segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os turcos contra-atacam: conciliábulos muçulmanos. Primeira parte: entre os chefes turcos ‒ Gesta Dei per Francos 13





Algum tempo antes, Cassiano, Emir de Antioquia, tinha enviado uma mensagem para Curbara, chefe do Sultão da Pérsia, enquanto ele ainda estava na Chorosan, para vir ajudá-lo enquanto ainda havia tempo, porque um poderosíssimo exército de Francos tinha sitiado Antioquia.

Se o Emir o ajudasse, ele (Cassiano) lhe daria Antioquia, ou o enriqueceria com um dom muito grande.

Como Curbara tinha, há muito tempo, reunido um enorme exército de Turcos, e tinha recebido permissão do Califa, o seu papa, para matar os cristãos, ele começou uma longa marcha para Antioquia.



O Emir de Jerusalém veio em seu auxílio com um exército, e o Rei de Damasco chegou lá com um exército muito grande.

Na verdade, Curbara reuniu também incontáveis povos pagãos: Turcos, Árabes, Sarracenos, Publicanos, Azimitas, Curdos, Persas, Agulanos e inúmeros outros povos.

Os Agulanos eram três mil, e não temiam lanças, setas, nem qualquer tipo de armas, porque eles e todos os seus cavalos eram equipados com ferro ao redor, e em batalha eles se recusavam a carregar qualquer armamento, exceto espadas. Todos estes vieram ao cerco de Antioquia para dispersar o agrupamento de Francos.

E quando se aproximaram da cidade, Sensadolus, filho de Cassiano, Emir de Antioquia, foi ao encontro deles, e em lágrimas correu logo para Curbara, rogando-lhe com estas palavras:

‒ “Chefe invencível, eu, um pleiteante, suplico-Vos que me ajudeis, agora que os Francos estão me sitiando de todos os lados na cidade de Antioquia; agora que têm a cidade sob sua influência e procuram afastar-nos da região da Romênia, ou mesmo ainda da Síria e de Chorosan. Eles têm feito tudo o que queriam, mataram meu pai, agora nada mais resta a não ser matarem-me, e a Vós, e todos os outros de nossa raça. Há muito tempo espero sua ajuda para socorrer-me este perigo”.

Respondeu-lhe Curbara:

‒ “Se quereis que de boa vontade eu entre em seu serviço, e para ajudá-lo fielmente neste perigo, ponha aquela cidade em minhas mãos, e depois vêde como eu o servirei e protegerei com os meus homens”.

Sensadolus respondeu:

‒ “Se puderes matar todos os Francos e dar-me suas cabeças, dar-te-ei a cidade, e prestar-te-ei honras e guardarei a cidade sob teu senhorio”.

A isto Curbara respondeu: “Isso não vai dar certo; entregue-me a cidade”. E, querendo ou não, ele lhe entregou a cidade.

Mas no terceiro dia depois que tínhamos entrado na cidade, a guarda avançada de Curbara correu na frente da cidade; seu exército, no entanto, acampou no Portão de Ferro.

Tomaram a fortaleza de assalto e mataram todos os seus defensores, que encontramos atados com correntes de ferro, depois que a maior batalha havia sido travada.

No dia seguinte, o exército dos pagãos moveu-se, e, aproximando-se da cidade, acampou entre os dois rios e ficou lá por dois dias.

Depois de terem retomado a fortaleza, Curbara convocou um de seus emires que ele sabia ser veraz, gentil e sereno e lhe disse:

‒ “Quero que tomeis sob vosso encargo a guarda desta fortaleza em fidelidade a mim, porque há muito tempo sei que sois fidelíssimo; portanto, peço-vos guardar este castelo com o maior cuidado, pois, como sei que sois prudentíssimo em vossas ações, não posso encontrar aqui ninguém que seja mais veraz e corajoso”.

A ele, o Emir respondeu:

‒ “Nunca recusaria obedecê-lo em tal serviço, mas antes de que me persuadais apelando, darei meu consentimento, com a condição de que, se os Francos expulsarem seus homens do mortal campo de batalha e conquistarem, imediatamente entregarei esta fortaleza a eles”.

Curbara disse-lhe:

‒ “Reconhecendo sua honradez e sabedoria, consinto plenamente a qualquer bem que deseje fazer”. E então Curbara retornou ao seu exército.

Imediatamente os Turcos, debicando dos ajuntamentos de Francos, trouxeram à presença de Curbara uma certa espada muito miserável coberta de ferrugem, um arco de madeira muito desgastado e um lança extremamente inútil que tinham acabado de tomar de peregrinos pobres, e disseram:

‒ “Eis as armas que os Francos levam para travar batalha contra nós!”

Então Curbara começou a rir, dizendo diante de todos que estavam naquele encontro:

‒ “Estas são as guerreiras e brilhantes armas que os cristãos trouxeram contra nós na Ásia, com as quais eles esperam e contam expulsar-nos para além dos limites da Chorosan e apagar nossos nomes para além dos rios da Amazônia, eles que tocaram nossos parentes da Romania e da cidade real de Antioquia, que é a famosa capital de toda a Síria!”

Em seguida, convocou seu escriba e disse:

‒ “Escreva rapidamente diversos documentos que devem ser lidos em Chorosan.

“Para o califa, o nosso Papa, e para nosso Rei, o Senhor Sultão, o mais valente dos cavaleiros, e para todos os mais ilustres cavaleiros de Chorosan; saudações e homenagem sem medida.

“Deixe-mo-los alegrarem-se e deleitarem-se em alegre concórdia e satisfazerem seus apetites; deixe-mo-los comandarem e darem a conhecer a toda aquela região que as pessoas se entregam inteiramente à exuberância e ao luxo, e que se alegram de ter muitos filhos para lutar bravamente contra os Cristãos.

“Recebam eles, com prazer, estas três armas que recentemente tomamos de um esquadrão de Francos, e que saibam agora que armas os exércitos Francos usam contra nós; arcos muito finos e perfeitos que usarão contra as nossas armas, que são duas, três vezes, ou até mesmo quatro vezes soldadas ou purificadas como a mais pura prata ou ouro.

“Além disso, saibam todos, também, que impedi os Francos de entrarem em Antioquia, e que mantenho a cidadela à minha inteira disposição, enquanto eles (os inimigos) estão embaixo na cidade.

“Da mesma forma, agora tenho a todos em minhas mãos. Fá-los-ei sofrer pena de morte, ou serem levados até Chorosan no mais duro cativeiro, porque com suas armas estão nos ameaçando para retirar-nos e expulsar-nos de todo o nosso território, ou lançar-nos fora além da Índia superior, como expulsaram todos os nossos irmãos da Romenia ou da Síria.

“Agora eu te juro por Maomé e todos os nomes dos deuses, que eu não voltarei diante de Vós até que eu tenha adquirido, com a minha forte mão direita, a cidade régia de Antioquia, toda a Síria, Romenia e Bulgária, até a Apúlia à honra dos deuses, e à Vossa glória, e à de todos aqueles que são raça dos turcos”.

E assim concluiu ele suas palavras.

Fonte: August C. Krey, A Primeira Cruzada: relados das testemunhas e participantes, (Princeton: 1921), 163-68.



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6 comentários:

  1. Realmente, o blog é muito legal, continuem com o ótimo trabalho!

    Uma pergunta, a pessoa que mantem o das Cruzadas é a mesma que mantem o Catedrais, Glórias, Cidades e etc??

    Deus o abençoe amigo.

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  2. Para Pedro Erisson,
    Sim, somos os mesmos.
    Luis

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  3. Caríssimo Luis, Deus o abençoe pelo trabalho!
    Estou adorando ler os blogs, e gostaria de pedir que na medida do possível fossem sempre citadas as fontes onde os textos são extraidos.
    Um abraço!

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  4. Para Pedro Erisson:
    Quando a fonte é só uma, ela está no fim do post num tipo de letra diferenciado.

    Quando se trata de citações em meio a uma redação nossa, o texto citado é destacado num box.

    Neste post tínhamos esquecido pôr a fonte. Agradecemos tua observação pois nos ajudou a consertar o defeito.
    Sempre que Vc. achar uma coisa a corrigir, esclarecer ou melhorar, por favor não deixe de avisar.

    Grande abraço!

    em Jesus e Maria,

    Luis

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  5. Esse mundo das cruzadas é fascinante!!!

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