segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A partida, a volta e a glória do Cruzado

Partida para a guerra, anônimo francês
O senhor feudal é dono de um castelo ― que nossa imaginação põe perto do Reno, do Danúbio, do Sena ou de um lago da Suíça. O castelo tem sua torre altiva, muralhas, e aos pés duas e três aldeias com suas capelinhas e seus sininhos tocando. Mais adiante a plantação, depois a criação.

Este senhor feudal, pai de numerosa família, chefe de um povinho, rei em miniatura, sai a pé todo armado. Atrás dele a senhora que chora, mas que anda também com passo firme, as crianças, alguns familiares, o capelão. Eles passam a ponte: é a partida do guerreiro.

A partir daquele momento, ele deixa de ser senhor para ser vassalo. Ele obedece ordens, não manda mais. A partir daquele momento ele não é um homem que faz a ordem, ele é um homem que derruba as desordens, é um guerreiro.

Este guerreiro vai arriscar a sua vida pelo Santo Sepulcro de Nosso Senhor Jesus Cristo. É algo de único no mundo.

Ele se despede da mulher, dos filhos, dos parentes, beija a mão do sacerdote que ainda lhe dá uma bênção. Depois monta a cavalo, não olha mais para trás. O vento bate em direção oposta a ele. No alto do elmo o penacho se levanta, ele dá uma esporada e o cavalo some na poeira e na bruma.

Aquela gente se verá ainda algum dia? Ele não morrerá na Cruzada? E aquela senhora não fica abandonada? Não pode acontecer que os vizinhos cobiçosos avancem no castelo? Que meios ela tem de se defender?

Ela, pequena rainha, como é que ela faz para tocar para frente aquele feudo, mini-reino buliçoso onde todo o mundo quer coisas e pede melhorias?

Ela volta devagarzinho com os filhos para a capela. Ali reza aos pés do Santíssimo, de um crucifixo ou de uma imagem de Nossa Senhora. Reza, volta para casa e começa a vida de uma espécie de viuvez provisória.

O cruzado pensa nisso, mas ele está pensando também no sarraceno terrível que pode cegá-lo, arrancar-lhe o maxilar, perfurar-lhe o coração. Mas também pensa com entusiasmo no dia em que ele chegar a Jerusalém.

Pergaminho do Poema do El CidPassam-se cinco anos, sete, oito. Ele manda alguma carta para a mulher quando encontra algum ferido que já não pode participar da cruzada e que está voltando e mora nos arredores da terra dele.

Aquela gente sabia ler pouco e escrever mal. Ele manda algumas palavras que significam: “Estou vivo, estou lutando, estou com o coração cheio. Cristo, por quem eu estou talvez morrendo, vele por vocês”.

Cinco, sete, oito anos depois, um belo dia o cruzado volta. Envelheceu, ficou com a pele toda crestada dos sóis do Oriente, perdeu uns dedos na Cruzada e acha que perdeu pouco quando há gente que perdeu mais. Encontra-se com a família: alegria geral!

Mas, a bem dizer, começam a conhecer-se de novo, porque cada um fez da outra parte um mito durante a ausência. Na volta encontram uma coisa diferente do mito e transformada pelo tempo.

Então é uma nova adaptação, uma nova vida. Mas no cavaleiro há uma coisa que ficou: ele verteu seu sangue por Aquele que é o Redentor dele. Ele quebrou o poder maometano. Os dedos que ele perdeu pesaram na balança de Deus contra os maometanos.

Ele volta com a consciência limpa e com o desejo de refazer tudo de novo se as condições permitirem.

Túmulo de Roberto de Normandia, catedral de GloucesterUm homem assim envelhece e morre, e pode-se escrever em cima do caixão dele: "O cavaleiro tal, cruzado em tanto". Está escrito cruzado, poder-se-ia escrever glória ou Céu.

Não está ligado à palavra "cruzado" uma glória, um esplendor, uma sacralidade que na ordem temporal das coisas não tem superior? É evidente.

Vamos dizer, por exemplo, Lord Nelson, o grande almirante inglês foi tão admirado que quando ele morreu todas as marinhas do mundo puseram luto. É uma grande coisa. O Príncipe Eugênio, marechal dos exércitos da Imperatriz Maria Teresa da Áustria, era tão venerado pelos guerreiros. que quando alguém pronunciava o nome dele, todos em todos os países do mundo faziam continência. É glória.

O que é isso em comparação com o cruzado que libertou o Santo Sepulcro de Cristo das mãos dos maometanos?

Lord Nelson, Príncipe Eugênio, o que for, tudo passou... O Cruzado ficou.

Plinio Correa de Oliveira, 25/9/94. Texto sem revisão do autor.



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