segunda-feira, 31 de maio de 2010

Carta do Infante D. Henrique a Maomé II, sultão dos turcos

Maomé II, Bellini

Em 1453, Maomé II conquistou Constantinopla. Logo depois se voltou para a Europa, avançando em várias frentes. Em 1456 assaltou Belgrado, sendo barrado por Hunyadi e São João Capistrano.

Durante o pontificado de Pio II, ele tomou a Bósnia, ameaçou a Hungria, a Herzegovínia e a própria Veneza. Na Albânia travou combates repetidos com Skanderbeg, o qual até sua morte sempre os repeliu com êxito.

Ao mesmo tempo, a partir da África, os muçulmanos ameaçavam reforçar Granada e, a partir dessa cidade, irromper novamente na Espanha.

Por todas essas razões o Papa Calisto III, convocou uma cruzada contra Maomé II. Portugal respondeu favoravelmente, tendo o Infante D. Henrique enviado ao poderoso sultão da Ásia a seguinte carta de desafio:

Infante Dom Henrique, o Navigador
"Eu, o Infante D. Henrique, regedor e governador da Ordem de Cavalaria de Nosso Senhor Jesus Cristo, Duque de Vizeu, Senhor de Covilhã, filho dos muito altos e excelentes e de grande memória senhores El-Rei D. João e Rainha Filipa do Reino de Portugal e do Algarve e senhores do senhorio de Ceuta, que Deus haja suas almas:


"A ti, Mafamede, imperador dos turcos, faço saber que a mim foi notificado onde vivo, no cabo do mundo, do movimento que fizeste em vires tomar Constantinopla e trabalhares de guerrear a Cristandade, por a qual razão nosso senhor o Santo Padre o fez saber ao muito alto, e muito honrado, muito poderoso El-Rei meu senhor e sobrinho, filho de meu irmão, enviando-lhe a cruzada contra ti, a qual ele tomou com grande devoção, eu e outros seus servidores; e depois disto houve notícia da tua grande maldade, por a qual Nosso Senhor Deus por muitas vezes deu as penas por sua justiça aos merecedores delas, como fez aos de Sodoma e Gomorra, a qual maldade a toda a humanidade deve ser aborrecida, porque não é humana, nem bestial, mas diabólica.

Infante Dom Henrique, à esquerda de São Vicente, Nuno Gonçalves
"Por onde te notifico como a dita cruzada tenho tomada contra ti, e te punirei por mim e por todos aqueles que desejam meu serviço, até o fim de tua morte, porque te hei por julgado por sentença de Deus; e isto te faço assim saber, para alguns que de ti ficarem não poderem dizer que te trouxe a morte sem te a fazer saber; e esta carta e outras duas te envio para, se uma não te for dada, que a outra te dêem, para haveres certidão de minha firme vontade".


terça-feira, 25 de maio de 2010

A Primeira Comunhão do cruzado Vivien


No campo de Aliscans, o exército cristão, comandado por Guilherme d’Orange – Guilherme do Nariz Curvo – tinha sido derrotado pelos sarracenos. Podiam-se contar apenas quatorze sobreviventes.

Próximo a uma fonte, em um prado, jazia um jovem, quase menino. Apesar disto era um guerreiro que nunca havia recuado.

Tratava-se de Vivien, sobrinho de Guilherme, a quem ele amava como a um filho.

Percorrendo o campo de batalha ele reconhece Vivien e o crê morto, mas este faz um leve movimento. Docemente o nobre duque se inclina e lhe murmura ao ouvido:

“Tu não gostarias de comungar Nosso Senhor Eucarístico?”, e Guilherme lhe mostrou uma Hóstia consagrada. “Porém – continuou – é preciso que faças tua confissão”.

– “Eu quero muito, responde uma voz fraca, mas apressai-vos; eu vou morrer. Tenho fome deste pão, eis minha confissão.

“Não me recordo de uma só falta a não ser esta: eu tinha feito o voto de jamais recuar um passo diante dos pagãos, e tenho muito medo de haver hoje faltado com a promessa feita ao bom Deus”.

Guilherme do Nariz Curvo tira a Hóstia de uma teca que trazia ao peito e a aproxima dos lábios entre-abertos de Vivien, cujos olhos se iluminam.

A morte lhe desceu ao coração, quando acabou de fazer sua primeira comunhão.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Beato Urbano II: Carta de Instrução para os cruzados, dezembro 1095

Urbano, bispo, servo dos servos de Deus, a todos os fiéis, príncipes e súditos reunidos em Flandres; saudação, a bênção e a graça apostólica.

Vosso espírito fraterno, acreditamos, há muito tomou conhecimento por diversos relatos de uma horda bárbara que aflige deploravelmente com horríveis danos as igrejas de Deus, nas regiões do Oriente. Mais do que isso, parece blasfêmia dizê-lo, ela reduziu a uma intolerável servidão suas igrejas e a Cidade Santa de Cristo, glorificada pela sua Paixão e Ressurreição.

Tomados de piedosa preocupação por esta calamidade, Nós visitamos as regiões da Gália e nós nos consagramos empenhadamente a exortar os príncipes do país e seus súditos a libertarem as igrejas do Oriente.

Nós os intimamos solenemente no Concílio de Auvergne a realizar semelhante empresa, como uma preparação para a remissão de seus pecados.