segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Simão de Montfort, líder da cruzada contra os heréticos albigenses (II)

Simon de Montfort, batalha de Muret, Herois medievais“Levanta-te e cinge-te da espada”

O Papa, temendo o desaparecimento da Igreja naquelas paragens, incentivou Simão de Montfort a combater tenazmente os hereges:

“Eia, paladino de Cristo, o sangue dos justos clama a ti para que ponhas diante da Igreja o escudo da fé contra seus inimigos! levanta-te e cinge-te da espada”.
Acusa-se de excessos a Simão de Montfort em sua campanha, mas tem-se que levar em conta os usos bárbaros que ainda persistiam de algum modo naquele século.

Sobretudo é necessário ressaltar que a crueldade dos albigenses em seus ataques às igrejas e mosteiros, seu ódio à Religião católica e seu fanatismo religioso causavam justa indignação no ânimo de seus adversários católicos.

Ademais, aquela guerra adquirira ainda o caráter de uma guerra de civilizações,
“pelo ódio que dividia então as duas raças – os franceses do norte e os franceses do sul – tão diferentes pela sua língua, costumes e grau de civilização”.
Se não fosse o valor e a energia de Simão de Montfort, provavelmente a heresia albigense teria dominado não só o sul da França, mas teria se estabelecido na Itália e outros países europeus.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Simão de Montfort, líder da cruzada contra os heréticos albigenses (I)

Simon de Montfort, selo, Heróis Medievais





Simão IV, conde de Montfort, foi o segundo filho de Simão III e de Amícia, filha de Roberto de Beaumont, conde de Leicester, na Inglaterra. Nasceu aproximadamente em 1150.

Tendo sucedido a seu pai como barão de Montfort em 1181, casou-se em 1190 com Alice de Montmorency, de quem teve três filhos.

Em 1198 partiu para a Palestina com uma tropa de cavaleiros franceses, mas obtiveram poucos êxitos.

Em 1202 participou da IV Cruzada. Mas vendo que seus companheiros se desviavam do fim piedoso que os tinha movido, e tomaram de assalto Constantinopla, separou-se deles e foi para a Terra Santa, onde se cobriu de glória.

Montfort l'Amaury, cidade natal de Simon de Montfort, perto de Pariws, Heróis medievaisAlguns anos mais tarde, em 1209, aderiu à cruzada convocada pelo Papa Inocêncio III contra os albigenses, no sul da França.

Quem eram os albigenses

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Em Alcoraz São Jorge entrou de cheio na luta trazendo um cruzado alemão desde Terra Santa


Em 1096, o exército católico assediava a cidade de Huesca (Espanha). Ele era dirigido pelo rei de Aragão Sancho Ramírez.

O rei tinha construído a cidadela de Montearagón (foto), hoje em ruínas, como quartel geral do sítio da cidade.

Ela fica sobre o morro chamado desde então de São Jorge.

A batalha já havia começado quando chegaram topas muçulmanas desde a grande cidade de Zaragoza.

O rei morreu e tudo virou para o desastre. Foi quando apareceu São Jorge e a batalha foi ganha pelos cristãos.

A cidade de Huesca capitulou, então, ante o novo rei Pedro I.

Uma crônica do tempo relata a miraculosa intervenção do santo comandante cristão:

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

João Sobieski (II), o rei cruzado que salvou Europa

Jan III Sobieski libera Viena do assédio turco
Jan III Sobieski libera Viena do assédio turco
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Por volta de 1680, os islamitas voltaram-se contra a Áustria.

“Havia sete anos eles se armavam desde o Danúbio até o Eufrates, desde o Mar Adriático até as Cataratas do Nilo; em todos os portos se embargavam os navios estrangeiros, para passar da Ásia e África à Europa”.

Assim, com uma impressionante armada, “cuja descrição traz à memória a expedição de Xerxes contra a Grécia”,(2) com cerca de 300 mil homens os turcos atravessaram a Hungria, uma grande parte da qual havia sido por quase 150 anos dominada por eles, e encaminhavam-se para Viena.

A situação era alarmante, pois se os turcos dominassem a Áustria, estaria ameaçada toda a Cristandade.

“Foi um momento transcendental na História do mundo; importante como o ano de 732, quando os árabes, diante de Tours, lutavam pelo senhorio da Europa. [...] Pode-se dizer, com razão, que a independência da Alemanha estava nos muros de Viena; a meia-lua plantada de um modo duradouro nas muralhas de Viena teria mudado o curso da História universal”.(3)

segunda-feira, 27 de julho de 2009

João Sobieski (I), o “Invencível Leão do Norte” desfez o poder turco nas portas de Viena

João Sobieski, rei da Polônia, esmaga os turcos nas portas de Viena
Sobieski, o Rei João III da Polônia, foi um dos maiores capitães de guerra do século XVII, e a ele se deve a salvação da Europa ao derrotar os turcos na batalha de Viena.

Ele nasceu em 1624, filho de Jaime Sobieski, castelão de Cracóvia, da pequena nobreza polaca. João e seu irmão Marcos foram educados com o maior esmero. Passaram grande parte de sua juventude em Paris e estiveram na Itália, residindo por três anos em Pádua, onde freqüentaram a Universidade local. Estiveram também na Inglaterra e na Alemanha.

Ambos estavam na Turquia quando, em 1648, à morte de seu pai, tiveram que voltar à pátria. Nessa ocasião os poloneses tinham sido derrotados pelos russos na batalha de Pilawiecz, os dois irmãos quiseram desagravar seus conterrâneos e entraram na liça. Marcos foi feito prisioneiro pelos tártaros, e por eles assassinado.

Terror dos tártaros e herói nacional

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. IV ‒ esquema do exemplo de São Francisco e o Direito da Cruzada


I – O problema teológico: é lícita uma Cruzada para assegurar a liberdade dos pregadores do Evangelho?

A. Parece que não (São Tomás começa habitualmente com a objeção):

1. Porque Nosso Senhor é o modelo de todas as virtudes – e eu vou por tom mais romântico e sentimental, porque é um argumento sentimental – e entre os atos que Ele praticou não estava o de matar, mas, pelo que não se converta no contato com missionários verdadeiramente santos.

Portanto, se um governo resiste, e o missionário não consegue converter, Nosso Senhor ensinou a derramar seu próprio sangue na flagelação, em vez de inspirar os guerreiros católicos a que derramem o sangue do pobre adversário. Essa é a formulação sentimental errada.

C. Sed contra. Parece que sim:

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. III ‒ o exemplo de São Francisco glorifica as Cruzadas

Segunda vinda de Cristo
Pode se levantar uma objeção contra a Cruzada: Nosso Senhor Jesus Cristo pessoalmente nunca chefiou uma Cruzada.

Ele se deixou prender em vez de pedir às legiões dos anjos que viessem à terra para impedir a Sua crucificação. Então, não seria mais conforme à mansidão evangélica só pregar a palavra de Deus? Será que o homem se tornou tão ruim que ele resistirá à palavra de Deus?

Não seria mais generoso nós esperarmos na bondade do homem e que a palavra de Deus o convertesse?

Aqui está o ponto central do problema das Cruzadas, em termos de doutrina católica.

Mas é verdade que o homem muitas vezes é tão mau que pode recusar a palavra de Deus. Nesses casos, a Cruzada é legítima.

Se o homem nunca é tão mau que recuse a palavra de Deus então a Cruzada não é legítima.

Há um mundo de democrata-cristãos e caterva do gênero, que sustenta que por meio da bondade se consegue tudo, e que basta o missionário ser muito santo para ele converter qualquer pessoal.

De onde então, o uso da violência a favor das missões seria uma coisa injustificada.

O equilíbrio teológico sobre este problema se manifestava no navio que conduziu São Francisco.

Vai o maior dos missionários que se possa imaginar e prega ao sultão. Os guerreiros são movidos por um tão bom espírito que eles preferem as palavras de amor à força. Mas, se houver dificuldade, entra a força. Eles mandam o santo que emprega as palavras de amor. O sultão prova a dureza do espírito maometano. Diante de São Francisco ele começou a se converter, e resistiu.

Cruzados acham o Santo Lenho a caminho de conquistar JerusalemSão Francisco expulso, prova a legitimidade das Cruzadas.

E a glorificação das Cruzadas vem do próprio fato dele não ter vencido.

Então, nem se pode dizer que os Cruzados eram sanguinários, que iam matar ou que tinham vontade de liquidar.

Não! eles preferiam convencer porque Deus não quer a morte do pecador, mas sim que ele se converta e viva. Mas se ele não se converte, se está de má fé, ali está a lança, ali está o ferro, está a guerra. Está perfeito. É o equilíbrio maravilhoso e católico.

É a melhor justificação que se possa imaginar da Cruzada e do espírito das Cruzadas.

São Francisco de Assis, levando o amor na ponta da Cruzada provou que ela era indispensável.

Porque o amor nem tudo consegue, e onde o amor fracassa não há remédio. É preciso entrar a lança.

Essa é a grande lição que este fato nos dá.


(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. II ‒ o exemplo de São Francisco e o sultão ilustra o direito a se fazer Cruzadas

Ultima Ceia
Nosso Senhor, quando esteve com os Apóstolos, disse: Ide e pregai por toda a terra, a todos os povos, batizando-os em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Aqueles que crerem serão salvos, aqueles que não crerem se perderão.

Isso é um mandato, quer dizer, é uma ordem que Ele deu.

Esse mandamento dava aos Apóstolos e aos sucessores, bispos e padres católicos de todo mundo, em todos os tempos, a ordem de fazer missões. Daí o fato de que Nosso Senhor morrendo, eles se espalharam pelo mundo inteiro. Eles receberam uma ordem.

Mas junto com essa ordem vinha um direito: e o direito era de ir aos países, ainda que os governos não quisessem, pregar nesses países.

E, é uma obrigação para todos os governos, de atenderem à voz dos missionários e de lhes dar liberdade. Não estão obrigados a se converter, mas tem o dever de dar liberdade aos pregadores da Santa Igreja para que possam fazer ouvir a palavra de Deus ao povo.

Isso traz um corolário. Se os missionários têm direito de ir por toda parte pregar a fé, e se um governo nega o direito ao missionário de entrar, as tropas de um país católico têm o direito de marchar contra esse governo e dizer: "nós viemos aqui arrombar a porta que vocês fecharam. Porque contra Deus, ninguém prevalece. Nós estamos fazendo uma Cruzada". Entram a asseguram aos missionários o direito de pregar.

Jesus Cristo à testa dos cruzadosEntão, podemos imaginar oito, dez, cinqüenta cruzados numa praça, e junto com ele um santo, um padre, um missionário, num lugar em evidência, pregando.

E eles com as lanças, ou com armas mais atualizadas.

É teologicamente perfeito.

O que não seria perfeito seria dizer: ou você crê, ou morre. Isso não seria perfeito.

Mas aplicar a força justa a quem quisesse criar obstáculo, pois não, porque ninguém tem o direito de ir contra os desígnios de Deus.

Então a Cruzada é um direito outorgado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

(Fonte: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

São Francisco de Assis e o Direito da Cruzada. I ‒ o equilíbrio entre a mansidão e a força


Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
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sócio do IPCO,
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Do livro “Les Templiers”, do mundialmente reputado historiador francês Georges Bordonove:

Entre a 4ª e 5ª cruzada houve algumas expedições militares contra os infiéis. De uma delas, que aportou no Egito, participou São Francisco de Assis.

Ele, (São Francisco) teve a audácia de se fazer conduzir à presença do sultão, tendo somente sua fé por salvaguarda. O sultão o escutou com a maior atenção, como que subjugado.

Como o bem aventurado Francisco começasse a pregar e ofereceu-se para entrar no fogo juntamente com um sacerdote sarraceno, para assim provar ao sultão que a Lei de Cristo era verdadeira, o sultão respondeu: Irmão, eu não creio que algum sacerdote sarraceno queira entrar no fogo por sua fé.

Depois, temendo que alguns dos de seu exército, pela eficácia da palavra de São Francisco, fossem convertidos para o Senhor, o sultão o fez conduzir, com toda sorte de considerações e em perfeita segurança, ao campo dos nossos, dizendo-lhe por despedida: Reze por mim para que Deus se digne de me revelar a lei e a fé que mais Lhe agrada.

Comentário de Plinio Corrêa de Oliveira:

O mundo estava dividido em dois campos opostos. Essa divisão estava eriçada de espadas e lanças de ambos os lados.

O assalto de TiroDe um lado o mundo maometano, de outro lado o mundo católico.

Nessa situação, uma expedição militar embarca cheia de ardor. Ela vai levando o homem que, para a sensibilidade deformada de nossos dias, é precisamente o contrário do espírito militar: São Francisco de Assis.

O santo da doçura, da ternura, da bondade, que cantava aos passarinhos e chamava o boi e a vaca de irmãos; o santo – para usar uma expressão má, mas que teria seu cabimento aqui – o santo da fraternidade.

Esse santo vai no meio dos cruzados.

Parece que seu contínuo cântico de afabilidade, cordialidade e amor é o contrário da mensagem dos cruzados.

Ele tem esperança de converter o sultão. Ora, converter é muito melhor do que matar. O indivíduo precisa ser completamente doido, precisa ter perdido completamente o espírito católico, para preferir matar a converter. Converter é muito melhor do que matar.

Degolação de um cristãoDe outro lado, converter é, de algum modo, o contrário de matar. Porque se um homem pode ser conversível, para que matá-lo? Dir-se-ia então que São Francisco de Assis ia como companheiro dos cruzados, com o intuito de tornar inútil a Cruzada.

Bem, ele transpõe as fileiras adversárias e vai falar com o sultão.

Nós podemos imaginar a cena. O sultão aparece como um soberano oriental, no luxo enorme– tecidos finíssimos, tapetes magníficos, casas esplendidamente decoradas, espaçosas, soldados prestando armas, doces regalados, harém – tudo quanto o prazer dos sentidos pode proporcionar de lícito e de ilícito, de belo e de feio, de honroso, e de desonroso, o sultão tinha para si.

Podemos imaginar uma sala magnificamente atapetada. Nas paredes há arcadas com arabescos. Ao longe um pátio com uma fonte que deita água perfumada e um jardim com laranjeiras em flor.

Bate o vento e entra o perfume das laranjeiras; ouvisse o canto das odaliscas dentro do harém. Mais no fundo, um minarete poético que se levanta.

Gordalhão, contente da vida, satisfeito, sentado sobre almofadas, com um turbante esplêndido, coberto de joias, um sultão.

Entra para falar com ele um homem que é o contrário. São Francisco de Assis: renunciou a tudo, é o santo do jejum, da penitência.

O sultão é truculento, autoritário, sanguinário, mata por dá cá aquela palha, cercado de escravos que ele maltrata de todos os modos.

São Francisco de Assis é um homem que quando vai aos matos, os passarinhos descem das árvores e pousam sobre os ombros dele para cantar.

Sao Francisco prega aos animais
Vê uma flor, uma rosa, se extasia e glorifica a Deus, é o homem que faz sua felicidade em não ter nada daquilo que é a felicidade do sultão. E que se apresenta com umas sandálias ou talvez descalço.

E aí uma das enormes antíteses, não só daquele tempo mas de todos os tempos, se estabelece: o diálogo de São Francisco com o sultão. Fala-se hoje tanto em diálogo. Isso foi diálogo.

São Francisco começa a falar. Não nos é difícil conceber o estado de alma de um sultão. Quando o homem tem todos os bens do corpo, é o sinal de que ele não tem nenhum dos bens da alma.

Porque depois do pecado original, quanto mais os bens do corpo se multiplicam, tanto mais os bens de alma vão minguando e empobrecendo.

O sultão não tem tranquilidade, não tem alegria, não tem sensação de asseio nem de bem-estar dentro de si mesmo. Ele se sente uma charneca. Tudo em torno dele é belo mas nada lhe agrada. Tudo dentro dele é feio.

Aparece São Francisco e ele começa a sentir uma paz. Ele olha São Francisco e vê que São Francisco o olha com um sentimento que ele nunca conseguiu despertar em ninguém. São Francisco olha com afeto desinteressado. Ele começa a se comover diante das frases de São Francisco.

Se o violino de São Francisco Solano conseguia desarmar os índios, os senhores podem imaginar o timbre de voz de São Francisco de Assis se não faria desarmar um sultão! Por certo e largamente.

O sultão começa a se comover. Começa a se sentir tão comovido, que começa a perceber que está mudando de doutrina e que ele mesmo vai começando a ficar católico.

Massacre dos peregrinos de Pedro o ErmitãoEle tem medo da ação de São Francisco sobre ele, porque ele não quer largar aqueles bens que São Francisco mostra a ele que são efêmeros, secundários, que não são a razão de ser da vida.

Então, ele comete um primeiro pecado contra o Espírito Santo. Porque negar a verdade conhecida como tal é um pecado contra o Espírito Santo. E diz: esse homem é capaz de me converter. Eu vou pô-lo fora.

Vem um segundo receio: eu não vou me converter, mas se esse homem ficar rodando pela cidade, ele vai converter os outros. Esse homem diz coisas tais, dá um tal brilho de verdade a tudo que ele profere, que outros serão capazes de ser menos duros do que eu, e são capazes de se converter. Eu vou perder meus soldados.

Então, ele toma a resolução injusta de expulsar São Francisco de seu palácio, de seu país.

Mas o pecado nele não foi tão ao fundo como se poderia recear. Ele manda, em vez de matar São Francisco, ele manda levá-lo com toda espécie atenções, até o acampamento dos católicos.

Além do mais, ele faz um pedido na hora da despedida: reze por mim para que eu conheça a verdadeira fé.

Pedido que era, de algum lado, hipócrita. Porque, ao se comover, já ou ao menos já começou a conhecer a verdadeira fé. Ele pedia o que já lhe tinha sido dado.

Mas, de outro lado, era um pedido de quem não tinha renunciado inteiramente a, em determinada emergência, seguir a São Francisco. De maneira que é um pedido que tinha um certo lado de bem.

São Francisco de Assis, convento de São Francisco, QuitoE é possível que São Francisco tenha rezado por ele, e não é impossível que, pelos rogos de São Francisco, grande devoto de Nossa Senhora, esse sultão se tenha convertido na hora da morte.

De qualquer maneira, o sultão expulsou São Francisco e essa admirável possibilidade de conversão cessou para o Oriente.

Que beleza seria o sultão do Egito converter-se? Quanto lutou São Luís, quanto lutaram todos os Cruzados para conquistarem o Egito! Que magnífico teria sido se o Egito se tivesse feito católico. A história do mundo poderia ter virado.

A história do mundo dependeu, naquele momento, da alma de um sultão que tinha diante de si um dos maiores santos de toda a história; e que recebeu, com certeza, naquele momento, uma graça enorme.

Porque a simples presença de São Francisco de Assis era uma graça fabulosa. São Francisco de Assis ir, conduzido pelo Espírito Santo, de tão longe visitar esse sultão, é impossível que esse sultão não tivesse recebido nessa ocasião, graças enormes.

Um homem disse não, um palácio se fechou, um país se fechou, a história da conquista do Oriente pelos católicos estava modificada. O Egito nunca haveria de ser conquistado a não ser no século XIX, mas por uma potência protestante: a Inglaterra.

Seja como for, São Francisco voltou para o meio dos cruzados.

Qual é efeito maravilhoso desse fato? Para a história das Cruzadas?

É a justificação teológica mais magnífica do espírito que movia os cruzados e, ao mesmo tempo, das Cruzadas em si.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, palestra proferida em 16.11.72. Texto sem revisão do autor).



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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

As quatro barras catalunhas


Os normandos invadiram a França, no reinado de Carlos Magno. O Imperador enviou a seu sobrinho Vifredo o Zeloso, Conde de Barcelona, uma carta na qual pedia-lhe que o socorresse com os seus guerreiros.

O Conde marchou imediatamente com seu exército, que entrou na batalha, e foram vencidos os normandos, que se retiraram.

Durante a batalha, uma flecha acertou o peito de Vifredo. Foi retirado a uma tenda, onde o visitou o Imperador.

O tio quis recompensar seu sobrinho, dando-lhe riquezas e bens. Mas ele recusou toda recompensa, lamentando apenas que, apesar das muitas vitórias que havia obtido em diversas batalhas nas quais tomara parte, seu escudo de armas ainda era liso: campo dourado, sem insígnias que revelassem as suas muitas gestas.

O Imperador Carlos molhou então os quatro dedos de sua mão direita na ferida de Vifredo, e os passou de cima para baixo no escudo, marcando nele as quatro barras de sangue, que ainda hoje adornam o escudo de Catalunha, Valência e Aragão.


(V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura Universal" - Labor, Madrid, 1953)


sábado, 29 de setembro de 2007

Como foi a tomada de Jerusalém pelos Cruzados



O historiador francês Michaud escreveu o melhor relato da tomada de Jerusalém na primeira Cruzada.
LEIA O RELATO INTEIRO.




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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

A TOMADA DE JERUSALÉM, segundo o historiador Joseph-François Michaud

Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
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Joseph-François Michaud (1767 - 1839), História das Cruzadas, vol II.


A TOMADA DE JERUSALÉM


Ninguém conseguiu dormir naquela noite, passada em Anathot. Um eclipse de lua espalhou de repente as trevas mais densas.

A lua mostrou-se depois, como encoberta por um véu ensanguentado e os peregrinos foram tomados de terror, mas os que conheciam a marcha e os movimentos dos astros — diz Alberto D'Aix — tranquilizaram os companheiros, dizendo-lhes que um eclipse do sol teria sido muito mais funesto para os cristãos, mas que um eclipse da luz anunciava a destruição dos infiéis.

Desde o raiar do dia, já todos estavam em marcha. Os cruzados deixaram à direita o Castelo de Modin, famoso pela sepultura dos Macabeus; mas aquelas ruínas veneráveis mal lhes puderam atrair a atenção, tanto os preocupava a cidade de Jerusalém.

Atravessaram sem parar o Vale do Terebinto, celebrado pelos profetas. Atravessaram a mesma torrente onde David apanhou cinco seixos com os quais derrubou o gigante Golias.

Á direita e a esquerda elevam-se montanhas onde haviam acampado os exércitos de Israel e os dos filisteus.

Depois que venceram a última montanha que os separava da cidade santa, de repente Jerusalém apareceu diante deles. 

Os primeiros que a viram exclamaram com transportes de alegrias: " Jerusalém! Jerusalém!"

Essa palavra voava de boca em boca, de fileira em fileira, e ressoava de vale em vale até onde se encontrava ainda a retaguarda dos cruzados.

— Oh bom Jesus, diz o monge Roberto, testemunha ocular, quando os cristãos viram a Cidade Santa, quantas lágrimas correram de seus olhos....

Uns desceram dos cavalos e se puseram de joelhos, outros, beijavam a terra pisada pelo Salvador, soltando longos suspiros, muitos atiraram por terra suas armas e estenderam os braços para a cidade de Jesus Cristo. Todos repetem ao mesmo tempo:

— Deus o quer! Deus o quer!", e renovam o juramento que fizeram tantas vezes de libertar Jerusalém.

História de Jerusalém


Abraão e São Melquisedeque, Dieric Bouts the Elder (1415-1475)
Abraão e São Melquisedeque, Dieric Bouts the Elder (1415-1475)
A história nos dá poucas notícias positivas sobre a fundação e a origem de Jerusalém.

A opinião comum é que Melquisedec, que é chamado rei de Salem, na Escritura, lá havia fixado sua residência.

Foi em seguida a capital dos jebuseus, o que lhe fez dar o nome de Jebus.

Do nome de Jebus e do nome de Salem, que significava visão ou morada da paz, formaram o nome de Jerusalém, que a cidade teve sob os reis de Judá.

Desde a mais remota antiguidade, Jerusalém não perdia em magnificência para nenhuma cidade da Ásia.

Jeremias chama-a cidade admirável, por causa da sua beleza.

David chama-a a mais gloriosa e a mais ilustre das cidades do Oriente, pela natureza de sua legislação, toda religiosa, mostrou sempre um invencível apego às suas leis; mais frequentemente esteve em luta contra o fanatismo de seus inimigos e de seus próprios habitantes.

Seus fundadores, diz Tácito, tendo previsto que a oposição dos costumes seria uma fonte de guerras, tinham posto toda a sua solicitude em fortificá-la e nos primeiros tempos do império romano era uma das praças mais fortes da Ásia.

Jerusalém, chamada pelos muçulmanos de a Santa, Casa Santa, a nobre, formava no tempo das cruzadas, como hoje, um quadrado, mais longo que largo, de uma légua de perímetro.

Encerra em seu recinto quatro colinas, que são como outros tantos movimentos do terreno, através da extensão da cidade,

O Moriah onde a mesquita de Omar ocupa uma porção do edifício do templo de Salomão, o Gólgota, sobre o qual se eleva a igreja da Ressurreição, o Bezetha, o Acra.

Somente uma metade do monte Sion está encerrada nos muros de Jerusalém, do lado do sul.

No tempo dos reis hebreus a Cidade Santa tinha maior extensão; na época de sua reconstrução por Adriano depois das desgraças da conquista perdeu sua antiga muralha ao sul, a oeste e ao norte.

O monte das Oliveiras domina Jerusalém do lado do oriente; entre o monte e a cidade, o vale de Josafat se apresenta como um grande barranco no fundo do qual está a torrente de Cedron.

Como Jerusalém, sob a dominação dos muçulmanos, excitava continuamente a ambição dos conquistadores e cada dia novos inimigos disputavam-lhe a posse, não se haviam descuidado de fortificá-la.

Godofredo de Bouillon, chefe cruzado na tomada de Jerusalém
Godofredo de Bouillon, chefe cruzado na tomada de Jerusalém
À aproximação dos cruzados, o lugar-tenente do califa Iftikhar-édaulé, tinha feito encher as cisternas e se tinha rodeado de um deserto, onde os cristãos deviam se encontrar como presas de todo o gênero de misérias.

Os víveres, as provisões necessárias para um longo cerco, tinham sido transportadas para a praça. Um grande número de operários ocupavam-se dia e noite em cavar fossos, consertar as torres e as muralhas.

A guarnição era de quarenta mil homens; vinte mil habitantes tinham tomado as armas.

Os imans percorriam as ruas exortando o povo a defender a cidade; sentinelas vigiavam sem cessar nos minaretes, nas muralhas de Jerusalém e no Monte das Oliveiras.

Na noite que precedeu à chegada dos cruzados, vários guerreiros egípcios avançavam contra os cristãos.

Balduíno de Bourg, com seus cavaleiros foi-lhes ao encontro; Tancredo vinha de volta de Belém.

Depois de ter sido perseguido o inimigo até as portas da Cidade Santa, o herói normando deixou seus companheiros e foi sozinho ao Monte das Oliveiras, de onde contemplou com sossego e a vontade a Cidade prometida as armas e a devoção dos peregrinos.

Foi perturbado na sua piedosa contemplação por cinco muçulmanos que saíram da cidade e vieram atacá-lo.

Tancredo não procurou evitar o combate; três dos assaltantes caíram sob seus golpes e os outros dois fugiram para a cidade.

Sem apressar nem diminuir a marcha, Tancredo foi em seguida reunir-se ao grosso do exército que, no seu entusiasmo, avançava sem ordem e se aproximava da Cidade Santa, cantando as palavras de Isaías: "Jerusalém, ergue os olhos e vê o libertador que vem quebrar teus grilhões".

Montagem do acampamento



Logo no dia seguinte, à chegada, os cruzados começaram a preparar o cerco da praça.

Uma esplanada coberta de oliveiras estende-se do lado setentrional; lá, o terreno apresenta uma superfície unida; é o lugar, em redor da cidade, que mais se presta para o acampamento de um exército.

Godofredo senhor de Bouillon, Roberto, conde de Normandia, Roberto, conde de Flandres, ergueram suas tendas no meio dessa esplanada; seu acampamento estendia-se entre a gruta de Jeremias e os sepulcros dos reis.

Eles tinham diante de si a porta agora chamada porta de Damasco e a pequena porta de Herodes, hoje fechada.

Tancredo levantou sua tenda à direita da de Godofredo e da dos dois Robertos, no terreno que está a noroeste das muralhas.

Depois do acampamento de Tancredo, vinha o de Raimundo, conde de Tolosa, diante da porta do poente.

Suas tendas cobriam as elevações chamadas agora, colina de São Jorge, separadas das muralhas pelo estreito vale de Rafain e por uma vasta piscina.

Essa posição não lhe permitia concorrer utilmente ao cerco; foi o que os levou a transportar uma parte de seu acampamento para o lado meridional da cidade, sobre o monte Sion, no mesmo lugar onde Jesus Cristo tinha celebrado a Páscoa com seus discípulos.

Então, como hoje, a parte do Monte Sion que não estava situada dentro da cidade, apresentava pouca extensão.

Os cruzados que ali se haviam estabelecido podiam ser alcançados pelas flechas lançadas do alto das torres e das muralhas.

As disposições militares dos cristãos deixavam livres os lados da cidade, defendidos ao sul pelo vale de Gihon ou de Siloé, ao oriente pelo vale de Josafat.

A Cidade Santa então foi visitada apenas pela metade dos peregrinos.

Havia-se somente estabelecido no alto do monte das Oliveiras um posto de sentinela.

Em redor de Jerusalém, cada passo que os peregrinos davam, despertava-lhes uma lembrança querida à religião.

Nesse território reverenciado pelos cristãos, todos os vales e rochedos tinham seu nome na história sagrada.

Tudo o que eles viam, despertava ou inflamava-lhes o entusiasmo.

Mais que tudo não podiam afastar seus olhos da Cidade Santa e lamentavam o estado de rebaixamento em que ela tinha caído.

Outrora, tão soberba parecia sepultada em suas próprias ruínas e podia-se então, para nos servirmos de palavras de José, perguntar em Jerusalém mesma, onde estava Jerusalém.

Com suas casas quadradas, sem janelas, encimadas por um terraço plano, ela se oferecia aos olhos dos cruzados como uma massa enorme de pedras fincada entre os rochedos.

Viam-se, cá e lá no seu interior, alguns ciprestes, palmeiras, entre as quais erguiam-se campanários, no bairro dos cristãos e mesquitas, no dos infiéis.

Nos vales e nos outeiros próximos da cidade, que as antigas tradições representavam cobertas de jardins e de bosques, mal cresciam oliveiras esparsas e arbustos espinhosos.

O aspecto desses campos estéreis, desses rochedos fendidos, desse solo pedregoso e avermelhado, dessa natureza, queimada pelo sol, apresentava por toda a parte, aos peregrinos a imagem de luto e misturava uma tristeza sombria aos seus sentimentos religiosos.

Parecia-lhes ouvir a voz dos profetas que tinham anunciado a escravidão e as desgraças da cidade de Deus, e, no auge de sua devoção, eles se julgavam chamados para restitui-lhe o brilho e o esplendor.

Padecimentos dos cristãos


A chegada de um grande número de cristãos, vindos de Jerusalém, para se juntarem aos cruzados, animou-lhes ainda mais o zelo pela libertação da Cidade Santa.

Privados de seus bens, expulsos de suas casas, vinham procurar asilo e socorro entre seus irmãos do Ocidente.

Narravam as perseguições que os muçulmanos haviam movido a todos os que adoravam a Jesus Cristo.

As mulheres, as crianças, os velhos, eram conservados como reféns; os homens, em condições de pegar em armas, eram condenados a trabalhos que sobrepujavam suas forças.

O chefe do principal albergue dos peregrinos tinha sido posto a ferros com um grande número de cristãos.

Haviam saqueado os tesouros das igrejas para a manutenção dos soldados muçulmanos.

O patriarca Simeão tinha ido à ilha de Chipre, para ali implorar a caridade dos fiéis e salvar seu rebanho, ameaçado de destruição, se eles não pagassem um enorme tributo imposto pelos opressores da Cidade Santa.

Todos os dias os cristãos de Jerusalém eram oprimidos por novos ultrajes e muitas vezes os infiéis tinham ameaçado entregar ao fogo e destruir completamente o Santo Sepulcro e a igreja da Ressurreição.

Os cristãos fugitivos, fazendo aos cruzados estas dolorosas revelações, exortavam-nos a atacar o mais depressa possível Jerusalém.

Desde os primeiros dias do cerco, um solitário, que tinha posto o seu retiro no Monte das Oliveiras, veio unir suas orações às dos cristãos, expulsos da Cidade e rogou aos cruzados, em nome de Jesus Cristo, de quem se dizia intérprete, que dessem um assalto geral.

Estes, que não tinham nem escadas, nem máquinas de guerra, aceitaram os conselhos do piedoso eremita e julgaram que sua coragem e suas espadas seriam suficientes para derrubar a muralha dos inimigos.

Os chefes, que tinham visto tantos prodígios operados pelo valor e pelo entusiasmo dos soldados cristãos e que não haviam se esquecido das longas misérias do cerco de Antioquia, sem dificuldade cederam à impaciência do exército.

Além disso, a vista de Jerusalém tinha inflamado os cruzados de um ardor que se poderia julgar invencível e os menos crédulos não duvidaram de que Deus protegeria a sua coragem por meio de milagre.

Ao primeiro sinal, o exército cristão avançou em ordem, para as muralhas.

Uns, reunidos em batalhões cerrados, cobriam-se com os escudos, que formavam por sobre suas cabeças uma abobada impenetrável.

Eles procuravam derrubar as muralhas a golpes de lanças e de martelos, enquanto os outros, enfileirados ficaram à distância usando a funda e a arbaleta.

O óleo e o pixe ferventes, grandes pedras, enormes pedaços de madeira, caíram sobre os primeiros soldados.

Nada podia intimidar a coragem dos cruzados.

Já os primeiros anteparos tinham ruído sob seus golpes; mas a muralha interior oferecia-lhes um obstáculo invencível.

Começa o assalto das muralhas



Quinta feira, 14 de julho de 1099, ao despontar do dia, os clarins ressoaram no acampamento dos cruzados.

Todos correram às armas e todas as máquinas movimentaram-se ao mesmo tempo.

Os morteiros e os mandrões atiraram contra o inimigo uma chuva de pedras enquanto, com auxílio de tartarugas e de galerias cobertas, os aríetes aproximavam-se do pé das muralhas.

Godofredo de Bouillon estava na plataforma mais alta de sua fortaleza de madeira, acompanhado por seu irmão Eustáquio e por Balduíno de Bourg.

Animava aos seus com o exemplo.

Todos os dardos que ele lançava, dizem os historiadores do tempo, levavam a morte entre os inimigos.

Não poderia igualar o furor do primeiro ataque dos cristãos.

Os infiéis saindo por uma brecha feita na muralha quiseram incendiar as máquinas dos cruzados e introduzirem a desordem no meio dos soldados.

Pelo fim do dia as torres de Godofredo e da Tancredo não podiam mais mover.

A de Raimundo, Conde de Toulouse, estava quase derrubada.

O combate tinha durado doze horas, sem que a vitória parecesse pender para os católicos.

A noite veio separar os combatentes fremindo de ira e de tristeza.

Os chefes, principalmente os dois Robertos - Roberto da Normandia e Roberto de Flandes não podiam consolar, de que Deus "ainda não os tivesse julgado dignos de entrar na Cidade Santa e de adorar o Túmulo de Seu Filho Santíssimo".

De ambas as partes, a noite passou em meio das maiores apreensões.

Todos deploravam as perdas e temiam sofrer outras maiores.

Os muçulmanos temiam uma surpresa; os cruzados por sua vez receavam que os muçulmanos queimassem as máquinas que haviam deixado junto as muralhas.

Os inimigos ocuparam-se sem demora em restaurar as brechas produzidas pelos aríetes.

Os cruzados arrumaram os estragos das máquinas, para pô-las novamente em condições de serem usadas na batalha.

O segundo assalto



O dia seguinte trouxe os mesmos combates e os mesmos perigos do dia anterior.

Cheio de confiança na vitória, o exército cristão, tomou armas e avançou em silêncio para o lugar do ataque.

O clero fazia uma procissão ao redor da Cidade Santa.

Os infiéis dirigiam-se principalmente para a torre de Godofredo, sobre a qual luzia uma cruz de ouro, cujo brilho lhes provocara um furor ultrajoso.

O Duque de Lorena tinha visto cair ao seu lado um de seus escudeiros e vários soldados.

Ele mesmo, alvo dos dardos dos inimigos, continuava a combater, no meio dos mortos e feridos, e não deixava de exortar seus companheiros a dobrarem a coragem e o ardor.

O conde de Toulouse, que atacava a cidade ao sul, punha todas as suas máquinas as dos muçulmanos; ele tinha que dar combate ao emir de Jerusalém que aparecia nas muralhas, rodeado pela elite dos soldados infiéis.

Do lado norte, Tancredo e os Robertos estavam à frente de seus batalhões.

Imóveis sobre sua fortaleza rolante, eles mostravam-se impacientes em se servirem da lança e da espada.

Já seus aríetes tinham, em vários pontos abalados as muralhas por trás das quais os inimigos comprimiam suas fileiras e se ofereciam como última defesa.

Veio um cavaleiro celeste


No entanto, o combate tinha durado a metade do dia sem que os católicos tivessem esperança de penetrar na cidade.

Todas as suas máquinas ardiam; não tinham água e principalmente vinagre, que somente poderia apagar aquela espécie de fogo lançado pelos muçulmanos.

Em vão os mais corajosos se expunham aos maiores perigos para impedir a ruína das torres e dos aríetes.

Caiam sepultados pelas ruínas das torres, e as chamas devoravam até seus escudos e vestes.

Árduos guerreiros dos mais intrépidos, tinham encontrado a morte aos pés das muralhas.

Um grande número dos que subiam as torres rolantes, tinham sido posto fora de combate.

Os outros cobertos de suor e de poeira oprimidos pelo peso das armas e do calor, começavam a perder a coragem.

Os infiéis, percebendo o desânimo dos nossos, soltavam gritos de alegria.

Em suas blasfêmias, recriminavam os cristãos por adorar um Deus que não podia defendê-los.

Os cruzados deploravam sua sorte e, julgando-se abandonados por Jesus Cristo, ficavam imóveis no campo de batalha.

Mas o combate iria bem depressa mudar de fisionomia.

Viu-se aparecer no Monte das Oliveiras um cavaleiro agitando o escudo e dando sinal ao exército cristão para entrarem na cidade.

Godofredo e Raimundo, que por primeiros, viram o cavaleiro celeste, exclamaram que São Jorge vinha em auxílio dos cristãos.

O cavaleiro Celeste inflamou os cruzados um novo ardor.

Por fim a conquista


Eles voltaram ao ataque. Mesmo as mulheres, crianças e enfermos, correram à luta. Traziam água, víveres, armas, reuniam os seus esforços ao dos guerreiros para aproximarem dos muros as torres rolantes.

A de Godofredo avançou em meio de uma terrível carga de pedras, de dardos, de fogo grego, e encostou sua ponte levadiça sobre a muralha.

Dardos incandescentes voavam ao mesmo tempo das outras máquinas dos cruzados, contra os sacos de palha e fardos de algodão, que recobriam os últimos muros da cidade.

O vento aumentou o incêndio e levou as chamas contra os muçulmanos.

Estes, envolvidos por turbilhões de fogo e de fumaça, recuavam ao aparecer das lanças e das espadas dos cristãos.

Godofredo, precedido por dois irmãos: Letado e Engelberto, Guincher, Bernardo de Saint-Vallier, Ameseu, Balduíno de Bourg, Eustáquio e Reimbaud, atacavam os inimigos, e lançavam-se em sua perseguição, dentro de Jerusalém.

Todos os valentes que combatiam na plataforma da torre, seguiam o intrépido chefe, penetraram com ele nas ruas e massacraram todos os que encontraram à passagem. Uma multidão de valentes seguia-os de perto.

Uns entravam por uma brecha recém aberta, outros subiam os muros, com escadas, muitos lançavam-se do alto das torres de madeira.

Os muçulmanos fugiam de todos os lados e Jerusalém reboava com os gritos de "Deus o quer!".

Os companheiros de Godofredo e de Trancredo derrubavam a golpe de machado a porta de Santo Estevão e a cidade abriu-se à multidão dos cruzados que se comprimia à entrada e disputavam a honra de dar os últimos golpes nos infiéis.

Somente Raimundo encontrou nesta altura alguma resistência. Avisado da conquista dos cristãos pelos gritos dos muçulmanos, pelo fragor das armas e pelo tumulto que ouviu na cidade, ele reanimou à coragem dos seus soldados.

Este impaciente por alcançar seus companheiros, abandonaram as torres e as máquinas que não faziam mover.

Apertando-se nas escadas e auxiliando-se mutuamente, chegaram ao alto das muralhas: eram precedidos pelo Conde de Toulouse, por Raimundo Pelet, e pelo Bispo de Bir, pelo Conde de Die, por último Guilherme de Sabran. Nada podia conter seu impetuoso ataque.

Eles dispersavam os muçulmanos que se iam refugiar com seu emir na fortaleza de David. Todos os cruzados reunidos em Jerusalém abraçavam-se de alegria e só pensavam em perseguir em sua vitória.

No entanto o desespero reuniu ainda mais os guerreiros maometanos.

Eles irromperam sobre os cristãos que avançavam em desordem ao saque.

Estes começavam a recuar diante do inimigo que lhe havia vencido, mas Everaldo de Pusais, de quem Raul de Caen celebrou a sua frente e levou novamente o terror ao meio dos infiéis.

Desde e então os cristãos não tiveram mais inimigos a combater.

Na hora em que Nosso Senhor morreu, Jerusalém foi libertada.



A história faz notar que os cristãos entraram em Jerusalém numa sexta-feira às três horas da tarde, a hora em que Nosso Senhor morreu para a salvação dos homens.

Encheram de sangue e de luto aquela Jerusalém que acabam de libertar e que consideravam como sua futura pátria.

A matança tornou-se geral: os que escapavam aos ferros dos soldados de Godofredo iam acabar nas mãos dos provençais igualmente indignados.

Os muçulmanos eram assim massacrados nas ruas e nas casas. Jerusalém não tinha asilos para os vencidos.

Alguns somente puderam escapar da morte saltando das muralhas. Outros corriam em massa para refugiarem-se no palácio, nas torres e principalmente nas mesquitas.

Onde não se furtavam a perseguição dos cristãos.

No meio do mais horrível tumulto, só se ouviam gemidos e gritos de morte; os vendedores caminhavam sobre montes de cadáveres para alcançar aqueles que procuravam inutilmente fugir. Raimundo D'Agles testemunha ocular, diz que no Templo e sob os pórticos das mesquitas o sangue chegava aos joelhos dos cavalos.



Visita ao Santo Sepulcro.



Capela do Santo Sepulcro hoje
O piedoso Godofredo, depois da vitória, deixou seus companheiros e seguido por três servos, armado, descalço, à Igreja do Santo Sepulcro.

A notícia desse ato de devoção espalha-se no exército cristão e todas as vinganças, todo furor, acalmaram-se.

Os cruzados despojados de seus hábitos ensanguentados, faziam ressoar Jerusalém inteira com seus cânticos de piedade. Levados pelo clero, caminhavam junto, descalços e de cabeça coberta para a Igreja da Ressurreição.

O piedoso fervor dos cristãos suspendeu as cenas de matança.

Historiadores orientais, como os latinos, disseram que o número de muçulmanos mortos em Jerusalém ultrapassou setenta mil.

Os judeus não foram menos poupados que os muçulmanos.

Incendiaram as sinagogas onde se haviam refugiado e todos pareceram no meio das chamas.

Bem depressa a cidade de Jerusalém apresentou um novo espetáculo.

No espaço de pouco dias havia mudado de Religião, de leis, e de habitantes.

Direito de conquista.


Antes do último assalto havia-se combinado segundo o costume dos cruzados, que cada guerreiro ficaria proprietário da casa e do edifício no qual por primeiro houvesse penetrado.

Uma cruz, um escudo ou qualquer outro sinal colocado sobre a porta, era os vencedores de um título de posse.

Esse direito de propriedade foi respeitado pelos soldados ávidos do saque e viu-se bem depressa reinar a maior ordem numa cidade que acabava de ser entregue à Guerra.

Uma parte dos tesouros arrebatados aos infiéis foi emprestado para aliviar os pobres e os órfãos, em decorar os altares de Jesus Cristo, que se reerguiam na Cidade Santa.

Encontro da verdadeira Cruz.


Mas os cruzados desviaram depressa as suas vistas dos tesouros prometidos, para admirar uma conquista muito mais preciosa ao seus olhos.

Era a verdadeira Cruz, levada da cidade por Coroés, rei da Pérsia e trazida de novo a Jerusalém por Heraclito, Imperador do oriente.

Os cristãos encerrados na Cidade Santa tinham-na escondido durante o cerco, da sanha dos infiéis.

"Como esse objeto — diz velha crônica — ficaram tão contentes que como se tivesse visto o corpo de Nosso Senhor pendente na mesma, e foi levada em triunfo pelas ruas de Jerusalém e recolocada na Igreja da Ressurreição".





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