestarem serviço a Boemundo e desembarcaram na região da Bulgária, onde encontraram uma grande abundância de cereais, vinho e alimentos.

Daí descendo para o vale do Andronópoli, eles esperaram até que todos também tivessem cruzado o mar. Em seguida, o sábio Boemundo convocou um conselho com seu povo, confortando e admoestando a todos (com estas palavras):

Taranto, Castello Aragonese
‒ “Senhores, ouvi vós todos, porque somos peregrinos de Deus. Devemos, portanto, ser melhores e mais humildes que antes. Não saqueiem esta terra, uma vez que ela pertence aos Cristãos, e que ninguém, sob pena de ferir-se, tome mais do que necessita para comer”.

Partindo dali, caminhamos com grande abundância, de vila a vila, cidade a cidade, fortaleza a fortaleza, até chegarmos a Castoria.

Lá comemoramos solenemente o Natal do Senhor. Ficamos lá por vários dias e procuramos um mercado, mas as pessoas não estavam dispostas a nô-lo conceder porque temiam-nos muito, pensando que não viemos como peregrinos, mas para devastar sua terra e matá-los.

Por isso, tomamos seu gado, cavalos, jumentos, e tudo que encontramos. Deixando Castoria, entramos em Pelagonia, onde havia uma certa cidade de hereges fortificada.

Atacamo-la por todos os lados, e ela logo cedeu à nossa influência. Então, ateamos fogo nela e queimamos o campo com seus habitantes, isto é, a congregação dos hereges.

Mais tarde, chegamos ao rio Vardar. E então o Senhor Boemundo atravessou com seu povo, mas não com todos, pois o Conde de Roscignolo com seus irmãos ficaram para trás.

Nisso, um exército do Imperador veio e atacou o Conde com seus irmãos e todos que estavam com eles. Tancredo, ouvindo isso, voltou e, arremessando-se para o rio nadou ao encalço dos outros, e dois mil foram para o rio seguindo Tancredo.

Finalmente, caíram eles sobre os Turcopolos e Patzinaks, lutando com nossos homens.

Eles (Tancredo e seus homens) atacaram o inimigo repentina e corajosamente e os venceram gloriosamente.

Tomaram a vários deles e levaram-nos, atados, na presença de Boemundo, que falou para eles da seguinte forma:

‒ “Homens miseráveis, por que motivo matais o povo de Cristo e meu? Não tenho nenhuma desavença com seu Imperador”.

Eles responderam: “Não podemos fazer o contrário, estamos a serviço do Imperador, e o que ele ordena devemos cumprir”.

Boemundo lhes permitiu partir impunes. Esta batalha foi travada no quarto dia da semana, que é o início do jejum. Por tudo seja bendito o Senhor! Amém.

Taranto, Castello Aragonese
O infeliz Imperador enviou um dos seus homens, a quem ele muito amava, e a quem chamam Corpalatius, juntamente com nossos enviados, para nos conduzir em segurança através de sua terra até que chegássemos a Constantinopla.

E, enquanto fazíamos uma pausa diante de suas cidades, mandou que os habitantes nos oferecessem víveres, assim também como fizerem os de quem temos falado.

Na verdade, tinham eles um tão grande temor pelo mais valente exército do Senhor Boemundo, que não permitiram que nenhum de nós entrasse nas muralhas da cidade.

Nossos homens queriam atacar e tomar uma determinada cidade fortificada porque estava cheia de todos os tipos de produtos.

Mas o renomado Boemundo recusou-se a dar permissão, não só por justiça para com a terra, mas também por causa de seu juramento ao Imperador.

Portanto, ao saber das notícias, ficou enormemente irritado com Tancredo e todo o resto. Isso aconteceu ao entardecer.

Quando amanheceu, os moradores da cidade saíram e, em procissão, carregando cruzes em suas mãos, puseram-se na presença de Boemundo. Satisfeito, ele os recebeu, e com alegria deixou-os partir.

Em seguida, chegamos a uma certa cidade chamada Serrhae, onde montamos nossas tendas e tivemos provisões suficientes para aquele momento.

Lá o culto Boemundo fez um acordo muito amistoso com dois Corpalatii e, em respeito por sua amizade, bem como por justiça para com a terra, ordenou que todos os animais que tinham sido roubados por nossos homens fossem devolvidos.

Corpalatius prometeu a ele que enviaria mensageiros para, em ordem, devolver os animais a seus proprietários. Então, continuamos de castelo em castelo e de vila a vila até a cidade de Rusa.

O povo dos Gregos saiu, trazendo-nos muitas provisões, e foi alegremente ao encontro do Senhor Boemundo. Lá, instalamos tendas, no quarto dia da semana antes da festa do Senhor.

Lá também, o douto Boemundo deixou todo o seu exército e avançou para falar com o Imperador em Constantinopla. Deu ele ordens a seus vassalos, dizendo:

‒ “Aproximem-se da cidade gradualmente. Eu, porém, continuarei à frente”. E ele levou consigo alguns à frente do exército de Cristo e, vendo os peregrinos comprando comida, disse a si mesmo que sairia da estrada e conduziria o seu povo onde viveriam feliz.

Finalmente, entrou ele em um certo vale cheio de bens de todos os tipos que são alimento adequado para o corpo, e nele celebramos a Páscoa com muitíssima devoção.




Godofredo de Bouillon e a perfídia do imperador de Constantinopla


Godofredo de Bouillon, vitral da abacial Saint-Denis, Paris
O Duque Godofredo foi o primeiro de todos os senhores a vir a Constantinopla com um grande exército.

Chegou ele dois dias antes da Natividade de Nosso Senhor e acampou fora da cidade, até que o iníquo Imperador ordenou que ele fosse hospedado em um subúrbio da cidade.

E quando o Duque estava assim instalado, todo dia enviava seus escudeiros para, sob juramento, buscar feno e outras provisões para os cavalos.

Quando agora eles planejavam ir aonde quisessem, sob a força de seu juramento, o pérfido Imperador colocou-os sob vigilância e deu ordem a seus Turcopolos e Patzinaks de atacá-los e matá-los.

Então, quando Balduíno, irmão do Duque, soube disso, colocou-se em uma emboscada e, em seguida, descobriu-os matando seu povo. Ele os atacou com grande raiva e, com a ajuda de Deus, os derrotou. Capturando sessenta deles, matou alguns e entregou o restante ao Duque, seu irmão.

Quando o imperador soube disso, ficou extremamente zangado. Então o Duque, vendo que o Imperador ficou furioso, partiu com seus homens para fora e acampou fora da cidade.


Além disso, ao entardecer, o Imperador ordenou que suas forças atacassem o Duque e o povo de Cristo.

O invicto Duque e os cavaleiros de Cristo perseguiram-nos, mataram sete deles, e afugentaram o resto até as portas da cidade.

O Duque, retornando às suas tendas, permaneceu lá por cinco dias, até que tivesse chegado a um acordo com o Imperador.

O Imperador disse-lhe para cruzar o Estreito de São Jorge, e prometeu que teria todo o tipo de víveres lá, assim como em Constantinopla, e de distribuir esmolas aos pobres com as quais eles pudessem viver.




Boemundo e os artifícios traiçoeiros do imperador grego



Quando o Imperador soube que o honradíssimo Boemundo tinha vindo até ele, ordenou que este fosse recebido com honras e cuidadosamente instalado fora da cidade.

Quando ele tinha sido assim instalado, o ímpio imperador mandou buscá-lo para que fosse falar com ele em segredo.

Com a mesma finalidade, vieram o Duque Godofredo com seu irmão, e finalmente o Conde de St. Gilles aproximou-se da cidade.

Então, o Imperador, em ansiosa e ardente fúria, estava excogitando algum modo pelo qual pudessem, habil e fraudulentamente, conquistar esses Cavaleiros de Cristo.

Mas a Graça Divina, revelando (seus planos), fez com que nem ele nem seus homens achassem tempo ou lugar para lhes fazer mal.

Por fim, todos os líderes nobres que estavam em Constantinopla se reuniram. Temendo que fossem privados de seu país, eles decidiram em seus conselhos e cálculos engenhosos, que nossos duques, condes, ou todos os líderes deveriam prestar um juramento de fidelidade ao Imperador.

Estes absolutamente recusaram e disseram: “É-nos realmente indigno e, além disso, parece-nos injusto prestar um juramento a ele.”

Por ventura nós seremos ainda muitas vezes enganados por nossos líderes. No final, o que deveriam eles fazer? Eles dizem que por força da necessidade humilharam-se, quisessem ou não, à vontade do injustíssimo Imperador.

Contudo, ao poderosíssimo Boemundo, a quem ele temia enormemente porque em tempos passados (Boemundo) muitas vezes o tinha expulsado do campo com o seu exército, o Imperador disse que, se ele, de bom grado prestasse-lhe juramento, dar-lhe-ia, em troca, terras na extensão de quinze dias de viagem até Antioquia, por oito de largura.

E ele (o imperador) jurou-lhe de tal modo que, se ele observasse fielmente o juramento, nunca ultrapassaria sua própria terra.

Por que razão cavaleiros tão corajosos e tão fortes fizeram isso? Porque eles foram constrangidos por muita necessidade.

O Imperador também fez a todos os nossos homens uma promessa de segurança.


Do mesmo modo, fez ele o juramento de que ele, juntamente com seu exército, viria conosco, por terra e por mar; que fielmente nos forneceria provisões por terra e mar, e que ele diligentemente repararia nossos prejuízos; além disso, que ele não queria e nem permitiria que qualquer um dos nossos peregrinos fosse perturbado ou molestado a caminho do Santo Sepulcro.




Raimundo de Toulouse: as intrigas do imperador Alexio I Comneno ameaçam a unidade da Cruzada


Alexios Komnenos
O Conde de St. Gilles, no entanto, foi instalado fora da cidade em um subúrbio de Constantinopla.

Assim, o Imperador ordenou ao Conde que prestasse homenagem e juramento de fidelidade a ele, como os outros haviam feito.

E enquanto o Imperador fazia essas demandas, o Conde meditava como ele poderia vingar-se do exército do Imperador.

Mas o Duque Godofredo e Roberto, Conde de Flandres, e os outros príncipes disseram a ele que seria injusto lutar contra os Cristãos.

O sábio Boemundo também disse que se o Conde fizesse qualquer injustiça ao Imperador, e se recusasse a prestar-lhe juramento de fidelidade, ele próprio tomaria o partido do Imperador.

Assim, o Conde, depois de receber os conselhos de seus homens, jurou que não consentiria em ter a vida e a honra de Aleixo maculada, quer fosse por ele próprio ou por qualquer outra pessoa.

Quando ele foi chamado para fazer o juramento, respondeu que não faria isso ainda que com risco de sua própria cabeça.

Em seguida o exército do Senhor Boemundo aproximou-se de Constantinopla.

Tancredo, de fato, e Ricardo de Principati, e quase a totalidade da força de Boemundo com ele, atravessou furtivamente o Estreito, para evitar o juramento ao Imperador.

E agora o exército do Conde de St. Gilles aproximou-se de Constantinopla. O Conde permaneceu lá com seu próprio grupo.

Portanto, o ilustre Boemundo ficou para trás com o Imperador, a fim de planejarem como arranjar provisões para as pessoas que estavam do outro lado da cidade de Nicéia.




A vitória de Nicéia


E assim o Duque Godofredo foi primeiro a Nicomédia, juntamente com Tancredo e todo o resto, e lá estiveram por três dias.

O Duque, na verdade, vendo que não havia estrada aberta pela qual ele poderia conduzir seu exército para a cidade de Nicéia, pois um exército tão numeroso não poderia passar pelo caminho por onde os outros haviam passado antes, enviou à frente três mil homens com machados e espadas para cortar e abrir esta estrada, para que ficasse aberta até a cidade de Nicéia.

Eles cortaram essa estrada por uma montanha muito grande e estreita, e fixaram cruzes de ferro e madeira ao longo do caminho para que os peregrinos identificassem o caminho.

Enquanto isso, chegamos a Nicéia, que é a capital de toda a Romenia, no quarto dia, um dia antes da Nona de Maio, e lá acamparam. No entanto, antes da chegada de Boemundo, tal era a escassez de pão entre nós que um pão era vendido por vinte ou trinta denários.

Depois da chegada do ilustre Boemundo, este ordenou que o maior número de provisões possível fosse trazido por mar, que chegaram por duas vias ao mesmo tempo, por terra e por mar, e houve a maior abundância em todo o exército de Cristo .

Além disso, no dia da Ascensão do Senhor, começamos o ataque à cidade por todos os lados, e a construção de máquinas de madeira e torres de madeira, com os quais pudéssemos destruir as torres nas muralhas.

Atacamos a cidade com tanta coragem e ferocidade que chegamos a arruinar sua própria muralha.

Os turcos que estavam na cidade, horda de bárbaros que eram, enviaram mensagens para outros que tinham vindo dar-lhes auxílio.

Eis o que dizia a mensagem: que eles poderiam aproximar-se da cidade com coragem e seguros, e entrar pela porta do meio, pois desse lado ninguém iria se opor a eles ou molestá-los.

Este portão foi cercado naquele mesmo dia ‒ o sábado depois da Ascensão do Senhor ‒ pelo Conde de St. Gilles e pelo Bispo de Puy.

O Conde, aproximando-se por outro lado, foi protegido por poder divino, e com seu poderosíssimo exército se glorificava por sua força terrestre.

E assim ele encontrou os Turcos vindo aqui contra nós. Armados de todos os lados com o sinal da cruz, ele correu em cima deles violentamente e venceu-os.

Eles puseram-se em fuga e a maioria deles foram mortos. Novamente eles voltaram, reforçados por outros, alegres e exultantes, seguros do (resultado) da batalha, e trazendo consigo as cordas com as quais nos levariam atados até Chorosan.

Além disso, alegres começaram a descer a crista da montanha, a uma curta distância. Todos que desceram lá ficaram com suas cabeças cortadas nas mãos de nossos homens; além disso, nossos homens lançavam as cabeças dos mortos longe para dentro da cidade, para que eles (os turcos) pudessem se aterrorizar com isso.

Em seguida, o Conde de St. Gilles e o Bispo de Puy reuniram-se em conselho a respeito de como eles poderiam ter danificado uma certa torre que estava em frente a suas tendas.

Foram designados homens para fazer a escavação, com besteiros [relat. besta] e arqueiros para defendê-los de todos os lados. Então, eles cavaram até as fundações da muralha e assentaram vigas de madeira sob ela, e em seguida atearam fogo a ela.

No entanto, a noite tinha chegado, a torre já tinha caído no meio da noite, e porque era noite não poderiam lutar com o inimigo.

Com efeito, durante a noite os turcos apressadamente construíram e restauraram tão solidamente a muralha, que quando amanheceu ninguém poderia molestá-los daquele lado.

Agora, o Conde da Normandia veio, o Conde Estêvão e muitos outros, e, finalmente, Roger de Barneville. Por fim, Boemundo, bem na frente do exército, sitiou a cidade. Ao seu lado estava Tancredo, depois dele o Duque Godofredo, o Conde de St. Gilles, perto de quem estava o Bispo de Puy.

De tal maneira foi sitiada por terra que ninguém se atrevia a entrar ou sair. Lá todas as nossas forças foram reunidas em um só corpo, e quem poderia ter contado um tão grande exército de Cristo? Penso que ninguém jamais viu ou verá cavaleiros tão distintos!

No entanto, havia um grande lago de um lado da cidade, no qual os Turcos enviavam seus navios para trazerem forragem, madeira, e muitas outras coisas.

Então nossos líderes reuniram-se em conselho e enviaram mensageiros a Constantinopla para pedir ao Imperador que mandasse navios para Civitote, onde há um forte, e que ele devia mandar trazer bois para arrastar os navios pelas montanhas e pelos bosques, até que se aproximassem do lago. Isso foi feito imediatamente, e ele enviou seus Turcopolos com eles.

Turcopolo
Eles não quiseram colocar os barcos no lago no mesmo dia em que eles foram trazidos, mas sob o manto da noite eles lançaram-nos no lago. (Os barcos foram) enchidos com Turcopolos bem enfeitados com armas.

Além disso, nos primeiros albores da manhã, os navios colocaram-se em boa ordem e apressaram-se através do lago contra a cidade. Os turcos maravilharam-se ao vê-los, sem saber se eram tripulados por seus próprios exércitos ou pelo do Imperador.

No entanto, quando reconheceram que era o exército do Imperador, ficaram amedrontados até a morte, chorando e lamentando, e os Francos se alegraram e deram glória a Deus.

Os turcos, além disso, vendo que não poderiam ter nenhum outro auxílio de seus exércitos, enviaram uma mensagem ao Imperador, de que estariam dispostos a entregar a cidade, se lhes permitissem ir embora com suas esposas e filhos e todos os seus bens.

Então o Imperador, cheio de vaidade e maus pensamentos, mandou que eles partissem impunes, sem nenhum medo, e que fossem levados até ele em Constantinopla, com grande certeza (de segurança).

Destes cuidava ele zelosamente, de modo que os tinha preparado contra qualquer dano ou obstáculo da parte dos Francos.

Estávamos empenhados naquele cerco há sete semanas e três dias. Muitos dos nossos homens lá receberam o martírio, e, contentes e jubilosos, entregaram suas almas felizes a Deus.

Muitos dos muito pobres morreram de fome pelo Nome de Cristo, e estes levaram triunfalmente para o Céu suas vestes do martírio clamando em uma voz, “Vingai, Senhor, nosso sangue que foi derramado por Vós, que sois bendito e digno de louvor por todo o sempre. Amém”.

Enquanto isso, após a cidade ter-se rendido e os turcos conduzidos a Constantinopla, o Imperador cada vez mais alegre porque a cidade tinha sido entregue ao seu poder, ordenou que uma enorme distribuição de esmolas fosse feita aos nossos pobres.




A Batalha de Doriléia


Nosso Senhor Jesus Cristo à testa dos Cruzados
No terceiro dia, os Turcos fizeram um assalto violento a Boemundo e seus companheiros.

Os Turcos começaram a gritar, a uivar e chorar em voz alta incessantemente, fazendo um som infernal, não sei como, na sua própria língua.

Quando o sábio Boemundo viu de longe os inúmeros Turcos gritando e chorando num som diabólico, imediatamente ordenou que todos os cavaleiros desmontassem e armassem prontamente as tendas.

Antes das tendas serem levantadas, falou a todos os soldados:

‒ “Meus senhores e os mais fortes dos soldados de Cristo! Uma difícil batalha está se formando em torno de nós. Que todos avancem contra eles, corajosamente, e que a infantaria monte as tendas com cuidado e rapidez“.

Quando tudo isso tinha se passado, os turcos já haviam nos cercado por todos os lados. Eles nos atacaram, cortando, jogando e atirando flechas por toda parte, de uma forma estranha.

Embora mal pudéssemos contê-los, ou até mesmo suportar o peso de um tal exército, no entanto, todos nós conseguimos manter nossas fileiras.

O Beato Adhermar, bispo de Puy (de mitra-elmo)
decidiu a batalha em favor dos Cruzados
Nossas mulheres foram uma grande bênção para nós naquele dia, pois carregaram água para nossos combatentes e confortaram os lutadores e defensores.

O sábio Boemundo imediatamente ordenou que os outros, ou seja, o Conde de Saint Gilles, o Duque Godofredo, Hugo de França, o bispo de Le Puy, e todo o resto dos soldados de Cristo se apressassem e marchassem rapidamente para o campo de batalha.

Ele disse: “Se eles querem lutar hoje, quem venham com força total”.

O forte e corajoso Duque Godofredo e Hugo de França adiantaram-se com seus exércitos.

O Bispo de Le Puy seguiu com suas tropas, e o Conde de Saint Gilles veio em seguida, com um grande exército.

Nosso povo estava muito curioso [para saber] de onde uma tal multidão de Turcos, Árabes, Sarracenos, e outros cujos nomes ignoro, tinha vindo.

Com efeito, esta raça excomungada enchia todas as montanhas, montes, vales e planícies por todos os lados, tanto dentro como fora do campo de batalha.

A primeira batalha em que Francos e Turcos se enfrentaram para valer
Tivemos uma conversa secreta e, depois de louvarmos a Deus e de termos nos aconselhado, dissemos: “Unamo-nos todos na Fé de Cristo e na vitória da Santa Cruz, pois, se Deus quiser, hoje todos nos tornaremos ricos”.

Nossas forças puseram-se em uma contínua linha de batalha.

À esquerda havia Boemundo, Roberto o Normando, o prudente Tancredo, Roberto de Ansa, e Ricardo do Principado.

O Bispo de Le Puy aproximou-se por uma outra montanha e, assim os turcos infiéis ficaram cercados por todos os lados.

[nota: o Beato bispo Ademar de Le Puy tinha, em outras palavras, conduzido um grupo de cavaleiros franceses do sul através das montanhas, ao redor e atrás das linhas turcas. O aparecimento súbito no campo do Bispo e seus cavaleiros, que vieram por trás dos flancos turcos, pôs os Turcos em pânico e garantiu a vitória aos cruzados.]

Em Doriléia, os turcos perderam a invencibilidade
Raimundo de Saint Gilles também lutou no lado esquerdo. À direita estavam o Duque Godofredo, o Conde de Flandres (um valentíssimo cavaleiro) e Hugo de França, juntamente com muitos outros cujos nomes desconheço.

Logo que nossos cavaleiros chegaram, os Turcos, Árabes, Sarracenos, Angulanos, e todos as tribos bárbaras rapidamente fugiram pelos atalhos das montanhas e planícies.

Os Turcos, Persas, Paulicianos, Sarracenos, Angulanos e outros pagãos eram 360.000, além dos Árabes, cujos números só Deus conhece.

Com velocidade extraordinária, fugiram para suas tendas, mas não puderam permanecer lá por muito tempo.

Mais uma vez fugiram e nós os seguimos, matando-os um dia inteiro. Levamos muitos despojos: ouro, prata, cavalos, burros, camelos, carneiros, gado, e muitas outras coisas que não conhecemos.

Se o Senhor não estivesse conosco na batalha e não tivesse nos enviado um outro exército repentinamente, nenhum dos nossos homens teria escapado, pois a batalha durou da terceira até a hora nona.

Mas Deus Todo Poderoso é misericordioso e bondoso. Ele não permitiu que Suas tropas perecessem, nem quis Ele entregá-las nas mãos do inimigo; antes, Ele prontamente enviou-nos ajuda.

Dois dos nossos honrados cavaleiros foram mortos, a saber, Godofredo de Monte Scaglioso e Guilherme, o filho do Marquês e irmão de Tancredo. Alguns outros cavaleiros e soldados de infantaria, cujos nomes não sei, também foram mortos.

Quem será suficientemente sábio e instruído para se atrever a descrever a prudência, coragem e bravura dos Turcos?

Na batalha de Doriléia a Cruz
significou o fim da hegemonia da Meia Lua islâmica
Eles acreditavam que poderiam aterrorizar a raça dos Francos, ameaçando-os com suas flechas, como tinham aterrorizado os Árabes, Sarracenos, Armênios, Sírios e Gregos. Mas, queira Deus, eles nunca serão tão poderosos como nossos homens.

Na verdade, os turcos dizem que são aparentados aos Francos e que nenhum homem deveria, por natureza, ser cavaleiro, a não ser os Francos e eles próprios [os turcos].

Falo a verdade, que ninguém pode negar. Que se tivessem sido sempre firmes na Fé de Cristo e do Cristianismo, se tivessem querido confessar a Deus Trino, e se tivessem honestamente acreditado, de boa fé, que o Filho de Deus nasceu da Virgem, que Ele sofreu e ressuscitou dos mortos e subiu ao Céu na presença dos Seus discípulos, que Ele enviou o conforto perfeito do Espírito Santo, e que Ele reina no Céu e na terra; se eles tivessem acreditado em tudo isso, teria sido impossível encontrar um povo mais poderoso, mais corajoso, ou mais hábil na arte da guerra.

Pela graça de Deus, no entanto, nós os derrotamos. A batalha ocorreu no dia primeiro de Julho.




Em Antioquia, nas vésperas do Natal de 1098


Antioquia
Os Cruzados sitiaram a imensa cidade de Antioquia a caminho de Jerusalém. Instalaram-se em volta da cidade e logo começaram a sofrer falta de alimentos.
Exércitos turcos ainda viriam a atacá-los sitiá-los em acontecimentos dos mais dramáticos da I Cruzada.

Aconteceu em Antioquia que os grãos e os alimentos começaram a ser excessivamente caros antes da Natividade do Senhor.

Não nos atrevemos a ir para fora; não poderíamos encontrar absolutamente nada para comer dentro da terra dos Cristãos, e ninguém se atrevia a entrar na terra dos Sarracenos sem um grande exército.

Na última convocação de uma assembléia, os senhores decidiram como eles poderiam cuidar de tantas pessoas.

Concluíram eles no conselho que uma parte da nossa força deveria sair diligentemente para arrecadar alimentos e guardar o Exército em toda parte, enquanto a outra parte deveria permanecer fiel na vigia do inimigo.

Finalmente, Boemundo disse, “Senhores e ilustríssimos cavaleiros, se assim o desejarem, e se parecer digno e bom para Vós, serei eu que partirei com o Conde de Flandres, nesta busca”.

Assim, quando as festividades da Natividade haviam sido gloriosissimamente celebradas na segunda-feira, segundo dia da semana, eles e mais de vinte mil cavaleiros e soldados de infantaria partiram e entraram na terra dos Sarracenos, seguros e ilesos.

Vista desde as muralhas de Antioquia


Foram reunidos, de fato, muitos Turcos, Árabes e Sarracenos de Jerusalém, Damasco, Aleppo, e de outras regiões, que estavam a caminho para reforçar Antioquia.

Então, quando souberam que um exército Cristão estava sendo levado para sua terra, prepararam-se para a batalha contra os Cristãos, e logo ao amanhecer chegaram ao local onde nosso povo estava reunido.

Os bárbaros se dividiram e formaram duas linhas de batalha, uma na frente e uma atrás, procurando cercar-nos de todos os lados.

O digno Conde de Flandres, portanto, cingido por todos os lados com a armadura da Fé verdadeira e o sinal da cruz, que ele usava fielmente todos os dias, foi de encontro a eles, juntamente com Boemundo, e nossos homens precipitaram-se todos juntos sobre eles.

Boemundo de Tarento entra em Antioquia, junho 1098
Eles imediatamente puseram-se em fuga e às pressas deram as costas; muitos deles foram mortos, e nossos homens levaram seus cavalos e outros despojos.

Mas outros, que tinham permanecido vivos, fugiram rapidamente e partiram para a ira da perdição.

Nós, porém, voltando com grande alegria, louvamos a Deus e glorificamos a Deus Trino em Um, que vive e reina agora e para sempre, amém.

Finalmente, os turcos, na cidade de Antioquia, inimigos de Deus e do Cristianismo Santo, crendo que o Senhor Boemundo e o Conde de Flandres não estavam no cerco, saíram da cidade e ousadamente avançaram para dar batalha contra nós.

Sabendo que os cavaleiros mais valentes estavam fora, eles armaram emboscada para nós em todos os lugares, sobretudo daquele lado onde o cerco estava se estendendo.

Uma quarta-feira descobriram que podiam resistir e nos atacar. Os mais iníquos bárbaros sairam cautelosamente e, caindo violentamente em cima de nós, mataram muitos dos nossos cavaleiros e soldados que estavam fora de sua guarda.

Até mesmo o Bispo de Puy, nesse dia amargo, perdeu seu senescal, que estava portando seu estandarte. Não fosse um córrego que nos separava, eles teriam nos atacado mais vezes e causado grande dano ao nosso povo.

Muralhas de Antioquia
Nessa altura, o célebre Boemundo, avançando com seu exército da terra dos Sarracenos, chegou à montanha de Tancredo, desejando saber se por acaso encontraria qualquer coisa para levar consigo, porque eles estavam saqueando toda a região.

Alguns, na verdade, encontraram algo, mas outros foram embora de mãos vazias. Então o sábio Boemundo, censurou-lhes, dizendo:

‒ “Oh, povo infeliz e miserável! Oh, o mais vil de todos os Cristãos! Por que quereis ir embora tão rapidamente? Apenas parai, parai até que estejamos todos reunidos, e não vagueis como ovelhas sem pastor. Além disso, se o inimigo encontrá-los vagando, matar-vos-ão, pois eles estão vigiando noite e dia para encontrá-los sozinhos, ou errando em grupos sem um líder, e eles empenham-se diariamente para matá-los e levá-los cativos”.

Quando concluiu suas palavras, ele voltou para seu acampamento com seus homens, mais de mãos vazias que cheias.




Os sofrimentos dos Cruzados em Antioquia



Aconteceu em Antioquia que os grãos e os alimentos começaram a ser excessivamente caros antes da Natividade do Senhor.

Não nos atrevemos a ir para fora; não poderíamos encontrar absolutamente nada para comer dentro da terra dos Cristãos, e ninguém se atrevia a entrar na terra dos Sarracenos sem um grande exército.

Na última convocação de uma assembléia, os senhores decidiram como eles poderiam cuidar de tantas pessoas.

Concluíram eles no conselho que uma parte da nossa força deveria sair diligentemente para arrecadar alimentos e guardar o Exército em toda parte, enquanto a outra parte deveria permanecer fiel na vigia do inimigo.

Finalmente, Boemundo disse, “Senhores e ilustríssimos cavaleiros, se assim o desejarem, e se parecer digno e bom para Vós, serei eu que partirei com o Conde de Flandres, nesta busca”.

Assim, quando as festividades da Natividade haviam sido gloriosissimamente celebradas na segunda-feira, segundo dia da semana, eles e mais de vinte mil cavaleiros e soldados de infantaria partiram e entraram na terra dos Sarracenos, seguros e ilesos.

Foram reunidos, de fato, muitos Turcos, Árabes e Sarracenos de Jerusalém, Damasco, Aleppo, e de outras regiões, que estavam a caminho para reforçar Antioquia.

Então, quando souberam que um exército Cristão estava sendo levado para sua terra, prepararam-se para a batalha contra os Cristãos, e logo ao amanhecer chegaram ao local onde nosso povo estava reunido.

Os bárbaros se dividiram e formaram duas linhas de batalha, uma na frente e uma atrás, procurando cercar-nos de todos os lados.

O digno Conde de Flandres, portanto, cingido por todos os lados com a armadura da Fé verdadeira e o sinal da cruz, que ele usava fielmente todos os dias, foi de encontro a eles, juntamente com Boemundo, e nossos homens precipitaram-se todos juntos sobre eles.

Eles imediatamente puseram-se em fuga e às pressas deram as costas; muitos deles foram mortos, e nossos homens levaram seus cavalos e outros despojos.

Mas outros, que tinham permanecido vivos, fugiram rapidamente e partiram para a ira da perdição.

Nós, porém, voltando com grande alegria, louvamos a Deus e glorificamos a Deus Trino em Um, que vive e reina agora e para sempre, amém.

Finalmente, os turcos, na cidade de Antioquia, inimigos de Deus e do Cristianismo Santo, crendo que o Senhor Boemundo e o Conde de Flandres não estavam no cerco, saíram da cidade e ousadamente avançaram para dar batalha contra nós.

Sabendo que os cavaleiros mais valentes estavam fora, eles armaram emboscada para nós em todos os lugares, sobretudo daquele lado onde o cerco estava se estendendo.

Uma quarta-feira descobriram que podiam resistir e nos atacar. Os mais iníquos bárbaros sairam cautelosamente e, caindo violentamente em cima de nós, mataram muitos dos nossos cavaleiros e soldados que estavam fora de sua guarda.

Até mesmo o Bispo de Puy, nesse dia amargo, perdeu seu senescal, que estava portando seu estandarte. Não fosse um córrego que nos separava, eles teriam nos atacado mais vezes e causado grande dano ao nosso povo.

Nessa altura, o célebre Boemundo, avançando com seu exército da terra dos Sarracenos, chegou à montanha de Tancredo, desejando saber se por acaso encontraria qualquer coisa para levar consigo, porque eles estavam saqueando toda a região.

Alguns, na verdade, encontraram algo, mas outros foram embora de mãos vazias. Então o sábio Boemundo, censurou-lhes, dizendo:

‒ “Oh, povo infeliz e miserável! Oh, o mais vil de todos os Cristãos! Por que quereis ir embora tão rapidamente? Apenas parai, parai até que estejamos todos reunidos, e não vagueis como ovelhas sem pastor. Além disso, se o inimigo encontrá-los vagando, matar-vos-ão, pois eles estão vigiando noite e dia para encontrá-los sozinhos, ou errando em grupos sem um líder, e eles empenham-se diariamente para matá-los e levá-los cativos”.

Quando concluiu suas palavras, ele voltou para seu acampamento com seus homens, mais de mãos vazias que cheias.




Conquista de Antioquia


Não posso enumerar todas as coisas que fizemos antes da cidade ser tomada, porque não há absolutamente ninguém nestas regiões, quer seja clérigo ou leigo, que possa escrever ou relatar como as coisas aconteceram. Entretanto, vou dizer um pouco.

Havia um certo Emir da raça dos Turcos, cujo nome era Pirus [Firuz], que tornou-se grande amigo de Boemundo.

Através de um intercâmbio de mensageiros, Boemundo muitas vezes pressionava este homem para recebê-lo dentro da cidade da forma mais amistosa possível e, depois de prometer a ele o Cristianismo mais abertamente, mandou dizer que o faria rico, com muitas honras.

Pirus rendeu-se a essas palavras e promessas, dizendo: “Guardo três torres, e prometo entregá-las gratuitamente a ele, e a qualquer hora que ele deseje eu o receberei dentro delas”.

Assim, Boemundo estava seguro de que entraria na cidade, e, encantado, com mente serena e semblante alegre, dirigiu-se a todos os líderes, com palavras alegres, tais como:

‒ “Homens, ilustríssimos cavaleiros, vêde como todos nós, em maior ou menor grau, estamos em extrema pobreza e miséria, e como ignoramos totalmente de que lado nos sairemos melhor. Portanto, se vos parecer bom e honroso, que um de nós se coloque à frente do resto, e se ele puder obter ou planejar (a captura) da cidade por qualquer plano ou esquema, por si ou com a ajuda de outros, vamos a uma só voz conceder-lhe a cidade de presente”.

Eles terminantemente recusaram e repeliram (a sugestão), dizendo: “Esta cidade não deve ser dada a ninguém, mas vamos possuí-la equitativamente, já que tivemos esforço igual, então tenhamos recompensa idêntica com ela”.

Boemundo, ao ouvir estas palavras, riu um pouco para si mesmo e retirou-se imediatamente.

Não muito tempo depois ouvimos mensagens relativas (à aproximação de) um exército de inimigos nossos: Turcos, Publicanos, Agulanos, Azimitas, e muitas outras nações gentias que não sei como enumerar ou nomear.

Imediatamente todos os nossos chefes se reuniram, e realizaram um conselho, dizendo:

‒ “Se Boemundo pode tomar a cidade, por si próprio ou com a ajuda de outros, vamos dá-la a ele livremente e com o assentimento de todos, com a condição de que se o Imperador vier em nosso auxílio e desejar executar todo o acordo, como jurou e prometeu, vamos, por direito, devolvê-la a ele. Mas se ele não fizer isso, que Boemundo a mantenha sob seu poder”.

Imediatamente, portanto, Boemundo começou humildemente a suplicar a seu amigo, diariamente, oferecendo, do modo mais humilde, as maiores e mais doces promessas desta forma:

‒ “Vede, verdadeiramente temos agora um momento adequado para realizar todo o bem que desejamos; portanto, agora, Pirus, meu amigo, ajude-me”.

Enormemente satisfeito com a mensagem, replicou que o ajudaria de todas as maneiras, como ele deveria fazer. Assim, ao cair da noite, ele cautelosamente enviou seu filho até Boemundo como garantia de que ele pudesse estar absolutamente certo de sua entrada na cidade.

Mandou também um recado para ele desta maneira:

‒ “Amanhã, soe as trombetas para que o exército Franco adiante-se, fingindo que saquearão a terra dos Sarracenos, e depois voltem rapidamente pela montanha, à direita. De fato, com a mente alerta aguardarei esses exércitos, e eu vou levá-los para as torres que tenho em meu poder e encargo”.

Então Boemundo mandou chamar um servo seu de nome Malacorona, e ordenou-lhe que, como arauto, admoestasse fielmente a maioria dos Francos para se prepararem para ir à terra dos Sarracenos.

E assim foi feito. Nisso, Boemundo confiou seu plano ao Duque Godofredo e ao Conde de Flandres, também ao Conde de St. Gilles e ao Bispo de Puy, dizendo:

‒ “A graça de Deus favorecendo, esta noite Antioquia nos será entregue”.

Todas estas questões foram finalmente acertadas; os cavaleiros se colocariam nos planaltos e os soldados no pé da montanha.

A noite toda eles cavalgaram e marcharam até o amanhecer, e depois começaram a se aproximar das torres que essa pessoa (Pirus) vigilantemente guardava.

Boemundo logo desmontou e deu ordens para o resto, dizendo:

‒ “Ide, com a mente segura e de feliz acordo, e subi pela escada para dentro de Antioquia que, se Deus quiser, teremos de imediato em nosso poder”.

Subiram a escada, que já tinha sido colocada e firmemente amarrada às estruturas da muralha da cidade. Cerca de sessenta dos nossos homens subiram e distribuíram-se entre as torres que aquele homem estava vigiando.

Pirus, ao ver que tão poucos dos nossos homens haviam subido, começou a tremer de medo por si próprio e por nossos homens, temendo que caíssem nas mãos dos Turcos.

E ele disse, “Micro Francos echome ‒ Há poucos Francos aqui! Onde está o ferocíssimo Boemundo, aquele invicto cavaleiro?”

Enquanto isso, um servo Longobardo desceu novamente, e correu o mais rápido (possível) até Boemundo, dizendo:

‒ “Por que estais aqui, ilustre homem? Por que vieste para cá? Eis que já tomamos três torres!”

Boemundo adiantou-se com o resto, e todos foram alegres até a escada. Assim, quando aqueles que estavam nas torres viram isso, começaram a gritar com vozes alegres:

‒ “Deus o quer!”

Começamos a igualmente a gritar, agora os homens começaram a subir lá em cima de modo espantoso. Então, eles chegaram ao topo e correram apressadamente para as outras torres.

Aqueles com os quais eles se depararam ali foram logo postos à morte; e até mesmo um irmão de Pirus foi morto.

Entretanto, a escada pela qual tínhamos subido quebrou acidentalmente, baixando então, entre nós, o maior desânimo e tristeza.

Contudo, embora a escada estivesse quebrada, havia ainda perto de nós um portão que havia sido fechado do lado esquerdo e, por ser noite, tinha permanecido despercebido por algumas pessoas.

Mas, pelo tato e indagando sobre ele, nós o encontramos, e todos correram para ele e, depois de tê-lo arrombado, entramos por ele.

Então, o barulho de uma multidão incontável ressoou por toda a cidade.

Boemundo não deu nenhum descanso a seus homens, mas ordenou que seu estandarte fosse levado até a frente do castelo em uma colina. Na verdade, todos juntos gritavam na cidade.

Além disso, quando ao amanhecer, aqueles que se encontravam nas tendas ouviram o violentíssimo brado ressoando pela cidade, saíram correndo às pressas e viram o estandarte de Boemundo em cima do monte, e com rapidez todos correram precipitadamente e entraram na cidade.

Eles mataram os Turcos e Sarracenos que lá encontraram, exceto aqueles que tinham fugido para a cidadela. Outros Turcos saíram pelas portas e, fugindo, escaparam vivos.

Mas Cassiano, seu senhor, temendo enormemente a raça dos Francos, fugiu com os muitos outros que com ele estavam e entraram na terra de Tancredo, não muito longe da cidade.

Seus cavalos, entretanto, estavam exauridos, e, refugiando-se em uma quinta, arrojaram-se em uma casa.

Os habitantes da montanha, Sírios e Armênios, ao reconhecer-lhe (Cassiano), logo o agarraram, cortaram sua cabeça, e levaram-na à presença de Boemundo, para que pudessem ganhar sua liberdade.

Eles também venderam sua espada da cintura e bainha por sessenta besantes.

Tudo isso ocorreu no terceiro dia do mês de Junho, no quinto dia da semana, no terceiro dia antes das Nonas de junho.

Todas as praças da cidade já estavam repletas de cadáveres, de modo que ninguém podia suportá-la devido o mau odor. Só se conseguia andar nas ruas da cidade passando por cima dos corpos dos mortos.




Os turcos contra-atacam: conciliábulos muçulmanos.
Primeira parte: entre os chefes turcos


Algum tempo antes, Cassiano, Emir de Antioquia, tinha enviado uma mensagem para Curbara, chefe do Sultão da Pérsia, enquanto ele ainda estava na Chorosan, para vir ajudá-lo enquanto ainda havia tempo, porque um poderosíssimo exército de Francos tinha sitiado Antioquia.

Se o Emir o ajudasse, ele (Cassiano) lhe daria Antioquia, ou o enriqueceria com um dom muito grande.

Como Curbara tinha, há muito tempo, reunido um enorme exército de Turcos, e tinha recebido permissão do Califa, o seu papa, para matar os cristãos, ele começou uma longa marcha para Antioquia.

O Emir de Jerusalém veio em seu auxílio com um exército, e o Rei de Damasco chegou lá com um exército muito grande.

Na verdade, Curbara reuniu também incontáveis povos pagãos: Turcos, Árabes, Sarracenos, Publicanos, Azimitas, Curdos, Persas, Agulanos e inúmeros outros povos.

Os Agulanos eram três mil, e não temiam lanças, setas, nem qualquer tipo de armas, porque eles e todos os seus cavalos eram equipados com ferro ao redor, e em batalha eles se recusavam a carregar qualquer armamento, exceto espadas. Todos estes vieram ao cerco de Antioquia para dispersar o agrupamento de Francos.

E quando se aproximaram da cidade, Sensadolus, filho de Cassiano, Emir de Antioquia, foi ao encontro deles, e em lágrimas correu logo para Curbara, rogando-lhe com estas palavras:

‒ “Chefe invencível, eu, um pleiteante, suplico-Vos que me ajudeis, agora que os Francos estão me sitiando de todos os lados na cidade de Antioquia; agora que têm a cidade sob sua influência e procuram afastar-nos da região da Romênia, ou mesmo ainda da Síria e de Chorosan. Eles têm feito tudo o que queriam, mataram meu pai, agora nada mais resta a não ser matarem-me, e a Vós, e todos os outros de nossa raça. Há muito tempo espero sua ajuda para socorrer-me este perigo”.

Respondeu-lhe Curbara:

‒ “Se quereis que de boa vontade eu entre em seu serviço, e para ajudá-lo fielmente neste perigo, ponha aquela cidade em minhas mãos, e depois vêde como eu o servirei e protegerei com os meus homens”.

Sensadolus respondeu:

‒ “Se puderes matar todos os Francos e dar-me suas cabeças, dar-te-ei a cidade, e prestar-te-ei honras e guardarei a cidade sob teu senhorio”.

A isto Curbara respondeu: “Isso não vai dar certo; entregue-me a cidade”. E, querendo ou não, ele lhe entregou a cidade.

Mas no terceiro dia depois que tínhamos entrado na cidade, a guarda avançada de Curbara correu na frente da cidade; seu exército, no entanto, acampou no Portão de Ferro.

Tomaram a fortaleza de assalto e mataram todos os seus defensores, que encontramos atados com correntes de ferro, depois que a maior batalha havia sido travada.

No dia seguinte, o exército dos pagãos moveu-se, e, aproximando-se da cidade, acampou entre os dois rios e ficou lá por dois dias.

Depois de terem retomado a fortaleza, Curbara convocou um de seus emires que ele sabia ser veraz, gentil e sereno e lhe disse:

‒ “Quero que tomeis sob vosso encargo a guarda desta fortaleza em fidelidade a mim, porque há muito tempo sei que sois fidelíssimo; portanto, peço-vos guardar este castelo com o maior cuidado, pois, como sei que sois prudentíssimo em vossas ações, não posso encontrar aqui ninguém que seja mais veraz e corajoso”.

A ele, o Emir respondeu:

‒ “Nunca recusaria obedecê-lo em tal serviço, mas antes de que me persuadais apelando, darei meu consentimento, com a condição de que, se os Francos expulsarem seus homens do mortal campo de batalha e conquistarem, imediatamente entregarei esta fortaleza a eles”.

Curbara disse-lhe:

‒ “Reconhecendo sua honradez e sabedoria, consinto plenamente a qualquer bem que deseje fazer”. E então Curbara retornou ao seu exército.

Imediatamente os Turcos, debicando dos ajuntamentos de Francos, trouxeram à presença de Curbara uma certa espada muito miserável coberta de ferrugem, um arco de madeira muito desgastado e um lança extremamente inútil que tinham acabado de tomar de peregrinos pobres, e disseram:

‒ “Eis as armas que os Francos levam para travar batalha contra nós!”

Então Curbara começou a rir, dizendo diante de todos que estavam naquele encontro:

‒ “Estas são as guerreiras e brilhantes armas que os cristãos trouxeram contra nós na Ásia, com as quais eles esperam e contam expulsar-nos para além dos limites da Chorosan e apagar nossos nomes para além dos rios da Amazônia, eles que tocaram nossos parentes da Romania e da cidade real de Antioquia, que é a famosa capital de toda a Síria!”

Em seguida, convocou seu escriba e disse:

‒ “Escreva rapidamente diversos documentos que devem ser lidos em Chorosan.

“Para o califa, o nosso Papa, e para nosso Rei, o Senhor Sultão, o mais valente dos cavaleiros, e para todos os mais ilustres cavaleiros de Chorosan; saudações e homenagem sem medida.

“Deixe-mo-los alegrarem-se e deleitarem-se em alegre concórdia e satisfazerem seus apetites; deixe-mo-los comandarem e darem a conhecer a toda aquela região que as pessoas se entregam inteiramente à exuberância e ao luxo, e que se alegram de ter muitos filhos para lutar bravamente contra os Cristãos.

“Recebam eles, com prazer, estas três armas que recentemente tomamos de um esquadrão de Francos, e que saibam agora que armas os exércitos Francos usam contra nós; arcos muito finos e perfeitos que usarão contra as nossas armas, que são duas, três vezes, ou até mesmo quatro vezes soldadas ou purificadas como a mais pura prata ou ouro.

“Além disso, saibam todos, também, que impedi os Francos de entrarem em Antioquia, e que mantenho a cidadela à minha inteira disposição, enquanto eles (os inimigos) estão embaixo na cidade.

“Da mesma forma, agora tenho a todos em minhas mãos. Fá-los-ei sofrer pena de morte, ou serem levados até Chorosan no mais duro cativeiro, porque com suas armas estão nos ameaçando para retirar-nos e expulsar-nos de todo o nosso território, ou lançar-nos fora além da Índia superior, como expulsaram todos os nossos irmãos da Romenia ou da Síria.

“Agora eu te juro por Maomé e todos os nomes dos deuses, que eu não voltarei diante de Vós até que eu tenha adquirido, com a minha forte mão direita, a cidade régia de Antioquia, toda a Síria, Romenia e Bulgária, até a Apúlia à honra dos deuses, e à Vossa glória, e à de todos aqueles que são raça dos turcos”.

E assim concluiu ele suas palavras.




A descoberta da Santa Lança


Descoberta da Santa Lança
Mas, um dia, quando nossos chefes, tristes e desconsolados, estavam postados diante da fortaleza [de Antioquia], um certo sacerdote veio até eles e disse:

‒ “Senhores, se vos agradar, ouvi um determinado assunto que vi em uma visão. Quando uma noite, deitado na igreja de Santa Maria, Mãe de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, o Salvador do mundo, apareceu-me com Sua Mãe e São Pedro, príncipe dos apóstolos, e parou diante de mim e disse: ‘Vós me conheceis?’

“Respondi: ‘Não’. Ao ouvir estas palavras, eis [que vi] uma cruz inteira em Sua cabeça.

“Uma segunda vez, pois, o Senhor me perguntou: ‘Vós me conheceis?’

“Para ele, eu respondi: não vos conheço, exceto que vejo uma cruz sobre Vossa cabeça como a de Nosso Salvador.

“Ele respondeu: ‘Sou Ele’.

“Imediatamente caí aos Seus pés, suplicando humildemente que Ele nos ajudasse na opressão em que nos achávamos.

“O Senhor respondeu: Eu vos tenho ajudado com benevolência e agora vou ajudá-lo. Permiti que tivesses a cidade de Nicéia, e que vencesses todas as batalhas e vos conduzi para cá até este ponto, e Me afligi com a miséria que sofrestes no cerco de Antioquia.

“Eis que com ajuda oportuna conduzi-o são e salvo para dentro da cidade, e atentai! (Vós tendes) tido muitos prazeres maus com mulheres cristãs e pagãs depravadas, dos quais um mau odor além da medida sobe até o Céu”.

“Então a Virgem amorosa e o Bem-aventurado Pedro cairam aos Seus pés, orando e suplicando-Lhe que ajudasse Seu povo na presente tribulação, e o bem-aventurado Pedro disse: ‘Senhor, por tanto tempo o exército pagão tomou minha casa, e nela têm-se cometido muitos erros indescritíveis. Mas agora, Senhor, desde que o inimigo foi expulso daqui, os anjos se alegram no Céu’.

“O Senhor então disse-me: ‘Vá dizer ao Meu povo que volte para Mim, e Eu retornarei a eles, e dentro de cinco dia enviar-lhes-ei uma grande ajuda. Que eles cantem todos os dias o responsório Congregati sunt, inteiro, incluindo o verso’.

“Senhores, se vós não acreditais que isso seja verdade, deixe-me subir até esta torre, e me jogarei para baixo, e se eu sair ileso, acreditem que isso é verdade. Se, no entanto, eu tiver sofrido qualquer dano, degolem-me, ou lancem-me no fogo”.

Então, o Bispo de Puy ordenou que o Evangelho e a Cruz fossem levados, para que ele pudesse prestar juramento de que isso era verdade.

Todos os nossos chefes foram orientados nesse momento a prestar o juramento de que nenhum deles fugiria, para a vida ou para a morte, enquanto estivessem vivos.

Antioquia
Diz-se que Boemundo foi o primeiro a fazer o juramento, em seguida o Conde de St. Gilles, Roberto da Normandia, o Duque Godofredo, e o Conde de Flandres.

Tancredo, na verdade, jurou e prometeu desta forma: que, enquanto ele tivesse quarenta cavaleiros com ele, não só não se retiraria dessa batalha, mas também, da marcha para Jerusalém. Por causa disso, a assembléia dos cristãos exultou muito ao ouvir esse juramento.

Havia um certo peregrino do nosso exército, cujo nome era Pedro, a quem, antes de entrar na cidade, Santo André, o apóstolo apareceu e disse:

‒ “Que fazeis, bom homem?”

Pedro respondeu: “Quem és?”

O apóstolo disse a ele:

‒ “Sou Santo André, o apóstolo. Saiba, meu filho, que quando entrares na cidade, ide à igreja de São Pedro. Lá acharás a Lança de Nosso Salvador, Jesus Cristo, com a qual Ele foi ferido enquanto estava pendurado no braço da cruz”.

Tendo dito tudo isso, o apóstolo imediatamente se retirou.

Mas Pedro, com medo de revelar o conselho do apóstolo, não estava disposto a dar isso a conhecer aos peregrinos. No entanto, ele pensou que tinha tido uma visão, e disse:

‒ “Senhor, quem acreditaria nisso?”

Mas naquela hora Santo André pegou-o e levou-o para o lugar onde a Lança estava escondida no chão. Quando estávamos, uma segunda vez, em tais (estreitos) como já mencionamos acima, Santo André voltou, dizendo-lhe:

‒ “Por que motivo ainda não tirastes a Lança da terra, como te ordenei? Saiba, na verdade, que quem trouxer essa Lança na batalha nunca será derrotado pelo inimigo”.

Pedro, na verdade, imediatamente deu a conhecer aos nossos homens o mistério do apóstolo.

O povo, porém, não acreditou, mas recusou terminantemente, dizendo: “Como podemos acreditar nisso?”

Pois eles estavam totalmente apavorados e pensavam que fossem morrer de imediato. Então, este homem saiu e jurou que tudo era muitíssimo verdadeiro, uma vez que Santo André lhe havia aparecido duas vezes numa visão, e lhe tinha dito:

‒ “Levantai-vos e ide dizer ao povo de Deus que não tenha medo, mas confie firmemente com todo o coração no Deus único e verdadeiro e eles serão vitoriosos em toda parte. Dentro de cinco dias o Senhor lhes mandará um tal sinal que eles ficarão felizes e alegres, e se quiserem lutar, deixai-os ir imediatamente para a batalha, todos juntos, e todos os seus inimigos serão derrotados, e ninguém poderá lhes opor”.

Então, quando souberam que seus inimigos seriam derrotados por eles, começaram logo a recobrar ânimo e a se encorajar, dizendo:

‒ “Levantai-vos, e sêde corajosos e atentos, pois o Senhor virá ao nosso auxílio na próxima batalha, e será o maior refúgio para Seu povo, que Ele contempla padecendo na dor”.

Assim, ao ouvir as declarações do homem que relatou para nós a revelação de Cristo através das palavras do apóstolo, pressurosos fomos imediatamente ao local que ele tinha indicado, na igreja de São Pedro.

Treze homens cavaram lá da manhã até as vésperas.

E aquele homem encontrou a Lança, assim como havia indicado.

Eles a receberam com grande contentamento e espanto, e uma alegria sem medida espalhou-se pela cidade toda.




Os turcos contra-atacam: conciliábulos muçulmanos.
Segunda parte: a mãe de Curbara pressente o desastre




A mãe do mesmo Curbara, que morava na cidade de Aleppo, veio imediatamente até ele e, chorando, disse:

‒ “Filho, estas coisas que estou ouvindo, são verdadeiras?”

‒ “Que coisas?”, disse ele.

‒ “Ouvi dizer que você vai entrar em luta com o exército dos Francos”, respondeu ela.

E ele respondeu: “A senhora sabe toda a verdade”.

Então, ela disse:

‒ ”Filho, em nome de todos os deuses e por sua grande bondade, advirto-o a que não entreis em batalha com os Francos, porque você é um cavaleiro invicto, e nunca ouvi falar de qualquer imprudência sua ou de seu exército. Ninguém nunca te viu fugir do campo de batalha diante de um vencedor. A fama do seu exército se espalhou para o estrangeiro, e todos os cavaleiros ilustres tremem quando ouvem seu nome.

“Pois sabemos muito bem, Filho, que você é poderoso na batalha, e valente e engenhoso, e que nenhum exército de Cristãos ou pagãos pode ter coragem diante de tua face, mas à simples menção de seu nome fugirão como ovelhas fogem diante da ira de um leão. E por isso eu te suplico, filho querido, que vos sujeiteis ao meu conselho: nunca vos imagineis em vossa mente ou conselho, de querer fazer guerra com o exército cristão”.

Então Curbara, após ouvir a advertência de sua mãe, respondeu com voz irada:

‒ ”Que é isso, mãe, que estás me dizendo? Acho que estás louca, ou cheia de fúrias. Pois tenho comigo mais emires do que o número de cristãos, de condição maior ou menor”.

Sua mãe respondeu-lhe:

‒ “Ó filho dulcíssimo, os Cristãos não podem lutar com suas forças, pois sei que eles não são capazes de prevalecer contra você, mas o Deus deles está lutando por eles diariamente e está olhando por eles e defendendo-os com a Sua proteção dia e noite, como um pastor cuida de seu rebanho.

“Ele não permite que sejam feridos ou perturbados por qualquer povo, e quem quer que pretenda pôr-se em seu caminho, este mesmo Deus deles coloca igualmente a derrota, assim como Ele disse pela boca do profeta Davi: ‘Dispersai as pessoas que se deleitam nas guerras’, e em outro lugar: ‘Despejai a Vossa ira sobre as nações que não Vos conhecem e, contra os reinos que não invocam o Teu Nome’.

“Antes de estarem prontos para começar a batalha, seu Deus, todo poderoso e potente na batalha, juntamente com os Seus santos, já conquistou todos os seus inimigos.

“Até quando Ele prevalecerá contra você, que são Seus inimigos, e que estão se preparando para resistir a eles com todo o seu valor?! Este, além disso, querido, conhece em verdade: estes. os Cristãos, chamados “filhos de Cristo” e pela boca dos profetas “filhos adotivos e da promessa”, segundo o apóstolo são os herdeiros de Cristo a quem Ele já deu a herança prometida, dizendo através dos profetas: “do nascente ao poente será o vosso limite e ninguém poderá resistir diante de vós”.

“Quem pode contradizer ou opor-se a estas palavras? Certamente, se você empreender esta batalha contra eles, será tua a maior perda e desgraça, e você perderá muitos de seus cavaleiros fiéis e todos os despojos que você tem consigo, e fugirá com inexcedível temor.

“No entanto, você não morrerá agora nesta batalha, mas, neste ano, porque com raiva súbita, Deus não julga imediatamente aquele que O ofendeu, mas quando Ele quer, pune com manifesta vingança, e por isso temo que Ele exigirá de você uma pena amarga. Você não morrerá agora, eu digo, mas perecerá apesar de todos os seus bens presentes”.

Então Curbara, profundamente entristecido em seu coração, diante das palavras de sua mãe, respondeu:

‒ ”Caríssima Mãe, rogo-vos, quem vos disse essas coisas sobre o povo Cristão, de que Deus ama somente a eles, e que Ele detém o mais poderoso exército de lutar contra Ele, e que aqueles Cristãos conquistar-nos-ão na batalha de Antioquia, e que capturarão o nosso espólio, e nos perseguirão com grande vitória, e que morrerei neste ano de morte súbita?”

Então sua mãe respondeu-lhe com tristeza:

‒ “Filho querido, eis que há mais de cem anos foi encontrado no nosso livro e nos volumes dos Gentios que o exército Cristão viria contra nós, nos conquistaria em todos os lugares e dominaria sobre os pagãos, e que o nosso povo estaria sujeito a eles em todos os lugares.

“Mas não sei se estas coisas estão para acontecer agora ou no futuro. Miserável mulher que sou, segui-o desde Aleppo, cidade belíssima, na qual, contemplando e fazendo criativas rimas, eu olhava para as estrelas do céu e sabiamente examinava os planetas e os doze signos, ou multitudes infindáveis. Em todas essas achei que o exército cristão venceria em toda parte, e por isso estou muito triste e temo enormemente ficar sem você”.

Curbara disse-lhe:

‒ “Querida mãe, explique-me todas as coisas credíveis que estão em meu coração”.

Respondendo a isto, ela disse:

‒ “Isto, querido, farei livremente, se eu souber as coisas que são desconhecidas para você”.

Ele disse a ela:

‒ ”Não são Boemundo e Tancredo deuses dos Francos, e eles não os libertam de seus inimigos? Não comeram estes homens, em uma refeição, duas mil novilhas e quatro mil porcos?”

Sua mãe respondeu:

‒ ”Querido filho, Boemundo e Tancredo são mortais, como todo o resto, mas o seu Deus os ama muito acima de todos os outros e lhes dá mais coragem na luta que aos demais. Pois (é) o seu Deus, Onipotente é o Seu nome, que fez o céu e a terra e estabeleceu o mar e tudo que neles há, cuja morada está preparada no Céu para toda a eternidade, cujo poder é temido em todo lugar “.

Seu filho disse:

‒ “Ainda que seja assim, não vou deixar de travar batalha contra eles”.

Então, quando sua mãe soube que ele de forma alguma cederia ao seu conselho, voltou, muito triste, para Aleppo, carregando consigo todos os presentes que podia levar.

Mas no terceiro dia Curbara armou-se e a maioria dos Turcos com ele, e foi em direção da cidade do lado em que se localizava a fortaleza.

Pensando que poderíamos resistir-lhes, preparamo-nos para a batalha contra eles, mas tão grande era o seu valor que não podíamos contê-los e, sob coação, portanto, entramos na cidade.

O portão estava tão incrivelmente fechado e estreito para eles que muitos morreram lá, pressionados pelos demais.

Entretanto, alguns lutaram do lado de fora da cidade, outros no interior, no quinto dia da semana durante todo o dia até à noite.




Os turcos esmagados em Kerbogha


A partir dessa hora [N.R.: do achado da Santa Lança] reunimos-nos em conselho de batalha. Imediatamente, todos os nossos líderes decidiram o plano de enviar um mensageiro para os Turcos, inimigos de Cristo, para perguntar-lhes afirmativamente:

‒ “Por que motivo entrastes insolentemente na terra dos Cristãos, e por que acampastes, e por que matais e assaltais os servos de Cristo?”

Quando seu discurso já tinha terminado, encontraram a Pedro o Eremita e Herlwin, e disseram-lhes o seguinte:

‒ “Ide para o exército maldito dos Turcos e cuidadosamente dizei-lhes tudo isso, perguntando-lhes porque eles ousada e arrogantemente entraram nas terras dos Cristãos e nas nossas próprias”.

Ao ouvir estas palavras, os mensageiros partiram e foram para a assembléia profana, dizendo tudo a Curbara e aos outros da seguinte forma:

‒ “Nossos chefes e nobres gostariam de saber porque razão vós, precipitada e arrogantemente, entrastes em sua terra, a terra dos Cristãos.

“Pensamos que, sem dúvida, e acreditamos que vós viestes para cá porque desejais vos tornar inteiramente cristãos; ou viestes aqui com o propósito de molestar os cristãos em todos os sentidos?

“Todos os nossos chefes juntos pedem-lhe, portanto, que rapidamente deixem a terra de Deus e dos cristãos, que o santo apóstolo Pedro, por sua pregação, converteu há muito tempo ao culto de Cristo.

“Mas eles concedem, além disso, que podeis levar consigo todos os vossos pertences, cavalos, mulas, jumentos, camelos, carneiros e gado; ser-lhes-á permitido carregar convosco todos os demais pertences, onde quer que desejem”.

Então Curbara, chefe do exército do Sultão da Pérsia, com todos os outros, cheio de arrogância, respondeu em linguagem feroz:

‒ “Vosso Deus e vosso cristianismo, não procuramos e nem desejamos, mas absolutamente rejeitamos a vós e a eles.

“Agora, chegamos aqui porque muito nos admirava que os príncipes e nobres que vós mencionais chamem esta terra deles, a terra que tiramos de um povo efeminado.

“Agora, quereis saber o que estamos lhe dizendo? Portanto, voltem logo e informem os seus senhores que se desejarem tornar-se turcos, em tudo, e quiserem negar o Deus que vós adorais de cabeça baixa, e desprezar suas leis, nós lhes daremos isso e mais terras, castelos e cidades suficientes.

“Além disso, por outro lado, (faremos) com que mais nenhum de vós sejais soldado de infantaria, mas serão todos cavaleiros, como somos e sempre os teremos em alta estima.

“Caso contrário, saibam que todos serão punidos de morte, ou serão levados acorrentados para Chorosan, para servir a nós e a nossos filhos em cativeiro perpétuo”.

Nossos mensageiros rapidamente voltaram, relatando tudo o que essa raça crudelíssima havia respondido. Dizia-se que Herlwin conhecia ambas as línguas, e ter sido o intérprete de Pedro, o Eremita.

Enquanto isso, nosso exército, ameaçado de ambos os lados, não sabia o que fazer, pois de um lado eram perseguidos pela fome torturante, e de outro eram constrangidos pelo medo dos turcos.

Finalmente, quando completaram-se os três dias de jejum, e foi realizada uma procissão de uma igreja para outra, eles confessaram os seus pecados, foram absolvidos, e fielmente receberam a Comunhão do Corpo e Sangue de Cristo; após a coleta das esmolas, celebrou-se uma Missa.

Em seguida, foram formadas seis fileiras de batalha com as forças dentro da cidade.

Na primeira fileira, bem à frente, estava Hugo, o Grande com os Francos e o Conde de Flandres; na segunda, o Duque Godofredo com seu exército; na terceira estava Roberto o Normando, com seus cavaleiros; na quarta, trazendo consigo a Lança do Salvador, estava o Bispo de Puy, juntamente com seu povo e com o exército de Raimundo, o Conde de Saint-Gilles, que ficou para trás para observar a cidadela de medo que os turcos descessem à cidade; na quinta fileira estava Tancredo, filho de Marchisus, com seu povo, e na sexta fileira estava o sábio Boemundo, com seu exército.

Nossos bispos, sacerdotes, clérigos e monges, vestidos com paramentos sagrados, saíram conosco com cruzes, orando e suplicando ao Senhor que nos protegesse, guardasse e livrasse de todo o mal.

Alguns ficaram na muralha da porta, portando as sagradas cruzes, fazendo o sinal (da cruz) e nos abençoando.

Assim estávamos armados, e, protegidos com o sinal da cruz saímos pelo portão que fica diante da mesquita.

Depois que Curbara viu as fileiras dos Francos, tão bem formadas, saindo uma após a outra, disse:

‒ “Deixem-nas sair, para que melhor possamos tê-las em nosso poder!”

Mas depois que saíram da cidade e Curbara viu o enorme exército dos Francos, ele foi muitíssimo assustado.

Imediatamente enviou um recado para o seu Emir, que era encarregado de tudo, que se visse uma luz queimando na frente do exército, deveria mandar soar as trombetas para que ele recuasse, sabendo que os turcos haviam perdido a batalha.

Curbara começou imediatamente a se retirar pouco a pouco em direção à montanha, e os nossos homens seguiram-lhes pouco a pouco.

Finalmente os turcos se dividiram, uma parte foi para o mar e o resto parou ali, esperando fechar os nossos homens entre si. Quando nossos homens viram isso, fizeram o mesmo.

Uma sétima fileira foi formada lá, a partir das fileiras do Duque Godofredo e do Conde da Normandia, e em sua cabeça estava Reinaldo.

Eles enviaram esta fileira de encontro aos Turcos que estavam vindo por mar.

Os Turcos, no entanto, travaram batalha com eles, e lançando flechas mataram muitos dos nossos homens. Outros esquadrões, além disso, passaram do rio para a montanha, que estava a cerca de duas milhas de distância.

Os esquadrões começaram a surgir de ambos os lados e a cercar nossos homens de todos os lados, lançando jabalinas, atirando flechas e ferindo-os.

Saíram também das montanhas inúmeros exércitos com cavalos brancos, cujos estandartes eram todos brancos.

E assim, quando nossos líderes viram este exército, ignoravam inteiramente o que era e que eram, até que reconheceram a ajuda de Cristo, cujos líderes eram São Jorge, São Mercúrio e São Demétrio.

Deve-se acreditar nisso porque muitos de nossos homens viu isso. Entretanto, quando os Turcos, que estavam estacionados no lado em direção ao mar, vendo que não podiam agüentar mais, atearam fogo à vegetação de modo que, ao ver isso, aqueles que estavam nas tendas fugiriam.

Estes, reconhecendo esse sinal, pegaram todos seus despojos preciosos e fugiram. Mas nossos homens combateram ainda um tempo onde se encontrava o maior exército dos turcos), ou seja, na região das tendas.

O Duque Godofredo, o Conde de Flandres, e Hugo, o Grande cavalgavam perto da água, onde estava a força do inimigo.

Estes homens, fortificados pelo sinal da cruz, juntos atacaram o inimigo primeiro. Quando as outras fileiras viram isso, também atacaram.

Os Turcos e os Persas, por sua vez, bradaram. Então, invocamos o Deus vivo e verdadeiro e os atacamos, e em nome de Jesus Cristo e do Santo Sepulcro começamos a batalha, e, com a ajuda de Deus, os derrotamos.

Mas os Turcos, apavorados, começaram a fugir e nossos homens os seguiram até suas tendas.

Então, os cavaleiros de Cristo preferiram persegui-los a procurar espólios, e os perseguiram até a Ponte de Ferro e, em seguida até a fortaleza de Tancredo.

O inimigo, na verdade, deixou seus estandartes lá, ouro, prata e muitos ornamentos, também carneiros, gado, cavalos, mulas, camelos, burros, cereais, vinho, manteiga, e muitas outras coisas de que precisávamos.

Quando os Armênios e Sírios, que habitavam nessas regiões, souberam que havíamos vencido os Turcos, correram para a montanha para encontrá-los e mataram tantos quantos puderam pegar.

Nós, porém, retornamos à cidade com grande alegria e louvando e abençoando a Deus, que deu a vitória ao Seu povo.

Então, quando o emir, que estava guardando a cidadela, viu que Curbara e todo o resto havia fugido do campo diante do exército dos Francos, ficou muito assustado.

Imediatamente e com grande pressa procurou os estandartes dos Francos. Assim, o Conde de Saint Gilles, que estava estacionado diante da cidadela, ordenou que seu estandarte fosse levado até ele.

O emir pegou-o e colocou-o cuidadosamente sobre a torre. O Longobardos que estavam lá disseram imediatamente:

‒ “Este não é o estandarte de Boemundo!”

Então o emir perguntou e disse: “De quem é?”

Eles responderam: “Pertence ao Conde de St. Gilles”.

Nisto o Emir foi e tomou o estandarte e devolveu-o para o Conde. Mas naquela hora o venerável Boemundo veio e deu-lhe seu estandarte.

Ele recebeu-o com grande alegria e entrou em um acordo com Boemundo ‒ de que os pagãos que desejassem abraçar o Cristianismo poderiam ficar com ele, e que ele deveria permitir que aqueles que desejassem ir embora que partissem a salvo e sem serem molestados.

Ele concordou com tudo o que o emir pediu e logo enviou os seus servos para a cidadela. Poucos dias depois disto, o Emir foi batizado com aqueles de seus homens, que preferiram reconhecer a Cristo.

Mas aqueles que desejaram aderir à suas próprias leis, o Senhor Boemundo mandou que fossem conduzidos para a terra dos Sarracenos.

Esta batalha foi travada no quarto dia antes das calendas de Julho, na vigília dos apóstolos Pedro e Paulo, no reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, de Quem é a honra e glória para todo o sempre. Amém.

E depois que nossos inimigos haviam sido completamente conquistados, demos graças a Deus Trino e Uno, o Altíssimo.

Alguns dos inimigos, exaustos, outros, feridos em sua fuga desvairada, sucumbiram à morte no vale, floresta, campos e estradas.

Mas o povo de Cristo, isto é, os peregrinos vitoriosos voltaram para a cidade, rejubilando-se do feliz triunfo sobre o inimigo derrotado.




A Marcha a Jerusalém


Assim, saímos da cidade fortificada e chegamos a Trípoli no sexto dia da semana, no dia treze de Maio, e ficamos lá por três dias.

Finalmente, o Rei de Trípoli fez um acordo com os chefes, e ele logo devolveu-lhe mais de trezentos peregrinos que haviam sido capturados lá e deu quinze mil besantes e quinze cavalos de grande valor; ele também nos deu um grande suprimento de cavalos, jumentos e de todos os bens, ficando assim, todo o exército de Cristo, muito enriquecido.

Mas ele fez um acordo com eles que se ganhassem a guerra para a qual o Emir da Babilônia estava se preparando contra eles, e pudessem tomar Jerusalém, ele se tornaria cristão e reconheceria a sua terra como (um dom) deles. E dessa forma ficou resolvido.

Deixamos a cidade no segundo dia da semana, no mês de Maio e, passando por uma estrada estreita e difícil durante todo o dia e noite, chegamos a uma fortaleza cujo nome era Botroun.

Então, chegamos a uma cidade perto do mar chamada Gibilet, na qual sofremos grande sede e, exaustos, chegamos a um rio chamado Ibrahim.

Então, na véspera do dia da Ascensão do Senhor, atravessamos uma montanha na qual o caminho era muitíssimo estreito, e lá esperávamos encontrar o inimigo armando emboscada contra nós.

Mas Deus nos favoreceu e nenhum deles se atreveu a aparecer em nosso caminho.

Então nossos cavaleiros foram à frente e abriram caminho para nós, e chegamos a uma cidade à beira-mar chamada Beirute, e daí fomos para outra cidade chamada Sidon, daí para uma outra chamada Tiro e de Tiro para a cidade de Acre.

Mas de Acre, chegamos a um lugar fortificado cujo nome era Cayphas e, então, chegamos perto de Cesaréia.

Lá foi celebrada Pentecostes no terceiro dia de Maio. Então chegamos a Ramlah, que os Sarracenos haviam esvaziado de medo dos Francos.

Perto dali ficava a famosa igreja onde repousava o precioso corpo de São Jorge, desde que lá, pelo Nome de Cristo, ele alegremente recebera o martírio de pagãos traiçoeiros.

Lá nossos chefes realizaram um concílio para escolher um bispo que deveria ser encarregado deste lugar e erigir uma igreja.

Deram-lhe dízimos e enriqueceram-no com ouro e prata, com cavalos e outros animais, para que pusesse viver mais devota e honradamente com aqueles que estavam com ele. Ele ficou lá com alegria.




A reconquista de Jerusalém



Finalmente, nossos chefes decidiram sitiar a cidade com máquinas de cerco, para que pudéssemos entrar e adorar o Salvador no Santo Sepulcro.

Eles construíram torres de madeira e muitas outras máquinas de cerco. O Duque Godofredo fez uma torre de madeira e outros dispositivos de cerco, e o Conde Raimundo fez o mesmo, embora fosse necessário trazer madeira de uma distância considerável.

No entanto, quando os Sarracenos viram nossos homens envolvidos neste trabalho, reforçaram enormemente as fortificações da cidade e aumentaram a altura das torres pequenas durante a noite.

Em uma determinada noite de sábado, os chefes, depois de terem decidido quais as partes da muralha eram mais fracas, arrastaram a torre e as máquinas para o lado oriental da cidade.

Além disso, montamos a torre de madrugada e a equipamos e cobrimos no primeiro, segundo e terceiro dias da semana. O Conde de St. Gilles ergueu sua torre na planície ao sul da cidade.

Enquanto tudo isso acontecia, nossa reserva de água era tão limitada que ninguém podia comprar água suficiente por um denário para satisfazer ou saciar sua sede.

Dia e noite, no quarto e quinto dias da semana, fizemos um determinado ataque à cidade de todos os lados.

No entanto, antes de fazermos este assalto à cidade, os bispos e padres convenceram a todos, exortando e pregando, para honrar o Senhor marchando em torno de Jerusalém em uma grande procissão, e se preparar para a batalha através da oração, do jejum e esmolas.

Logo no início do sexto dia da semana, mais uma vez atacamos a cidade de todos os lados, mas como o ataque foi mal sucedido, ficamos todos aturdidos e temerosos.

No entanto, quando se aproximou a hora em que Nosso Senhor Jesus Cristo se dignou a sofrer na cruz por nós, nossos cavaleiros começaram a lutar bravamente em uma das torres, ou seja, o grupo com o Duque Godofredo e seu irmão, o Conde Eustace.

Um dos nossos cavaleiros, chamado Letholdo, escalou o muro da cidade, e tão logo ele subiu os defensores fugiram dos muros e pela cidade.

Nossos homens os seguiram, matando até o Templo de Salomão, onde a matança foi tão grande que nossos homens patinavam em sangue até os tornozelos....

O Conde Raimundo trouxe o seu exército e sua torre até perto da muralha pelo sul, mas entre a torre e a muralha havia um fosso profundo.

Então, os nossos homens reuniram-se em conselho para decidir como poderiam preenchê-lo, e mandaram proclamar por arautos que aquele que carregasse três pedras para o fosso receberia um denário.

Foram necessários três dias e três noites de trabalho para enchê-lo, e quando finalmente a vala ficou cheia, moveram a torre até a muralha, mas os homens que defendiam essa parte da muralha lutaram desesperadamente com pedras e fogo.

Quando o Conde soube que o Francos já estavam na cidade, disse aos seus homens:

‒ “Por que tardais? Eis que o Francos estão agora mesmo dentro da cidade”.

O emir que comandava a Torre de São David entregou-se ao Conde e abriu o portão no qual os peregrinos sempre costumavam pagar o tributo.

Mas desta vez os peregrinos entraram na cidade, perseguindo e matando os Sarracenos até o Templo de Salomão, onde o inimigo se reunira em maior número.

A batalha durou o dia todo de tal forma que o Templo estava coberto de sangue. Quando os pagãos haviam sido derrotados, nossos homens prenderam um grande número, tanto homens quanto mulheres, quer matando-os ou mantendo-os em cativeiro, como desejavam.

No telhado do Templo um grande número de pagãos, de ambos os sexos, estava reunido, e estes foram levados sob a proteção de Tancredo e Gaston de Beert.

Mais tarde, o exército espalhou-se pela cidade e tomou posse do ouro e da prata, cavalos e mulas, e das casas cheias de bens de todos os tipos.

Regozijando e chorando de alegria, nosso povo veio para o Sepulcro de Jesus, nosso Salvador para adorar e pagar as suas dívidas [isto é, pagar o voto dos cruzados de rezar no Sepulcro].

Ao amanhecer, nossos homens cautelosamente foram até o telhado do Templo e atacaram os homens e mulheres Sarracenos, decapitando-os com espadas nuas.

Alguns dos Sarracenos, contudo, saltaram do telhado do Templo. Tancredo, vendo isso, ficou muito irritado.





“A Visão da Paz”


Godefredo de Bouillon reza no Santo Sepulcro
Então, nossos líderes decidiram, em Conselho, que cada um deveria oferecer esmolas com orações, para que o Senhor pudesse escolher para Si aquele que Ele queria que reinasse sobre os outros e governasse a cidade.

Ordenaram também que todos os Sarracenos mortos fossem lançados fora por causa do odor fétido, pois a cidade toda estava cheia de corpos; e assim os Sarracenos que sobreviveram arrastaram os mortos até os portões de saída e arranjaram-nos em pilhas como se fossem casas.

Ninguém jamais ouviu nem viu um tal morticínio de pagãos, pois formaram-se piras funerárias com eles como pirâmides, e só Deus sabe o número deles.

Mas Raimundo fez com que o emir e os outros que com ele estavam fossem conduzidos até Ascalon, íntegros e ilesos.

No entanto, no oitavo dia após a tomada da cidade, escolheram Godofredo como chefe da cidade, para lutar contra os pagãos e proteger os aristãos.

No dia de São Pedro ad Vincula eles também escolheram como patriarca um homem muito sábio e honrado de nome Arnolfo.

Esta cidade foi conquistada pelos cristãos de Deus no dia quinze de julho, o sexto dia da semana.





FIM


Fonte: August C. Krey, A Primeira Cruzada: relatos das testemunhas e participantes, (Princeton: 1921), 262.

Traduzido do latim para o inglês pelo Professor James Brundage, As Cruzadas: uma História- Documentário (Milwaukee, WI: Marquette University Press, 1962), 49-51. Nota sobre direitos autorais: O Professor Brundage informou a Medieval Sourcebook que a copyright não foi renovada neste trabalho. Além disso, ele deu permissão para uso de suas traduções.

A versão do inglês para o português brasileiro foi feita por cooperadores voluntários deste blog.






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5 comentários:

  1. muito bom esse site...

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  2. fantástico, tem q ser curtidor da idade média. Mto bom"

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  3. Compartilhado em Grupo Literatura Goyaz no FB.https://www.facebook.com/groups/poesiafaladaemgoyaz/
    Obrigado por compartilhar este excelente conteúdo.
    Em Cristo,
    Beto.

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  4. mas a batalha foi contra os bascos...

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  5. Somente agora me deparei com esse blog. Parabéns pelo eximio trabalho, dedicação e competência em historiar amparado na Historiologia esses assuntos inerentes a Santa Madre Igreja Católica cuja, através de nobres pessoas tanto bem fizeram ao mundo.

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