terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O conde de Blois descreve o avanço da I Cruzada

Estevão Henrique II, Conde de Blois e de Chartres (1045 – 19.5.1102), casou com Adela de Normandia, filha de Guilherme o Conquistador, por volta de 1080 em Chartres. Teve onze filhos, entre os quais: Guilherme, (†1150), Conde de Sully e Chartres; Teobaldo II, conde de Champagne; Estevão, rei da Inglaterra e Henrique, bispo de Winchester.

O conde Estevão foi um dos líderes da Primeira Cruzada. Ele escreveu pormenorizadas cartas a sua esposa Adela contando os progressos da mesma. Ele voltou a casa em 1098 quando o assédio de Antioquia se eternizava, sem cumprir o voto de liberar Jerusalém.

Pressionado por Adela, em 1101 fez uma segunda peregrinação junto com outros que voltaram prematuramente. Em 1102, Estevão encontrou a morte na batalha de Ramla quando tinha 57 anos. Morreu heroicamente mas sem ter a glória de conquistar Jerusalém, fato que aconteceu durante seu retorno a Europa.

A carta seguinte é de 1098 e foi escrita durante o sitio de Antioquia:





O conde Estevão, a Adela, sua docíssima e amabilíssima esposa, a seus amados filhos, e a todos os seus vassalos de todos os rangos, saudações e bênçãos.

Deves estar certa, minha caríssima, que o mensageiro que eu enviei para te tranqüilizar, deixou-me diante de Antioquia a salvo e sem feridas, e pela graça de Deus na maior prosperidade.

Desde aquele tempo, junto com todo o exército eleito de Cristo, fortalecidos com grande valor por Ele, nós temos avançado em continuidade durante 23 semanas rumo à casa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Deves saber, minha amada, que em ouro, prata e muitos outros tipos de riquezas, agora eu tenho o dobro que teu amor me consignou quando te deixei. Todos os príncipes com o consentimento de todo o exército, contra minha vontade, me escolheram como seu líder no momento presente, como chefe e condutor de toda a expedição.

Deves ter certamente ouvido que após a captura da cidade de Nicéia, nos livramos uma grande batalha contra os turcos e com a ajuda de Deus a vencemos.

A continuação nós conquistamos para o Senhor toda a România. Assim que nós ficamos sabendo que havia um príncipe turco de nome Assam, instalado na Capadócia; logo desviamos nosso caminho para ir a seu encontro.

Conquistamos todos os seus castelos pela força e o compelimos a fugir para um castelo muito forte situado num alto rochedo. Nós também demos a terra desse Assam a um dos nossos chefes e para que ele pudesse vencer dito Assam nós deixamos com ele muitos soldados de Cristo.

A continuação, perseguindo os malvados turcos, nós os empurramos até o centro da Armênia, até o grande rio Eufrates. Ali abandonando todas suas bagagens e animais de carga na ribeira, eles fugiram atravessando o rio para a Arábia.

O grosso dos soldados turcos, porém, entrou na Síria, correndo em marchas forçadas noite e dia, para poder entrar na cidade real de Antioquia antes de nossa chegada.

Tendo sabido disto, todo o exército de Deus orou dando as devidas graças ao Senhor. Acelerando nosso passo com grande alegria para chegar a dita cidade principal de Antioquia, nos a sitiamos e bem cedo tivemos várias trombadas com os turcos. Sete vezes lutamos contra os habitantes de Antioquia e com tropas incalculáveis que vinham em seu auxílio, e que nós nos apressamos a enfrentar, e combatemos com a coragem mais fera, sob a liderança de Cristo.

E, em todas essas sete batalhas, com a ajuda de Deus Nosso Senhor, nós vencemos e certamente matamos um número incontável deles.

Porém, nessas batalhas e em vários ataques feitos à cidade, muitos de nossos irmãos e seguidores foram mortos e suas almas foram conduzidas às alegrias do Paraíso.


Nós verificamos que a cidade de Antioquia é muito grande, fortificada com inacreditáveis reforços e quase inexpugnável.

Acresce que mais de 5.000 fortes soldados turcos entraram na cidade, sem contar os sarracenos, publicanos, árabes, tulitanos, sírios, armênios e outros povos diferentes que formando uma infinita multidão estavam todos juntos ali.

Para combater todos esses inimigos de Deus e nossos nós tínhamos, pela graça de Deus, passado por muitos sofrimentos e inúmeros males até o dia de hoje.

Muitos também esgotaram todos seus recursos nesta santíssima empresa. Muitíssimos de nossos francos teriam morrido de inanição se a clemência de Deus e o nosso dinheiro não os tivesse salvo. Diante da mencionada cidade de Antioquia, durante todo o inverno nos sofremos por Cristo Nosso Senhor um frio excessivo e imensas chuvas torrenciais. Alguns falam da impossibilidade de suportar o calor do sol na Síria, mas não é verdade. Porém, o inverno é muito semelhante ao nosso inverno no Ocidente.

Quando Caspian [Bagi Seian], o emir de Antioquia – isto é, o príncipe e senhor – sentiu-se muito apertado por nós, enviou um filho seu de nome Sensodolo [Chems Eddaulah], ao príncipe que possui Jerusalém, e aos príncipes de Calep, Rodoam [Rodoanus], e a Docap [Deccacus Iba Toutousch], príncipe de Damasco. Ele também enviou mensageiros para a Arábia: para Bolianuth, Carathania e Hamelnuth.

Estes cinco emires com 12.000 cavaleiros turcos escolhidos chegaram subitamente para ajudar os habitantes de Antioquia. Nós, entretanto, que ignorávamos tudo isso, tínhamos enviado muitos soldados nossos às cidades e fortalezas. Aliás, há cento e sessenta e cinco cidades da Síria em nosso poder.

Mas, pouco antes que eles pudessem se aproximar da cidade, nós os atacamos a três léguas de distancia com 700 soldados, numa planície perto do “Portão de Aço”. Deus, entretanto, lutou por nós, e seus fiéis contra eles. Porque naquele dia, lutando com a força que Deus dá, nós os derrotamos e matamos uma incontável multidão deles – Deus continuamente combatendo por nós – e nós trouxemos para o exército mais de duzentas cabeças deles, para que o povo pudesse se regozijar com o número. O imperador de Babilônia também enviou mensageiros sarracenos a nosso exército com cartas nas quais ele propunha paz e concórdia conosco.

Eu me aprazo em te contar, minha amadíssima, o que aconteceu nesta Páscoa. Nossos príncipes construíram uma fortificação perto de uma porta que há entre nosso acampamento e o mar. Porque os turcos saíam diariamente por essa porta, e matavam os nossos homens indo ou vindo do mar.

A cidade de Antioquia encontra-se a perto de cinco léguas do mar. Por esta razão, nossos príncipes enviaram o excelente Boemundo e a Raimundo, conde de Saint Gilles, até o mar com somente sessenta cavaleiros, para eles trazerem marinheiros que ajudassem na obra.

Porém, quando eles voltavam até nós com os marinheiros, os turcos reuniram um exército e caíram subitamente sobre nossos dois líderes e os puseram em perigosa situação. Na inesperada e precipitada retirada nós perdemos mais de 500 de nossos soldados de infantaria – pela glória de Deus. Da cavalaria, porém, nós perdemos só dois com certeza.

Naquele mesmo dia, para receber nossos irmãos com alegria, e ignorando sua desgraça, nós fomos a seu encontro. Quando, porém, nós nos aproximamos de dita porta da cidade, uma turba de cavaleiros e de infantaria de Antioquia, exaltados pela vitória que obtiveram, avançaram por cima de nós da mesma maneira.

Vendo-os, nossos líderes enviaram ordem ao acampamento dos cristãos para que todos estivessem prestes a nos acompanhar na batalha. Entrementes, nossos homens reuniram-se com os líderes dispersos Boemundo e Raimundo e o remanescente de seu exército, e eles narraram a grande desgraça que sofreram.

Nossos homens, cheios de fúria ouvindo essas péssimas notícias, prepararam-se a morrer por Cristo e, profundamente pesarosos por seus irmãos, despencaram sobre os sacrílegos turcos. Eles, inimigos de Deus e nossos, fugiram apressadamente diante de nós e tentaram entrar na cidade. Mas, pela graça de Deus o caso acabou de um modo muito diferente. Porque quando eles quiseram atravessar a ponte construída sobre o grande rio Moscholum, nós os perseguimos tão perto quanto possível, matamos muitos antes que chegassem à ponte, forçamos muitos a cair no rio, tendo encontrado todos estes a morte, nós derrubamos muitos sobre a ponte e muitíssimos bem perto da estreita entrada da porta.

E eu estou te dizendo a verdade, minha amadíssima, e deves ter certeza de que nesta batalha nós matamos trinta emires, isto é príncipes, e trezentos outros turcos nobres, sem contar os demais turcos e pagãos. Mais ainda, o número de turcos e sarracenos mortos foi calculado em 1.230. Mas dos nossos nós não perdemos sequer um só homem.

No dia seguinte (Páscoa) enquanto meu capelão Alexandre escrevia esta carta com grande pressa, uma parte de nossos homens que ficou à espera dos turcos, iniciou uma batalha bem sucedida e matou sessenta cavalheiros deles, cujas cabeças eles trouxeram até o acampamento.

Estas coisas que te escrevo, são somente algumas, minha caríssima, das muitas que nos aconteceram, e posto que eu não posso te contar tudo que há na minha cabeça, eu te encarrego, minha amadíssima, fazer tudo direito, vigiar cuidadosamente nossas terras, cumprir teus deveres como deves em relação a teus filhos e a nossos vassalos. Certamente ver-me-ás cedo na medida em que possivelmente retornarei até ti.

Despedida.

(Datado diante de Antioquia, 29 de março de 1098)

(Fonte: Dana C. Munro, "Letters of the Crusaders", Translations and Reprints from the Original Sources of European History, Vol 1:4, (Philadelphia: University of Pennsylvania, 1896), 5-8.)


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3 comentários:

  1. Discussão palpitante neste blogue, post como aqui vemos destacam a quem aparecer neste espaço !!!
    Faz mais de este blogue, a todos os teus leitores.

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  2. Caramba eu quero o avanço

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  3. Vcs so não aprovam oq fala mal né

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