segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Grão Mestre e a heroica retirada
dos cavaleiros de Rodes até Malta

Sitio de Rodas em 1522
Sitio de Rodas em 1522
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




O sítio de Rodes, em 1522, foi a derradeira tentativa do império turco para expulsar os Cavaleiros Hospitalários que tinham construído sua fortaleza na ilha e, assim, garantir o controle islâmico do Mediterrâneo Oriental.

O primeiro assalto aconteceu em 1480, resultando num doloroso fracasso. VEJA MAIS CLICANDO AQUI.

Os Cavaleiros de São João – também conhecidos como Cavaleiros Hospitalários, e posteriormente de Malta – capturaram Rodes no início do século XIV, após a perda da cidade de Acre, último bastião cruzado na Palestina, em 1291.

A partir de Rodes eles continuaram hostilizando os inimigos de Cristo.

Os turcos, que haviam conquistado Constantinopla em 1453, não suportavam a presença de cavaleiros cristãos em suas próprias barbas.

Além do mais, a fortaleza de Rodes era o maior e mais imediato obstáculo à expansão do islamismo na sua tentativa de invadir a Europa.


Em 1521, Philippe Villiers de L'Isle-Adam (1464 - 1534), nobre francês de alta linhagem, que ingressou na Ordem com 19 anos, foi eleito Grão-Mestre.

Grão Mestre dos Cavaleiros de Rodas Philippe Villiers de L'Isle-Adam
Grão Mestre dos Cavaleiros de Rodas
Philippe Villiers de L'Isle-Adam, em Rodes
Ele logo previu que uma nova invasão muçulmana de Rodes era inevitável. Por isso, continuou a fortalecer a ilha.

Retomou a construção de fortificações, iniciada após a invasão otomana de 1480, e apelou aos cavaleiros da Ordem do resto da Europa para virem em defesa da casa-mãe da mesma.

Porém, os tempos do heroísmo primitivo das Cruzadas infelizmente haviam passado. O desejo intemperante de prazeres tinha penetrado até as altas esferas eclesiásticas em Roma.

O espírito humanista e renascentista minava os espíritos, os líderes religiosos católicos, civis e eclesiásticos, se voltavam para uma vida de prazeres e exibicionismo.

Nesse ambiente de dissolução de costumes, Lutero já havia acendido a tocha da revolta protestante.

Foi assim que, com exceção de algumas tropas venezianas estacionadas na ilha de Creta, um punhado de heroicos cavaleiros ficou sozinho face ao imenso poder material dos sectários de Mafoma.

Como resultado das obras, a cidade de Rodes ficou protegida por dois, e em alguns lugares por três anéis de muralhas de pedra, além de vários grandes bastiões.

A defesa dessas muralhas e baluartes foi atribuída às seções de diferentes Línguas em que os cavaleiros se haviam organizado desde 1301.

A entrada do porto foi bloqueada com uma pesada corrente de ferro, por trás do qual ficava ancorada a pequena frota da Ordem.

A força de invasão turca chegou com 400 navios e apresentou-se diante de Rodes em 26 de junho de 1522. Comandava-a Mustafá Pashá.

Portas das muralhas de Rodes
Portas das muralhas de Rodes
O sultão Solimão, chamado o Magnífico, chefe supremo dos otomanos, veio à frente de um exército de 100 mil homens que se reuniu em 28 de julho à frota de Mustafá Pachá para assumir o assalto em pessoa.

O Grão-Mestre Villiers de L'Isle-Adam contava com apenas 600 cavaleiros e 4.500 soldados auxiliares.

Os turcos bloquearam o porto, bombardearam a cidade com a artilharia que haviam desembarcado e lançaram quase que diariamente ataques de infantaria.

Também procuraram minar a fortificação por meio de túneis e minas.

O fogo de artilharia turca se fazia sentir numa cadência lenta, mas não deixou por isso de trazer grave prejuízo para as muralhas cristãs.

Porém, após cinco semanas de ataque, em 4 de setembro, duas grandes minas de pólvora explodiram sob o bastião defendido pelos cavaleiros da Inglaterra, cujas muralhas caíram numa extensão de 12 metros, preenchendo o fosso.

O escudo do Grão Mestre ainda perdura nos muros de Rodas
O escudo do Grão Mestre .perdura nos muros de Rodas
A estrada estava aberta para a invasão infrene da multidão de regimentos anticristãos.

Porém, Frei Nicolas Hussey, à testa dos cavaleiros ingleses apoiados pelo Grão-Mestre Villiers de L'Isle-Adam, desferiu uma contra-ofensiva que mandou de volta os fanáticos maometanos.

Por mais duas vezes os turcos tentaram apoderar-se da brecha naquele dia. Porém, em cada oportunidade, os cavaleiros ingleses, auxiliados pelos irmãos alemães, os expulsaram.

No dia 24 de setembro, Mustafá Pashá ordenou um ataque maciço contra os bastiões defendidos pelos cavaleiros da Espanha, Inglaterra, Provence (França) e Itália.

O combate foi furioso. O bastião da Espanha mudou duas vezes de mãos. O esforço maometano foi em vão. O próprio Solimão ficou fora de combate.

Ele se sentiu então de tal maneira despeitado pelo fracasso, que condenou à morte Mustafá Pashá, seu cunhado. Mas acabou poupando-lhe a vida, após outros altos chefes lhe implorarem misericórdia.

O sucessor de Mustafá foi Ahmed Pashá, que tinha muita experiência como engenheiro. Sob suas instruções, os turcos concentraram esforços para dinamitar as muralhas, enquanto a artilharia não cessava seu fogo.

No fim de novembro os cavaleiros repeliram mais uma ofensiva geral.

Palácio do Grão Mestre de Rodes, interior
Palácio do Grão Mestre de Rodes, interior austero e nobre
Mas os dois lados estavam exaustos. Os cavaleiros haviam esgotado suas reservas e não tinham esperança de receber auxílios da Europa.

Do outro lado, a desmoralização tomou conta dos acampamentos das tropas turcas.

A diminuição de seu número pelas perdas sofridas além de doenças as deixara à beira da defecção.

Solimão ofereceu, então, a paz aos cristãos: suas vidas seriam poupadas caso eles se rendessem. Do contrário seriam todos mortos ou escravizados.

Como o povo da ilha não queria mais combater, o Grão-Mestre Villiers de L'Isle-Adam aceitou negociações.

De 11 a 13 de dezembro foi feita uma trégua para permitir as conversas.

Mas quando os moradores exigiram mais garantias para suas vidas, Solimão, que era falso, ficou irado e ordenou novos bombardeios e ataques.

O bastião da Espanha caiu em 17 de dezembro. Com a maioria das muralhas destruídas, a queda da cidade era uma questão de tempo.

Em 20 de dezembro, o Grão-Mestre pediu mais uma trégua.

Desta vez, Solimão fez uma proposta surpreendentemente generosa, talvez devido à sua péssima posição.

Jazigo de Philippe Villiers de L'Isle-Adam, Museu Louis Senlecq
Jazigo de Philippe Villiers de L'Isle-Adam, Museu Louis Senlecq
No dia 22, os representantes da cidade aceitaram a proposta do sultão turco.

Pelo acordo, os cavaleiros teriam doze dias para deixar a ilha, podendo levar suas armas e qualquer símbolo religioso que desejassem.

Os civis que o desejassem teriam três anos para emigrar.

Nenhuma igreja seria profanada ou transformada em mesquita.

E os que ficassem na ilha ficariam livres de imposto durante cinco anos.

Foi assim que, em 1º de janeiro de 1523, os cavaleiros sobreviventes e os últimos soldados marcharam para fora da cidade, com suas bandeiras tremulando ao vento, batendo tambores formados em ordem de batalha, como se fossem vencedores.

Eles embarcaram em 50 navios venezianos com destino a Creta – então possessão veneziana – acompanhados de alguns milhares de leigos.

O último sítio de Rodes acabou com uma vitória otomana, porém a um custo altíssimo: metade da força invasora morrera ou ficara aleijada.

Solimão o Magnífico mandou ler nas mesquitas do império turco  soberbo panegírico do Grão Mestre: “aprendei como se cumpre o dever  até o ponto de ser admirado e honrado pelos próprios inimigos”
Solimão o Magnífico mandou ler nas mesquitas do império turco
soberbo panegírico do Grão Mestre: “aprendei como se cumpre o dever
até o ponto de ser admirado e honrado pelos próprios inimigos”
Donos de Rodes, os islâmicos consolidaram seu controle sobre o Mediterrâneo Oriental, o qual era indispensável para garantir as comunicações marítimas entre Constantinopla, Cairo e os portos do Levante.

Os cavaleiros hospitalários se mudaram de imediato para a Sicília, obtendo depois as ilhas de Malta e de Gozo, além da cidade porto de Trípoli, pertencente até então ao imperador Carlos V.

A partir de Malta os cavaleiros ainda realizaram gloriosos feitos pelas armas católicas.

O Grão-Mestre Villiers de l'Isle-Adam morreu em Malta, no dia 21 de agosto de 1534.

Sabendo de sua morte, o sultão Solimão o Magnífico fez proclamar nas mesquitas do império turco um panegírico onde se lê:

“Crentes, aprendei de um infiel como se cumpre o dever até o ponto de ser admirado e honrado pelos próprios inimigos”.

O corpo do herói foi enterrado no castelo de Sant’Angelo em Malta e transferido em 1577 para a cripta da catedral de São João recém-construída em La Valette, onde repousa até hoje.





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Um comentário:

  1. Reconhecer a derrota de forma humilde, é aceitar a condição de seus limites.

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