CANÇÕES DE GESTA

A "Canção de Rolando", resumo das virtudes de um cruzado
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs





No ano de 778, Carlos Magno fez uma incursão em terras da Espanha então invadidas pelos muçulmanos.

Entrementes, os saxões que ainda estavam em vias de se converter ao cristianismo, invadiram o outro lado do reino dos Francos, i. é pelo Reno. Carlos Magno teve que voltar às pressas para defender a fronteira oriental da Cristandade.

Foi nessa ocasião que a retaguarda do seu exército sofreu uma emboscada e foi massacrada em Roncesvalles (Pireneus). Na batalha pereceram Roland e os Doze Pares de França.

A épica tragédia e os heróicos lances de armas atribuídos aos Doze Pares chefiados por Roland e Olivier, empolgaram o ânimo dos medievais.

A batalha com suas façanhas era cantada nas praças por bardos.

Supõe-se que um monge anônimo de Cluny deu forma acabada a essas versões. Nasceu então a "Canção de Rolando", ou "Canção de Roldão". No poema épico, a única referência de autoria fala de um certo "Turoldus" de quem nada se sabe.

Esta é vista pelos especialistas como uma espécie de manual das qualidades e das virtudes que um cavaleiro cristão devia pôr em prática.

Os cavaleiros católicos por vezes, como na batalha de Hastings, entravam em combate cantando-a. Nela encontramos rasgos essenciais do espírito dos cruzados.

A versão escrita mais antiga da Chanson de Roland foi encontrada em Oxford, Inglaterra. Está transcrita em dialeto normando e data do século XI.

Como soaria essa canção em lábios medievais? Difícil dizé-lo. Mas, eis uma interpretação que nos dá margem para refletir.

O texto arcaico está adaptado ao francês hodierno e é acompanhado de uma tradução necessariamente livre.


Excerto nº1 : Roland cavalga pelo campo de batalha

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Roland chevauche par le champ de bataille,
Roland cavalga pelo campo de batalha,

Il tient Durendal qui bien tranche et bien taille,
Levando Durendal, que bem corta e bem talha,

Des Sarraisins, il fait moult grand dommage,
Nos sarracenos, ele faz um grande estrago,

Vous l’auriez vu jeter mort l’un sur l’altre,
Se vós tivésseis visto, lancar morto um sobre o outro,

Leur sang tout clair glisser sur cette place,
Seu sangue jorrar abertamente neste lugar,

Couvert de sang le haubert et ses membres,
Com o elmo e seus membros cobertos de sangue,

Et du cheval, col et les épales,
E no cavalo, do pescoço aos ombros,

Et Olivier de férir ne retarde,
E Olivier não tarda para ferir,

Les douze pairs non doivent avoir blâme,
Os doze pares não merecem repreensão,

Et les Français se lancent et se frappent,
E os franceses lançam-se e se chocam,

Meurent païens ! Et bien d’autres se pâment.
Morrem os pagãos ! E muitos desfalecem !




Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Rolando

O combate é tremendo. Os francos lutam muito unidos e causam imensas perdas aos muçulmanos. Mas, um a um vão caindo. Fica só um punhado de heróis. Eles vão morrer. Entrementes, simbólicos sinais da tragédia aparecem no céu da França.

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II

Le combat est merveilleux et pesant.
A batalha é maravilhosa e pesada,

Fonte de Roland, Bremen, AlemanhaMoult bien y frappent, Olivier et Roland,
Muito bem golpeiam Olivier e Roland,

Le douze pairs ne retardent néant,
Os Doze Pares não perdem tempo,

Et les Français frappent communement,
E os franceses golpeiam todos juntos;

Meurent païens, milliers et cents !
Morrem os pagãos aos milhares e centenas:

Qui ne s’enfuit n’a pas d’autre garant,
Quem não foge não tem quem o salve.

Qu’ils veuillent ou non, Ils y laissent son temps.
Bom grado, mau grado, aí terminam seus dias.

Français y perdent leur meilleur gardements,
Mas os francos perdem seus melhores defensores.

Ne reverront ni pairs ni parents,
Eles não voltarão a ver nem os pais, nem os parentes,

Ni Charlemagne, qui au col les attend.
Nem Carlos Magno, que nas montanhas os aguarda.


III

En France il y a moult merveilleux tourments,
Na França há muitas espantosas tormentas;

Voici qu’il y a du tonnerre et du vent,
Eis que há trovão e ventania,

Pluie et grésier, tout démésurément,
Chuvas e granizos, caem todos desmedidamente;

Estátua de Roland, portal da catedral de Chartres, FrançaFoudre tombant est menu souvent.
Caem os raios em grande intensidade.

Et tremblement de terre, voirement,
E tremores de terra os há verdadeiramente.

Du Saint Michel du Péril jusqu’aux Saints,
De Saint Michel du Peril até Saints,

De Besançon jusqu’au port de Wissant.
De Besançon até o porto de Wissant,

Nulle maison de ses murs ne crevant,
Não há casa que por algum lado não desabe.

En plein Midi, tenèbres y a grand,
Até no extremo sul da França há grandes trevas,

Nulle clarté sauf du ciel qui se fend,
Não há claridade, salvo quando o céu fulmina seus raios.

Nul ne le voit que moult ne s’épouvant,
Ninguém vê isso sem ficar muito apavorado.

Disent plusieurs : C’est le finissement,
Muitos dizem: "É o fim de tudo,

La fin du siècle qui nous est à présent.
O fim do mundo que se nos apresenta".

Ils ne le savent ni disent vrai néant,
Eles não sabem nem dizem a verdade:

C’est le grand deuil pour la mort de Roland !
É o grande luto pela morte de Roland!




Excerto nº 3 : Os francos lutam epicamente mas vão sendo massacrados

Os barões católicos resistem epicamente. O último ataque maometano é demoledor. Só ficam 60 francos. Roland e Olivier debatem: o quê fazer? Para Olivier a morte é preferível à desonra.

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VI
Vous auriez vu Roland et Oliver,
Vós tivesses visto Roland e Olivier

De leurs épées, férir et frapper,
Com suas espadas ferindo e golpeando,

Ce qui sont morts, on peut les estimer,
Aqueles que foram mortos podem-se bem os contar,

Il est écrit en chartes et en brefs,
Está escrito nas cartas e nos breves,

La Geste dit, plus de quatre milliers,
A gesta diz: mais de quatro mil.

A quatre assaults leur est venu bien,
Quatro ataques repeliram com sucesso,

Le quint après, leur est pésant et grief.
Mas o quinto lhes é pesado e devastador.

Tous sont occis les Français chevaliers,
Todos os cavaleiros francos estão mortos,

Hormis soixante que Dieu a épargnés,
Restam sessenta que Deus poupou.

Avant qu'ils meurent, ils se vendront moult cher !
Antes que morram, vender-se-ão muito caro!



V
Le preux Roland des siens voie grand des pertes!
Roland, o prócer, vê a grande perda dos seus.

Son compagnon Olivier en appelle:
Chama o seu companheiro Olivier:

« Beau compagnon, que Dieu vous est en aide,
“Nobre companheiro, que Deus vos ajude,

Tant bons vassaux voyez gésir par terre,
Tantos bons guerreiros vedes jazendo em terra!

Plains d’épouvant France douce la belle,
Lamenta de espanto que a doce França, a bela!

De tels barons qui demeure déserte,
De tais barões ficará deserta!

Le roi notre ami, ici, puissiez-vous être.
Ô rei, nosso amigo, se aqui pudesses estar!

Frère Olivier, comment pourrons nous faire?
Irmão Olivier, o que poderemos fazer?

De quel moyen lui manderons nouvelles? »
De que maneira lhe enviaremos notícias?”

Dit Olivier: « Je ne sais comment quère,
Diz Olivier: “Eu não sei absolutamente como chamá-lo.

Mieux vaut mourir que honte nous soit faîte! »

Melhor é morrer do que a desonra”!



Excerto nº 4 : A traicão

 
Roland toca o olifante e Carlos Magno o ouve. Ganelão, o traidor, finge que nada acontece, diz se tratar de brincadeira. O duque Nimes percebe e denuncia a traição. O heroicos francos estão morrendo em batalha! É preciso ir socorré-los!

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VI


Lors dit Roland: « Cornerai l'olifant,
E Roland responde: “Eu tocarei o olifante,


L'entendra Charles qui au col est passant
“Ouví-lo-á Carlos que está atravessando as montanhas.


Je garanti: retourneront les Francs ! »
“Eu vos garanto: os francos retornarão”!




VII


Le preux Roland, par peine et par ahants,
O conde Roland, com grande esforço e aos haustos


Par grand douleur sonne son olifant,
Com grande dor, toca seu olifante.


Parmi sa bouche en jaillit le clair sang,
De sua boca escorre o sangue brilhante,


De son cervelle la tempe en est rompant
De sua cabeça a têmpora está se rachando.


Du cor qu'il tient le son est moult grand,
Do chifre que ele segura, o sonido sai muito forte,


A trente lieues son écho se répand.
Seu eco se espalha trinta léguas em redor.


Charles l'entend, qui au col est passant.
Carlos, que está atravessando as montanhas, o escuta.


Lors dit le roi: « J'ouïe le cor de Roland,
O Rei diz: “Ouço o olifante de Roland,


N’en sonnerait s'il n'était combatant.
“Jamais ele tocaria, senão em combate”.


Dit Ganelon: De bataille est néant.
Ganelon responde: “Não tem nada de batalha.


Vous êtes dejà vieux et fleuri et blanc.
“Vós já estais velho, e todo encanecido e branco;


Par tels propos vous semblez un enfant.
“Por tais palavras vós pareceis uma criança.


Savez assez tout l'orgueil de Roland.
“Vós bem conheceis o grande orgulho de Roland.


Pour un seul lièvre il corne un jour durant.
“Por uma só lebre ele tocaria o dia todo.


Devant ses paires, sans doute, il va gabant.
“Nesta hora ele vai se gabando diante de seus pares.


Qui sous le ciel, l'oserait guerre en champ?
“Não há quem sob o céu ouse atacá-lo.


Donc chevauchez non plus vous arretant!
“Cavalgai, pois. Não vos detenhais mais!


Terre d'ailleux moult et loin ça devant! »
“Aliás, há muito caminho à nossa frente!”.




VIII


Le preux Roland a la bouche sanglante,
O prócer Roland tem a boca ensangüentada,


De son cervelle rompu on est la tempe.
De seu cérebro está rompida a têmpora.


Olifante, dito de Rolando, Santiago de CompostelaL'olifant sonne à douleur et à peine.
Toca o olifante com grande dor e dificuldade.


Charles l'ouïe et les Francs le comprennent.
Carlos o ouve, e seus francos o escutam.


Lors dit le roi: Ce cor a longue haleine.
E o rei diz: “Esta trompa tem longo alento”.


Répond duc Naimes: Un baron a grand peine.
O duque de Naimes responde: “Um nobre ali está sofrendo,


Bataille il y a, c'est la chose certaine.
“Há batalha. Isso é coisa certa!


Il a trahi celui qui vous conseille!
“Aquele que vos aconselha vos traiu.


Adubez vous et criez votre enseigne!
“Armai-vos, pois, erguei vosso estandarte insígnia,


Portez secours à votre maison gente,
“Socorrei vossa valente guarda;


Puisque entendez que Roland se lamente!
“Vós bem ouvis que Roland se lamenta!”







Excerto nº 5 : Carlos Magno e o exército católico galopam para salvar Rolando

Por vales e montanhas o exército cristão com Carlos Magno à testa acorre para salvar os heróis. Eles rezam para encontrar Rolando com vida e junto com ele extinguir o inimigo da Cristandade. Mas estão muito longe! A tragédia vai atingido o climax.


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XI
Carlos Magno em cetro de Carles VI, s XIV, As CruzadasHauts sont les puys et ténebreux et grands,
Altos são os montes, tenebrosos e grandes,


Les vals profonds et les gaves courrants.
Os vales profundos e os rios caudalosos.


Sonnent les cors et derrière et devant,
Tocam os clarins da frente e os de trás,


Et tout se répond d'encontre à l'olifant.
E todos se apressam em responder ao olifante.


Mais l'empereur chevauche irritement,
O Imperador cavalga com cólera,


Et les Français courroucés et dolents,
E os franceses irados e dolentes,


Il n'y a nul sans pleure et sans tourmente.
Não há um entre eles que não chore e lamente.


Ils prient à Dieu qu'il guérisse Roland,
Pedem a Deus que Ele proteja Rolando,


Jusqu'ils arrivent au champ comunement.
Até que estejam juntos no campo.


Ensemble à lui ils feront voirement.
Com ele combaterão verdadeiramente.





X

De ça à quoi bon! Tout ne leur vaut néant!
Mas para quê? Isso não lhes serve de nada;


Demeurent trop, ni peuvent être à temps!
Estão muito longe! Não podem chegar lá a tempo!











Excerto 6º : O conde Olivier entrega sua alma a Deus

Enquanto Carlos Magno com o excército cruzado corre para salvar os cavaleiros, Olivier, o amigo íntimo de Rolando, perece. Rolando faz o elogio fúnebre do herói.


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XI
Urna de Carlos Magno, Aix-la-Chapelle
Olivier sent que la mort moult l'angoisse.

Olivier sente que a morte muito o angustia,


Tous ses deux yeux dans la tête lui tournent.
Os dois olhos lhe giram na cabeça,


L'ouïe il pert et la vue est très toute.
E perde o ouvido e a vista inteiramente.


Descent à pied, à la terre se couche,
A pé, deita-se no solo.


D’une heure en autre, il réclame sa coulpe,
Uma e outra vez, ele confessa seus pecados,


Contre le ciel il a ses deux mains jointes,
E com as duas mãos juntas em direção ao Céu


S’il prie Dieu qui Paradis lui ouvre,
Ele pede a Deus lhe abra o Paraíso.


Et qu'il bénisse Charles et France la douce,
Que abençoe Carlos e a doce França,


Son compagnon Roland, entre tous hommes.
E seu amigo Roland sobre todos os homens.


Le coeur lui faut, son heaume s'y s’enfonce,
O coração falha, seu elmo cai sobre o rosto


Très tout le corps sur la terre retombe.
Todo o corpo volta a cair por terra,


O conde Olivier entrega su alma a Deus, Canção de RolandMort est le comte. Rien de lui ne démours.
O conde está morto. Nada dele resta.




XII


Le preux Roland le pleure et se doulouse
Rolando, o prócer, chora e se lamenta:


Jamais en terre n'ouïrez plus dolent homme!
Jamais sobre a terra se ouvirá homem com maior dor.





Excerto 7º : Só fica Rolando no campo de batalha

Rolando ficou sozinho e sem que a perde a vida. Faz, então, um esforço supremo: ele toca derradeiramente o olifante. Lá longe, nas montanhas Carlos Magno o ouve e manda soar todas as trompetes do exército. 
Os muçulmanos ouvem a fanfarra do imperador Carlos. O pânico toma conta deles.
Eles decidem massacrar Rolando e fugir apressadamente.


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XIII
Le preux Roland gentement se combat.
O prócer Roland luta nobremente,

Fonte de Roland, Bremen, AlemanhaMais le corps a moult chaud et très brulant.
Mas seu corpo arde de febre.

En la tête a, douleur et grand mal,
Na cabeça ele tem uma grande dor e passa mal:

Rompu la tempe pour ce qu'il corna.
Sua têmpora está fendida, por ter soado o olifante.

Mais savoir veux si Charles y viendra.
Mas ele quer ter certeza de que Carlos retornará:

Prend l'olifant. Le sonne, faiblement.
Toma o olifante, e toca... fracamente.

Et l'empereur s'arrête et l'écoutant
O Imperador se detém para escutá-lo:

« Seigneurs, dit-il, pour nous malement va.
“Senhores — diz ele — as coisas vão mal para nós.

En ce jourd'hui, Roland mon neveu falte.
Roland, meu sobrinho, falece;

J'entends au cor que guère ne vivra.
Pelo som do olifante eu percebo que não viverá muito mais.

Qui y être veut doit presser son cheval!
Quem quiser estar lá, que cavalgue rapidamente!

Sonnez vos cors, tant qu'à l'armée il y a! »
Tocai todos os clarins, quantos haja nesta armada!”

Soixante mille cors sonnent si halt,
Sessenta mil trombetas tocam tão forte,

Résonnent les monts et répondent les vals!
Que ecoam as montanhas e respondem os vales.

Païens l'entendent et d’en rire n'ont garde!
Os pagãos ouvem e perdem a vontade de rir.

Dit l'un à l'autre: « Ja sur nous viendra Charles! »
Dizem uns aos outros: “Já sobre nós virá Carlos”.


XIV

Disent païens: « Car maudit sommes nés!
Os pagãos dizem: “Em verdade, nós nascemos malditos!

Roland toca o olifante pela última vezQuel pire jour pour nous s'est ajourné.
Que péssimo dia amanheceu para nós.

Perdu avons nos seigneurs et nos paires.
Perdemos nossos suseranos e pares;

Avec son hoste revient Charles, le fier!
Com seu exército volta Carlos, o fero.

De ceux de France oyons le sonneur clair.
Dos de França ouvimos o som claro das trombetas,

Grand est le bruit Monjoie très clair ! ».
E é grande o clamor “montjoie”, seu brado de guerra.

Le preux Roland est d'une si grand fierté
O heroico Roland é tão corajoso,

Que ne sera vaincu par nul mortel.
que não o vencerá nenhum mortal.

Lançons fers à lui, puis le laissons à terre!"
Lancemos contra ele nossas flechas, e prostremo-lo por terra”.




XV


Ainsi font-ils, dards, et wigres assez,
E assim fazem eles com dardos, flechas, varapaus,

Epieux, lances, javelots empennés.
Lanças jabalinas e lancetes.

Du preux Roland l’écu est moult
O escudo do heróico Roland está muito perfurado,

Roué et son haubert rompu et désavré,
E a sua cota de malha rompida e desfeita,

Mais en son corps ne l’ont mis à touché,
Mas eles não atingiram o seu corpo.

Son cheval est en trente lieux percé,
Feriram o seu cavalo em trinta lugares,

Dessous le conte à mort l’ont jeté
E o abateram morto debaixo do conde.

Païens s’enfuient, et le laissent à pied,
Os pagãos fogem e o deixam a pé.

Le preux Roland à terre est demeuré.
O herói Roland ficou por terra.




Excerto 8º: Rolando sente a morte chegar

 

Os muçulmanos fogem após cribar de setas o herói. Sozinho no campo procura os restos de seus companheiros de armas. Logo compreende que ele também vai morrer. E procura um local simbólico.

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XVI

Roland s’en tourne, en le champs, va chercher,
Roland se volta, pelo campo de batalha vai procurar,

Son compagnon a trouvé, Olivier,
E encontra seu companheiro Olivier.

Contre son sein étroit l’a embrassé,
Abraça-o forte contra seu peito,

Sur un écu ensuite il l’a couché,
e depois deita-o sobre um escudo.

A donc, agrave le deuil et la pitié,
E então redobra o luto e a dor.

Lors dit Roland : « Bel ami, Olivier,
E diz: "Belo amigo Olivier,

Vous fûtes fils du riche duc Renier,
éreis filho do rico duque Renier,

Qui tent la marche de Gênes de Runers,
Que defende a marca de Gênova de Runers.

Pour lances rompre et écus percer,
Para quebrar lanças e partir escudos,

Pour orgueilleux vaincre et décourager,
Para vencer e desencorajar o orgulhoso,

Et pour prud’hommes, tenir et conseiller,
Para sustentar e aconselhar o sábio,

En nulle terre n’y eut meilleur chevalier !
Em terra alguma houve melhor cavaleiro".




XVII

Lors sent Roland que la mort lui est près,
Então Roland sente que a morte está próxima,

Par les oreilles hors lui sort le cervelle,
Pelas orelhas lhe saem os miolos.

De ses pairs, prie à Dieu qu’Il les appelle,
Pede a Deus que chame os seus pares,

Et puis de lui, à l’ange Gabriel,
E pede o mesmo para si ao Anjo Gabriel.

Prend l’olifant, pour que reproche il n’ait,
Toma o olifante, para não lhe recair nenhuma desonra,

Thierry d'Ardènes, escudeiro de Roland vinga a traicao de Ganelão, As CruzadasEt Durandal, son épée, d’autre main,
E Durindana, sua espada, com a outra mão.

Plus qu’arbalète ne peut tirer un trait,
A distância maior que um tiro de besta, em direção à Espanha,

Devers l’Espagne il va, en un guéret.
Ele se dirige a um outeiro.

Dessus un tertre, et dessous des arbres belles,
Sobre um outeiro, e debaixo de duas belas árvores,

Quatre perrons il y a, de marbre fait,
Onde há quatro degraus de mármore,

Sur l’herbe verte là il tombe à l’envers,
Sobre a erva verde ele cai de costas.

Ci s’est pâmé, car la mort lui est près.
Aí desmaia, pois a morte se aproxima.




Excerto 9º final: Os anjos levam a alma de Roland ao Paraíso
 

Roland prepara a liturgia de sua morte. Orações finais do herói. Os anjos descem a colher sua alma.

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XVIII

Lors sent Roland qu’il a perdu la vue,
Então Roland sente que perdeu a vista,

Se met sur pieds, tant qu’il peut s’évertue,
E põe-se de pé como sua força lhe permite.

En son visage, sa couleur est perdue,
Do seu rosto, a cor se esvaiu.

Tout devant lui il y a une pierre brûne,
Diante dele está uma pedra escura.

Dix coups il frappe, par deuil et par rancune,
Com a espada descarrega-lhe dez golpes, por luto e cólera.

Grince l’acier, ni rompt ni s’ésgruignent.
Range o aço, e não se parte nem se embota.

Lors dit le comte : « Sainte Marie, aiude !
Então diz o conde: "Santa Maria, ajudai-me!

« Et, Durandal, quel mauvais sort vous eûtes,
Eh! Durindana, que má sorte tiveste!

« Quand je me perd, de vous n’en est plus cure,
Com minha morte não poderei mais cuidar de ti.

« Tantes batailles en champs, en ai vaincues
Tantas batalhas em campo aberto venci.

Et tantes terres larges escumbatues,
Em tão grandes terras conquistadas eu combati,

Qui Charles tient, qui la barbe a chenue !
Que pertencem a Carlos, cuja barba já ficou branca.

Ne vous aie nul qui puisse prendre fuge,
Que não vos possua ninguém que possa fugir!

Trop bon vassal vous a longtemps tenue !
Um bom vassalo já te portou por muito tempo.

Plus n’en sera en France l’absolue !
Mas ele não estará na França, a absoluta!




XIX

Lors sent Roland que la mor le trespend,
Então Roland sente que a morte o assalta,

Et de la tête dans le cœur lui descend,
E que a vida lhe abandona da cabeça até o coração,

Dessous un pin il est allé courant,
Vai às pressas debaixo de um pinheiro,

Sur l’herbe verte est couché sur ses dents,
Sobre a erva verde, deita-se, face em terra.

Dessous lui, met l’épée et l’olifant,
Debaixo de si põe a espada e o olifante;

Tourne sa tête vers la païenne gent,
Volta a sua cabeça para a gente pagã,

Ainsi il a fait, car il veut voirement
Faz assim porque quer que Carlos diga,

Que Charles dise ainsi que tous ces gens,
Bem como todos os seus,

Le gentil comte est mort en conquérant.
Que o gentil conde morreu conquistando!





XX

Le preux Roland dessous un pin se gît.
O valente Roland deita-se debaixo de um pinheiro;

De plusieurs choses a remembrer lui prit
Põe-se a lembrar de muitas coisas:

De tantes terres qui valliement conquist.
De tantas terras que conquistou galhardamente,

De douce France, des hommes de son ligne,
Da doce França, dos homens de sua linhagem.

De Charlemagne, le roi qui li nourri.
De Carlos Magno, o Rei que o nutriu.

Ne peut cesser ses pleurs et ses soupirs.
Não pode cessar de chorar e suspirar.

Mais ne se veut non plus mettre en oubli.
Mas não querendo esquecer-se,

Clame sa coulpe et crie à Dieu merci.
Clama sua culpa e pede a Deus misericórdia:

« Beau Père vrai qui oncques ne mentis,
"Oh! Verdadeiro Pai que nunca mentis,

Qui Lazaron de mort resurrexis,
Que ressuscitastes Lázaro dentre os mortos,
Os anjos levam a alma de Roland, As Cruzadas
Et Daniel des lions guaresis,
E a Daniel preservastes dos leões,

Guaris de moi l’âme de tout péril,
Guardai minha alma de todo o perigo,

Pour les péchés qui dans ma vie je fis".
Pelos pecados que cometi em minha vida".

Son dextre gant au Seigneur Dieu l'offrit,
Sua luva direita ele ofereceu a Deus;

Saint Gabriel, de sa main lui a pris.
E São Gabriel de sua mão a recolheu.

Dessus son bras tenait le chef enclin.
Sobre o seu braço a cabeça inclinada,

Jointes ses mains est allé à sa fin.
Com as mãos postas, chegou ao seu fim.




XXI

Dieu lui transmit son ange Chérubin,
Deus enviou o seu Anjo Querubim,

Et avec lui Saint-Michel-du-Péril,
E com ele São Miguel do Monte Saint-Michel.

Ensemble à eux Saint-Gabriel y vint.
Junto com eles veio São Gabriel.

L'âme du comte portent en Paradis.
E levam a alma do conde ao Paraíso.






    † † † † † † † † † † † † † † †    




CHANSON DE ROLAND
(Canção de Roldão)
Todos os áudios


Excerto nº1 : Roland cavalga pelo campo de batalha
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Excerto nº 2 : O grande luto pela morte de Rolando



Excerto nº 3 : Os francos lutam epicamente mas vão sendo massacrados


Excerto nº 4 : A traicão


Excerto nº 5 : Carlos Magno e o exército católico galopam para salvar Rolando



Excerto 6º : O conde Olivier entrega sua alma a Deus



Excerto 7º : Só fica Rolando no campo de batalha



Excerto 8º: Rolando sente a morte chegar



Excerto 9º final: Os anjos levam a alma de Roland ao Paraíso





4 comentários:

  1. muito bom esse site...

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  2. fantástico, tem q ser curtidor da idade média. Mto bom"

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  3. Compartilhado em Grupo Literatura Goyaz no FB.https://www.facebook.com/groups/poesiafaladaemgoyaz/
    Obrigado por compartilhar este excelente conteúdo.
    Em Cristo,
    Beto.

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  4. mas a batalha foi contra os bascos...

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