quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Malta: a muralha contra à impiedade islâmica demolida pela Revolução Francesa

Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Porta de entrada da fortaleza hospitalária de Rhodes
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs






Continuação do post anterior: Malta: uma ordem religiosa e militar hierárquica e sacral




Em 1312 foi extinta a Ordem dos Templários, e grande parte dos seus bens reverteu em benefício da Ordem dos Hospitalários.

O mesmo se deu quando Inocêncio VIII decretou, em 1489, a supressão da Ordem do Santo Sepulcro.

Assim, os Grão-Mestres dos Cavaleiros de São João passaram a ter também a dignidade de Mestres da Ordem do Santo Sepulcro, intitulando-se

“Dei gratia Sacrae Domus Hospitalis Sancti Johannis Hierosolymitani et Militaris Ordinis Sancti Sepulchri Dominici Magister humilis, pauperunque Jesu Christi custos” — Por graça de Deus, humilde Mestre da Santa Casa do Hospital de São João de Jerusalém e da ordem Militar do Santo Sepulcro do Senhor e defensor dos pobres de Jesus Cristo.

Em 1309, o Grão-Mestre Foulques de Villaret conduziu os seus cavaleiros diante da ilha de Rhodes e apoderou-se dela. Desde então foram chamados Cavaleiros de Rhodes.

Inspiraram em breve grande terror aos turcos e aos povos árabes, que, estabelecidos sobre a costa da África, só deviam sua prosperidade à pirataria.

Os novos possuidores da ilha, enriquecidos pouco mais ou menos na mesma época de uma parte dos despojos dos Templários, não tardaram em ser cercados, mas sem sucesso, pelos sarracenos.

Grão Mestre Philippe Villiers de L'Isle-Adam,
quadro no castelo de Rodas
Tendo Rhodes como base de operações, os cavaleiros de São João empreenderam diversas expedições à Ásia, infligindo muitas derrotas aos turcos.

Após a queda de Constantinopla, em 1453, os infiéis avançaram rumo ao Ocidente, e o único baluarte da Cristandade ficou sendo Rhodes.

Os turcos não podiam suportar esta situação. Em 1522, atacaram a ilha com um acúmulo tremendo de forças: 700 naus de guerra e 200.000 homens.

A defesa de Rhodes foi feita com 300 cavaleiros, 300 escudeiros, 5.000 soldados regulares e alguns milhares de homens.

Constituiu uma das maiores batalhas navais dos tempos modernos.

A resistência durou cinco meses, findos os quais os cavaleiros, numericamente inferiores e cobertos de glória, capitularam honrosamente.

A Ordem em Malta

Em 1530, Carlos V doou aos Hospitalários a ilha de Malta, onde os aguardavam feitos mais gloriosos que no passado.

Com a eleição de La Vallete como Grão-Mestre em 1557, a situação da ilha foi estudada atentamente por ele, e um sistemático esquema de defesa foi preparado, com reformas e construções.

Das páginas mais gloriosas da história da Ordem foi a defesa da ilha contra as forças de Solimão, o Magnífico.

Orgulhoso de inúmeras vitórias em terra, e preocupado com os reveses que a armada dos Cavaleiros de Malta frequentemente lhe impunham, resolveu liquidar de uma vez por todas com o seu poderio.

O assalto dos maometanos começou em maio de 1565.

Foram lançados contra a ilha mais de 200 navios e 50.000 homens, sendo as forças da Ordem constituídas por 600 cavaleiros e ajudantes de armas e 8.000 soldados.

Jean Parisot de La Valette, Grão Mestre da Ordem de Malta
no Grande Cerco turco. Antoine de Favray (1706 – 1798)
Depois de quase quatro meses de luta, o inimigo, que perdera 20.000 homens, levantou o cerco e bateu em retirada.

Em homenagem ao heroico e valoroso Grão-Mestre, João de La Valette, foi construída a cidade que leva o seu nome e até hoje é a capital da ilha.

Não cessaram os Cavaleiros de castigar os turcos, até que no século XVIII, com o declínio da potência muçulmana, se empenharam principalmente na repressão dos piratas que infestavam o Mediterrâneo.

O desmoronamento maltês

No século XVIII a Ordem entrou num período de decadência. E como a expansão revolucionária esfacelava a Ordem por toda parte onde os franceses avançavam, na Itália e na Alemanha, esta foi arruinada.

Apesar disto, as forças militares permaneciam aparentemente respeitáveis: no mar, dois navios, uma fragata e quatro galeras; em terra, em Malta, 362 cavaleiros, dos quais 282 aptos para a guerra, 1.200 mercenários, 1.200 marinheiros e 13.000 militares autóctones.

Na Europa todas as potências estimavam que Malta poderia se manter sem dificuldade durante três meses, o que permitiria operações de libertação.

Em abril de 1798 o Diretório decide tomar Malta, e pouco depois todas as potências são informadas. A informação é de tal maneira espalhada, que ninguém acredita, ninguém toma precauções…

Entre 7 e 26 de maio, quatro comboios franceses se aparelham. Totalizam 364 navios, dos quais 34 armados para a guerra, que portam 38.000 homens, 171 canhões, 600 cavalos e 630 arreamentos.

Os comboios franceses fizeram sua junção perto de La Valette, de 7 a 9 de junho, colocando em terra 15.000 homens apoiados por cinco peças.

No dia 10 há algumas escaramuças, no dia 11 se negocia, e no 12 a praça capitula.

A Ordem havia perdido 12 cavaleiros, pelo simples fato da população insurreta, e 150 prisioneiros; os franceses perderam nove homens.

A defesa fora paralisada pela insurreição das milícias locais, traição interior e recusa de combate da parte dos cavaleiros espanhóis e alguns franceses.

As ordens desconexas de Hompesch desencorajaram os melhores. Chorando, ele não fez senão suspirar: “É muito tarde!”

O ato de capitulação entrega aos franceses todos os meios militares e o tesouro, que completa uma batida geral contra todos os ornamentos preciosos das igrejas.

Hompesch não poderá carregar senão três réplicas da Ordem, despojadas de antemão de seu ouro e pedrarias. Os membros da Ordem têm o direito de partir para onde queiram.

Se Malta tivesse resistido quatorze dias, de 10 a 23 de junho, Nelson teria surpreendido o comboio francês perto de La Valette, e a história do mundo teria mudado.

A partir desta funesta data as Ordens de Cavalaria e de Cruzada dão lugar às Ordens honoríficas e nobilitárias.

Já não se vêem atos de bravura em que a despretensão é levada ao mais alto grau. Os nomes dos grandes cavaleiros já não povoam as páginas da História.




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