segunda-feira, 22 de março de 2010

Ricardo Coração de Leão libera Jaffa e humilha Saladino

Três vezes o rei da Inglaterra aproximou-se de Jerusalém




Após a conquista de Jaffa, o sentimento unanime do exército pedia empreender logo o sitio de Jerusalém.

Em três ocasiões o rei Ricardo chegou tão perto da Cidade Santa que acreditou-se terem voltado as horas maravilhosas de julho de 1099 quando os cruzados tomaram Jerusalém.

No dia de Natal de 1191 eles estavam a só vinte quilômetros da cidade sagrada.

Naquele momento, relata Ambrósio, os soldados lustravam alegremente seus elmos, os doentes diziam-se sarados para ver eles também, a cúpula do Templo.

Porém para surpresa de todos, Ricardo deu meia volta. É que do ponto de vista estratégico as circunstancias não eram as mesmas da primeira cruzada.

Godofredo de Bouillon pôde iniciar com toda tranqüilidade o sítio de Jerusalém porque nenhum exército muçulmano viria a perturbar sua tarefa. Mas, para Ricardo as coisas não estavam no mesmo pé.

Saladino com um exército superior em número era dono das redondezas. Ele acompanhava de perto os movimentos de Ricardo e as tropas turcas dominavam o topo dos morros prestes a cair sobre a retaguarda da coluna franca se ela empreendia o assalto das muralhas de Jerusalém.

Como experimentado capitão, o fogoso Ricardo recusou-se a se engajar numa operação tão arriscada longe de suas bases, no meio do planalto da Judéia.

O dilema do rei com Coração de Leão

Oasis no deserto
Ele voltou com seu exército até a costa e iniciou conversações oficiais com Saladino.

Mas, como as negociações se protelavam, em junho de 1192, Ricardo iniciou um segunda ofensiva sobre Jerusalém. No dia 12 pela manhã enquanto perseguia com um pelotão da vanguarda a uma patrulha muçulmana, ele chegou a avistar a cidade santa.

Mas, ainda dessa vez ele evitou atacar uma praça tão solidamente defendida com Saladino hostilizando seus flancos.

O moral do exército ficou atingido por esta indefinição. Para recuperá-lo, o rei-cruzado planejou um lance deslumbrante.

Os beduínos que ele tinha posto a seu serviço avisaram-lhe que uma enorme caravana muçulmana saíra do Egito em direção da Síria, e que sob a proteção de um esquadrão de mamelucos iria atravessar o deserto de Judá.

Ouvindo a notícia, Ricardo pulou na sela do cavalo junto com o duque de Borgonha e cento e cinqüenta cavaleiros. Todos partiram ao galope em direção ao sudoeste. Foi na noitinha do domingo 20 de junho.

Eles cavalgaram toda a noite sob o luar e só desceram dos cavalos no sul de Ascalão. Lá, um beduíno avisou que a caravana fizera uma parada a vinte quilômetros de distância, no Oasis do Poço Redondo, em pleno deserto de Negeb.

Ricardo mandou seus cavaleiros envolverem as cabeças com um caffieh de acordo com o estilo beduíno, e no fim do dia partiu de novo direto para o sul. Ele ia à vanguarda e o duque de Borgonha na retaguarda.

Eles marcharam a noite toda. Uma bela noite do verão palestino conduziu-os sem problemas através das dunas até o oasis do Poço Redondo onde a caravana repousava sem nada desconfiar. Animais e pessoas dormiam entre as sacas de mercadorias descidas das bestas.

Ricardo Coração de Leão, estátua no Parlamento, Londres
Pouco antes do amanhecer, Ricardo deu ordem de ataque. A surpresa foi completa. A escolta de mamelucos foi a primeira a debandar.

Os caravanistas abandonaram animais e mercadorias e fugiram, eles também, pelo deserto de Negeb.

O butim consistiu em fileiras intérminas de camelos carregados de ouro, panos de seda, veludo e púrpura, bacias e peças de cobre, castiçais de prata, armaduras damasquinadas, tabuleiros de marfim, sacas de açúcar e pimenta, todos os tesouros e todas as guloseimas do velho Islã.

Golpes brilhantes como esse apenas dissimulavam a situação embaraçosa de Ricardo. Ele não conseguia constranger Saladino a um combate decisivo, nem conseguia dele uma paz de compromisso.

Saladino surpreende Jaffa desguarnecida

Em julho de 1192, o rei subiu rumo a Beirute deixando em Jaffa apenas uma débil guarnição. Aproveitando esse afastamento, Saladino jogou-se de improviso sobre a cidade em 26 de julho.

Os sapadores muçulmanos conseguiram já no primeiro dia provocar um desabamento na muralha exterior. Porém, por trás da brecha assim aberta, os franceses acenderam imensos fogos. Protegidos pelas chamas e pela fumaça, eles impediam aos muçulmanos de penetrar na cidade.
“Que admiráveis guerreiros são esses homens ‒ não pôde deixar de exclamar Behâ ed-Din, testemunha visual ‒ quê coragem!”

Em 31 de julho o muro caiu definitivamente.

“Quando a nuvem de poeira dissipou-se, ‒ registrou o mesmo cronista do Islã ‒ percebemos uma cortina de albardas e lanças que substituía o muro derrubado e fechava tão bem a brecha que o simples olhar não conseguia atravessá-la. Viu-se então o espetáculo aterrorizante da intrepidez dos Francos, da calma e da precisão de seus movimentos”.

Quando os francos não conseguiram mais defender a cidade baixa, eles retiraram-se em boa ordem para dentro da cidadela.

Porém, pese a tudo, pelo fim da tarde eles tinham iniciado conversações para se renderem. No dia seguinte, 1º de agosto, eles preparavam-se para capitular quando nas primeiras horas do amanhecer uma frota cristã apareceu de improviso diante de Jaffa.

Viu-se então o que era um rei católico da Inglaterra

O rei cruzado desembarcou a pé semeando o pavor entre os islâmicos
Era o rei Ricardo que, alertado miraculosamente, acorria em galeras genovesas com as primeiras tropas que ele conseguira reunir.

Foi então que se viu o que é que era o rei da Inglaterra.

O poema épico de Ambrósio deixou para a posteridade um quadro inesquecível desta cena.

Sem esperar que os navios encostassem em terra, Ricardo, com um machado dinamarquês na mão, pulou no mar com a água até a cintura, correu até a praia, limpou-a de muçulmanos, penetrou na cidade, surpreendeu a multidão de inimigos em plena pilhagem das casas e fez uma horrível carnificina.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ricardo Coração de Leão: o rei-cruzado que quebrou o moral de Saladino

Ricardo Coração de Leão, estátua em Londres
Luis Dufaur
Escritor, jornalista,
conferencista de
política internacional,
sócio do IPCO,
webmaster de
diversos blogs




Na terceira Cruzada, Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, empreendeu a reconquista do litoral palestino desde São João de Acre até Ascalão.

A coluna franca, descendo de norte a sul, progredia ao longo da costa. Ela era reabastecida em cada etapa pela frota cristã que tinha ficado senhora do mar.

O exército de Saladino fazia um movimento paralelo, mas do lado das colinas, procurando aproveitar a menor falha para acossar ou surpreender a Ricardo.

“A cavalaria e a infantaria dos Francos, escreve o cronista turco el-Imad, avançava pela praia, tendo o mar à sua direita e nosso exército à sua esquerda. A infantaria formava como que uma muralha em volta dos cavalos. Os homens estavam revestidos de casacos de feltro e cotas de malha de tal maneira fechadas que as flechas não podiam perfurá-los. Equipados com poderosas bestas, eles mantinham nossos cavaleiros à distância”.

O caid Behâ ed-Din conta ter visto um soldado franco que carregava até dez flechas encravadas nas costas de seu casaco sem ligar a mínima para o fato.

Os cavaleiros cavalgavam no centro da coluna e só saiam para cargas repentinas, quando se tratava de afastar magotes ou forçar a passagem.

“Os turcos, povo do diabo, morriam de ódio, relata Ambrósio, porque com nossas armaduras nós éramos como que invulneráveis. Eles nos apelidaram ‘os homens de ferro’”.

A superioridade dos franceses residia em sua armadura e em sua disciplina. Mas os maometanos tinham em seu favor uma extrema mobilidade.

Cavaleiro turco seljúcida, arqueiro
A cada instante o escrito épico de Ambrósio nos mostra os cavaleiros turcos surgindo a toda a brida, sobre seus velozes cavalos, rápidos como o raio, lançando sobre a coluna franca uma chuva de flechas e desaparecendo inatingíveis numa nuvem de poeira.

A despeito deste assédio, a coluna franca progredia na ordem mais estrita, sem se desarticular nem se deixar atrair para longe da rota.

Ela passou ao pé do Monte Carmelo e atingiu Cesárea. Saladino perdeu a esperança de defendê-la e mandou destruí-la.

Por fim, a coluna chegou diante de Arsur, ou Arsuf. Era ali, mais precisamente nos jardins que precedem o burgo, que o sultão decidiu frear os franceses.

Em poucos instantes o exército cristão viu-se rodeado pelos mamelucos.

“Na frente dos emires marchavam os trombeteiros e tambores tocando os instrumentos e uivando como demônios: se Deus mandasse o trovão não teria sido ouvido. Após a cavalaria turca vinham os negros e os beduínos, tropa de infantaria ágil e rápida por trás de seus leves escudos. Todos miravam os cavalos, para desmontar nossos cavaleiros.”

Naquela tórrida jornada de 7 de setembro de 1191, no palmeiral de Arsur, os franceses, rodeados pelo exército de Saladino, com muitos de seus cavalos mortos e eles próprios crivados de flechas, por um instante se acharam perdidos.

Como na fatal cavalgada de Hattin em 1187, o combate parecia começar nas piores condições. Após descrever o rodopio alucinante dos arqueiros montados do Islã, o granizo de flechas que se abatia sobre a coluna franca em meio a uma nuvem sufocante de poeira, a algazarra infernal dos tambores egípcios, os uivos de toda essa “canalhada”, Ambrósio confessa “que no exército cristão não havia nenhum homem bastante ousado para não achar que naquele dia sua romaria tinha acabado”.
Ricardo Coração de Leão esmaga Saladino em Arsur

Mas, no campo de batalha Ricardo Coração de Leão tornava-se a própria encarnação do gênio da guerra.

Aos Hospitalários que garantiam a retaguarda e que lhe confessaram estarem no limite de forças, ele ordenou imperiosamente de agüentarem. E eles agüentaram.

Entrementes, a tática defensiva custava muito caro. Desde longe os arqueiros muçulmanos matavam os cavalos francos.

Ricardo preparou uma carga envolvente que teria levado à captura ou destruição completa de todo o exército maometano.

“Ficou combinado que antes do ataque, seriam postos em três rangos seis trombeteiros que tocariam subitamente desencadeando a carga de toda nossa cavalaria”.

A impaciência de um Hospitalário impediu o desenvolvimento da manobra. Houve simplesmente uma carga direta. Mas, em verdade, foi como um tufão que varreu tudo.

Béhâ ed-Din, que estava ao lado de Saladino deixou uma descrição apavorante daquela cena:

“Então a cavalaria franca formou-se em massa e, sabendo que nada iria salvá-la a não ser um esforço supremo, ela decidiu-se a carregar. Eu vi, eu mesmo, esses cavaleiros, todos reunidos protegidos pelo muro formado pela sua infantaria. Eles pegaram as lanças, soltaram todos à vez um brado terrível, a linha dos infantes abriu-se para deixá-los passar e eles caíram por cima de nós. Uma das divisões deles precipitou-se por cima de nossa ala direita, uma outra sobre nossa ala esquerda, uma terceira sobre nosso centro, e tudo entre nós foi posto em derrota...”

Esta revanche dos antigos desastres nos valeu pela pluma do poeta Ambrósio uma página de epopéia:

“Os cavaleiros do Hospital que haviam sofrido muito carregaram em boa ordem. O conde Henrique de Champagne com seus bravos companheiros e Jacques d'Avesnes com sua linhagem carregaram também. O conde Roberto de Dreux e o bispo de Beauvais carregaram em conjunto.
“Do lado do mar, à esquerda, carregou o conde de Leicester com todo seu esquadrão onde não havia nenhum só covarde. A continuação carregaram os Angevinos, o Poitevinos, os Bretões, os Manchegos e todos os outros corpos do exército.
“Ah! Bravos e corajosos homens! Eles atacaram os turcos com tal vigor que cada um atingiu seu adversário, lhe enfiou a lança no corpo e o tirou de suas estribeiras.

Ricardo Coração de Leão derrota Saladino

“Quando o rei Ricardo viu que a carga tinha se desencadeado sem aguardar sua ordem, esporeou seu cavalo e lançou-se a toda a brida sobre o inimigo.
“Ele realizou naquele dia proezas tais que em volta dele, dos dois lados, por trás e pela frente havia fileiras de sarracenos mortos, e os que se salvaram foi porque assim que o viam afastavam-se para longe abrindo-lhe espaço. Via-se os corpos dos turcos com suas cabeças barbudas deitados como feixes”.

A vitória de Arsur teve uma repercussão enorme. Ela apagou o desastre de Hattin. Ela devolveu a superioridade militar aos estandartes francos. A força mudou de campo mais uma vez, junto com o “moral” e a habilidade tática, em poucas palavras tudo o que constitui o potencial militar.

Saladino foi o primeiro a compreendê-lo. Desde aquele momento ele renunciou a enfrentar a Ricardo Coração de Leão em campo aberto.

Saladino contentou-se ‒ à maneira beduína – com criar o deserto diante do rei Ricardo. Com o desespero no coração, Saladino mandou evacuar as cidades da costa, Ascalão inclusive.

Doloridos cortejos de emigrantes muçulmanos pegaram o caminho do Egito. Saladino mandou arrasar até o chão as muralhas das cidades.

Ruínas da fortaleza de Arsur

Esta tática demorava o avanço de Ricardo, mas o rei pôde reconstruir, entretanto, Jaffa, cidadela particularmente importante como “porto da peregrinação” e base do desembarco dos cruzados rumo a Jerusalém.

(Fonte: René Grousset, « L’épopée des croisades », Perrin, 2002, collection tempus, 321 pp., capítulo XII).

Ricardo Coração de Leão prostra Saladino em Arsuf



Ricardo Coração de Leão libera Jaffa e humilha Saladino



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